Um conto de incômodo romântico
1 Um conto de incômodo romântico
A mulher casada
Ela dormia. Eu fumava um cigarro enquanto olhava para a moldura que seu cabelo castanho fazia em seu corpo moreno. Sua respiração era profunda e movimentava lentamente suas costas nuas.
Fazia menos de 24 horas que tínhamos nos conhecido e ela já estava ali, nua em minha cama. Havíamos nos conhecido no parque ao cair da tarde. Eu fumava um cigarro enquanto ela estava imersa em um livro grosso que até agora não consegui entender quem tinha escrito, já que o título estava em italiano, sua língua natal. Mesmo ela não olhando para o lado, podia ver de rabo de olho que era uma morena bonita, de beleza fácil, mas pouco comum. Seus cabelos caiam pela metade das costas e suas mãos eram pequenas, delicadas e intrigantes. Grandes unhas pintadas de cor bem escura e cintilante folheavam as folhas do livro logo após levar o dedo indicador à boca, molhar em sua saliva e trocar de página. Era baixa, seios médios, cabelos comuns, nada que realmente me fizesse pensar em exclamações masculinas, parecia ser só mais uma moça comum. No entanto o destino com todo o seu sarcasmo e doçura fez com que cruzássemos nossas vidas por um tempo infimamente insignificante, mas suficiente para ser guardado em lembranças eternas.
Acendendo meu segundo cigarro, fui surpreendido com um pedido:
— Senhor, por favor, poderia me emprestar o isqueiro?
Essas palavras vinham da boca delicada e rósea da mulher ao lado em um inglês tão ruim que se eu não estivesse atento não teria entendido o pedido. Não que meu inglês fosse perfeito, mas o dela era de matar: Tão ruim que muitas vezes ela me dizia coisas que eu não fazia a menor idéia do que estava falando. Sem dizer que poucas eram as vezes que ela me entendia então, me pedia insistentemente para que eu repetisse mais devagar.
Começamos então a conversar um pouco, uma frase aqui, outra lá, tentando engatar uma conversa. Quando eu disse para ela que tinha estudado literatura brasileira ela fechou o livro e seus olhos verdes escuros brilharam para mim.
— Amo literatura brasileira! – disse ela com um sorriso nos lábios.
E aquele sorriso imediatamente fez minha respiração parar por alguns segundos. Senti estômago havia um grande redemoinho vazio em meu estômago e prontamente quis sorrir também. Contagiei-me de tal forma que talvez eu tenha ficado ali parado na sinceridade marota daquele sorriso que era também um tanto envergonhado. Não sei se naquele momento fui indiscreto demais e deixei que ela percebesse o flerte que era inevitável, mas não havia mais o que fazer. Algo nela me despertou o desejo súbito. Eu não sairia dali sem algo mais. Que fosse um beijo, outro sorriso, o número do telefone ou o seu “facebook”.
Depois de perguntas triviais como “Qual o seu nome? Quantos anos? De onde você é?” vem a pergunta derradeira:
— E o seu namorado, onde está? – perguntei.
Ela sorriu novamente e baixou rapidamente o olhar:
— Meu marido está em uma reunião no Rio de Janeiro.
Minhas esperanças tinham ido por água a baixo. Deveriam proibir as mulheres bonitas de se casarem tão cedo. E ainda mais deveria haver uma lei que nos fizesse saber do compromisso da mulher com outro homem antes mesmo da gente ficar assim, meio bobo.
O silêncio que se seguiu foi incômodo. Queria levar a conversa adiante, mas com qual finalidade? Jogar conversa fora, apenas? Meu desejo era conhecer melhor aquela mulher, mesmo sabendo que o que estava além do “conhecê-la melhor” seria um tanto improvável. De qualquer maneira seria grosseiro fingir um compromisso, levantar e ir embora. Sou um homem educado e mais gentil do que a maioria. Ela então começou a puxar mais conversa e ali ficamos por mais algum tempo até que ela disse estar com fome e me perguntou se eu conhecia algum lugar por ali perto que ela pudesse comer. Indiquei uma padaria próxima e disse que a levaria até lá para que ela não se perdesse pelo caminho. Na entrada ela parou me agradeceu e ficou esperando a despedida, que não veio.
— Também estou com fome. Importa-se de acompanhá-la? – perguntei recioso.
— Claro que não! – disse ela sorrindo – será um grande prazer tê-lo em minha companhia por mais um par de horas.
Ela comia como um passarinho, bem devagar e tão pouco que até parecia mentiria que sentia mesmo tanta fome. Comecei a achar que todo aquele jeitinho meigo e envergonhado era uma tática para fazer com que cada vez mais eu quisesse tê-la bem perto de mim.
