Um caminho através da escuridão

1 Prolongo: // Nina Jiordana, Lille (França) //


Notas iniciais
Olá pessoal! Eu espero que gostem da estória! Boa leitura
Prolongo://NinaJiordana,Lille(França)//

“Gosto do seu sorriso. Do seu olhar. E de tudo o que vem de você.

–Wer And Nat

Eu andava por aquela grande calçada. Minhas mãos concentravam-se no bolso de minha jaqueta. O tempo, como sempre, estava muito frio. Mas parecia que em vez de Lille, aqui era o Alasca. Corpos passavam normalmente ao meu lado. Eu olhava as vitrines e nunca pensei que um vestido, aparentemente simples, fosse tão caro assim. Apressei mais o meu passo e logo cheguei a um sobrado. Quem olhasse de fora, não saberia o que se passava ali dentro. Toquei o interfone e pude escutar uma voz conhecida aos meus ouvidos.

-Quem é? –aquilo soou comum de mais.

-Abre logo essa porta, Louis! –falo num tom brincalhão.

-Ah, é você? –seu sarcasmo era evidente.

-Nossa! Depois dessa, eu vou embora! –falei no mesmo tom que o seu. Ele riu.

-Você sabe que não devia estar aqui. Se o Mike chegar ele vai brigar! –alerta.

-É só abrir a porta antes que ele chegue. –ele suspirou, eu sabia que ainda não tinha o convencido. –Ele está me escondendo algo. Eu sei que ele não irá me contar. Eu preciso saber o que é. –a linha ficou muda por alguns segundos.

-Você tem dois minutos. –falou e pude escutar o trinco automático da porta ser aberto. Sorri e adentrei a sala. Vistorie o lugar, e tratei logo de subir. Vários colegas sorriam e davam bom dia para mim, mas eu estava muito ocupada para responder algo.

-Ele chegou. –avisou Louis, o que me fez levar um susto.

-Droga. –balbucio. Abro a porta da sala de meu irmão e fecho a mesma rapidamente. Agradeço mentalmente por Dominic estar na sala. Eu percebi que ela levou um pequeno susto, mas quando percebeu que era eu, ela sorriu.

-Dominic! –exclamei animadamente, o que a fez estranhar. – Eu gostaria que me informasse dos últimos acontecimentos. –tentei usar toda a minha inocência e minha beleza angelical, mas é claro que não deu certo.

-Ni –meu apelido – Eu gostaria, mas Mike não permite. –falava calmamente.

-Eu acabei de vir com ele! O carro dele está ali fora. Confesso que implorei até ele concordar. –falo tentando parecer normal. Ela olha para a janela e vê o carro esporte de meu irmão estacionado no mesmo lugar de sempre. Não me importei com sua falta de confiança em mim, eu mesma não confiaria em mim, mas apenas em certas coisas e essa era uma delas. Ela suspirou.

-Caso não encontremos o tal assassino, iremos fechar a empresa. E isso não irá passar desse ano. –no mesmo minuto que ela termina, a porta se abre revelando um Mike raivoso.

-Nina — seus olhos transmitiam raiva, o que me fez desviar seu olhar sobre mim. –Bem que eu desconfiei. –recomeçou – O Louis estava tomando meu tempo demais. Só podia ter dedo seu e dele nessa história. –reclama sentando-se em sua grande cadeira. A essa etapa do jogo, Dominic, já tinha saído. Virei-me para ele e o olhei indignada.

-Nem vem! O Louis apenas estava fazendo seu trabalho. Não mete ele nisso. E além do mais, eu sabia que estava a esconder algo de mim! Sabia! Que droga Mike! Eu só queria saber! E agora que eu sei, eu te acho um completo idiota por não ter me contado nada! –grito em algumas partes e por fim, me sento na cadeira à sua frente. Fico com os braços cruzados respirando rapidamente, meus olhos estão a um passo de despejar todas as lágrimas guardadas.

-Ni –não o olhei –Eu sou um idiota, bem, mas eu só queria protegê-la. Eu sabia que não ia aceitar. –terminou

-Proteger? Por favor! Não sou mais criança e além de tudo eu quero saber quem deu essa ideia ridícula de fechar a empresa caso não encontremos o assassino! – a primeira lágrima de raiva caiu, o que fez eu limpá-la com certa brutalidade.

-O idiota de ideia ridícula sou eu. –minha boca abriu em um perfeito “O”.

-Quê? –perguntei, eu estava rezando para que fosse mentira.

-É isso aí. –disse assentindo positivamente.

-Eu não acredito que fez isso! – exasperei — Dá pra explicar? –grito.

