Um clichê

5 Apresentações


POR algum motivo a saia e a gravata da Carolzinha estão azul turquesa.

— Como você consegue essas coisas? – Indaguei me jogando na sua cama.

— Barbie Escola de Princesas serviu para alguma coisa afinal – Rimos.

— Já são oito e quatro. Quer ir logo pra quadra? – Perguntei. Eu não gosto de ficar esperando quando já to pronta, me deixa aflita.

— Céus Sabrina! Por que ir tão cedo? — Falou se sentando ao meu lado da cama.

— Céus Carol! Você sempre se atrasa

— E você sempre chega adiantada – De certo modo estávamos jogando o jogo do sério. Não piscar, rir ou desviar os olhos. Claro que no final ela cedeu e então fomos para a quadra, onde aconteceria a cerimônia.

— Por sinal, os filmes da Barbie estão cada vez pior – Sim, eu disse isso.

— E a Barbie cada vez... er... Menos bonita? Na real, ela ta ridícula.

— Totalmente ao contrario de Barbie e as Doze Bailarinas

— Eu gosto da Barbie e o Quebra-Nozes

— Barbie a princesa e a plebéia também é bom.

— Eu sempre fui a princesa- Disse Carol

— Eu sempre fui a plebéia – Completei.

Quando vimos, a quadra já estava cheia de pessoas que eu não me importei em conhecer. As cores do uniforme masculino são diferentes dos femininos. Enquanto é vermelho para as meninas, os meninos usam um azul forte. Enfim, tinham colocado um palco para apresentações no começo da quadra e lá estava um homem alto e moreno, sua barba e bigode para fazer, usava uma camiseta comprida branca listrada em preto e azul, calça jeans e sapatos sociais, aparentava no máximo trinta anos.

— Bom dia alunos! Quem fala é o professor Júlio, de artes. Para começo de conversa, quero parabenizar os que passaram de ano e desejar boas-vindas aos que chegaram. BEM-VINDOS NOVATOS! – Todo mundo aplaudiu e assobio na hora.

Então eu cansei me desliguei de onde estava e fui para “O mundo da Lua” como dizem.

— Sabrina, ei Sabrina – A Carolzinha me chamava.

— Já terminou? – Perguntei bocejando.

— Sim, agora é pra gente ir para a sala de aula. Qual é a sua turma? – Indagou.

— 92 e a sua?

— Também.

— Já não ficamos no mesmo quarto, eles tinham que pelo menos nos colocar na mesma turma.

— Você é muito reclamona

— Tenho quase certeza que essa palavra não existe.

— Não sou eu que falo “coisado” – Disse arqueando as sobrancelhas.

— Ok,ok. Eu entendi madame. Mudando de assunto eu vejo dois sentidos para arquear as sobrancelhas.

— Como assim?

— O 1º é você ver curiosidade, estar interessado. – Subimos uma escada.

— De certa forma.

— O 2º é um desafio, subestimo. – Subimos a outra escada.

— Acho que tem um terceiro.

— Talvez, é que tem mais uma palavra só que eu esqueci. E essa palavra foi o teu tipo de arquear a sobrancelhas. – Passamos por um corredor, a penúltima porta é a nossa sala.

— Fica quietinha Sabrina, é melhor

Entramos na sala só que não sei como explicá-la, é bem tipo as salas de aula de “Deus não está morto”. Só quem viu o filme vai entender.

— Vamos sentar na segunda fila, os últimos lugares. – Carolzinha sussurrou.

— Certo, certo.

Assim que sentamos, o professor de artes entrou. Ele é um cara bem relaxado e que conquista a simpatia dos outros.

— Quantos rostos novos eu vejo por aqui – Disse sorrindo – Acredito que seja melhor se apresentar, certo? Certo

— Ele tem a tua mania de responder as próprias perguntas Brini

— Não enche!

Então toda a primeira fila se apresentou no mínimo umas 20 pessoas apresentaram.

— Você, você ai – Apontava o professor.

— Quem?

— Sim, você com a faixa no braço! Venha até o meio se apresentar – Me levantei e fui até o professor, mas antes disso Carolzinha puxou o meu braço e sussurrou “Vê se não faz a gente passar vergonha”

— Nome, idade, essas coisas por favor – Ele falava sentado em cima da mesa que estava por lá

— Sabrina Mendes, quatorze anos

— Alguma coisa a dizer para os seus colegas?

— Eu vou acabar com qualquer um que entrar no meu caminho. Eu sou a melhor, entendam isso – Disse – Espero que possamos ser amigos – Terminei sorrindo e voltei para o lugar.

