Quando percebi,logo vi uma movimentação na avenida,um aglomerado de pessoas se esquivavam para ver algo que estava na calçada,logo percebi que era algo grave,pois sirenes soavam de minuto em minuto. Não sou muito curiosa,nem ligo pra essas situações que as pessoas gostam de tirar fotos e postar nas redes sociais,mas eis que dessa vez fiquei curiosa e fui verificar do que se tratava afinal.
Me emaranhei entre as pessoas,um garoto estava com um Smartphone gravando um vídeo;um senhor de idade lamentava
"Ela era tão nova,tinha um futuro inteiro pela frente";
uma moça resmungava " Teve o que mereceu,se morreu assim provavelmente era uma drogada e estava devendo";
outra senhora de idade fazia sinal de cruz com as mãos e dizia "Deus lhe acompanhe".
Nisso,cheguei a conclusão que era só mais uma pobre infeliz que havia sido assassinada por motivos,sabe se lá quais,mas que provavelmente eram fortes motivos,cheguei um pouco mais perto,mas a policia já havia colocado um lençol branco sob a vitima,restando apenas uma mancha enorme de sangue que escorria do lençol para a avenida,e o tênis da vitima,que coincidentemente eram iguais aos que eu tinha.Uma infeliz coincidência eu diria. Depois de saciar minha curiosidade,me pus a retomar minha rotina,voltar para casa depois de um grande dia de trabalho.
Dessa vez vim caminhando pela rua,e fiquei pensando naquela vitima,o que teria acontecido pra tal atrocidade? O mais certo é que era mesmo drogada ou bandida,como disse a moça pouco antes. Pois só morre assim tão tragicamente quem procura confusão,coitada da vitima,imagina a família quando souber o que houve...
E nesses pensamentos já alcancei o portão de minha casa,quando ia abrir o mesmo,alguém foi mais rápido e o abriu por dentro.Era minha mãe,que saíra desesperada chorando,tremula e amparada pelo vizinho,eles passaram por mim e foi como se nem tivessem me visto,foi estranho.Muito estranho.
Chamei ela: "Mãe,a senhora tá passando mal?Estão indo pro hospital?"
Mas ela nem me deu bola,somente entrou no carro,olhou pro nada e colocou as mãos no rosto,enxugando um pouco das lágrimas.
O carro já ia longe,e eu ainda estava no meio da rua parada,abismada,tentando entender o que havia acontecido de tão grave pra ela nem me responder.
Fiquei nervosa,pois provavelmente algo grave devia ter acontecido com alguém da minha família. Corri pra dentro de casa,entrei pelo portão que minha mãe nem lembrou de fechar. Nisso ouvi o telefone,quando ia atender já caiu direto na caixa postal,uma pessoa deixou uma mensagem :
"A senhora pode se dirigir direto ao IML,pois devido as circunstancias do corpo achamos mais justo e cabível que faça o reconhecimento de sua filha lá".
Minhas pernas bambearam,escureceu tudo e me vi fazendo uma viagem no tempo,e lembrando de todos os momentos que havia passado com minha irmã,como ela me ensinou coisas legais,penteava meu cabelo,brincava comigo,me dava presentes...E agora,pensar que ela está..morta!
E tal situação pra minha mãe que terá que ir no IML reconhecer o corpo? Não,não pode ser,meu coração dói como nunca doeu antes,navalhas afiadas não teriam tanto efeito quanto essa mensagem da secretária eletrônica.Minha irmã...e agora?
Depois de chorar muito,corri pra rua e entrei no primeiro ônibus que apareceu,por sorte um grupo de pessoas estavam no ponto e deram sinal pra ele parar,deu tempo de entrar correndo,o estranho é que uma mulher gordinha quase sentou no meu colo,se eu não fosse mais rápida e saísse da poltrona ela teria sentado em cima de mim,mas nem liguei pra falta de educação dela.
Estava triste,chorosa,só queria chegar no IML e ficar perto da minha mãe,só pra ela saber que eu tava lá pra ajudar.É dissecante perder uma irmã,mas,perder uma filha,caramba! Deve doer demais.Pobre da minha mãe.
Chegando no IML nem precisei perguntar pra ninguém sobre o paradeiro de minha mãe,pois já avistei ela no corredor,cabisbaixa,olhos fundos,e amparada novamente pelo nosso vizinho,ela já não chorava mais,estava meio...zumbificada,como se estivesse dopada,algo do tipo. Eu não sou muito de falar nessas horas dificeis,só fico mesmo perto pra passar uma energia positiva,se é que eu tinha energia pra tal situação,mas então só sentei do lado dela e fiquei fitando-a,esperando ela dizer algo.
Mas passaram minutos,mais minutos,e o silêncio cortava o ar ,só ouvia passos apertados pelo corredor,e mais nada.
Passaram se horas,e minha mãe continuava quieta,quando eu resolvi tomar coragem pra perguntar pra ela o que aconteceu,detalhadamente,apareceu um homem de jaleco branco,terminando de retirar as luvas. Ele passou por minha mãe e por mim,me ignorou,mas olhou fixamente pra ela e disse:
"Sua filha foi uma heroína,a morte foi rápida,sem dor."
Minha mãe não demonstrou nenhuma reação.Ela estava em choque,pobre mulher.
O homem de branco então seguiu em direção a recepção do IML,e começou a conversar com uma atendente.Fiquei observando os dois,um hábito meu,observar as pessoas,e notei que eles olhavam a todo momento pra minha mãe,então deduzi que estavam falando da morte de minha irmã.
Aproveitei e fui lá perto,pra saber detalhes do acontecido,quando passava pelo corredor um policial quase derrubou uma pilha de papeis em cima de mim.Mas que coisa!Hoje é dia de me atropelar,caramba! Logo hoje que aconteceu essa tragedia. Sorte minha que sou ligeira e desviei com rapidez.
Agora já estava bem próxima do homem de branco e conseguia ouvir o que ele conversava com a atendente,e eles estavam falando da morte de minha irmã:
Homem de Branco : — Sabe Maria,nesses anos todos que atuo como médico legista,nunca tive tanta pena de atuar numa autopsia.A garota era jovem,saúdavel,tinha uma vida interia pela frente...
Atendente: — Isso é triste sim Doutor,mas o senhor está cansado de ver esses casos aqui no IML,praticamente todo dia aparecem jovens que foram assassinados,já devia ter se acostumado.
Homem de Branco: — Sim,é verdade,todo dia aparece uma vitima que foi encontrada na avenida,ensanguentada,com o peito parecendo uma peneira de tantos furos,mas esse caso é diferente...especial,ela foi especial demais.
Atendente: — Pensei que fosse só mais uma infeliz drogada que estivesse pagando as dividas para os traficantes com a vida,o que há de diferente desse vez?
Homem de Branco: — Meu amigo policial me passou todas as informações,ela não tinha envolvimento com drogas,assaltos,nada do tipo.Era trabalhadora e estudante,nem sequer tomava bebidas alcoólicas,o caso é que morreu por querer um mundo melhor para os outros. Ela voltava do trabalho caminhando,um dia comum,se não fosse uma mulher gritando no meio de um matagal,a vitima ouviu os gritos e foi tentar socorrer a mulher que gritava,resultado,era uma tentativa de homicídio.
A mulher que gritava estava com o filho de 2 anos,e um homem apontava uma arma pro rosto dela,a vitima viu a cena e pediu para o criminoso se acalmar,e conversar. Inútil pedido,pois o criminoso estava sob efeito de drogas,e queria o pagamento de uma divida . Quando o criminoso ia atirar,a vitima empurrou o braço dele,que errou o tiro,nisso a mulher saiu correndo com o filho pra avenida.Quando a vitima tentava fazer o mesmo,deu as costas para o atirador,que sem piedade alguma,desferiu um tiro na vitima,acertou o coração,pelas costas,covardemente.A vitima ainda caminhou um pouco por alguns metros,mas chegando na avenida,suas forças acabaram e...ela caiu. Caiu pra nunca mais se levantar.

