Um coração perdido no espaço
4 Capítulo 3
Her Pov
“Não há decisão mais sábia do que aquela que é tomada com o coração.”
Olhei ao redor mais uma vez antes de embarcar e tentei achar uma solução que me impedisse de fazer essa loucura, mas não havia nenhuma, pois eu já havia tentado de tudo e esta era minha última opção, mesmo que a contra gosto. Eu estava fazendo isto pelo Peter, e somente por ele.
Passei as intermináveis horas da viagem tentando ignorar o mal estar que havia se apoderado de mim, no entanto, isto não parecia ser algo possível, pois os intensos e constantes abalos não queriam nos abandonar por um segundo. Fechei meus olhos e imaginei estar em casa com Peter, tendo mais um de nossos momentos felizes, que eram raros, mas que não diminuíam em nada meu amor por ele. Toda a angústia e sofrimento valiam à pena se eu o tivesse ao meu lado.
Em algum momento eu havia conseguido cochilar embora não soubesse dizer por quanto tempo e quando dei por mim, o foguete já estava pousando na plataforma da estação. Desci um pouco desorientada e demorou um pouco para que me acostumasse com a perda da gravidade. Vi quando os familiares começaram a abraçar seus parentes que estavam na missão, mas não avistei Josh em lugar nenhum. Eu já imaginava que isso fosse acontecer, pois o conhecia muito bem e sabia que ele estava com medo de voltar para casa; fora por causa disso que resolvi vir busca-lo, uma vez que não podia demorar, e se deixasse por sua conta, ele só retornaria no último foguete que visse à lua.
Depois de perguntar a alguns de seus companheiros se o tinham visto e obter respostas negativas, resolvi sair em busca dele. Foi uma atitude totalmente irresponsável da minha parte, mas naquele momento não me importei; tudo o que estava fazendo era em nome de uma causa muito maior e por esse motivo não mediria os riscos e as consequências de meus atos.
Enquanto andava pelo solo lunar, não pude deixar de apreciar a beleza de tudo aquilo que me rodeava; não fosse pelas circunstâncias, estar no espaço seria como o paraíso. Peter adoraria estar aqui. Peter... Peter!
Eu não podia me desviar do meu objetivo principal, e precisava encontrar Josh o mais rápido possível. Continuei andando sem rumo, até que vi um homem com trajes espaciais, sentado sozinho em uma rocha. Tentei não animar-me muito, cultivando falsas esperanças, mas só podia ser ele, pois era o único que não estava na base.
Após algum tempo caminhando, ele olhou em minha direção e não sei como, mas senti que Josh havia me reconhecido, até porque logo em seguida começou a correr até onde eu estava.
– Não é um sonho – disse ele assim que me alcançou – Você está mesmo aqui.
Josh aproximou-se de mim e tomou minhas mãos nas suas. Por um momento me deixei levar pela sensação reconfortante de tê-lo junto a mim após tanto tempo, mas logo a realidade se abateu sobre mim e eu me afastei.
– Josh não sei o que deve estar pensando, mas o fato de eu estar aqui não se refere à nós dois.
– Como assim? – disse ele com confusão estampando seu rosto – Que outra razão existiria para você estar aqui?
Evoquei forças dentro de mim e preparei-me para lhe contar a verdade.
– Precisamos conversar seriamente sobre um assunto bastante delicado, Josh; é sobre nosso filho.
Choque dominou sua expressão, e ele ficou paralisado encarando-me, enquanto processava a informação.
His Pov
Filho?
Rafaela havia dito mesmo isso?
Por um momento fiquei apenas encarando-a, totalmente atônito para dizer qualquer coisa, enquanto tentava assimilar a notícia.
– O quê? – consegui pronunciar após um tempo, em meio à minha confusão. – Como isso pode ser possível?
Ela respirou fundo e pude perceber que aos poucos começava a ficar agitada.
– Acho que não preciso lhe explicar os mecanismos de concepção. Por mais absurdo que possa ser nós temos um filho sim, o nome dele é Peter e é a razão para eu ter vindo até aqui.
Lágrimas haviam se formado em seus olhos, no entanto, não deixei aquilo me comover, pois durante todo esse tempo ela havia escondido o fato de que tínhamos um filho.
– Responda-me com sinceridade Rafaela, pois saberei se estiver mentindo. Você já sabia que estava grávida quando fui até sua casa informar da minha viagem?
– Não Josh, eu não sabia. Só descobri a gravidez duas semanas após sua partida.
Não fiquei totalmente convencido com sua resposta, uma vez que eu sabia que as mulheres sempre suspeitavam quando estavam grávidas. Não era possível que ela não desconfiasse disso na época.
– E antes disso você não desconfiou de nada?
