Um conto de destino e morte

5 Capítulo 5 - Uma visita do Príncipe das Trevas


— Morte, meu bróder!

Os braços abertos de Satã eram uma cena bizarra na pequena sala de estar de Severus. Se ele estivesse com o capuz abaixado e se seu rosto não fosse uma caveira impessoal, suas sobrancelhas estariam totalmente para cima. Mas ele estava com o uniforme completo de Morte, com todas as defesas a postos.

De qualquer modo, ele conseguiu manter a compostura.

— Satanás? Que surpresa.

O homem vestia seu terno vermelho característico, com um amplo sorriso.

— E não deveria ser, não acha? Nossas áreas de trabalho são muito conectadas; deveríamos fazer mais reuniões de trabalho, não concorda?

Severus manteve toda a sua parafernália ao responder:

— Você pode argumentar a esse respeito, tenho certeza. Existe algo específico que gostaria de discutir?

— Importa-se se eu me trocar primeiro? Sempre tive uma predileção por minha persona de Hades, e não há muitas ocasiões em que posso usá-la.

— Fique à vontade.

Um homem usando um traje grego apareceu no seu lugar, e Severus concordou que era muito melhor do que aquele horroroso terno vermelho que ele parecia gostar tanto de usar.

— Ah, agora sim — disse o Senhor de Todo o Mal. — É tão elegante!

Severus convidou:

— Sente-se, por favor. O que posso fazer por você?

Satã descartou a gentileza e os salamaleques:

— Você pode parar de perseguir minhas crianças. O que meus dementadores fofinhos fizeram a você? Por que você foi tão cruel com eles hoje?

Severus nem piscou.

— Eles estavam coletando meus clientes. Fui obrigado a interferir.

— Isso não é verdade, não mesmo! — Satã balançava o dedo enfaticamente. — Você não colheu aquelas almas, Sev, meu garoto. Conhece as regras: você não mexe conosco, nós não mexemos com você.

— Seus fofinhos— vociferou Severus — estavam atacando um menino.

— Eles estão sujeitos a isso e você sabe. Além do mais por que você se importa? — Satanás sorriu de maneira maliciosa e disse, sarcasticamente: — Oh, já sei! Aquela criança era a cria da doce Lily, não era? Ele é o filho do amor de sua vida, sua linda Lily, agora perdida para sempre. Ah, tadinho do Sevinho!...

A ironia começava a dar nos nervos de Severus.

— Por favor, me chame de Morte. Esta é uma reunião de trabalho, então vamos manter o profissionalismo, sim?

Satã manteve a falsa ironia.

— Você não vai querer me enfrentar, não vai, Sev, meu rapaz? Porque você e eu sabemos que quando seu mandato como Morte terminar, você será meu. E deixe lhe dizer, aqui entre nós, estou separando um lugarzinho especial para você no Inferno.

Aquilo era abuso e Severus decidiu não tolerar mais. Ele se ergueu, envergando todo o respeito do cargo que ocupava, e usou sua voz mais profunda e sinistra para lembrar a Encarnação do Mal:

— Então, Sua Malevolência, meu mandato ainda não terminou. Até lá, eu sou a Morte! E como tal, você deve respeito a mim e a meu cargo. Eu não estou subordinado nem a você nem à personificação do Bem. Você não me assusta, Satã.

O risinho sacana de Satanás falhou um segundo, mas ele manteve, mesmo com esforço.

— Tá na cara que você não está com medo de mim — ainda. Mas eu serei seu dono, Severus Snape — ele rosnou. — Não pense que você pode desfazer todo o mal que você vez na sua vida desgraçada e miserável. Então, no final das contas, você será meu, Severus, meu filho. E aí você terá medo de mim. Então aproveite enquanto puder. E fique longe de meus dementadores!

Com uma nuvem de fumaça preta e um fedor pútrido, Satã sumiu da casa de Severus.

