Um conto de verão
3 Novo rumo
Thomas arrumou a mochila sem que a mãe percebesse. Andava sempre com sua checklist no bolso pra ter certeza de que não estava esquecendo nada. Pegava comida aos poucos, um pacote de bolacha de tarde, barrinhas de cereais quando “sentia fome” e ia guardando na bolsa. Fome ele não passaria.
O garoto não sabia o destino que ia tomar, pegaria o primeiro ônibus, e deixaria ele o levar pra onde estiver indo. Não importava o lugar, mas que ele chegaria em um, e contaria a história para Valérie depois. Valérie. Talvez fosse sentir falta dela, comentando tudo, irritando muito e dando gargalhadas estridentes.
Na verdade ele sentiria falta de tudo. A casa fazia parte dele, ela era confortável, quase como um casulo. Ele nunca havia se mudado, e por isso se apegara tanto a casa que não se via vivendo em qualquer outro lugar que não ali, exatamente onde morava. Os pais dando apoio e conselho, e mimando um pouco, dava até vontade de ficar. Era só ele desistir dessa loucura, o que ele podia fazer a qualquer momento ser ninguém ao menos notar, ele não contara pra ninguém mesmo.
Não. Não desistiria tão fácil. Ele precisava fazer algo diferente, por contra própria. Criar autoconfiança, maturidade, tudo isso sozinho. Não queria ser um bobão mimado na faculdade, como aqueles caras que se vê em filmes de comédia norte-americanos. Ele queria ser ele. Bem, não exatamente ele do jeito que é, mas ele do jeito que sempre se imaginou sendo. E não conseguiria mudar em casa, ou na cidade em que morava, onde todos o conheciam, e sabiam como ele era na vida real.
Ele tinha que se mudar pra mudar. Pra fazer as coisas que sempre se imaginou fazendo. Esse era seu objetivo, e por isso não ia desistir de sua viagem escondida para fora da cidade. Na segunda-feira a noite, Thomas continuou com seu plano. Jantou, deu boa noite para os pais e foi dormir. Dormiu de roupa mesmo, não ia perder tempo trocando de roupa. Deitou as 10h, sabendo que acordaria as 4:30 da manhã. Ele teria meia hora pra escrever um bilhete de “não se preocupem comigo” para os pais e sair sem fazer barulho antes que o pai acordasse para se arrumar para o trabalho.
Ajeitou tudo do jeito que queria e saiu. Foi a pé a maior parte do caminho em direção a rodoviária. Mas a rota que fazia era a mesma que o pai fazia de carro para ir pro trabalho. Por precaução preferiu pegar um circular para terminar o caminho. Na rodoviária seu celular vibrou, vibrou e vibrou, mas Thomas ignorava. Quando não conseguiu mais ignorar desligou o telefone e enfiou no fundo da mochila.
Ele realmente pegou o primeiro ônibus que saiu, nem sequer ousou perguntar para onde ia. Entrou e esperou o motorista dar a partida. O ônibus foi acelerando, e com o passar dos minutos o chacoalhar passou a ser tão natural como respirar. Cansado pela noite mal dormida por causa da ansiedade, Thom se recostou na janela e dormiu.
Ele só acordaria quando estivesse bem longe de casa, pra seguir seu próprio caminho.
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