-Claro. –sua voz estava passiva, e eu detestava quando sua voz estava passiva.

-Pois conte! –o apressei impaciente.

-Você terá que se afastar da empresa, pois irá fazer uma faculdade. –eu o interrompo.

-Está louco? O que isso tem haver? E o que? Ahh! Eu estou confusa! –exaspero.

-Calma Ni — eu já deixava que algumas lágrimas corressem. –Eu irei explicar coisa por coisa. –anunciou, me acalmei mais — Ni, nós vamos sim fechar a empresa caso não encontremos o tal homem e fui eu que determinei o tempo. – o interrompo novamente.

-Você só está falando coisas que eu já sei! –relembro.

-Ni, o porquê desse tempo é que precisamos a, novamente, aprender a viver. Nina a gente está nisso a mais de quatro anos e ninguém encontrou nada! Vai que esse homem está morto! –terminou.

-Se ele estivesse morto teria algum registro. –retruquei.

-Também não temos registro dele vivo. –comentou no mesmo tom.

-Talvez ele tenha mudado de nome. –sugeri. Mike revirou os olhos.

-Nós não sabemos quem ele é! –exaspera batendo a mão em sua mesa. –Nós não sabemos nada. Nenhum rastro. Nada. –pausou — Nina, é aí que sua faculdade entra. Eu sei que você quer ser engenheira química. –escutei atentamente, mas a pausa que ele deu estava sendo longa demais.

-O que é que tem haver meu sonho com isso? –pergunto totalmente mais calma.

-Pronto. Quero que você o siga. Quero que você faça faculdade. Porque se nós não encontramos esse cara, realmente iremos fechar a empresa e é claro, ainda temos dinheiro, mas ninguém vai ficar dependendo um do outro. Você entende? –apenas afirmei, sorrindo um pouco.

-Eu entendo, mas esse afastamento da empresa... –ele me interrompeu.

-Você não vai ficar afastada, quer dizer, não totalmente. Ou seja, você não vai estar aqui de carne e osso, mas eu vou te contar tudo. –respirou – Você sabe que eu vou te contar tudo. –terminou. Sorri e me culpei por ter sido tão imatura. Pra falar a verdade, eu sempre fui assim.

-Eu confio em você. –afirmei olhando em seus olhos. Mike respirou, aliviado. – Mas eu ainda tenho que procurar uma faculdade e isso pode demorar, e eu sei que faltam duas semanas para as aulas começarem e eu ainda nem ajeitei nada. –lamentei meio cansada. Mike deu um sorrisinho superior. Arqueei a sobrancelha. Os homens adoram mulheres que sabem arquear sobrancelhas.

-Não se preocupe Ni. –anunciou – Eu já aluguei a sua nova casa, e fica a uns dois quarteirões da faculdade. Eu já lhe matriculei e tudo. Espero que goste. –sorrio abertamente.

-Sério? Isso é ótimo! –falo, animada — E onde fica? Aqui em Lille? — pergunto sorrindo, mas tiro o sorriso do rosto quando vejo que ele está nervoso. Algo está errado.

-É... Ni, essa é uma parte delicada. –esse suspense já estava me matando.

-Quê? Por quê? É alguma faculdade pública? Eu não tenho nada contra. Elas são as melhores. –afirmei.

-Não. Acontece que a faculdade fica em Cannes. –seu olhar estava nervoso, mas não era pra menos, eu detestava Cannes e tinha motivos pra isso.

-Quê? –foi à única coisa que consegui formular.

-É em Cannes. –afirma.

-Você está louco? Eu nunca mais vou pra Cannes! Nunca, nunca mais vou pra Cannes! –falei rapidamente e com um leve toque de irritação na voz.

-Você está escutando o que está falando? –perguntou irritado.

-O que eu falei de errado? –pergunto achando tudo aquilo uma grande palhaçada.

-Que foi que você falou de errado? –deu uma risada irônica – Nina se você está com medo só de voltar para o local onde tudo aquilo aconteceu, como vai sentir-se quando descobrirmos quem é o assassino? –aquela pergunta me pegou de surpresa. A verdade era que, eu nunca tinha parado pra pensar nessa probabilidade. O que eu iria fazer? Eu simplesmente não sabia o que falar, nem o que pensar. As palavras fugiram de minha boca. Ele continuou — Está mais do que na hora de você enfrentar isso. Não, não é algo fácil, eu sei disso, mas faz parte. –terminou e o silêncio consumiu-nos um pouco.

-É eu sei. Eu sou um covarde. –balbuciei sem olhar para sua face.

