Um conto de Fallumen: O Oráculo Negro.
1 Luz, Sombras e a criação de todas as coisas.
Notas iniciais

NO COMEÇO…
No começo, existia o Caos e ele era tudo o que no mundo havia. E todas as coisas, boas e ruins, ímpias e virtuosas, estavam contidas na disformidade infinita do Caos. Indistinguíveis e inseparáveis, elas permaneceram unas.
E assim foi até que, em meio ao vazio escuro e perpétuo, onde tudo era nada além de uma vontade de existir, surgiu a luz. Ela foi o primeiro impulso de vida nesse mundo. E surgiu com o propósito de perdurar, de criar, de preencher a vacuidade do caos.
A luz primal, no ato de seu surgimento, impôs sobre o caos uma ordem natural. E essa foi a ordem que viria a ser obedecida por todas as coisas, as que existiam e as que viriam a existir. Ela deu forma ao que antes era disforme. E ela forçou a separação.
Foi a luz quem expulsou as trevas e tomou para si o que era lhe agradável deixando o que lhe era incômodo e desaprazível na escuridão. Bem e mal, vida e morte. Foi nesse momento que os opostos se dividiram e finalmente passaram a existir.
"Separar" foi a vontade da ordem. E foi a ordem quem subjugou o caos.
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O conceito de mundo começou a ser tal qual é e como o é, mas nada ainda existia de verdade. Foi uma era somente de luz e de escuridão.
E a separação conservou a ordem natural do mundo, desde aquela época, antes mesmo do surgimento da própria vida e certamente antes do nascimento da própria humanidade. Como tudo no mundo, ainda éramos somente uma ideia, um conceito. Éramos apenas um desejo de existir e a luz sabia disso.
Depois de trazer separação e disciplinar a disformidade do Caos, a luz gerou então a vida imortal. E essa vida era tão poderosa que contaminou a escuridão.
As trevas ganharam consciência e essa consciência odiou a luz, que a feria, que a envergonhava, que veio para lhe roubar o lugar que sempre foi seu.
Da luz, nasceram seres virtuosos, os Anmirieen. E as formas que se encarnaram a partir das trevas foram chamadas de Inmoroth.
Eles foram os primeiros deuses desse mundo.
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Os Anmirieen viram a forma que surgiu da ordenação do caos – o nosso mundo, cinza e desabitado – e se puseram desejosos a preenchê-la com vida. Eles quiseram moldar um paraíso. Eles quiseram “criar”. E esse foi também o desejo da luz.
Porém, para que a criação pudesse surgir, a luz precisava tomar o espaço que ainda era dominado pela escuridão e seus filhos. Os Inmoroth, no entanto, se recusaram a ceder mais do que já lhes havia sido tomado e a escuridão os fortaleceu em sua decisão.
A vontade da luz e a vontade das trevas eram igualmente poderosas e nenhuma das duas queria deixar de existir.
Então, houve guerra.
A luz, mais jovem e vigorosa, triunfou sobre a escuridão do caos – velha e repulsiva – como uma força que a obrigou a se curvar perante seu esplendor. A luz a oprimiu e oprimiu também às crias das trevas.
Feridos, derrotados e envergonhados, os Inmoroth foram expulsos da criação, exilados e condenados à uma existência longe do reino da luz, longe do paraíso. Eles esconderam-se nas entranhas da terra, erguendo ali sua morada de sombras e rancor; um mundo digno dos mortos.
E assim, das mãos dos vitoriosos Anmirieen, foi moldada toda a criação.
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Os cinco elementos principais – raio, fogo, água, terra, ar – foram os primeiros a surgir e foram então espalhados pelo mundo, segundo a ordem natural de todas as coisas.
Com os elementos, nasceram as virtudes e elas foram guardadas, para serem distribuídas entre a criação quando a vida mortal ocupasse seu lugar no paraíso. Haveria então o manso e o feroz, o quente e o frio. Haveria a obediência e haveria a liberdade.
Os astros foram postos no firmamento. As estrelas se espalharam pelo céu para que o primeiro princípio vital, a luz, fosse adorado e estivesse presente no mundo mesmo durante a escuridão da noite.
O sol iluminou o dia. E a lua trouxe ainda mais luz ao céu noturno. O tempo passou então a fluir como flui ainda hoje.
E, no fim, a própria luz tornou-se alma e criou assim a segunda vida, a vida dos mortais.
Dessas almas, o princípio vital foi soprado nas formas que já existiam, avivando toda a sorte de criaturas vivas, incluindo os humanos. Esses últimos foram enfim abençoados com as virtudes e se tornaram semelhantes aos Anmirieen. Os humanos foram capazes de pensar e de, a partir dos pensamentos, “criar” o que não havia sido criado.
O mundo estava perfeito e repleto de viventes. Isso satisfez a luz e trouxe satisfação também aos seus filhos e aos filhos de seus filhos. Naquela época, os deuses regozijaram-se de seus feitos e com prazer habitaram entre a criação.
Eles viveram no meio dos mortais.
Mas a luz nunca esteve verdadeiramente sozinha.
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