P.O.V Carol

— Eu vou acabar com qualquer um que entrar no meu caminho. Eu sou a melhor, entendam isso — Nesse momento dava para ver a maldade nos olhos dessa garota. Uma aura negra pairava sobre si. – Espero que possamos ser amigos – Voltou ao normal e deu um sorriso ainda. Céus! Essa garota não é do bem.

— Ok... Isso foi assustador mas continuando – Proferiu o professor – Próxima... Você! Venha

— Meu nome é Caroline Machado e tenho quatorze anos.

— Tem alguma coisa para dizer desde que não seja nenhuma ameaça?

— Desculpem pela minha amiga.

— Vocês se conhecem então? – Perguntou

— Viemos do mesmo colégio e somos melhores amigas.

— O típico “Os opostos se atraem”

— Exatamente – Ri um pouco. O Professor Júlio é legal.

— Você que controla ela?

— Pode-se dizer que sim. A Sabrina é uma pessoa um tanto quanto complicada.

— Percebemos. Enfim, obrigado. Pode se sentar. – E assim me retirei e voltei para o meu lugar.

— Que parte do “Vê se não faz a gente passar vergonha” você não entendeu?

— Depois você me dá bronca Carolzinha mas agora uma ruiva

— Quê?

— Ruiva – Ela disse apontando para a garota do lado do professor.

— Meu nome é Gabriela Robaina – Ruiva cheia de sardas e olhos castanhos.

— Idade? – Perguntou o professor

— Quatorze – Ela era um pouco tímida

— Gabriela, eu vi que você está desconfortável, por isso pode voltar para o seu assento.

— A Gabi é nossa

— Sabrina não pode sair por ai a chamando de Gabi como se a conhecesse há anos.

— GABI!! Vem sentar com a gente! – Ela gesticulava com as mãos. Pelo amor de Deus, essa guria só faz a gente passar vergonha.

— Veio de onde Gabi? – A guria realmente veio se sentar com nós.

— Porto Alegre.

— Aaza uma gaúcha igual a nós. – Por que motivo, razão ou circunstancias a Sabrina esta se apoiando na cabeça da criatura?

— Sabrina!! Senta e presta atenção na aula!

— Muito antipática você

— É bem provável que vocês ouçam ou leiam as palavras “arte”, “artista” e “obras de arte” várias vezes, todos os dias. Com certeza vocês já leram ou ouviram as expressões do tipo: “Fulano é um excelente ‘artista’”; “Este quadro é uma verdadeira ‘obra de arte’”; “Salão de beleza e ‘estética’ social”; “Criança quando está muito quieta é porque está fazendo ‘arte’”; “Isso sim é ‘futebol-arte’... E por ai vai... – Começou o professor

— Você acha que em todos esses exemplos as palavras “arte”, “artista”, “obra de arte” estão se referindo sempre à mesma idéia? Por quê? Afinal de contas, o que é arte?

— Definir arte é uma tarefa muito complexa. Até hoje não existe um conceito que satisfaça os estudiosos, filósofos, críticos e teóricos. É certo, também, que essa palavra apresenta significados diferentes dependendo do lugar, da época e do contexto em que é utilizada. Houve um tempo, por exemplo, em que a arte era entendida como “a expressão do belo”. – Ele tinha algo no jeito de falar que fazia a gente ter certo interesse.

— Além disso, como vocês sabem, existe, na língua portuguesa e em outros idiomas, muitas palavras que, apesar de escritas ou pronunciadas da mesma maneira, possuem significados diferentes. Se você ouvir a palavra ”manga”, por exemplo, qual a idéia que lhe vem à mente? – Ele apontou para um guri da frente, acho que seu nome era caio.

— Manga de camiseta – Respondeu

— E você? – Indagou se virando para Cristina.

— A fruta. – Disse.

— Manga de camiseta? A fruta manga? Sabia que, se a palavra receber um acento agudo, “mangá” significa história em quadrinhos, de origem japonesa? – Explicação do professor.

— A definição que mais se aproxima do que nos interessa é a considera “arte” produto de criação humana, uma forma poética de expressão da subjetividade de homens e mulheres que, com alguma intenção, transformam esteticamente linhas, cores, formas, volumes, luzes, sombras, sons, silêncio, gesto, movimentos em pintura, escultura, desenho, imagem, fotografia, música, teatro, dança, palavras... A arte é, pois, uma área do conhecimento humano, um patrimônio artístico, histórico e cultural da humanidade.

— Dessa forma, as pessoas tanto podem expressar a sua dor, paixão alegria, saudade em um texto escrito ou em um belo poema, como colocar o seu grito, o seu amor em uma pintura, escultura, música, cinema, teatro ou dança. A arte é, portanto, uma forma poética peculiar de expressão; um modo único, pessoal e intencional de construção de sentidos.

— É dessa arte que trataremos – Disse por fim.