Severus olhou em volta. Tudo parecia estar no lugar. E Satanás saiu literalmente fumegante de raiva. Ganhar de Satanás dava uma sensação ótima. Severus podia até se arrepender disso depois de morrer, mas foi ótimo dizer umas poucas e boas para aquele babaca. E que surpresa, Severus ainda estava intacto, ainda tinha seu cargo e sua alma.

"Não é um jeito ruim de fechar o dia", pensou a Morte, ao começar a pesar as almas capturadas e preparar para dormir enquanto ele contemplava o dia momentoso que ele acabara de ter.

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O filho de Lily definitivamente tinha um dom de se meter em encrencas, pensou Severus um ano mais tarde, quando atravessou o gramado de um cemitério para coletar a alma de um jovem Hufflepuff chamado Cedric Diggory. Embora Severus não fosse mais um bruxo, ele podia sentir que alguma coisa grave estava para acontecer. Foi aí que ele reconheceu quem estava com Potter.

Pettigrew.

Aquele maldito, imprestável, indigno que entregara a família de Lily para Voldemort estava com uma criatura bizarra nos braços. A um comando da criatura, Pettigrew matou o garoto Hufflepuff e Severus colheu a alma. Ele entendeu, horrorizado, que a criatura era ninguém menos que Lord Voldemort.

Severus tinha feito seu serviço, estava livre para ir. Mas algo mais estava para acontecer, e era ainda mais grave, então ele decidiu ficar.

Foi assim que ele se tornou uma testemunha. Foi assim que ele testemunhou um garoto de 14 anos ser usado para um feitiço, depois ficar de pé, ser desafiado para um duelo e inacreditavelmente escapar de ser assassinado pelo Lord das Trevas redivivo. Claro que o jovem Potter tinha mais sorte que juízo, mas ainda assim o mero fato de ter sobrevivido era, por si só, uma façanha notável.

O menino desapareceu usando uma chave de portal, e Severus ficou um pouco mais, observando o desenrolar dos eventos e alguns de seus antigos colegas. Só estavam lá menos de uma dúzia de Death Eaters, e Severus presumiu que eles provavelmente imaginaram, como ele, que o Lord das Trevas estava morto e enterrado. Mais tarde ele iria se punir pelos momentos melancólicos nos quais ele se deu conta que ele provavelmente também estaria ali, se tivesse sobrevivido ao Halloween de 1981.

Voldemort fez todos os seus seguidores tirarem as máscaras. Invisível, Severus os encarou detidamente. Sua primeira impressão foi observar que todos tinham envelhecido muito. Lucius Malfoy sempre fora mais velho que Severus, só que agora ele tinha mais de 40 anos. Como Severus tecnicamente morrera aos 22, mais de 40 era praticamente meia idade.

Voldemort puniu verbalmente cada um pela falta de fé nele, elogiando apenas aqueles em Azkaban. Aquilo explicava a ausência de Bellatrix, pensou Severus. Mas em meio a todo aquele drama, em algum lugar dentro de si mesmo, havia um Severus interno satisfeito por ver o arrogante Malfoy levar uma bronca como um aluno relapso.

Seu relógio piscou: ele tinha que ir. Severus consultou o aparelho. Harry Potter estava em segurança. Mas assim que ele estava para sair, viu uma pessoa aparatando junto à assembleia, alguém que ele imediatamente reconheceu. A identidade desta pessoa recém-chegada o teria deixado arrepiado, se isso fosse possível. Mas ele não tinha mais tempo e ele não queria irritar Mort.

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— Não seria mais simples se eu tivesse um retrato na sua casa?

Internamente, Severus rosnou diante da petulância do diretor de Hogwarts, que dourava tudo com o brilho dos olhos muito azuis. Que ousadia daquele mortal!

— Não será preciso — ele disse, calmamente. — Pretendo acompanhar as atividades de Lord Voldemort mais de perto daqui para frente. E o jovem Harry também, é claro.

Dumbledore não tinha terminado no processo de dourar a pílula.

