Um conto de destino e morte
3 Capítulo 3 – Como a próxima vida começa
Severus estava vestido com o manto da Morte, depois de ser oficializado no cargo de Grim Reaper. Ao menos aquilo era algo que ele podia entender. Ele se olhou no espelho e quase desmaiou: ele não tinha rosto, e sim uma caveira debaixo no capuz. Olhou para as botas – ele tinha pernas de esqueleto e mãos também.
Ele parecia um personagem de desenho animado.
Foi quando a porta se abriu novamente. Severus ficou aliviado por um segundo, achando que a mulher do Destino tinha voltado, talvez com novas instruções. Mas não era ela.
Era Dumbledore.
O velho mago bateu os olhos no chão, onde estava o sangue e o horror, e ficou desanimado. – Severus – ele suspirou, bem baixinho.
Severus, agora Morte, ficou imóvel, pregado no chão. Dumbledore não parecia enxergá-lo. Será que ele era mesmo invisível? Até mesmo para Dumbledore, o bruxo mais poderoso daqueles tempos?
— Oh, meu rapaz, eu tinha tantos planos para você – murmurou Dumbledore, como se estivesse com dor, vencido pelo sofrimento e aparentando sua idade real. – Eu tinha esperança de que, com o tempo, você encontrasse paz.
Severus deixou escapar um som de desprezo e escárnio. Por mais impossível que parecesse, Dumbledore ouviu.
— Quem está aí?
Com o tempo, Severus aprenderia que sua invisibilidade não era total. Destino avisara sobre isso, mas parecia que, além de terem que se enquadrar nos casos especiais, as pessoas precisavam saber para onde olhar. E Dumbledore, é claro, sabia muito bem.
— Ah, é você, Morte – ele reconheceu, e Severus imaginava como isso era possível. – Espero que não esteja aqui por minha causa. Que pena que você levou o rapaz.
— Você tem pena dele? – Severus não conseguiu evitar a pergunta, encarando o mago.
— Pena? Bem, eu não diria isso- Dumbledore de repente de se deteve, reconhecendo-o. – Oh, por tudo que é mágico!... Severus? – Ele não pôde esconder sua surpresa. – Severus, o que aconteceu com você?
Acidamente, Severus respondeu:
— Tente adivinhar.
O velho bruxo parecia admirado.
— Agora você é a Morte? Isso é admirável. Imagine o quanto você poderia realizar-
Severus o interrompeu:
— Não posso realizar nada, porque aparentemente eu tenho uma função pública a exercer.
— Excelente, Severus – disse Dumbledore animadamente. – Suponho que agora você posa visitar Lily. No outro lado, quero dizer.
Aquilo fez Severus parar. Ele não tinha considerado aquela possibilidade.
Então o relógio no seu pulso acendeu e começou a piscar. Ele tinha uma flecha apontada para a porta. A flecha iluminada passou a piscar, alternativamente, mostrando a flecha e um cronômetro.
Severus entendeu:
— Preciso ir.
Dumbledore deve ter dito alguma coisa, mas Severus não ouviu, seguindo a direção da flecha para fora da casa. Lá fora, Severus viu a flecha apontada para uma limusine pálida estacionada perto de sua casa. Seus faróis piscavam. Normalmente, uma limusine estacionada naquela vizinhança atrairia muita atenção, mas de alguma forma ninguém estava interessado no carro. Ele só estava lá, como se esperasse. Então Severus observou a placa. Era uma placa nominal, daquelas especiais feitas sob encomenda.
Na placa do carro, lia-se “Mort”.
Então aquele era Mort. E estava esperando por ele. De acordo com o relógio, eles tinham dois minutos.
Severus foi até o carro.
— Er... Olá.
Se ele esperava que o carro respondesse de alguma forma, teria ficado muito decepcionado. Mas ele mal teve chance de pensar a esse respeito, pois o veículo partiu assim que ele entrou no assento do motorista.
