Um conto da casa Sonserina
1 O casal Gaunt
O medalhão dourado balançava de um lado para o outro nas mãos de Margot Gaunt, ao vento seco que vinha acima das montanhas verdejantes ao longe. A quem passasse, daria a impressão de que o objeto a hipnotizara, pois ela o perscrutava com os olhos vidrados e a boca entreaberta — mesmo que sequer tivesse percebido esse último detalhe.
Mas não era isso. Margot estava sentada aos degraus de madeira que levavam à varanda de sua casa humilde, de paredes de madeira embolorada e repletas de teias de aranha nos cantos onde a luz não alcançava. O reflexo que via no medalhão era de uma menina simples, com o rosto ossudo emoldurado por descuidados cabelos pretos; um delgado nariz, e os olhos quase negros que pareciam muito maiores quando vistos no metal.
O dia estava tão cinzento quanto a vida da própria Margot.
As nuvens escuras encobriam o sol do meio dia, passando a impressão lúgubre de que logo a lua apareceria.O rumorejo do rio que serpeva pelas montanhas ao norte, era gostoso de se ouvir. Às vezes, quando seu marido, Bennedict Gaunt, não estava por perto, ela se refugiava na não tão longa sombra do casebre torto, para ficar próxima a água, e ouvi-la cantar. A ela, pelo menos, soava muito mais agradável do que as canções moles entoadas no vilarejo próximo, cujas notas desafinadas eram trazidas pelo vento, saídas diretamente da boca dos velhos bêbados que não pensariam duas vezes em agarrá-la para satisfazer seus desejos sórdidos.
Certa vez, fora ao vilarejo a mando de seu marido, para comprar dois pães com a moeda de prata que ele lhe dera, e antes que pudesse ter tempo de pensar em ir embora, um velho gordo e bêbado chamado sr. Smith, embarafustara na padaria, o cheiro asqueroso preenchendo os cantos como um cadáver deixado à beira da estrada, sob o sol do verão. Margot tentou sair dali rápido, mas ainda se lembrava dos dedos porcos do homem tocando seus braços cobertos por espinhas. Ele rosnava a cada tentativa de fuga, como, em uma ideia pútrida e abissal, de que aquilo o excitava.
— Vai dizer que não está afim de provar, garotinha? — perguntara ele, o bafo ácido mesclado com o forte cheiro de álcool, se espalhando no ar ao redor dela.
Ela não respondeu, apenas lutava fracassadamente para se desvencilhar. Estava a ponto de chorar e berrar. Pois era tudo que conseguia fazer na situação que antecedia o final que conhecia de cor. Foi aí que viu os homens sentados às mesas de madeira que ladeavam a cena, levantarem-se, incluindo o padeiro. Ela sentiu um arrepio de alivio correndo-lhe pela espinha, mas ele logo rodopiou, e tornou-se um golpe afiado nas entranhas da garota. Pois ela percebeu, assim que um deles a agarrara por trás, de que não tinham a inteção de ajudá-la, mas sim, de ajudar o sr. Smith.
Ao voltar para casa, com as vestes mais rasgadas e sujas que o normal, a pele borrifada com seu próprio sangue, e as pernas arqueadas, andando a passos cômicos, ainda recebeu a maior das broncas, de Bennedict. Bronca essa que se transformou em uma série de golpes excruciantes de seu punho, ao contar o que havia acontecido.
Mas isso acontecera há quatro meses. Tudo ficava bem quando ela passava um tempo com o medalhão. Seu marido estava dormindo, portanto, não corria risco no momento...
— Margot! – chamou uma voz áspera no interior do casebre, que roubara a atenção da menina, que tentara enfiar a joia embaixo de si, mas o dono da voz surgira no portal antes que conseguisse. Disse descontente: — Quantas vezes eu já disse para não ficar aqui fora? – Seus olhos se arregalaram ao fixarem-se no medalhão. – O que... O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO COM ISSO, GAROTA DOS DIABOS?!
— Eu... só estava olhando... – disse Margot, timidamente, a voz quebrando.
O homem que a encarava se passaria facilmente por um meio gigante. Tinha grossos músculos sobre os braços que ladeavam sua barriga volumosa grande demais para a camisa desbotada e puída que usava; tinha apenas alguns tufos de cabelo negro, vítima da idade.
Ele aproximou-se ameaçadoramente da menina, que levantou-se com um salto, e recuava do homem apertando o medalhão contra o peito, e os olhos marejados.
— Por favor – soluçou ela. – Me desculpe, eu não...
O gigante pegou-a pelos cabelos até erguê-la a alguns centímetros do chão. Ele rosnava enquanto ela chorava. As pessoas que passavam lançavam-lhes olhares curiosos, mas nenhum parara para ajudar a menina ou perguntar o que estava acontecendo. Já sabiam do relacionamento abusivo que existia naquela casa. E mesmo que, em circunstâncias normais, a lei interviria a respeito de um homem de trinta e cinco anos estar casado com uma garota de treze, naquela região esquecida por Deus, os habitantes dos povoados vizinhos tinham sorte de haver serviço policial. Mesmo que facilmente subornável e de serviço sorteante.
— Não sabe a quem pertencera esse medalhão? – perguntou o gigante, sacudindo a joia em frente ao rosto ensopado e vermelho da menina.
A garota apenas fez que sim fugazmente, desesperada. O homem soltou um sorriso cruel.
— É claro que sabe. – cuspiu ele. – E quantas vezes eu já disse para não ficar aqui fora com ele? Quer que o roubem de nós? VOCÊ QUER?
Tanto quanto como fora com o sim, Margot fez que não.
— Vamos entrar. – disse o gigante. – Você precisa se lembrar do seu lugar.
Os homens e mulheres que estavam ali em volta, só viram a garota gritando e implorando para não ser levada. Viram-na segurando com força na batente da porta antes de ser sugada para a escuridão fedorenta. Viram a porta fechar com um baque violento, e, logo mais, ouviram gritos cortantes e desesperados, muito mais angustiantes que os de outrora.
Seguidamente os habitantes do vilarejo ouviam esse tipo de grito vindo do casebre, mas ninguém sabia o que a menina sofria lá dentro. Principalmente porque, logo depois, quando ela saía para ir ao mercadinho da vila, não havia uma única alma que conseguira ver um só ferimento. Era como se aquele homem lhe aplicasse dor pura, sem qualquer indício de ataque corporal.
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