Um conto de destino e morte
11 Capítulo 11 – A súplica, a verdade, o convite
Capítulo 11 – A súplica, a verdade, o convite
Hermione deu um pulo quando viu o homem praticamente materializar-se em pleno ar, sem aviso. Ele trazia na mão uma grande ampulheta e nos lábios um sorriso endereçado a Destino.
— Chronos — saudou Destino, com outro sorriso. — Timing perfeito, como sempre! Parece que temos um pequeno problema aqui. Talvez você possa ajudar.
Hermione acrescentou:
— Sim, senhor, por favor!
Chronos encarou a jovem.
— Ah, é você. É claro. Se bem que eu não esperava você agora. Devo ter me distraído...
A jovem de Gryffindor estava surpresa.
— Sabe quem eu sou? Como?
Thanatos explicou:
— Chronos viaja de trás para frente no tempo. Ele vive no nosso futuro.
— Mas posso detectar uma mortal capaz de interferir no tempo a eras de distância — disse a personificação do Tempo, de maneira desaprovadora. — Você mal tinha 13 anos e já estava criando linhas de tempo paralelas. Que bagunça você fez!
Ela corou de vergonha.
— Eu não sabia. Desculpe por isso.
— E agora você quer fazer isso de novo? — Tempo estava mais do que irritado. Na verdade, beirava o insultado. — Não estou reclamando pelo meu prejuízo pessoal, a perda de meu amor e tudo isso, mas é que você não faz ideia das ramificações!
Hermione não pôde evitar as lágrimas.
— Mas eu o amo...
Chronos não se comoveu.
— É, que ruim. Thanatos, por exemplo, teve um amor assim por décadas, sabia? E você pensa que ele tentou alguma coisa que nem você? Não, porque ele prefere ver sua amada bem no além-vida do que vegetando na meia-vida!
Se pudesse corar, Thanatos estaria vermelho feito um pimentão, mas ele nada disse. Destino bronqueou:
— Chronos, o que acha que está fazendo?
A Encarnação do Tempo virou-se para ela:
— Eu sei que vocês não conhecem o futuro tão bem quanto eu, mas eu estou para dizer umas poucas e boas para esta jovenzinha!
O Tempo estava tendo um legítimo piti.
— Pare com isso agora mesmo! — Quando em tensão, Destino parecia adquirir um sotaque escocês, pensou Hermione. Destino virou-se para a moça e disse, compreensiva: — Peço desculpas por ele. Normalmente ele é muito doce, gentil e pacífico, não esse... esse... ogre!
Tempo suspirou, um misto de nervoso e escárnio. Demorou alguns segundos até ele dizer:
— Eu sinto muito pelo meu desabafo, minha jovem. Ainda assim, não há nada que se possa fazer sobre a morte de seu marido. Você deve confiar na nossa palavra quando dizemos que tudo acontece por um motivo.
Hermione não pôde responder, pois Thanatos apontou:
— Já que a moça claramente não conseguiu o que queria, que devemos fazer?
— Mandamos de volta, é claro — disse Destino. — Ela obviamente não morreu, então ela pertence ao mundo dos vivos e mortais.
Hermione quis saber:
— Falando nisso, onde estamos? Que lugar é esse?
— É minha casa — disse Destino. — No espaço entre mundos.
— Estou fora do mundo? — Hermione ficou perplexa só de pensar. – Eu sabia que iria muito longe para salvar Ron, mas não tão longe.
— Mas não se pode salvar seu marido — insistiu Chronos. — Receio que seja assim mesmo.
— Vocês têm certeza?
Thanatos respondeu:
— Absoluta. E você não deve tentar isso de novo. Nunca mais. Ou sua filha ficará órfã de pai e mãe.
— Certo, eu entendo. Obrigada por sua paciência.
Chronos disse:
— Então está bem. Se tudo está acertado, Thanatos já pode levá-la de volta. — Morte pareceu contrariado, mas Chronos deu de ombros. — É você que tem uma caranga legal, cara. Meu transporte é louco demais para mortais.
Ainda mais envergonhado, Thanatos fez um gesto para Hermione.
— Podemos ir.
— Está bem. Adeus. Obrigada por tudo e desculpem a confusão.
Ela seguiu Morte até o cavalo claro e cavalgou com ele até o mundo dos vivos novamente.
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Destino e Chronos observaram o par afastando-se. Chronos indagou:
— As memórias dela serão apagadas?
— Não, ela apenas tentaria a mesma coisa de novo. Além disso, um dos chefões pediu para que as memórias dela fossem preservadas.
— Por quê? Aqueles dois agora estão escolhendo favoritos entre os mortais?