As horas foram passando a gente ficou um pouco mais solto. O grande deus Baco se fez presente naquele momento em que o garçom trouxe erroneamente uma taça de vinho para mesa. Após seu erro precisou voltar algumas vezes para abastecer nossos copos que não saia do poder de Sofia que na segunda taça já tinha as bochechas bem rosadas e o sorriso muito mais solto que o usual.
— Estou impressionada com o seu rosto! – disse ela.
— Por quê? – perguntei curioso, afinal, o que tinha o meu rosto?
— Você é um homem muito bonito. É inteligente, bem humorado... Deve ter um defeito daqueles bem cabeludos.
Eu sorri. Como era fácil sorrir com ela.
— Deve ter chulé! – disse gargalhando.
Ela deu uma olhada no relógio e disse que era melhor ir embora, não sabia direito andar pelas ruas da cidade, sabia que era uma cidade bem perigosa e achava melhor seguir seu caminho.
Instintivamente me ofereci para levá-la para o hotel em que estava hospedada. Esperamos um táxi e ela se apoiou no meu braço. Era a primeira vez que estávamos juntos, nossas peles se tocaram e logo meu corpo deu um alerta. A química entre nós era tão forte que chegava a ser quase incontrolável e para ela que tinha sido beijada pelos lábios lascivos de Baco, o controle estava longe, distante de uma tal maneira que não bastou mais nada para que ela me beijasse. Ela olhou bem fundo nos meus olhos, invadindo minha alma tão insistentemente e suas mãos deslizaram pelos meus ombros e eu não tive outra saída a não ser me render.
“Está bêbada!” pensei. “Seu marido não está na cidade”.
— Me leve para sua casa – pediu com suavidade, baixinho em meu ouvido.
De que maneira eu poderia rejeitar aquele pedido? Por mais que eu soubesse que não era certo estar com uma mulher casada eu não era capaz de resistir. O cheiro dela inebriava todos os meus sentidos e a única coisa que eu conseguia pensar era em tirar toda aquela roupa e provar o sabor da sua pele.
Por horas falamos apenas a linguagem do corpo. Gemidos, suspiros, algumas palavras em italiano que eram como música aos meus ouvidos. Adormecemos exaustos colados um ao corpo do outro. Acordei com os dedos dela nos meus cabelos e meu corpo logo se acendeu em fogo mais uma vez. E assim foi por toda a noite.
Por volta das 11 da manhã levantei fiz um café e fui surpreendido com ela envolta nos lençóis a beira da mesa. Um pouco descabelada, mas nada que apagasse o brilho da noite passada. Continuava bela e iluminada, como eu tinha conhecido na noite anterior.
Servi uma xícara de café e um sorriso. Parecia que ainda estava embebida em sono e cansaço físico. Tomou o café sem dizer uma única palavra. Só os seus olhos me diziam coisas que eu não sabia se podia acreditar.
— O que vai fazer hoje? – perguntei.
— Preciso arrumar as malas. Voltamos hoje para Itália – disse como se estivesse dizendo que ia para a praia e voltava em alguns dias. Sem emoção. Eu ao contrário senti uma fisgada doida no estômago e a sensação que aquela seria a última vez que nos veríamos.
— Meu marido volta no começo da noite.
“Ainda temos tempo” – pensei.
E não a deixei dizer mais nada. Queria me fartar dela, mas era como se cada vez que eu a experimentasse eu sentisse mais sede.
No final da tarde, já se aprontando para voltar para o seu hotel percebi que seus olhos estavam mareados. Pedi que ela não chorasse. Em vão. Pôs-se a chorar e me apertar de tal modo que fiquei ressabiado.
— Me desculpe Breno. Tenho um coração de manteiga e devo confessar, vou sentir muito a sua falta.
— Pare com isso, querida. Você vai ficar bem. Acho que vou colocar seu coração na geladeira para que eu não a veja chorando.
Ela sorriu.
— É muito estranho saber que eu não o verei nunca mais em minha vida.
“Nunca mais é tempo demais para mim” pensei calado. De qualquer maneira precisava acalmá-la e só consegui a façanha fazendo amor com ela. E enquanto dormia eu fumava meu cigarro fitando como um lobo o seu corpo nu e pensando que eu também sentiria a falta dela. Talvez sentisse mais do que devesse. Afinal, sabia que era uma mulher casada e mesmo a gente não tocando no assunto, não me parecia que ela fosse lá muito feliz no casamento. Convenhamos, porque uma mulher comprometida estaria nos braços de outro homem, que ela mal conhece? Ou é uma daquelas mulheres insaciáveis que precisam de sexo a todo custo e que a meu ver são muito perigosas e o marido não dá conta ou é o que chamamos no vulgar da palavra: vagabunda ou no mínimo o casamento esfriou, tá mal das pernas.
Pensando no nosso caso que nos conhecemos há pouco não podia dizer isso ou aquilo, mas estava tendencioso a achar que o casamento não estava lá essas coisas. Não me parecia que era uma mulher vulgar, era às vezes até recatada. De qualquer maneira eu queria o melhor para ela, estava ali torcendo para que seguisse o seu caminho e fosse realmente feliz.
