Um deus entre nós
6 Fazer faxina de madrugada
Notas iniciais
VI — Fazer faxina de madrugada
Tá, tudo bem. Tinha casa, um emprego e uma mulher raivosa. Meu terceiro dia no mundo mortal e estava sobrevivendo. Mas era hora de consertar o que já estava dando errado.
Após o trabalho voltei para o apartamento que mais parecia uma lixeira gigante de quem não sabia reciclar. Passei pelo corredor pulando amarelinha imaginária, mas ao invés de pisar em números matara baratas e aranhas que apareciam em meu caminho. Destranquei as travas da porta e desativei o alarme. Tranquei tudo aquilo novamente e joguei a pasta que carregava sempre comigo no sofá.
Havia deixado o travesseiro e o lençol dobrados em cima do móvel destruído, e pelo que podia perceber estava tudo no mesmo lugar. Desdobrei o lençol, afofei o travesseiro e fui colocar meu pijama no banheiro, já que se estalasse os dedos para trocar de roupa meu colega de quarto acharia um tanto estranho.
Tudo ok, dentes escovados, minha coluna doía mais que a de Zeus, provavelmente, (ignoremos o trovão ao fundo por causa da piada), me deitei no meu querido e imundo sofá. Engoli em seco. Talvez não tenha notado antes e aquilo sempre estivesse ali, ou simplesmente tivesse aparecido nos últimos vinte minutos, ainda estava em dúvida. Mas tinha a certeza que molas e espuma não saíam andando por aí, muito menos faziam cócegas nas minhas costelas como se quisessem fugir.
Levantei-me num pulo, aquela sensação horrorosa de patas em meu pijama de seda havia me estressado. Era meu pijama favorito! Assim que pulei e joguei o lençol para o alto com um grito um tanto afetado, pude perceber meu colega de cama. Um camundongo cinzento que de brinde carregava uma barata em suas costas.
– JÁ CHEGA! ISSO AQUI É UM MUQUIFO! NEM MEU REINO QUE É SUBTERRÂNEO É SUJO DESSE JEITO! – Gritei a plenos pulmões e minha irritação fez as lâmpadas falharem um pouco.
O nerd me olhou assustado, com cara de ‘do que que esse doido tá falando? SOCORRO!’ e achei melhor usar um tom mais civilizado.
– Hanz, não é? Você, por favor, tem uma vassoura e alguns produtos de limpeza?
– Ahm, ér... Tenho ali... – Ele apontou para um pequeno armário perto de onde deveria ser a lavanderia, estava intacto e tinha uma vassoura pendurada ao lado. Estava nova, nem um pelinho fora do lugar. Pelo estado do apartamento, era óbvio que os produtos de limpeza do armário e os utensílios estavam zerados.
– Ótimo. Agora venha me ajudar, ou pegarei aquele ouro todo de volta e sumirei daqui. – Talvez ele precisasse mesmo do dinheiro, já que não hesitou em largar o teclado e o enorme fone de ouvido e tentar me ajudar.
– Eu cuido do quarto e da sala. – Ele disse territorialista, provavelmente pelo fato de ser onde ficavam suas “riquezas”.
Assenti, pegando um balde, luvas, avental, cândida, vassoura, desinfetante e muito álcool pra dar um jeito naquele grande cubículo imundo que era o banheiro. Bom, não estava tão ruim quanto a cozinha e a sala, mas o cheiro de xixi me fazia ter uma náusea maior do que pensar em pegar um barco num dia de sol, o que Poseidon consideraria perfeito.
Nem cândida salvaria aquele lugar. Gritei de lá de dentro, pouco me importando que já passavam das dez da noite:
– HANZ, TEM VINAGRE AÍ???
– TEM NA GELADEIRA! – Ele disse se referindo ao frigobar. Em menos de um minuto peguei o vinagre e despejei no banheiro, esfregando novamente e deixando um pouco de molho. Truque da minha sogrinha Deméter. Ela era boa nesse negócio de casa e limpeza, de mãezona.
As coisas não demoraram a ficar arrumadas. Era mais de meia-noite quando aquilo parecia um apartamento de verdade. Os móveis brancos voltaram a ser brancos, o sofá estava coberto por uma capa marrom que encontramos nova no armário de limpeza e sacos enormes de lixo estavam parados ao lado da porta para levá-los até a caçamba lá embaixo. Peguei-os e comecei a descer as escadas, Hanz parecia acabado, mas já estava sentado na frente do computador novamente. Era um viciado.
O corredor ainda estava imundo, cheios de insetos e pequenos mamíferos. Suspirei, implorando à Hera que me deixasse usar uma harpia da limpeza. Senti um calor passando por meu corpo, aquele calor confortável, e no fim das escadas estava parada uma mulher. Morena, bem vestida, com feições de mulher poderosa. Hera.
– Então, meu querido, cansado? – Ela sorriu satisfeita.
– Já tive dias melhores, confesso, mas lá em cima estava nojento. E ainda preciso terminar aqui... – Tentei imitar o olhar de Cérbero quando quer alguma coisa para ver se minha irmãzinha me ajudava na ultima parte da faxina, e bom, ela caiu.
– Pode deixar comigo. – Hera fechou os olhos e suspirou, uma ventania passou pelo corredor levando todos os bichos, lixo e poeira porta a fora.
– Obrigado. Minha coluna está me matando. É a idade. – Gargalhamos brevemente, até ela apenas voltar a estampar seu rosto com um sorriso orgulhoso.
– Bom, irmão, você transformou isso em um lar. Acho que agora posso te deixar em paz por largar Deméter e Perséfone cuidando do Submundo. E seria ótimo se você mandasse uma mensagem de Íris à elas apenas para verificar se está tudo sob controle...
– Droga! Havia me esquecido completamente disso! Meu novo trabalho é tranquilo porém cansativo. Muitas pessoas vivas interagindo estão me deixando maluco! Mas de qualquer forma, obrigado por avisar. Mande lembranças à Zeus por mim, sim? Diga que ele deveria tirar umas férias também.
Ela sorriu com aquela expressão de ‘só por cima do meu cadáver, e eu sou imortal’ que somente ela poderia fazer e deu de ombros.
– Ah, claro. Bom, vou indo. Espero que Zeus não esteja com alguma ninfa no Olimpo. Se estiver, a culpa é sua, já que estou aqui cuidando de você. E peça desculpas à sua mulher, por favor.
Sorri e acenei, colocando o lixo no lugar correto e virando-me para voltar ao apartamento. Subindo as escadas a iluminação do corredor ficara mais forte, era Hera indo embora. Segurei uma risada sobre seu comentário, ela me ajudando ou estando pelo Olimpo mesmo, Zeus daria um jeito de conseguir alguma mulher. Aquilo era muito ele. E droga, tinha que bolar um pedido de desculpas que fosse o suficiente para Perséfone. Eu estava encrencado, e sabia disso.
Notas finais
Enfim, só tenho essas novidades mesmo. Mil perdões por tê-los abandonado, mas é, EU VOLTEI! Obrigada pelas antigas reviews e espero que vocês estejam aqui pra continuar me acompanhando nessa jornada de escritora amadora. Enfim, chega de lenga-lenga e bora mandar recadinho? haha
Obrigada,
Rafa
Twitter: @rawrfaela
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