— Deus jamais faria isso, você sabe — disse a Encarnação do Destino em seu aspecto mais jovem. — Mas Satanás... Ele está sempre recrutando. Se ela tentar o suicídio de novo, sabendo muito bem o que está em jogo, e for bem-sucedida, então ele pode ter uma chance na alma dela, porque desta vez seria apenas por sofrimento puro, não por um motivo altruísta.
Chronos ouviu Destino xingar baixinho.
— Aquele bastardo.
Chronos não sabia, mas Destino tinha planos de mergulhar na sua amada tapeçaria e intrometer-se. Mas fazer isso seria interferir na vida de um mortal, o que era considerado um grande crime entre as Encarnações. Seria uma hipocrisia da parte dela fazer isso depois de tanto cobrar uma atitude isenta do pobre Thanatos.
A personificação do Tempo virou-se para sua colega e abraçou-a.
— Não falemos sobre ele agora. Acredito que estamos a ponto de nos tornarmos namorados, se não me engano.
Destino sorriu de modo convidativo e derreteu-se nos braços dele, indagando derretida:
— E isso acontece bem agora?
Sedutor, ele acariciou o cabelo lustroso que ela tinha na sua persona como Clotho e sorriu, maroto:
— Podemos dizer que é coisa do destino, não acha?
— Prefiro dizer que pode acontecer... no tempo certo.
Eles se beijaram.
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Após a visita inesperada de Hermione ao lar das Encarnações da Imortalidade, Severus passou a acompanhar suas ações de perto. Então, ele estava junto dela quando os médicos desligaram os aparelhos e feitiços no pobre Ron Weasley. Severus a observou durante seu período de luto, quando Hermione estava tão arrasada que tinha dificuldade até em cuidar da filha.
Severus não visitara Hermione muito após a Batalha de Hogwarts. Morte não tinha nenhuma vontade de testemunhar a alegria do casal, logo abençoado com a chegada da bebê Rose. Naquele momento, Severus podia apreciar como a jovem mãe desabrochara no curto período de cinco anos.
Semanas após o funeral, como ele ainda visitava a viúva, Severus decidiu que era hora de revelar tudo. Hermione precisava saber que a morte de seu marido não foi fruto do desejo de uma entidade supernatural caprichosa que acordara com o pé esquerdo naquele dia.
Como sempre, ele não consultou Destino antes de tomar essa atitude. Ele não queria arriscar outra bronca.
Ela abriu a porta assim que ele bateu, e parecia ainda mais linda olhando diretamente para ele com um imenso sorriso.
— Severus...!
Hermione o abraçou com alegria. Ele teve que fazer um esforço para se controlar.
— Mas que grande surpresa — disse ela, livrando-se de seus braços. — Por favor, entre.
— Espero que não seja um momento inconveniente.
— Claro que não. É uma surpresa maravilhosa! — Ela o fez sentar à sala pequena e confortável. — Você parece ótimo! Como está?
— Muito bem, obrigado.
Pela primeira vez, o sorriso deixou o rosto.
— Suponho que já saiba a respeito de Ron.
— Sim, eu sinto muito, Hermione. Ele era um homem bom.
Ela fungou, uma lágrima escapou do olho quando ela assentiu:
— Um dos melhores. E veja — ela apresentou -, essa é Rose.
Severus não tinha muito jeito com crianças, mas conseguiu sorrir para a pessoinha sentada num tapetinho infantil que o olhava intensamente:
— Olá, Rose.
— Gostaria de beber alguma coisa? Quem sabe um chá?
— Acho que chá seria uma excelente escolha.
— Então vou colocar uma chaleira no fogo.
Ela sumiu dentro da cozinha e Severus ficou sozinho com o bebê, que ainda não decidira se ele era amigo ou inimigo. Ele admirou a pequena por não confiar em pessoas totalmente desconhecidas.
— Como soube onde me encontrar? Nós não sabemos praticamente nada a seu respeito!
— Eu tenho meus meios... Você sabe.
— Sim, sim, o superespião. Sabe que tem gente na Ordem que até hoje não sabe nada sobre você? Fez um trabalho admirável, Severus. E não vou nem mencionar que você provavelmente salvou minha vida. Sou muito grata.
— Foi um prazer.
— Será que eu posso perguntar umas coisas? Tenho tantas questões sobre aqueles tempos.
— Agora estou em posição de permitir algumas perguntas.
— É mesmo? Que ótimo! — Ela parecia bem animada. — Não, espere. Deixe-me pegar o chá primeiro.
Então foi com uma xícara de chá quente que Hermione fez a primeira pergunta.
— Qual é o seu nome? Digo, o nome verdadeiro.
— Severus Snape — respondeu ele, com sinceridade. — Eu juro que este é meu verdadeiro nome.
Ela não aparentava medo, apenas confusão.