Mas o carro se autodirigia. Portanto, Severus aproveitou a oportunidade para examinar o veículo. O painel era bem comum, com todos os botões e instrumentos normais que se esperaria encontrar num carro. Era um modelo antigo, claro. Sua principal função era evitar atenções indesejáveis.
Já que ele não fazia virtualmente nenhum barulho característico, deveria ser um motor dos infernos, pensou Severus, imaginando se tinha feito uma piada. E ele se movimentava rapidamente também, desimpedido por engarrafamentos, sinais de trânsito ou leis de trânsito. Fazia sentido: nenhum aspecto mundano da vida deveria interferir com o Grim Reaper.
Severus decidiu que ele não gostava daquele epíteto. Morte era um título muito mais digno e dignificante. Dumbledore tinha razão: era admirável. O velhote simplesmente sabia que ele era a Morte? Seria ele tão poderoso a ponto de ver o futuro de Severus? Teria ele a capacidade de realmente visitar Lily? Não era tão improvável. Ela estava no outro lado. O trabalho de Severus era coletar almas e mandá-las para a eternidade, onde Lily estava. Só que Severus tinha menos de dois minutos para realizar sua primeira missão.
Sua primeira alma.
Todos os pensamentos sobre Dumbledore e Lily desapareceram quando ele percebeu que estava a caminho de sua primeira coleta. O relógio piscava. Agora ele tinha um minuto.
Mort parou de repente, mas de maneira suave. Severus estava do lado de fora de um prédio grande, com placas escritas em uma língua que ele não conhecia. Mesmo sem saber o que diziam os sinais, Severus sabia que era um hospital.
Aquilo o deixou menos nervoso. Um hospital provavelmente significava uma pessoa muito doente, não uma vítima de homicídio ou algum caso de suicídio. Coletar esta alma deveria ser simples, muito adequado para uma Morte novata. Certo?
Na teoria, sim. Mas a realidade dificilmente era tão cordata.
Ao fim de tudo, Severus se lembraria daquela como uma das coletas mais humilhantes de sua carreira como Morte. Ele não tinha a mínima ideia de como uma alma deveria ser coletada, e o resultado foi um serviço simples que demorou muito mais do que o necessário. Destino teve que intervir, e ela estava furiosa com ele por “torturar aquela pobre alma”. Severus ficou tão agitado e nervoso que ele quase pediu demissão do cargo ali mesmo.
No fim, o pobre morto finalmente pôde descansar, sua alma recolhida ao bolsinho, e Destino se desculpou com Severus por tê-lo tratado de maneira tão grosseira. Mort o levou de volta para Spinner’s End, agora livre da polícia Muggle e de Aurores.
Severus acalmou seus nervos após o fiasco no hospital com o resto de vinho élfico que tinha em casa. Ele compartilhou a bebida com Destino. Estranho que aquela ainda fosse sua casa.
E tudo estava estranho, mas aí ficou ainda mais estranho.
— Se você fizer desse lugar o Domicílio da Morte – disse Destino –, o mundo vai se esquecer dele.
— Como assim?
— A casa será tão invisível quanto você. O mundo não vai lembrar que ela já existiu: a hipoteca ou a escritura estarão perdidas até que você precise disso. – Severus a encarou, pausando enquanto bebia cuidadosamente seu vinho. Ela continuou: – Bom, pense nisso. Você precisa de um lugar para ficar, para dormir, para comer, e não pode fazer seu trabalho dentro de Mort.
— Meu trabalho?
Ela explicou:
— Primeiramente, e acima de tudo, a Morte é um psicopompo, um psicagogo. Isso quer dizer que ele é um condutor das almas a seu destino final. Você equilibra as almas para decidir quem sobe e quem... não sobe. Vai precisar de um lugar para isso. Por que não aqui?
— Não tenho uma garagem para Mort.
