Um conto de destino e morte
8 Capítulo 8 – Dor de cotovelo e preparações
Capítulo 8 – Dor de cotovelo e preparações
Na segunda vez que Severus foi à barraca improvisada, cumprindo a promessa de ajudá-los, ele conseguiu sentir, sem dúvida, que os adolescentes confiavam nele. Mas por razões diversas.
Para o jovem Weasley, a razão da confiança era porque Severus trouxera comida. Severus estava certo de que, se o Lord das Trevas quisesse, ele poderia derrotar o garoto com um pacote de Oreos. E quanto a Harry Potter, a confiança dele (que parecia hesitante, para ser sincero) cresceu muito quando Severus chegou com a espada de Gryffindor. Os olhos verdes se acenderam quando Severus repassou as instruções de Dumbledore. Ele fazia lembrar Lily tanto que era até doloroso.
Mas então Hermione demonstrou sua confiança. E foi como ele imaginava que seria: Hermione confiava em Severus porque Severus tinha informação. Informação confiável e lógica. Hermione confiava em coisas práticas, e Severus sabia disso. Sem constrangimento, ele admitiu que se podia aprender muito sobre outros apenas observando-os de uma posição invisível.
— Tentarei ajudá-los quando puder — garantiu Severus. — Daqui por diante, porém, não posso garantir que poderei.
Hermione sorriu.
— Você já fez muito, Severus. Obrigada.
— Lembrem-se — avisou ele -, assim que vocês destruírem o primeiro, ele provavelmente vai sentir o que aconteceu e vir atrás de vocês. Precisam tomar o máximo de cuidado, sempre.
Era estranho que a palavra Horcrux não tivesse sido pronunciada, mas era perfeitamente entendida. Hermione assentiu gravemente.
Ela estava tão adorável, pensou Severus. Ainda mais adorável quando estava preocupada. Ele quase podia enxergar as engrenagens daquele cérebro poderoso se mexer enquanto ela vislumbrava não apenas duas, mas também três ou quatro alternativas de ação. Hermione podia fazer tudo isso num piscar de olhos, e ao fazer isso o seu narizinho formoso se enrugaria quando ela franzia o cenho de seu belíssimo rosto.
Chronos jamais iria parar de zombar dele se o ouvisse falar essas coisas. Ele estava tão apaixonado que chegava a ser enjoado!
Foi quando Ron Weasley voltou à barraca. Ele parecia diferente. E a parafernália de Severus enlouqueceu.
Os adolescentes sentiram aquilo e estabeleceu-se uma tensão acentuada.
— O que está acontecendo? — quis saber Harry, alarmado.
— Não tenho certeza — disse Severus. — Por favor, afastem-se. Esse equipamento é muito sensível.
— Você!— rosnou Weasley para Severus, espumando de raiva. — Você chega aqui, não fala coisa com coisa, traz comida e espera que a gente caia na sua lábia feito idiotas enquanto você dá em cima da minha namorada e pode muito bem estar nos traindo para Você-Sabe-Quem!
Hermione exclamou:
— Ron!
Harry tentou intervir:
— Ron, me dê o medalhão.
Weasley ainda estava atacando Severus, e a presença da Horcrux estava afetando os instrumentos da Morte. O fragmento de alma alojado dentro do medalhão estava interferindo com todos os artefatos de Severus. Além disso, o garoto parecia estar possuído.
— Me deixa, Harry! — gritava Weasley. — Esse cara não me engana! E você também não: vocês dois estão de olho na Hermione!
— Pare com isso, Ron! — disse a moça. — Não é você que está falando! É esse colar! Ele ataca sua alma. Dê para Harry!
— Ron, por favor — dizia Harry. — Você já ficou tempo demais com isso. Passe para mim, tá?
Sentindo que aquilo não ia terminar bem, Severus deu um passo para trás e ordenou:
— Potter, use a espada! Faça isso agora!
Aí é que se armou a confusão. Harry lutou fisicamente com Ron pelo medalhão, Hermione tentava proteger os dois amigos, Severus lutava para evitar que seus aparelhos colhessem o fragmento de alma que se debatia dentro da joia. A situação tornou-se caótica por um tempo, pois os quatro se digladiaram por obter um mínimo de controle. A magia dentro da barraca era tão errática que o medalhão literalmente voou para o chão e emitiu um som sinistro, aziago, e uma voz que Severus não ouvira em mais de uma década soou como se falasse diretamente em seus ouvidos.