— Então você morreu?
— Não de verdade.
— Isso tem algo a ver com o fato de você não ser bruxo? Pode explicar?
— Severus Snape efetivamente morreu no Halloween de 1981. Mas ele também está aqui. Eu sou ele. Eu vivo à margem deste mundo, após ter me tornado uma entidade sobrenatural que vive na beirada do mundo dos mortais.
Agora Hermione mostrava sinais de alarme. Muitos.
— Você não é uma criatura mágica. Nem é um bruxo.
— Eu sempre disse isso. Perdi meus poderes bruxos quando me transformei numa entidade sobrenatural. Eu não tenho poderes como um bruxo. Mas dificilmente sou um Muggle.
— O que é você exatamente? Você veio aqui me machucar?
— É claro que não tenho intenção de machucar você, Hermione. Só achei que tinha direito de saber a verdade. Eu sou uma Encarnação da Imortalidade.
Ela perdeu a cor no rosto:
— Você- não..!
— Receio que sim.
— Qual deles? Você é Tempo?
— Não. Sou Morte.
Ela se levantou, enraivecida.
— NÃO! Não, não!
— Lamento, mas é a verdade — disse ele calmamente, destroçado de tanta tristeza.
Hermione olhou em volta, lágrimas caindo, como se ela pudesse encontrar respostas na sua própria sala.
— Você... você...
Severus permaneceu imóvel, enquanto ela passava pela onda de choque que a informação causou. Ele sabia que deveria ser muito paciente neste momento.
Após alguns embaraçosos minutos, Hermione conseguiu reunir força suficiente para perguntar:
— Você não podia fazer alguma coisa?
— Eu fiz o que pude — disse ele honestamente. — Espero que acredite em mim. Avisei Dumbledore que não podia fazer muito, mas eu faria o máximo para ajudar Harry. E isso significava ajudar vocês três.
Hermione encarou-o.
— Harry me disse ter visto você. Na floresta. Antes de enfrentar Voldemort.
— Fiz questão de ficar a seu lado. Pela mãe dele.
— Ela está bem? Ela tem orgulho do filho?
— Tenho certeza de que Lily está ótima. Mas não tenho contato com ela. Vivo às margens deste mundo, e ela vive no próximo mundo.
— Então não pode vê-la?
— Não. Não posso.
— E... — a voz dela falhou um pouco -, você pode ver Ron...?
— Lamento, mas também não posso vê-lo.
Mais lágrimas rolaram pelas faces da jovem quando ela indagou:
— Pode me dizer qualquer coisa sobre ele? Sobre como ele está agora?
Severus estava penalizado, mas respondeu com sinceridade:
— Meu cargo rege todas as mortes do planeta. Apesar disso, não preciso colher pessoalmente as almas de todas as almas que findaram sua existência terrena. Sou chamado tipicamente a recolher as chamadas almas cinzentas, aquelas que têm tanto bem quanto mal em igual medida. O fato de eu não ter sido chamado a supervisionar o passamento de Ron me dá certeza de que ele foi direto para cima.
Hermione arriscou pedir uma confirmação:
— Quando você diz "para cima", você quer dizer...?
— Isso mesmo, o Paraíso, o Céu — disse ele. — Ele era um bom homem.
Hermione assentiu, secando as lágrimas.
— Obrigada, Severus. Quero dizer, Thanatos.
— Peço que me chame de Severus, por favor.
— Severus, então. Pois bem, Severus, você se chatearia se eu pedisse a você que saísse agora? Preciso ficar sozinha.
— É claro. — Ele se ergueu. — Agradeço pelo chá. E um conselho profissional: não tente seguir Ron. Se fizer isso, você não irá para o mesmo lugar onde ele vive.
Então ele pôs seu manto, adquirindo, assim, sua costumeira aparência esqueletal. Depois disso, ele desapareceu em pleno ar. Encontrou-se com Mort e de lá saiu com o firme propósito de desaparecer por um período muito, muito, muito longo.
Pena Severus ser o único a pensar assim.
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Já haviam se passado mais de dois meses desde a visita de Severus. Hermione falou confidencialmente sobre a visita com Harry.
— Acha que ele falou a verdade?
— Por que você acha que ele mentiria?
— Tem gente muito doida por aí, Hermione. Você sabe.
— Mas você tem que reconhecer que isso faz sentido.
— É, pode ser. Mas pense só por um momento: se esse é o mesmo cara que era amigo de minha mãe, então a Morte não é uma entidade perene. Como alguém se torna o Ceifador, a Morte?
Hermione respondeu:
— Não tenho certeza. Mas eu receio que provavelmente envolva parar de viver.
Harry deu de ombros, depois perguntou:
— Tudo bem com você?