– Desculpe-me Josh se irei abster-me de falar sobre isso com você. Se não se lembra, sempre fui muito irregular, então considerei aquele atraso normal. Só quando apresentei outros sintomas resolvi fazer um exame para saber. Agora será que posso explicar minha situação? – não falei nada, apenas assenti e ela continuou – Peter apesar de ter nascido um bebê lindo, foi diagnosticado logo em suas primeiras semanas de vida com leucemia linfoide aguda, e ao longo desses anos venho cuidando do seu tratamento. Entretanto, nos últimos tempos ele piorou muito, e a última esperança de cura é um transplante de medula óssea. Infelizmente Josh, ele tem o mesmo tipo sanguíneo que o seu, que é muito raro, e por isso você é o único que pode ser seu doador. Essa é a única razão para eu estar aqui.
Lágrimas desciam por seus olhos enquanto ela falava, e sua tristeza apoderou-se de mim também. Eu tinha um filho com a mulher que amo, mas que corria risco de vida e dependia de mim para sobreviver.
– Não vou julgar você Rafaela. Existem coisas mais importantes agora. Precisamos sair o mais rápido possível; não quero deixar meu filho esperando mais nem um segundo.
[...]
Apesar da trégua que havíamos declarado antes da viagem, foi inevitável que trocássemos farpas no decorrer do longo período em que tivemos ficar próximos. O ressentimento de Rafaela comigo era extremamente aparente, pois ela fazia questão de não escondê-lo, e isso me lembrou da época de nossa adolescência, quando vivíamos brigando antes de iniciar nosso namoro. Era bem parecido com o que estava acontecendo agora, e foi por isso que não me contive e disse:
– Tem certeza de que nosso filho foi a única razão para você ter ido me buscar no espaço? Talvez você apenas seja orgulhosa demais para admitir que ainda me ama.
Raiva pulsou em seus olhos quando ela me encarou.
– Se você não houvesse sido tão egoísta, a ponto de ficar adiando seu retorno, talvez eu nem tivesse precisado realizar tal loucura. Mas como você estava demorando demais e era minha última esperança para a cura do meu filho, tive que vir atrás de você.
Não falei mais nada depois disso, e passamos o restante da viagem em um silêncio nada amistoso.
Após pousarmos em terra firme, mal tive tempo de trocar aquela roupa por uma normal, e logo estávamos sobrevoando a cidade até o hospital onde meu filho estava internado.
Assinei muitos documentos de autorização para a cirurgia antes que pudesse, enfim, falar com meu filho.
Uma enfermeira-robô conduziu-me até seu quarto e meus olhos encheram-se de lágrimas ao olhar para ele pela primeira vez. Peter parecia tão frágil deitado naquela cama especial do hospital, mas ainda assim era lindo. Ele remexeu-se um pouco e eu me aproximei mais do vidro que nos separava, para ter uma visão melhor dele.
– Filho... – sussurrei e continuei a observá-lo, até que a mesma enfermeira-robô de antes apareceu e deu-me instruções para vestir a roupa apropriada para que pudesse entrar no quarto dele.
Assim que me sentei na poltrona ao lado de sua cama, fui recompensado com a visão mais bela do mundo: os olhos do meu filho me observando. Não pude deixar de ficar feliz ao constatar que eram azuis como os meus.
– Papai... – ele balbuciou e sorriu.
– Sou eu mesmo, filho. Queria ter estado aqui antes.
– Não importa – seu sorriso afracou um pouco e ele fechou os olhos. Rafaela havia me dito que sua saúde estava muito debilitada, no entanto, eu não imaginava o quanto – Como é no espaço? Mamãe disse que você estava lá – com certo esforço Peter conseguiu abrir seus olhos novamente.
– É muito legal, tenho certeza que você iria adorar – respondi enquanto acariciava sua testa, tirando os cachos escuros do caminho – Quem sabe eu não te levo até lá quando você sair daqui?
– Eu quero, mas mamãe não vai deixar. Ela não me deixa sair de casa — Peter exibia um semblante triste agora, e não era isso que eu queria.
– E se nós a levarmos?
– Assim talvez ela deixe — ele respondeu e cedeu ao sono novamente.
Saí do quarto e respirei fundo me preparando para a cirurgia que aconteceria em poucos minutos. Tudo tinha que dar certo, caso contrário, eu tinha certeza de que Rafaela desmoronaria; esse menino era sua vida e a partir de agora seria a minha também.
Her Pov
Minutos viraram horas enquanto eu aguardava o fim da cirurgia, e a cada instante, mais nervosa eu ficava. Se estava demorando tanto era porque as coisas haviam se complicado; o médico já tinha me alertado sobre os riscos que Peter correria para que esse procedimento fosse realizado, mas eu precisava tentar, já que essa era a última chance dele de se curar.
Lágrimas começaram a descer por meus olhos e eu iniciei mais uma oração pedindo que tudo desse certo.
Após algum tempo a mais esperando, Dr. Robinson apareceu no corredor e eu corri em sua direção, querendo saber informações.
– Peço que se acalme senhorita – disse ele segurando minhas mãos.
– Doutor entenda, eu preciso saber se correu tudo bem. Por favor, diga-me!
– Sinto muito Srta. McBride, mas seu filho não resistiu à cirurgia.
– NÃO! gritei desesperadamente. Isso não podia ter acontecido. Não com o meu filho. O que seria de mim agora sem ele?
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