Um dia escuro
1 Um dia escuro.
Era um dia escuro, sem nuvens para sombrear o asfalto que eu há tanto tempo pisava sem realmente ver para onde ia. Meus olhos semi abertos vislumbravam a troca de cores que o semáforo quebrado refletia no chão, mas era tão importante quanto o gato que corria na grama do outro lado. Eu não havia saído de uma festa, eu não havia terminado um namoro, nada realmente havia acontecido e talvez isso seja o motivo de agora ser um andarilho que permuta em um silêncio melancólico e não mais sente o frio da noite.
— Ei moço!
Era uma voz tão inocente, tão fina e bonita que eu havia certeza que não era dirigido a mim. Como pode? Algo tão imaculado tão puro se referir a mim? Não… é melhor apenas eu seguir meu caminho. Mas meus passos não estavam mais sozinhos, a perturbação que o som causava me intrigava, não mais que o medo de me virar. Por que? Eu me perguntava. Me perguntava o motivo de eu não conseguir simplesmente virar a cabeça e encarar o que quer que seja que me segue.
— Ei moço! Eu to falando com você!
Se não fosse a puxada em minha manga, eu não teria tido forças para a encarar. Era uma garota, como a voz havia denunciado, seus olhinhos castanhos claros visíveis mesmo com a neblina e a escuridão que rodeava se fixaram nos meus, ela estava muito bem agasalhada para ser uma moradora de rua, estava com um gorro, luvas e botas, uma pequena mulher que se fantasiara de criança.
— Seus pais não ensinaram a não falar com estranhos na rua?
Era o certo, não falar comigo. Mas a rua estava deserta, não havia um sinal de pessoa, além de nós dois no meio daquela neblina e a própria escuridão, a minha voz pareceu ecoar ainda mais do que a dela.
— Papai e mamãe falaram para eu brincar de pique-esconde com eles. Mas eu não quero brincar mais moço.
Pique esconde? …
— Você, seu papai e sua mamãe estavam de carro?Sim moço. Como sabe? Você sabe onde meu papai e minha mamãe estão?
Triste. Condizente com o clima atual, o frio, e a melancolia que a rua parecia transmitir. A garota havia acabado de ser abandonada pelos pais. Então a olhei novamente da cabeça até os pés, seu cachos negros desciam em pequenas rodelas em volta de sua orelha, a ponta de seu nariz estava vermelho e usava até um batom rosa, seu rosto redondo me dizia que ela não possuía mais do que cinco anos, sua roupa havia um grande G bordado em amarelo em contraste com o verde que estava por trás, dava para ver que além do casaco ela estava com mais algumas roupas por baixo, então não pude deixar de suspirar e então agachar olhando-a nos olhos.
— Não. Eu não sei onde seus pais estão. Gabriela.
— Como você sabe meu nome moço?
Claro, antes de perguntar um olhar de assombro me atingiu enquanto um sorriso pequeno surgiu em meu rosto, parece que era sorte. Eu precisava no entanto convencê-la a me seguir e conquistar a confiança da garota. Para mim no entanto que não possuía vida social, sem família, apenas com um quarto alugado, um trabalho de escritório e dezessete anos nas costas, não saberia como lidar com crianças.
— Eu tenho poderes mágicos.
Eu disse com o dedo levantando dando outro sorriso para garota e me abaixando, fazendo o velho truque de arrancar o nariz.
— Viu? Eu arranquei seu nariz. Mas…
Antes mesmo dela se surpreender, faço um movimento rápido com a mão encostando novamente no rosto dela e apertando aquele pequeno narizinho.
— Opa! Já está de volta.
Para dizer a verdade o olhar maravilhado da garota não me cativou e minhas ações haviam sido apenas cópias das poucas memórias que eu tinha da minha infância, nada tão grandioso. Eu ainda estava triste pela garota, e estava apenas andando a esmo até não suportar mais o peso de toda essa indiferença e apatia que me rodeava.
— Que legal moço! Meu papai sabe fazer isso também! Quando eu for gente grande eu vou saber tirar narizes também?