-Não, não! Você entendeu errado, eu não quis dizer isso! –o olhei. — Eu quis dizer que você tem que ser forte. Forte como você sempre foi. Como você sempre é. –deu uma pausa. –Qual o problema de voltar a Cannes? Não é de certeza que iremos encontrar esse cara, mas eu estou fazendo de tudo pra encontrá-lo. E Nina, eu sei que você seria capaz de tudo caso isso ocorresse. Então, eu sei que você é corajosa, pois você enfrenta essa dor enorme que mora no seu peito todos os dias e saiba que eu também enfrento essa dor, mesmo ela não sendo minha mãe, mesmo não sendo teu irmão de sangue, mas eu me lembro do que seu pai pediu antes de ir embora, antes de te deixar naquele orfanato. Ele pediu para que eu cuidasse de você e talvez eu não esteja fazendo isso muito bem com você aqui. Talvez se você fosse pra Cannes, pra sua faculdade, ele iria amar isso, afinal qual o pai que não gosta de ver sua filha formada? Nina, eu não sei se seu pai está vivo ou morto, mas eu sei que ele te amava e eu senti que, quando ele te deixou comigo, ele confiava em mim. – Mike nunca foi um garoto que gostasse de expor seus sentimentos, e com o passar do tempo eu fui aprendendo isso com ele. Nós éramos muito novos quando fugimos daquele orfanato. Eu não me arrependo, eu tinha meu cofre que meu pai tinha deixado comigo, eu só sabia que ele tinha saído sem nenhum dinheiro, pois tinha deixado comigo. Ele tinha me deixado naquele orfanato e me lembro de toda noite eu chorar e chamar seu nome antes de, desoladamente, pegar no sono.

-Mike, você é um ótimo irmão. Eu não podia ter um melhor. Você é perfeito por suas imperfeições. Eu só tenho a agradecer por você ser você, enquanto o mundo a fora é composto de pessoas falsas. Você ameniza a minha dor, pois eu sei que se eu chorar ou desmoronar você vai estar lá a me segurar. Eu tenho você, tenho meu melhor amigo e essa equipe que querendo ou não se tornaram minha família. Eu amo muito todos vocês. –a essa etapa, eu e Mike já estávamos abraçados e chorando. Está bem, às vezes somos sentimentais demais.

- Eu também te amo muito. –ele sussurrou, sorri inalando seu cheiro. Separamo-nos, mas continuamos de mãos dadas. –E como é seu último dia aqui, você pode participar da sua última reunião, se quiser. –falou.

-Eu quero e não sei se fico feliz ou se choro por ser a última. –ele riu e me puxou para mais um abraço. –Mas vamos né? –chamei-o assim que terminamos de nos abraçar.

-Ah, sim. Já estamos atrasados. –lembrou olhando para seu relógio imaginário. Por mais que Mike fingisse ser um grande empresário, ele nunca iria conseguir ser, ele é muito desorganizado e infantil. Continuamos andando.

-Você tem notícias do Logan? –pergunto assim que passamos por uma máquina de café, pois isso me fez lembrá-lo. Ele amava tomar café e era meu companheiro de brincadeiras. Sempre fomos muito amigos, o que fez Louis ficar afastado de mim por um tempo. Ele não admite, mas Louis sentia muito ciúmes de mim e Logan. Até que Logan teve que ir para Bradford, em Londres, e me deixou aqui.

-Ah, ele está muito bem. Esqueci de avisar-te, ele mandou um beijo pra você. Então sinta-se beijada. Eu não sei o que você teve com esse garoto, mas eu não gosto muito dele. –fez birra, o que me fez rir.

-Você sabe que ele já nos ajudou muito. –disse a ele com um olhar de reprovação.

-Mas também nos deixou na mão rapidinho. –eu o bati, ele fez uma carranca.

-A gente não podia deixá-lo aqui, sendo que ele queria ficar em outro lugar. –disse meio triste.

-É eu sei talvez eu tivesse um pouquinho de ciúmes dele. –falou baixinho, mas foi o suficiente para eu ter um ataque de risos.

-Pouquinho? Ahh, está bem! –brinquei. Ele sorriu e abriu a porta da sala de reunião.

-Primeiro as damas. –falou fazendo um gesto de cavalheirismo.

-Para com isso! Quem vê, pensa que você é realmente um cavalheiro! –tiro sarro da cara dele. Assim que entramos, estava uma grande conversa.

-Graças a Deus que vocês chegaram! Eu já estava pra colocar a polícia atrás de vocês, mas aí eu lembrei que essa empresa é clandestina, então não iria dar certo. –o exagerado do Louis falou, o que fez os outros rirem. Sentei-me ao seu lado.

