Um deus entre nós

1 Deixando Cérbero em casa


Notas iniciais
Bem, aviso dado. Boa história.

I – Deixando Cérbero em casa



- Preciso de um tempo. – Disse eu pra minha magnífica esposa Perséfone num dia comum, em meu lar comum, no meu reino comum, naquele submundo comum.

- Mas meu amor, como fica o reino? – Ela me olhava preocupada, talvez com medo de que eu a pulverizasse. Claro que não faria isso. Eu a amava.


- Você sabe tomar conta de tudo aqui. Então, eu vou.
Levantei da mesa do café da manhã e peguei a maleta preta em cima da cadeira.

- Vai tarde... – Deméter resmungou. Irritei-me, ia matá-la sem piedade nenhuma. Estava com as mãos erguidas para incinerar minha querida irmã e sogra. – Cereais? – Aquele rosto de dona de casa bem alimentada conseguia derreter meu frio coração. Por isso a amava. É, eu amava minha sogra.
Abaixei minha mão e ri.

- Volto se tiver problemas. – Beijei Perséfone carinhosamente e saí, esnobando Caronte, que só se dirigia a mim para pedir aumento salarial. Ele estava impossivel desde que descobrira os ternos importados. Peguei minha pasta na cadeira, e saí.
Passei a mão em Cérbero sussurando um gentil ‘Volto Logo’. Não o levava comigo, pois Perséfone merecia proteção, e achei que a névoa não encobriria um cachorro daquele tamanho e com três cabeças. Com aperto no coração, dei uma bola de borracha vermelha a ele, e saí.

Estalei os dedos, e lá estava eu, na grande Los Angeles. Respirei o ar... poluído do mundo exterior. Aquilo era como ar puro entrando por minhas empoeiradas narinas de gente morta do Submundo.


Aquele lugar era o caos generalizado: Pessoas buzinando, ventania, criança chorando, inúmeros carros, som alto nas lojas, apitos de guarda de trânsito, a carrocinha de sorvete apitando sua chegada.Sinais de escola tocando e um calor das Forjas. Me sentia quase em casa, a não ser pela aura de gente morta. Na verdade, em meu reino, me sentiria facilmente em uma série Zumbi.

Sorri. Aquele caos era reconfortante.

- Ei! Olhe pra onde anda, tio! – Um garoto insolente e de bicicleta gritara pra mim.

Só porque estava no meio da rua! Tinha esquecido de como eles eram... vivos. Antes de quase pulverizá-lo, respirei fundo e mostrei-lhe meu dedo do meio.


- Ande pra lá criança. – Virei as costas e segui pra lanchonete que havia do outro lado da rua, desviando de um caminhão cegonha que vinha em minha direção. Não que não fosse digno ser atropelado por um cegonha da BMW, mas seria humilhante sair de férias e ter que voltar por causa de um maldito contratempo.


Gente viva tinha cheiro de suor, de perfume, de oxigênio. Aquilo estava me enjoando. Ajeitei as lapelas de meu terno preto, minha gravata azul marinho e entrei na lanchonete.

- Oi. – Cumprimentei a loirinha que estava atrás do balcão. Até que pra uma mortal ela era... gostosinha.

O chão tremeu. Tinha que lembrar de mandar uma mensagem de Íris à Perséfone pra me desculpar.


- Olá senhor. O que quer? – As formas generosas se destacavam naquela beldade. Poderia ser uma filha de Afrodite.

- Um emprego, e néctar seria bom. – Disse pensativo.

- Néctar? Não temos isso aqui. Mas temos café. E não temos vagas no momento. – Ela me disse pegando uma xícara em baixo do balcão, para me servir o café.

Estalei os dedos. Eu queria um emprego. Uma placa apareceu em cima do balcão, eles precisavam de um atendente.


- Aqui está. – Ela me empurrou a xícara branca escorrendo uma água suja. Aquilo deveria ser o café. Senti falta de minha sogra, minha irmãzinha querida. Deméter.

- Bem, acho que houve um engano. Vocês precisam sim de um atendente. – Sorri mostrando a placa. Manipulei a névoa, fazendo com que ela achasse que havia mesmo colocado a placa ali.

- Ah, sim, desculpe. Coloquei faz pouco tempo. Não lembrava dela aí. Você apareceu primeiro, então. Qual seu nome, cavalheiro?


- Hades. Meu nome é Hades.
Ela sorriu, talvez tentando lembrar de onde ouvira esse nome, ou de onde o conhecia. Os mortais faziam imagens horriveis de mim.

- Igual ao deus dos mortos. Interessante. – Ela me disse.
— Eu sou ele. – Respondi num ímpeto, sem pensar. Ergui uma sobrancelha, eu com certeza havia dito merda e a loirinha gostosa iria sair gritando. Nem poderia tirar uma casquinha.


Mas eis que a loirinha não saiu gritando feito louca.

- Então me mostra seu submundo. – Ela disse, passando a lingua pelo lábio inferior, carnudo e rosado. Ártemis, me ajude, coloque pureza na cabeça dessa garota. Pedi silenciosamente, a minha querida sobrinha.

Descobri que até o deus dos mortos era então desejado. Não apenas os meus irmãos famosões. Como Zeus e Poseidon. Aqueles sim, rodaram toda a Grécia Antiga.


O chão tremeu de novo. Teria que mandar mais uma mensagem de Íris para Perséfone, que quisesse meu reino intacto, e minha mulher de volta, se é que eu ainda a tinha...

- Uhm, quando começo? – Disse mudando rapidamente de assunto.

- Amanhã mesmo. – Ela me respondeu, murcha. Não gostara da troca de assunto. Estava claro em sua face.


- Obrigado. – Respondi, e levantei, deixando o café intocado. Aquele negócio tinha cheiro de gente viva, e aspecto da água preta e suja do Estige.

Voltei para o tranquilo caos de Los Angeles. Precisaria de uma casa. E de roupas, se não quisesse servir café de terno Armani, preto, do mais fino linho. E eu não queria estragá-lo. Iria as compras, porque mesmo sendo um deus, e muito homem, eu era da moda.



Notas finais
E então? Mudei algumas coisas, mas que tal?