Eu deveria acordá-la naquele instante. Deveria pedir para que fosse embora, mas como? Gostaria de não ter que dizer adeus, apenas um “até amanhã”, “nos vemos logo mais”, porém isso não seria possível. Atrevo-me a dizer que talvez eu estivesse apaixonado por ela, talvez pelo que eu pudesse criar na sua ausência, imaginar que ela é doce como a primavera em todas as manhãs, que seu sorriso sempre poderia me salvar do tédio e que nossas noites de amor fossem sempre tão quentes como a que tivemos há pouco, porque na verdade, o que sabia sobre ela? Não seria prudente amá-la, mesmo que seu casamento estivesse a um passo do divórcio. Imagino que uma mulher que trai o próprio marido não teria problemas em fazer quantas vezes lhe desse na telha, e seria diferente comigo, por quê?
Ela então acorda, olha para mim e chora novamente. Peço que ela não chore mais enxugando suas lágrimas.
— Minha querida, gostaria de poder passar mais tempo em sua companhia, mas não quero que se prejudique, é preciso ir e arrumar suas malas.
— Eu sei – disse ela – eu sei. Peço que me desculpe por estar aqui novamente chorando. Não sou boa em despedidas.
— Olhe, vai ficar tudo bem. Tenho certeza que tudo ficará do mesmo jeito que era antes de cruzarmos um o caminho do outro. Já sabíamos que essa hora chegaria, não é mesmo? Não vamos fazer maior do que é de verdade. E, além disso, você não está sozinha, tem o seu marido, certeza que ele é um bom sujeito, pois está com uma mulher incrível. Dê uma chance a ele.
Ela me olhou como se não entendesse o que eu dizia.
— Acho que você não entendeu Breno. Eu amo meu marido.
Provavelmente eu devo ter feito uma cara de que não estava entendendo o que ela dizia.
— Não é porque dormi com você que eu não ame o meu marido. Devo confessar que essa é a primeira vez em anos que saio com outro homem, apesar de não achar isso o fim do mundo.
Acendi outro cigarro para entendê-la melhor.
— Dormi contigo porque me apaixonei por você. Atrevo-me dizer que te amo. E não estou aqui dizendo isso de uma forma banal, digo isso do fundo da minha alma e coração. Não sei quem é você, mas é como se conhecesse seus pensamentos, como se fizesse parte da minha vida e como se fossemos amantes a vida toda. Acha que minto?
Calei-me. Poderia alguém amar outra sem conhecê-la direito? Poderia uma mulher amar um homem já sendo ela casada? Poderia alguém amar duas pessoas? Parecia que tinha lido minhas dúvidas em meus olhos.
— Falo com meu coração sem deixar a razão de lado, meu querido. Preciso ser muito sincera com você: achei que tinha uma alma livre como a minha, mas parece-me que ainda está acorrentado a velhos costumes que não nos levam a lugar nenhum e que é contra nossa natureza humana. Eu sou uma mulher livre, Breno. E como toda mulher sou capaz de amar uma infinidade de pessoas, porque só as mulheres sabem amar com coração sincero e sem maldades. Veja, quando pequena eu dividia meu amor com meu pai e minha mãe, minha primeira lição da vida foi amar duas pessoas tão intensamente e tão igualitariamente assim como a maioria das pessoas, mas é como se esquecessem disso. Depois vieram meus irmãos e irmãs e amava todos da mesma maneira. Hoje posso dizer que os amo mais do que antes, já que brigávamos muito quando adolescentes, mas quando me lembro da minha infância querida ela está sempre permeada com o amor dos meus irmãos. Primos, tios, sobrinhos, avós e avôs, todos eles dentro do meu coração. Claro, uns mais, outros menos, mas todos aconchegados dentro de minha alma. Depois me casei e um homem ocupou grande espaço dentro de mim. Vieram meus dois filhos e é um amor tão grande e misterioso que se medisse em tamanho talvez não coubesse ninguém além deles dentro do meu peito. Agora diga-me, acha mesmo que, durante toda a minha vida amando tantas pessoas não caberia mais ninguém no meu coração? Porque eu devo amar apenas um homem se sou capaz de amar tantas pessoas de modos diferentes? Quem foi que convencionou que um homem deve ser apenas de uma mulher e a mulher apenas de um homem? Desculpe meu amor, tenho uma mente livre demais para trancar meus sentimentos em convenções sociais.
Ela levantou-se, vestiu sua roupa me deu um beijo tão doce e picante que quis novamente despi-la.
— Você estará guardado no meu coração como uma jóia preciosa. Lembrarei desses momentos por toda a minha vida.
E saiu por aquela porta deixando para trás um rastro de saudade e perfume que ainda dói. E suas últimas palavras me foram mais duras que um tapa com as costas da mão.
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