— Deixe ele ficar na forma de garanhão. Ele é um cavalo bem elegante.
Severus se surpreendeu:
— Ele pode ser um cavalo?
— Ah, você é mesmo um novato, não é? Não posso explicar tudo para você. Como sou três em uma, tenho um horário muito apertado. Então adorei ter parado por aqui e tomar uma taça de vinho. Ou três taças, aliás.
Severus ergueu uma sobrancelha:
— Não lembro que você tenha falado sobre seu trabalho. O que Destino faz? Porque você diz que é três em uma?
A mulher explicou pacientemente:
— Destino tem três aspectos: Clotho, a mais jovem, fabrica o fio da vida. Você está na presença de Lachesis, a tecelã de meia-idade, aquela que costura o fio na tapeçaria da vida. A mais velha é Atropos, aquela com a tesoura para cortar o fio e acabar com a vida.
Mais uma taça de vinho foi enchida, e Severus concluiu:
— Então você é aquela que realmente mata.
As feições de Destino se fecharam pesadamente:
— Eu sou tão assassina quanto você, Morte. Ou quanto o Tempo. Ou a Guerra. Ou a Natureza. Fazemos nosso serviço o melhor que podemos. Os clientes tomam as atitudes e fazem suas escolhas. Nós só apresentamos a conta.
— Não quis ser desrespeitoso – garantiu ele, tentando emendar a gafe. – Irritar uma mulher atraente como você é a última coisa que eu queria.
Ela sorriu:
— Que coisa bacana de se dizer, obrigada, Severus. Se tivesse praticado boas maneiras quando ainda estava vivo, talvez as pessoas o tivessem tratado melhor.
Severus sorriu tristemente, imaginando se talvez isso o tivesse ajudado com Lily. Então tudo pareceu ser estranho e ele se virou para ela:
— Como sabe meu nome? Eu nunca falei.
Destino pareceu desconcertada por um momento.
— Bom, eu lido com os fios da vida. Claro que seu nome deve ter aparecido...
Quando estava vivo, Severus sabia de cara quando alguém mentia para ele. Não perderia essa habilidade só porque tinha saído do mundo dos vivos. Ele ergueu uma sobrancelha e disse:
— Sim, pode ser. Mas você não tem cara de quem está me dizendo a verdade.
Ela suspirou e admitiu:
— É, eu menti. Quase. Nós não chegamos a nos conhecer de verdade, mas você conheceu um outro aspecto de Destino. Vocês dois estavam vivos na época. Talvez você reconheça Clotho.
De repente, Severus se viu diante de uma mulher jovem, loura, uma beldade de vinte e poucos anos. Ele viu o rosto conhecido, e o nome aparecendo em seus lábios após poucos segundos.
— Marlene McKinnon?
Marlene McKinnon era membro da Ordem da Fênix, um grupo que Albus Dumbledore organizou para combater a ascensão do Lord das Trevas. Severus também tinha sido parte deste grupo, mesmo que brevemente.
Ela assentiu:
— Declarada morta, com toda a sua família após um ataque cruel de Death Eaters. E agora estou aqui.
Severus disse sinceramente:
— Lamento pela sua morte. Lamento sinceramente.
— Não foi sua culpa – disse ele. – E tudo isso faz parte do passado, de qualquer forma. O que me lembra que preciso voltar a meus deveres – e você também, Morte. Da próxima vez, não estarei por perto para ajudar. Boa sorte.
Marlene, agora personificação do Destino, virou-se e deixou Spinner’s End. Severus não teve tempo de considerar as coisas que tinham transpirado, porque seu relógio piscava, sinalizando que ele tinha dois minutos até o próximo cliente.
Dali para frente, uma rotina bizarra se estabilizou. Ele coletava e contabilizava as almas. Com o tempo, ele descobriu muitas coisas.