-Primeiro essa empresa não é clandestina e segundo, até parece que você estava preocupado! — quando disse isso, alguns começaram a caçoar do Louis.

-Ohh Nina, seu amor por mim me encanta! – exclamou, Louis, irônico.

-Está bem. Vamos parar e começar com a reunião? –Mike perguntou tentando esconder um pequeno sorriso.

-Está certo, Mike. Já estamos sentados, então comece. –Daniel falou.

-Pois bem gente, essa vai ser a última reunião da Nina. Bom, eu sugiro que a gente passe a limpo o caso. Daniel? –Mike pediu para que Daniel prosseguisse.

-Ahh — era visível e audível a falta de interesse do Daniel, mas eu apenas me calei. –Estamos à procurado assassino da mãe de Nina há mais de cinco anos. –ele deu uma pausa e eu tentei controlar minha vontade de corrigi-lo, mas quem fez isso foi Mike.

-Ahh, por favor, Daniel. Menos ironia. –pediu impaciente.

-Está bem. –mas eu sabia que nada estava bem. — Até agora as únicas pistas que a gente tem... É.... Deixa-me ver aqui no papel, pois são muitas! –falou olhando para um papel em branco. Daniel sempre conseguia fazer uma crítica por meio de suas ironias e eu detestava isso nele. Minha vontade era de mandá-lo embora, mas ele era muito bom como investigador de informações.

-Daniel! –dessa vez foi Louis que exclamou, o que me fez levar o olhar a ele.

-Nenhuma pista, me deixa ver, é nenhuma mesmo! – mais uma vez ele usou aquele tom. O que fez todos na mesa suspirar.

-Nossa! Que coisa. –reclamei baixinho, mas não sei se ele escutou ou não.

-Bem, precisamos encontrar... –então Mike começou e continuou a falar algo assim. Eu praticamente me desliguei, afinal, o que eu estava fazendo? Eu tinha que agradecer e pedir para eles continuarem, e foi o que eu fiz. Interrompi Mike e ele me deu a vez de falar.

-Bem, eu estou saindo daqui. – comecei, mas no tempo de minha pausa, Louis acrescentou:

-E consequentemente, eu também. –sorri e afirmei. Continuei:

-Então, eu e Louis estamos saindo daqui e eu realmente espero que vocês façam valer à pena esse ano que nós ainda temos. –olhei para o lado, não queria encará-los, mas me vi sujeita a isso. –Por favor, vocês sabem o quanto isso é importante pra mim. –Daniel me interrompeu:

-Sim, nós sabemos e me desculpe pelas minhas idiotices, realmente não era minha intenção. Era só pra descontrair o tema. –falou meio envergonhado, mesmo que eu soubesse que ele era um pouco assim, irônico e brincalhão.

-Daniel eu não te culpo, não culpo ninguém que esteja aqui. Vocês são ótimos, os melhores, são a minha família. Então, eu só peço que trabalhem como vocês sempre trabalharam. Eu sei que vocês trabalham demais e eu reconheço isso, mas tentem encontrar algo, por favor. –pedi como alguém que irá parti e nunca mais irá vê-los, mas talvez fosse assim.

-É somente o que eu peço, eu estou saindo daqui para fazer uma faculdade como todos vocês já fizeram. E veja vocês! Vocês têm um futuro maravilhoso. Eu quero ser assim também. Obrigada pelo tempo que vocês gastam e gastaram aqui. –terminei o que fez a sala silenciar-se, mas pude escutar uma nova voz surgir.

-Isso não é perca de tempo, isso é justiça. E Nina, eu quero que você saiba que caso não encontremos esse cara a justiça de Deus vai encontrar. –Jess falou simples, mas eu pude sentir sinceridade em sua voz.

-Obrigada Jess. –o mesmo apenas assentiu.

-E eu acho que é isso mesmo que a Nina disse. Temos que trabalhar como se fosse o último dia. –Mike falou.

-Então vamos todo mundo pra praia! –só podia ser o Daniel, mas todo mundo riu.

-Eu realmente quero encontrar esse cara. Já não é mais questão de orgulho, é questão de ver minha irmã feliz. Eu não aguento mais vê-la chorar antes de dormir, eu não aguento mais vê-la sofrer. – Mike olhou pra mim enquanto falava. –Só quero te lembrar, que a justiça de Deus pode demorar, mas ela sempre ocorre. É diferente da nossa justiça. Deus sabe tudo. –quem ouvisse isso até pensaria que ele é uma pessoa da igreja, mas só quem não conhece mesmo.

-É eu sei, e agradeço por todas as palavras e atos. Mas acho que já vou, tenho que ajeitar minhas malas. – os demais assentiram, enquanto eu abraçava Mike.