— Vocês me desafiam. Vocês acham que podem me derrotar. Todos vocês são fracos e serão aniquilados. A sangue-ruim, o puro sangue traidor e o menino que sobreviveu são mortos que andam. E também há literalmente morte andando. Eu vejo você, Severus. Você procura redenção, procura amor. Mas você não pode mais redimir seus pecados porque-
Wham!
Severus não conseguia se lembrar como ou quando, mas ele pegou a espada de Gryffindor e golpeou o medalhão encantado com ela. Fumaça encheu toda a tenda, e um grito pavoroso os fez cobrir as orelhas, pois aquele parecia ser o som da morte de alguma coisa muito amaldiçoada.
De repente, o ruído cessou. Severus sentiu um tinido nos ouvidos quando o silêncio se fez ao redor deles.
Os jovens se entreolharam, como se tentassem se assegurar que estavam todos intactos. Severus largou a espada na mesa e indagou:
— Estão todos bem?
Assentindo, os garotos recuperavam o fôlego. Weasley foi o primeiro a perguntar, ainda ofegante e trêmulo:
— O que foi que aconteceu?
Severus respondeu:
— Vocês acabaram de presenciar algo que vai acontecer cada vez que vocês destruírem um desses objetos malditos. — Ele apontou. — A espada tem o poder de destruí-los. Cuidem muito bem dela. Boa sorte.
Ao se virar para sair, Hermione chamou:
— Espere! Você já vai embora?
— Eu disse que não posso ajudar muito — lembrou Severus. — Preciso ir agora.
Harry Potter adiantou-se até ele, de mão estendida.
— Severus, muito obrigado por tudo.
Eles apertaram as mãos, e o jovem Weasley assentiu:
— É, cara, obrigado. Sabe, por salvar a gente.
Severus assentiu para o adolescente ruivo. Mas antes que pudesse reagir, ele sentiu o impacto de um corpo se jogando direto em seus braços e a voz abafada de Hermione:
— Obrigada.
Severus ficou paralisado ao ter a consciência do corpo quente e esguio da moça contra o seu, num abraço emocionado. Ela era uma jovem de formas graciosas e seu corpo não tinha contato com outro fazia muito tempo.
Com dificuldade, Severus desgrudou seu corpo do dela. Sem dificuldade, ele sorriu e respondeu, olhando nos olhos dela:
— Não tem de quê.
Virando-se rapidamente, Severus saiu da tenda e finalmente soltou a respiração. Só então ele se deu conta de que estivera prendendo o ar.
Ele montou em Mort, que o esperava com uma expressão muito confusa. Severus podia jurar que o cavalo o estava julgando.
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Severus não consegui ter certeza de quanto tempo se passara desde que vira os jovens. Ele percebeu que sua paixão por Hermione começava a deixá-lo amargo. Talvez essa fosse a razão pela qual ele deixou de ir invisível para observar o trio. Ele simplesmente parou de ir.
Lilly voltou a povoar sua imaginação, mas de uma forma diferente. Era estranho pensar nela naquele momento, sem sentir dor nem amor, mas afeição genuína. Ele sentia saudades da amiga, aquela que trouxera vida e calor à sua existência miserável.
Cuidar do filho de Lily fazia Severus se sentir redimido ou ao menos a caminho da redenção. Ele tinha plena consciência de que salvar Harry podia ser inteiramente impossível, diante da convicção Dumbledore de que o rapaz tinha que morrer.
Ter encontrado Hermione enquanto trabalhava em sua redenção era um bônus inesperado.
— Thanatos, meu amigo — disse Chronos, de maneira amistosa -, pelo que vejo, você e sua amada ainda não se encontraram.
— Ela nunca será minha — disse Severus, desanimado. — Ela já tem um pretendente.
— Em que século você está, cara? Dezessete? Mulheres não têm mais pretendentes. Se tem um mané interessado na sua garota, você vai atrás dela!
Severus suspirou.
— Não é tão simples assim. Ele é um tipo namoradinho de colégio, como dizem os americanos.
— Ah, entendo — disse Chronos. — Você era inglês, certo? Não se preocupe, meu amigo. Até para alguém de trás para frente como eu, você parece muito propenso a ter sucesso nas artimanhas do amor.