Foi a vez dela de dar de ombros. Mas acho que preciso dar uma mudada na minha vida. Decidir algumas coisas.
— Por que não tira uns dias de folga? Como se fosse umas férias.
— E quanto a Rose? Não posso simplesmente abandonar minha filha.
— Se você não quiser que Molly fique com ela, deixe a pequena conosco. Ginny e eu adoraríamos ficar uns dias com nossa afilhada.
— Vou pensar — disse Hermione educadamente, sabendo muito bem que dificilmente ela se permitiria tirar férias.
Até que ela recebeu uma coruja. Era o correio bruxo apropriado, muito convencional. O conteúdo, porém, era o oposto disso.
Era um voucher para um fim de semana pago na Irlanda Muggle, todas as despesas pagas. A carta disse que era a "oportunidade de toda uma vida", e que ela deveria fazer isso em total segredo. Ela viajaria de trem Muggle, com o nome de Monica Wendell.
Foi o que bastou para que ela acreditasse não se tratar de uma fraude ou brincadeira. Wendel foi o nome que ela usou para proteger seus pais durante a Segunda Guerra Bruxa, e eles foram mandados para a Austrália.
Hermione decidiu deixar Rose com a vovó Molly e seguiu as instruções contidas na carta. Ela pegou o trem, depois um barco e então um ônibus para chegar a um resort chamado Refúgio do Druida, ao sul de Dublin, perto do mar. Era um lugar realmente maravilhoso, com tanta natureza e área verde, que Hermione relaxou de cara. Mesmo que a carta misteriosa terminasse sendo falsa, ela estava feliz de ter embarcado numa aventura. O lugar era lindo.
Quando ela voltou de um passeio por uma das muitas trilhas verdes das terras do resort, havia um recado na recepção para ela. "Venha para jantar no Salão do Círculo de Pedra. A reserva está em nome de Marlene."
Marlene.
"Marlene é um nome tão esquisito para se misturar nesse mistério de espionagem", pensou Hermione.
O maître acompanhou Hermione até a mesa, onde Marlene já a esperava. E Hermione ficou surpresa ao reconhecer a mulher misteriosa.
Ela já a conhecera antes, quando ela usara o nome de Destino.
— Olá, querida. — Ela sorria. — Estou tão feliz que você tenha decidido vir. Por favor, sente-se.
Hermione obedeceu e confessou:
— Estou surpresa.
— Isso é bom. Eu não queria ser óbvia. — Marlene abriu o cardápio. — Gostaria de pedir a la carte ou quer experimentar o bufê?
— Vamos ver o cardápio.
Ambas terminaram pedindo o peixe e Marlene McKinnon escolheu um vinho rosé.
— Não compartilho desta prática de combinar comida e vinho. Precisa confiar em mim: este vinho é maravilhoso!
Era mesmo. As duas desfrutaram de sua refeição em meio a conversa amena e aquilo estava positivamente dando nos nervos de Hermione. Talvez incentivada pelo enganoso vinho doce, ela perguntou à outra:
— Então, a que devo a honra de jantar com uma das Encarnações da Imortalidade?
— Pode me chamar de Marlene McKinnon. Já faz algum tempo desde que usei esse nome.
Era um nome conhecido de Hermione, embora ela não conseguisse saber exatamente de onde. Mas ela deixou isso para lá.
— Então, Marlene— enfatizou Hermione -, por que queria me ver?
— Venho seguindo o fio de sua vida há um bom tempo, querida, e aposto que estaria disposta a ouvir uma oferta que tenho para você.
— Uma oferta — repetiu a jovem, com curiosidade cautelosa.
— Eu sei que você não gosta de enrolação, então vou direto ao ponto: você gostaria de se tornar uma Encarnação da Imortalidade?
Hermione ficou petrificada. Será que aquilo era o que ela pensava que fosse?
Marlene deu uma risadinha.
— Bom, quem sabe eu devesse ter usado um pouquinho de enrolação, afinal.
— Sim — conseguiu dizer Hermione. — Eu seria você? Er, quer dizer...
— Sim, é claro. E não. — Marlene deu de ombros. — Sim, você seria Destino. Não, você não seria Marlene McKinnon. Ela morreu, e não pode voltar à vida.
— Morreu? Que nem Severus?
Aquilo surpreendeu a moça.
— Oh. Eu não sabia que Severus tinha se revelado para você.
— Ele me contou umas poucas coisas.
— Ah. — Marlene bebericou seu vinho lentamente e depois pousou a taça de haste comprida. — Curioso.
— O que é curioso?
— Você fez as perguntas certas a seu respeito, mas não me perguntou a meu respeito.
— A seu respeito?
— A respeito de minha transformação como a nova Hermione Granger-Weasley.
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