Ele descobriu que Chronos, a personificação do Tempo, era um cara muito bacana que vivia sua vida ao contrário, o que era tanto confuso quanto irritante. Ele descobriu que a Natureza era uma mãe verde enérgica com um sentimento de proteção aguçado. Ele descobriu que Guerra era um sujeito frustrado e muito irritado que tinha tremenda dificuldade de se relacionar pessoas fora do campo de batalha. Ele descobriu que Satanás era um homem muito fácil de lidar (embora um pouco ardiloso) e que Deus jamais concedia audiências pessoais, nem mesmo para a Morte. Mas seus assistentes eram muito simpáticos.
E com grande tristeza, Severus descobriu que a Morte não tinha permissão para visitar a vida após si mesma. Pouco importava o que ele fizesse, a quem implorasse ou o que prometia: o pós-vida não era seu domínio. Lily estava fora de seu alcance.
Mas nem tudo estava perdido: Dumbledore, aquele intrometido, tinha dado a Severus um objeto muito útil. Era um artefato mágico que parecia uma esteira, mas agia como uma janela portátil. Colocada numa parede ou muro, mostrava o interior do local. A esteirinha também estava programada para encontrar Lily nos locais onde Severus não tinha permissão de entrar.
— Por que está fazendo isso? – quis saber Severus, enquanto o bruxo idoso explicava o funcionamento do artefato.
— Oh, não seja tão desconfiado – disse Dumbledore, dando de ombro. –Só estou tentando ajudar um antigo aluno. Pense nisso como uma lembrancinha, um agradecimento. Eu até poderia pensar em pedir um favor.
Nisso Severus podia acreditar.
— Que favor?
— Oh, tudo a seu tempo. Não se preocupe com isso por agora. Eu digo depois. Mas ficaria muito grato se tivesse a gentileza de me informar se Lord Voldemort completou sua passagem.
Severus franziu o cenho:
— Pode haver dúvida sobre isso?
— Eu não tenho dúvidas de que ele conseguiu evitar sua própria morte. Mas eu acreditaria no contrário se soubesse de uma fonte autorizada, como você.
Dumbledore estava calmo e sério, mesmo com aquela atitude irritantemente otimista. Tudo que Severus pôde responder foi:
— Eu avisarei se algo acontecer.
E foi assim que Dumbledore conseguiu fazer com que a Morte em pessoa lhe devesse um favor. Severus jamais admitiria, mas a lembrancinha do velhote era mais útil do que qualquer coisa que seus colegas tinham oferecido. Ele usava muito e sempre, porque com aquilo ele podia observar Lily sem ser observado.
No começo, a sensação agridoce de suas atividades de espionagem no pós-vida criou tamanho atraso nas mortes que provocou uma visita tanto do Tempo quanto do Destino. Severus ficou muito envergonhado pela bronca de seus colegas, mas não desistiu de continuar espionando a mulher de seus sonhos.
Em uns poucos anos, porém, os sentimentos já não eram tão intensos. Marlene o advertira sobre isso. Ele desafiou Destino durante anos até admitir os fatos que ele tentava desesperadamente negar. Lily continuava a ser o que ela sempre fora para Severus: linda, perfeita e inatingível. Ainda mais agora, porque quando chegasse a vez de Severus ir para o Grande Além, não seria no mesmo lugar onde ela estava. Demorou anos, mas Severus estava plenamente consciente deste fato. Aquelas olhadinhas em Lily eram um adeus ao amor de sua vida.
Amor eternamente não correspondido era, em si mesmo, um tipo especial de inferno, não era?
Severus ainda estava no processo de lidar com essas percepções quando Dumbledore o chamou para falar sobre o filho de Lily. O pirralho ia começar a frequentar Hogwarts.
Era prova de que 10 anos tinham se passado. Os sentimentos agridoces voltaram, mas agora já estavam transformados. Proteger o garoto podia ser um jeito de honrar seus sentimentos por Lily.
Mas como ele podia fazer isso?
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