Aquilo aguçou a curiosidade de Severus:
— Por que diz isso, Chronos?
A personificação do Tempo tornou-se bem desanimado também.
— Ser alguém que vive o tempo de trás para frente na linha do tempo do resto do mundo tem seu preço, deixe eu lhe contar. Consigo ver o futuro de todo mundo, exceto o meu. Ainda assim também viajo na contramão do tempo, de vez em quando. Sabe, acho que agora mesmo estou para ganhar minha namorada.
— Você fala como se fosse uma coisa horrível.
Chronos foi sincero.
— Bom, agora eu só lembro as brigas e o sofrimento de nosso rompimento. Foi tão doloroso! Eu espero sinceramente que a paixão e o romance da descoberta do amor compensem tudo isso.
— Não deveria reclamar por ter amado e perdido — disse Severus gravemente. — Você esteve no futuro e sabe como tudo vai terminar, com o devido tempo.
Por um momento, Chronos manteve-se em silêncio. Depois pronunciou:
— Thanatos, você sabe que tenho um dever de ofício de nunca revelar o futuro de ninguém. Mas confie em mim. E quando digo em mim, quero dizer para confiar no meu cargo. Os tempos sempre mudam, como as marés.
Severus olhou de maneira intrigada para seu amigo. Ele nunca vira Chronos tão macambúzio antes. Talvez algo muito grande estivesse para acontecer na linha do tempo dele.
Em retrospecto, Severus imaginou que deveria ter ido discutir suas dores amorosas com Destino. Aquela mulher jamais revelaria qualquer coisa sobre sua sina, mas ela certamente sabia como alertá-lo para suas prioridades.
Aliás, muito em breve Severus veria suas prioridades mudarem.
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O aparelho o avisava que Harry Potter tinha se metido em mais uma situação espinhenta. Considerando o que eles tentavam fazer, não era um aviso totalmente inesperado. Severus decidiu supervisionar a situação.
Ele foi parar dentro da adega da Mansão Malfoy. Estava invisível, mas pôde ver um elfo doméstico transportar duas pessoas. Dentro da adega, claramente aprisionados, ficaram Harry e Ron. Severus estava para se revelar para os rapazes quando um grito apavorante veio de cima. Ele sabia que o grito era de Hermione.
Severus quase entrou em pânico. Os gritos de Hermione lhe arrepiavam diretamente nos nervos. Ele sentia uma aflição no estômago.
Weasley virou-se para Harry, frenético:
— O que eles estão fazendo com ela?!
Severus decidiu agir. Ele foi para o andar de cima e a cena que viu quase parou seu coração. Hermione estava sendo torturada por ninguém menos que Bellatrix Lestrange.
Ainda invisível, Severus rapidamente jogou para longe o primeiro objeto que viu e produziu um barulho alto no lado oposto da grande sala de visitas de Malfoy. O eco chamou a atenção de Bellatrix, e ela parou o que fazia.
— Quem está aí?
Ainda invisível para mortais, Severus aproximou-se da garota amarrada e sussurrou:
— Hermione, sou eu, Severus. Só escute com atenção: feche seus olhos e não os abra até ouvir a voz de Harry. Vamos resgatar você.
Foi um crédito para a moça ela não ter dito sequer uma palavra, embora Severus tivesse ouvido claramente um suspiro. Ela fechou os olhos como pedido. Severus então fez o impensável.
A Encarnação da Morte envergou as suas vestes cerimoniais e pôs todos os seus apetrechos mortais antes de se tornar completamente visível. Ele até empunhou sua famosa foice (a comprida, sua favorita), e ergueu-se no alto de seu cargo. Com sua voz capaz de intimidar o mais confiante dos mortais, ele vociferou, apontando sua mão esquelética para Bellatrix:
— VOCÊ! Mulher desprezível que segue um homem mortal! Você é serva de um mortal tolo que ousa desafiar a mim!
Ao vê-lo, Bellatrix pareceu se tornar ainda mais demente que o de costume.
— M-mas n-não pode ser...!
Então Harry Potter e Ronald Weasley romperam das profundezas da Mansão Malfoy. Harry gritou:
— Expelliarmus!
Desarmar Bellatrix forneceu a distração perfeita para Severus desaparecer discretamente sem deixar rastros. Hermione pulou de pé, os gritos atraindo as outras pessoas da mansão e em pouco tempo um duelo se estabeleceu.