Quando ouvi isso,fiquei chocada,minha irmã havia sido assassinada por um infeliz drogado! Estava enfurecida,se encontrar com esse cara eu seria capaz de mata lo!! Desgraçado!
Mas por outro lado,saber que ela morreu salvando a vida de duas pessoas me fez ficar mais aliviada,com certeza isso garantiria a ida dela pra um lugar melhor. Eu teria feito a mesma coisa,não deixaria uma pessoa ser assassinada na minha frente. Essa era minha irmã!Grande mulher!
Depois de ouvir a conversa,me afastei do homem de branco e da atendente e caminhei em direção a minha mãe,que agora estava de pé abraçada com uma moça. A moça estava de perfil e não pude ver direito,mas se parecia com minha irmã.
Não sei se isso seria bom pra minha mãe,acabou de perder a filha e aparece uma moça igualzinha a ela. Mas,enfim,continuei a caminhar e parei ao lado delas.
Entretanto,eis que tive o maior susto de minha vida,a moça que abraçava minha mãe não só se parecia com minha irmã,ela ERA SIM a minha irmã!
Mas como? !
Se ela morreu como pode estar abraçando minha mãe?
O que é isso Deus?
Minha cabeça começou a rodar e ja não raciocinava direito,minha irmã estava falando pra minha mãe ser forte e lembrar dos momentos bons,dizia pra minha mãe :
"Calma mãe,ela está num lugar melhor,com certeza ela deve estar olhando pra gente nesse momento e querendo que fiquemos bem"