— Deixe-me dizer como estou agradecido por isso. Significa muito para mim.

Severus indagou:

— Preciso lembrar que não tenho permissão para interferir nos assuntos de mortais? Não é função minha salvar o pirralho se ele se puser em perigo mortal. Se ele perecer, não tenho poder de devolver sua vida.

— Entendo.

— Se for de algum consolo, não há nenhuma interferência de nenhuma outra entidade que opera no limiar do mundo mortal. Ninguém ajuda você, mas ninguém também ajuda a ele.

Dumbledore sabia muito bem a quem ele se referia.

— Parece bem justo.

— Uma última pergunta: Aurora Sinistra ainda leciona em Hogwarts?

— Sim — respondeu Dumbledore. — Posso perguntar por que quer saber?

— Você pode querer verificar a lealdade dela. Eu estarei por perto.

Depois de dar o aviso, Severus saiu, pois tinha um cliente em 20 minutos. Harry Potter teria que se virar sozinho um pouco.

Ao menos era o que ele pensava, mas o aparelho que detectava as encrencas de Harry disparou feito louco numa manhã de verão em Little Winging. Como ele tinha tempo, Severus voou para lá bem a tempo de ver ao menos três dementadores atacando n apenas Harry, mas também outro garoto, um gordo louro. Severus rosnou diante da mera visão das horrendas criaturas, mas se lembrou da visita de Satã e conteve-se antes de interferir, mesmo que isso contrariasse seus instintos. Ainda assim, observou os eventos e certificou-se que Harry estava em segurança. Quando a velha ajudou os dois a voltarem para casa, Severus decidiu voltar. Enquanto caminhava de volta para Mort, estacionado a duas quadras, ele reconheceu o cheiro de enxofre no ar.

Satã estivera ali o tempo todo.

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— Mas que diabo você está fazendo?

Destino o encarava, furiosa, mas Severus respondeu calmamente:

— Eu estava indo almoçar. Quer vir comigo?

Ambos estavam de pé em frente ao Hog's Head, o pub mal-afamado na pequena vila de Hogsmeade. Severus tinha retirado as vestimentas da Morte; Destino, não.

— Você pretende entrar aí em plena luz do dia?

— Por que essa irritação? Não estamos proibidos de interagir com o mundo mortal; você sabe disso.

Ela não se convencia:

— Você está se arriscando a ser reconhecido. Isso perturbaria o equilíbrio cósmico. Para não falar de embaraçar os meus fios!

— Relaxa, Marlene. Ninguém aqui vai se lembrar de um zé-ninguém apagado de vinte e poucos anos que está morto há mais de dez anos. Teria sido mais arriscado no Três Vassouras, mas aqui? Vai dar tudo certo.

— De qualquer forma, o que espera descobrir nesse pub de quinta? Que a cerveja aqui é ruim e dá dor de cabeça?

— Informação. E a menos que queira se juntar a mim, eu lhe desejo um bom dia.

Destino alertou:

— Cuidado para não se enredar na vida deles. Lembre-se: vivemos às margens deste mundo.

Dito isso, Destino foi embora e Severus entrou no pub. Chamar de pub de quinta era um elogio, para dizer o mínimo. Não era à toa que os estudantes de Hogwarts evitavam vir ali para tomar suas cervejas amanteigadas. Pensando bem, Severus nem tinha certeza se eles serviam aquelas cervejas ali.

Ele pediu o almoço acompanhado de uma cerveja Stout, e tentou ficar de cabeça baixa, pois o velho barman o conhecia. O bar ainda fedia a bodes ou algo parecido. Havia uns poucos fregueses no local: uma bruxa coberta de xales, um homem cheio de curativos e bandagens, e duas outras bruxas com sotaque pronunciado de Yorkshire num canto.

Seus ouvidos estavam ali para captar qualquer fofoca sobre a escola. As notícias que ele lera no "Profeta Diário" eram no mínimo bizarras. Uma inquisidora em Hogwarts? Harry Potter desacreditado sobre o retorno de Lord Voldemort? Ele precisava ver aquilo de perto.

