Um conto infeliz de natal
1 Um conto infeliz de natal
Há tantas violetas vermelhas a me torturar. Chego aos portões do céu e o que vejo não me agrada.
Luzes piscantes e papéis de enrolar soldados. Soldados mortos.
Avisto minha família sanguínea, destituída entre mesas e cadeiras, um silêncio fúnebre que apenas a jovem Morte saberia decifrar ou descrever. “O nome disso é mortalha, é mortalha”, ela dizia.
Minha mãe sentada num banco a sete metros. A luz da Lua nos banhando no doce sereno do natal.
O rádio respirando no meu atencioso ouvido. Sussurra a “roda viva”, aquela tal de um tal Chico Buarque.
Ao chegar ao recinto da minha vó, apercebi a mesa desarrumada, o som nulo das cordas vocais. Não ouvi fogos, aquela súbita véspera surdia como um velório.
Meses passados, mais precisamente 12 meses atrás, a casa lotada, bulício e ruídos aleatórios, neste momento... Há cheiro de cigarro, e apenas górgonas em perfeito enquadro entre um festim de âmagos sentimentos.
Minha tia cogita a ideia de que nasci já muito velho, com músicas antigas entretive além destes quintais.
Fechei o bloco de notas e respirei, minha ânsia por escrever estava ligeiramente suprida ou os meus dedos cansados estavam exauridos sem a sombra inspiradora e o trono de paliativas almas no canto doloroso do meu quarto.
FIM
24/12/2014
Fale com o autor