— Disse o artista plástico de origem polonesa Frans Krajcberg sobre o significado da arte: “Minha arte é um manifesto. Não escrevo: não sou político. Devo encontrar a imagem certa. [...] Não procuro fazer escultura: procuro formas para o meu grito. [...] Como fazer gritar uma escultura como se fosse a minha voz?” É isso crianças. Na próxima aula me tragam uma obra e a biografia de Frans Krajcberg. Até

— Como assim já acabou a aula? Estava muito legal! Esse professor é ótimo – Falava uma Sabrina indignada.

— E você não querendo vir – Ela me mostrou a língua.

Entrou uma senhora já de idade com os cabelos pintados de loiro, um terninho de zebra e um sapato branco.

— Bom dia alunos, sou a professora de português, Rute

— Bem nome de velha mesmo – Sussurrou Sabrina e a Gabi ainda riu!

P.O.V Gabi

A Sabrina talvez seja um tanto quanto assustadora mas é legal. A “Carolzinha”, como diz a Brini, é muito critica de si. Enfim as duas são legais.

— Gabi, gosta de ler? – Brini perguntou.

— Amo ler – Respondi sorrindo.

— É como se fosse entrasse na pele do personagem. Você vai para outro mundo.

— Você sempre vai pra outro mundo Sabrina. – Carol se intrometeu.

— Você não acha que seu uniforme está muito simples? – Sabrina mudando de assunto completamente...

— Como assim?

— Eu dei um jeito no meu e a Carolzinha mudou a cor do uniforme. Você tem que arrumar direitinho.

— Ta bom, quando terminar a aula a gente faz alguma coisa.

— Quando terminar a aula coisa nenhuma!! Vai ser agora!

— O que? Como assim? Carol – Chamei

— Te prepara Gabi, essa ai não tem como conter por muito tempo.

— Professora. – Sabrina se levantou

— Sim?

— A Gabriela está se sentindo mal. A Carol e eu vamos levá-la para fora pra respirar um ar e ir ao banheiro para lavar o rosto. Posso?

— Ela atua muito bem. Sabe bancar a inocente – Carol sussurrou no meu ouvido.

A professora olhou desconfiada para nós, mas deixou.

— Onde é o banheiro aqui? – Sabrina estava indignada.Estamos procurando esse banheiro há uns 5 minutos

— Vamos ter que ir ao dormitório feminino.

— Por quê?

— Ué tem banheiro e uma cozinha lá

— Nunca vi

— Você chegou hoje.

Então fomos ao dormitório feminino e a zeladora estava lá

— O que aconteceu?

— Ela está passando mal e nos pediram para trazê-la aqui. – Falou uma Sabrina “aflita”.

— Oh, céus! Rápido para o banheiro.

— Certo. – Ela conseguiu.

— O que vamos fazer agora? – Perguntei já no banheiro.

— Tira o casaco e bota ele virado. – A Sabrina falou. Eu não tinha visto que o casaco era vermelho por dentro. Enfim, fiz o que ela pediu.

— Agora fica parada que eu vou fazer umas listras.

— Como?

— Caneta permanente – Ela falou tirando uma caneta do bolso.

— Ela sempre tem essa caneta? – Perguntei me voltando para a Carol. Enquanto isso a Sabrina fazia as listras.

— Ela trazia insetos para a aula. A caneta é bem melhor, vai por mim.

— Terminei!! – Gritou a Sabrina

— Falta alguma coisa... – Comentou a Carol.

— Tem razão. Eu vou lá ao meu dormitório.

— E a zeladora?

— Ela saiu. – Disse a Carol olhando pelo espaço estreito da porta. A Sabrina foi lá emquanto eu e a Carol ficamos conversando coisas tolas como minha cor favorita.

— Voltei!!

— O que trouxe consigo? – Carolzinha perguntou.

— As minhas botas e aquela coisa que você bota na saia.

— A corrente – Corrigiu-lhe. Elas me arrumaram e quando me vi estava totalmente diferente de como havia chegado.

— Uou Gabi!! Você ta um arraso. – Sabrina disse.

— Você acha? – Perguntei um pouco corada.

— Ela tem razão Gabi – Carol – Você ta muito bonita

— Vamos voltar para a aula? – Falei tentando mudar de assunto e já me direcionando para a porta.

— Gabi. – Sabrina me chamou.

— Oi.

— A gente não vai voltar – Disse com uma cara séria. – A gente vai para o jardim.

— Você vai transformá-la numa delinqüente Sabrina! – Carol dizia com o nariz empinado. – Porém, eu quero vê-lo também – Elas me encararam determinadas

— São duas contra uma! – Fiz manha – Não vale!

— Não adianta persistir Gabi – A Sabrina me arrastou, literalmente, para o jardim e a Carol apenas vinha atrás.

Essas duas não batem bem.