Como assim? Ela está num lugar melhor? Como ...
Comecei a pensar em duas hipóteses,ou a pessoa que morreu não era minha irmã e eles se enganaram no recado da secretaria eletrônica,ou...ou...absurdamente,minha mãe estava abraçando o espirito de minha irmã,que por algum motivo se referia a ela própria na terceira pessoa.
Claro que ignorei a segunda hipótese,absurdo!
E fiquei pensando então...se a garota que foi assassinada não foi minha irmã,mas minha mãe está abalada com a morte dela,então quem foi que morreu?
Será alguma afilhada,ou algo do tipo,já que minha mãe só tem duas filhas..
Nisso,o homem de branco de aproxima e cumprimenta minha irmã
( o que já elimina completamente a hipótese de que minha irmã seja um espirito que estivesse ali pra acalmar minha mãe).
Ele então começa a conversar com minha irmã:
Homem de branco: — Sinto muito pela sua irmã,fiquei sabendo que ela era uma ótima garota,um grande futuro a aguardava.
Irmã: — Obrigada,agora vou providenciar os papeis para o enterro e essas coisas mais,minha mãe não está em condições pra tal situação,levarei ela pra casa e deixarei ela descansar.
O senhor sabe me dizer se...se ela sofreu muito? Demorou pra...pra...partir?
Homem de branco: — Não querida,fique tranquila,sua irmã não sentiu dor,o tiro alcançou direto na veia principal do coração,foi morte instantânea,sem dor. Ela foi uma heroína,que descanse em paz.

Mas a situação estava se complicando mais ainda,como assim a irmã da minha irmã? Somos só nós duas..

Irmã: (começam a escorrer lágrimas ) — A atendente do balcão me disse que o senhor guardou uma coisa que estava com ela na hora da morte pra entregar pra família,pode me dizer o que é?
Homem de branco:- Ah sim,claro. Só um instante que vou pegar.

Segui o homem de branco pelo corredor e ele entrou em uma sala com janelas de vidro,pelo que eu conhecia dos filmes ,aquela era a sala de autopsia,preferia não entrar lá,só cheguei o rosto perto da janela de vidro,e acompanhei o homem de branco de longe,pelo vidro,que estranhamente não estava refletindo minha face,como normalmente acontecia...
O homem de branco retornou com um saco preto nas mãos,passou pelo corredor e entregou pra minha irmã.
Ela abriu e tirou de lá algo que me fez perder o chão.
Algo que explicava tudo! Explicava tudo que estava acontecendo naquelas ultimas horas.
Minha irmã tirou o objeto do saco e murmurou pra minha mãe:

Irmã: — a senhora lembra como ela raramente trocava de sapato? Ela adorava esse tênis colorido,a senhora até brigava com ela pra mudar um pouco , mas ela insistia em sempre calçar esse tênis. Sentirei saudades da maninha.

E assim,minha irmã colocou o tênis colorido de volta dentro do saco.
Abraçou minha mãe,e as duas seguiram rumo a saída.
Eu fiquei parada,olhando pro nada,fechei os olhos e constatei:
O tempo todo eu estava descalço.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!