Ainda assim, Severus não pôde evitar se lembrar da ocasião momentosa queele vivera no Hog's Head. O momento em que sua vida toda mudara, e agora ele estava no mesmo lugar onde tudo começara. Pois tinha sido no Hog’s Head que ele ouvira a profecia, a profecia que fizera Voldemort perseguir Lily.

Todas as suas memórias sombrias se esvaíram quando um trio de adolescentes conhecido entrou no local. Lá estava ele, o menino de Lily, com os olhos de Lily, ao lado de seu amigo ruivo Weasley e a garota esperta. Foi naquele momento que Severus teve que se conter ao olhar a menina, Hermione.

O que tinha acontecido com ela? Agora ela virara uma jovem mulher, e uma bem ajeitadinha. Suas formas impressionaram Severus. Ele se repreendeu mentalmente. A garota devia ter uns quinze anos, apenas uma criança. Para dizer a verdade, Severus ainda era o mesmo jovem de 22 anos de quando se tornou Morte, mas ele não podia negar ou ignorar a diferença de idade. E por que ele estava pensando nessas coisas, afinal? Mais valia manter a mente na missão e esquecer essas pequenas distrações.

Disfarçando ao máximo, Severus acompanhou as atividades do trio o melhor que podia. Mas o velho barman ficava olhando para ele o tempo todo, como se tentasse se lembrar dele. Ficou claro que o rosto de Severus era familiar para o homem, mas ele não sabia direito de onde conhecia Severus. Aquilo foi decisivo: a Encarnação da Morte decidiu nunca mais tentar se infiltrar a paisana no mundo bruxo. Muggles eram abençoados por desconhecerem o outro lado, mas bruxos tinham maneiras e ferramentas para detectá-lo.

Não pela primeira vez desde que se tornara Morte, Severus lamentou sentidamente a perda de seus poderes bruxos.

Aí outros adolescentes começaram a entrar no pub, e Severus deu as costas para eles, fingindo estar incomodado. O almoço chegou, e ele se pôs a comer tentando parecer não ligar a mínima para o que estava acontecendo.

Verdade seja dita, Severus estava um tanto confuso depôs que os adolescentes declararam a reunião encerrada e assinaram um papel enfeitiçado (outra ideia brilhante da menina Hermione). Teria a situação em Hogwarts deteriorado tanto quanto os meninos disseram? Seriam mesmo necessárias aulas extra de autodefesa?

— Oh — disse Dumbledore em seu gabinete, com um sorriso -, foi um gesto muito amável, mas Harry não deveria ter feito isso. A situação já está grave o bastante.

Severus indagou:

— O que está acontecendo nesta escola? Parece até que o Ministério da Magia está interferindo em Hogwarts!

— Temo que este seja precisamente o caso, meu amigo — confirmou Dumbledore. — Eles pretendem me neutralizar assim que puderem, e o jovem Harry ingenuamente deu a desculpa perfeita.

— Com aulas extras de Defesa contra as Artes das Trevas? Como pode ser?

— Você se deixou passar a parte mais importante, e o Ministério não fará isso. Eles já creem que eu estou articulando a queda do Ministro da Magia, e agora têm ainda mais razão para pensar isso.

— A Armada de Dumbledore... — repetiu Severus. — Acha mesmo que acreditariam em algo assim?

— Eles preferem acreditar nisso a acreditar que Lord Voldemort está de volta.

— Tolos — rosnou Severus, ao ver o relógio piscar insistentemente, indicando um cliente. — Desculpe interromper a conversa, mas preciso ir.

— Agradeço pela visita. Esta informação será muito útil, meu amigo. Adeus.

Ele nem se deu ao trabalho de responder a Dumbledore. Era hora de voltar ao trabalho.

Severus não tinha ideia, mas ele não estava nem perto de parar de interferir na vida de Harry.

Ou de Hermione.