Um deus entre nós
2 Vou às Compras como uma garota
Notas iniciais
II – Vou às Compras como uma garota
Eu estava... eufórico. Era a palavra que me definia naquele momento. Dez minutos no mundo exterior, e havia conseguido emprego. Precisava de roupas, e uma casa para morar, durante minha curta estadia.
Los Angeles era um ótimo lugar para compras. Pensei em um terno novo, ou um manto negro. Chique, e estiloso, a ultima moda em meu reino, mas nada adequado para o mundo exterior, e ainda mais para uma lanchonete. Mas não sabia o que usar. Teria que... perguntar.
Entrei na primeira loja de departamentos que vi, uma moça simpática e com excesso de sombra azul cintilante veio para cima de mim, com um sorriso assustador e dizendo algo como: “Posso ajudar?” Ela era viva, mas escondi a repulsa de ficar perto dela, e sorri, sim, os senhor do Hades também sorri. Comecei a olhar as araras de roupa a minha volta.
- O que deseja senhor? – A mocinha com excesso de maquiagem, e roupa social com um crachá verde me olhava atentamente, ainda com aquele sorriso de goiaba, um sorriso maníaco para que eu comprasse algo.
- Roupas para usar em meu ambiente de trabalho.
- Uhm, qual seu nome cavalheiro?
- Hades.
- Por aqui. — Ela sorriu, e começou a ir em direção a ala masculina, precisamente, na área social. Ternos, camisas e gravatas.
Olhando os ternos e gravatas pensei o mesmo que antes, aquilo não daria certo no balcão de uma lanchonete. Tive uma sensação estranha. Um sentimento estranho. Pena, compaixão. Pena de como aqueles lindos ternos ficariam imundos trabalhando naquele lugar... aconchegante.
Olhei duvidosamente para a vendedora.
- O que foi, senhor? Não gostou? Posso olhar mais alguma coisa no estoque se quiser. – Ela disse, olhando tristonha.
- Não, não é isso. É que bem, meu emprego, é de atendente de balcão de lanchonete, não uma palestra sobre Shakespeare.
- Ah, então, por aqui. – Ela me levou para um espaço com jeans, tênis e camisas xadrez. Olhou para mim, e simplesmente disse: — Aqui está. Meu nome é Pamela, não me procure.
E ela me deixou à mercê das roupas, e do ar-condicionado. Garota grossa, ela. Aliás, grosseira, como Athena havia nos ensinado.
Havia ali um manequim, vestido com um jeans verde do tipo ‘estou-aqui’, uma regata branca, uma camisa xadrez azul bebê e preta por cima. Achei um tanto espalhafatoso, mas gostei. Parecia moda ali. Estalei os dedos, trocando de roupas com o manequim.
- Quem é você? – Um carinha cheio de piercings, tatuagens e o tártaro a quatro olhava assustado para mim.
- Hades, e você não sabe e nem viu nada. – Estalei os dedos novamente, manipulando facilmente a névoa. O rapaz nem percebia mais o que eu havia feito a alguns meros segundos.
Deixei cem dólares no balcão, poderia cuidar da desgraça humana, mas não era ladrão. Aquilo era com meu sobrinho. Agora, era achar um cantinho para chamar de meu, meu lar-doce-lar, que com certeza não seria um fosso ou um calabouço, teria que ser no mínimo uma kitnet. Um deus em um kitnet. Se Afrodite me visse agora, seria o cúmulo da pobreza pra um cara que tem um reino inteiro.
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