Ela me perguntou dando alguns pulinhos e abrindo um sorriso que faltava alguns dentes. Era com toda a certeza uma garota bonitinha e fofinha na visão de todas as pessoas normais, mas eu apenas a via como uma criança, pura e inocente como todas as outras e que com certeza, nem ela, nem criança alguma deveria estar a essa hora da madrugada conversando com alguém como eu.
— Ei. Gabriela. Eu vou usar meus poderes para te ajudar a descobrir aonde seu papai e sua mamãe estão. Mas você vai ter que me ajudar, para essa mágica funcionar, basta que você me dê a mão.
Era a coisa certa a se fazer. Infelizmente, a vida toda era um erro inconsertável, para mim, e para essa garotinha. Mas não era certo ignorar. Não era certo deixá-la sozinha para morrer só por causa de minha indiferença, então o certo era entregá-la a polícia, mas ainda assim não era o que eu queria fazer.
— Tudo bem moço! Tó!
E facilmente, dessa forma tomei a mão da garotinha, enquanto com o outro braço, tirava um celular do bolso de minha calça e ligava para o 190 e caminhava junto com ela para a praça que existia aqui perto.
— Moço! Moço!
— Hmmm?
—Qual é seu nome moço?
—Luís.
—Prazer seu Luís! Eu me chamo Gabriela Abreu. Sabia que sua mão é quente seu Luís?
— Obrigado. Agora… eu preciso me concentrar para a magia Gabriela. Se puder ficar em silêncio.
Tudo bem seu Luís!
Após a pequena troca de palavras, eu disquei o número do 190, e rapidamente alguém me atendeu.
— Boa noite senhor, como posso ajudá-lo?
— Uma criança estava brincando de pique-esconde com os pais e ela não consegue acha-los.
Era o certo. Dizer que os pais a abandonaram, ou deixa-la sozinha era errado. Mentir para o policial no intuito que ele entenda era sim, o melhor a se fazer.
— Como? Senhor?
Era nítida a confusão do homem, então tentei deixar mais claro.
— Os pais vieram de carro brincar com a Gabriela as três da madrugada de pique-esconde e ela não consegue mais encontrá-los.Você quer dizer que a criança foi abandonada?
A voz do homem era só audível para mim, e até eu consegui perceber o tom de espanto e surpresa que ele soltara, enquanto esperava minha resposta.
— Exato. Estamos na rua Alcides pereira, bem próximo a praça do Gatto. Se não for muito incômodo, eu gostaria de ajuda para realizar a magia para encontrá-los. Como vê, eu não sou poderoso o suficiente para isso.
— Muito bem senhor. Estamos indo, por favor permaneça no local junto da garota, para conseguirmos mais informações.
— Tudo bem.
Desliguei o telefone e me abaixei para a garotinha.
— Eu precisei chamar meus amigos para me ajudar a encontrá-los. Eles já estarão aqui. Enquanto isso irei preparar o restante, e infelizmente você não poderá me seguir.
Eu não estava afim de prestar depoimento, muito menos me importava com o celular, iriam acabar me encontrando depois, mas hoje, eu vou continuar meu caminho.
— Moço! Moço! Obrigada!
— É Luís e não moço.
— Obrigada seu Luís! Eu fico te esperando então. Até daqui a pouco!
— É...
Dou mais um suspiro enquanto me afasto, virando a esquina e esperando até que um carro de polícia chegasse pela rua que antes eu havia caminhando, logo que o vi indo em direção a Gabriela, corri até o próximo quarteirão e virei a esquerda.
— Espero que que a gente não se encontre tão cedo pequena Gabriela.
Digo olhando novamente para aquele céu negro, envolto pela neblina e pela escuridão que me rodeava. Agora de olhos fechados, meus passos eram os únicos que eu conseguia ouvir novamente, a tranquilidade me preencheu os pulmões assim como o ar frio. E então estava novamente diante de meu andar, que me levava para bem longe de casa. Para um lugar onde com certeza o daqui a pouco de Gabriela jamais chegaria.
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