O relógio de Severus pôs-se a piscar, e ele sentiu o sangue gelar em suas veias. Alguém iria morrer!
Hermione não Hermione não por favor por favor ela não
O duelo continuava ferrenho, e a flecha no apetrecho de Severus começou a piscar na direção do cliente. A confusão, porém, era tamanha, que não era possível dizer, a princípio, se era o jovem Weasley, o elfo ou o goblin que de repente apareceram no furdunço. Harry Potter lutava com Draco Malfoy pela posse de uma varinha. Ele venceu o herdeiro de Lucius e juntou-se ao grupo.
E foi bem a tempo, pois todos disparataram no mesmo momento em que Bellatrix atirou contra eles uma adaga pequena e muito afiada.
Merda.
Severus chamou Mort e foi atrás de seu cliente. Ele apareceu numa praia, com os demais. Foi lá que Severus perceber que seu cliente era o elfo doméstico. A criatura o encarou, ainda de pé. Estava claro que o elfo podia vê-lo. Como sempre, o cliente podia ver a Morte.
— O senhor veio por minha causa?
Severus assentiu. O elfo sorriu.
— Eu me sinto honrado.
Com suavidade, porque ele sabia que aquela era uma criatura gentil, a Encarnação da Morte colheu sua alma. Ele concedeu ao elfo uns momentos para dar adeus a seus amigos. Era óbvio que o elfo era muito querido por Potter e seus amigos.
Não foi surpresa quando, mais tarde naquele dia, a alma ascendeu.
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Com o coração partido, Destino ficou a encarar sua tapeçaria, perdida em ponderações. Todos os três aspectos estavam ocupados com as implicações. Dezenas de fios estavam mudando, e ela sabia que Atropos estava prestes a ter muito trabalho. Todas as três estavam muito tristes.
— Eu pensei que você pudesse ser mais útil que Chronos — disse Severus, quebrando o silêncio. — Ao menos ele fala comigo.
— Minhas desculpas, Morte — ela disse, retomando a tapeçaria. — Mas às vezes saber o futuro é um fardo.
— Eu entendo. Saber que estou destinado a morrer sozinho não é fácil.
— Ainda assim você continua salvando a moça. Mesmo sem achar que tem qualquer chance com ela.
— Espero não ter interferido com o futuro.
— Você sabe que não posso confirmar nada.
— Verdade — disse Severus, assentindo. — Mas se eu tivesse interferido, você estaria gritando comigo.
Destino deu um risinho.
— Morte, você me conhece mesmo.
Eles trocaram sorrisos amistosos. Severus imaginou por que ele não podia se apaixonar por ela, no lugar de suas eleitas tão impossíveis que ele vivia perseguindo. Destino certamente era inteligente e charmosa, em qualquer uma das três versões. Nem era preciso mencionar que ela também era uma Encarnação da Imortalidade, assim como ele. Se o amor pudesse se associar com a razão, esta era a escolha mais lógica. Mas, que dó! Lógica nada tinha a ver com os assuntos do coração.
— Ao menos agora você não corre mais o risco de ser chamado de pedófilo.
Severus franziu o cenho.
— Isso é verdade?
Destino assentiu.
— Hermione completou 17 anos no fim do ano passado. Ela vai fazer 18 na primavera.
— Eu não tinha me dado conta disso. Talvez fosse por isso que ela parecia tão... tão... — Severus buscava uma palavra — tão... er, desenvolvida.
Destino deixou escapar um riso contido.
— Você deveria ver sua cara envergonhada, meu amigo. Ouso dizer que você parece estar literalmente vivendo no século passado ou até antes disso.
Severus se tornou sarcástico.
— Ao menos agora posso ser não correspondido dentro da lei e da moral. Que alívio.
— Oh, pare de ser reclamão. Sabe que o melhor é se concentrar no trabalho. Mesmo que esses jovens consigam o que querem, provavelmente haverá uma guerra, ou ao menos uma grande batalha.
— Isso não está na tapeçaria, está?
— Não, sei disso porque Marte esteve aqui antes. Ele parecia muito animado. Você sabe que ele tem um talento para saber dessas coisas antes que aconteçam.
Severus ergueu-se e agarrou a foice grande, sua favorita.
— Bem, parece que não haverá falta de trabalho para nós. Então, vamos nos preparar.
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