-Eu irei com você. Tenho que ajeitar minhas coisas também. –anunciou Louis, e eu apenas assenti.

-Ótimo. Então poderemos ir de carro para Cannes na madrugada. – falei, Louis parou pra pensar um estante e acabou concordando.

-Vocês podem pegar qualquer carro, menos o meu predileto é claro. –sugeriu Mike.

-Você bem que podia me dar um desses carros. Sabe, tem gente que necessita. –ele falou como se o “sem nada” fosse ele. Eu ri.

-Cala boca Lou. –esse era seu apelido.

-Vamos né? –Lou perguntou, assenti.

-Até logo pessoal. – acenei e saímos. Eu nunca gostei de despedidas e acho que nunca vou gostar. Às vezes era muito meloso e eu não gostava de coisas muito melosas. Lou e eu conseguimos sair do sobrado depois de uns 20 minutos. Senti-me uma estrela total. O sol já começava a se pôr e eu amava ver tal ato.

-Bom... É. –começou Lou, eu o olhei. – Esse fim de tarde está deixando o clima frio, né? –pergunta meio enrolado, eu o olhei confusa.

-O dia todo é frio Lou. –falo ainda com o mesmo olhar. Ele ri irônico.

-Foi só um jeito de tentar puxar assunto, ok? –exclamou, fingindo estar magoado. Fiz um barulho não identificado, eu sempre fazia esse barulho, seja com raiva, alegria, tristeza ou surpresa.

-Péssima maneira de puxar assunto! –disse. Louis ignorou meu comentário e puxou outro assunto:

-Estou feliz que a gente vá para Cannes. –falou animadamente. Revirei os olhos.

-É claro você vai ver sua família. –falei com um pouco de raiva, não por ele ir ver sua família, mas pelo fato de voltar a Cannes. Mas no mesmo momento que eu disse isso, me arrependi.

-Eu já nem ligo mais pra sua falta de interesse na minha felicidade. –falou baixo, mas eu pude escutar o quanto sua voz saiu machucada. –Já me acostumei com a ideia de você não se importar comigo. –eu o interrompi.

-Eu me importo com você. –falei meio sentida.

-Não parece. –deu uma pausa, o que só me fez aumentar meu olhar de tristeza.

–Eu não quero conversar sobre isso. –olhei para frente, mas eu sabia que ele não pararia de falar.

-E sobre o que você quer conversar? –deu uma risada debochada — Do quanto você é digna de pena? –ele cuspiu essas palavras na minha cara. –Do quanto você é coitadinha e que todos fazem isso por você? –terminou, a raiva me consumiu.

-Quê? –pergunto parando de caminhar.

-Não, eu estou falando sério. –ele também já tinha parado de caminhar. A rua estava deserta, o que era bom.

-Meu Deus, Louis! –respiro com dificuldade — Sabe que tudo que eu menos quero é pena! –exasperei.

-Ahh! Mas você faz por onde! –seus olhos estavam com algo desconhecido. O que esse menino andou fumando?

-Desculpe-me se eu não tenho família. Desculpe se eu não tenho casa, uma casa onde quando eu chagar irá ter uma mãe, um pai de braços abertos pra mim. Desculpe se pra você eu sou apenas mais uma garota digna de pena. –eu pude ver o azul de seus olhos voltarem ao normal, pude ver que ele estava arrependido. –Eu realmente pensei que você fosse meu amigo. – e com isso, eu saí de perto dele. Eu estava com muita raiva para poder pensar direito.

-Nina. –a sua voz não saiu como um grito, ela saiu como alguém que estava arrependido de algo. Virei-me a ele e caminhei lentamente a seu encontro.

-O que é? –eu perguntei, mesmo já tento uma vaga ideia do que se tratava.

-Eu realmente pensei que fosse me deixar falando sozinho. –comentou cabisbaixo.

-Louis, você lembra-se da vez que eu disse que você era especial pra mim? –pausei, ele assentiu.

- Eu não estava mentindo. –terminei. Ele umedeceu seus lábios.

-Eu sei. –pausou. — Eu também disse... –eu o interrompi.

-Eu sei. –respondi, balançando minha cabeça em sinal positivo. –Mas você extrapolou. –falei por fim. Ele se agitou.

-Do mesmo jeito que você extrapola Ni. –ele começou — Desculpe-me sei que não devia ter falado aquilo. Você não quer pena, eu sei. Desculpe-me. Desculpa. –seus olhos imploravam para um sorriso meu. Louis e eu nos conhecemos em Cannes, lembro que ele estava a brincar na rua com seus amiguinhos e eu e Mike estávamos passando, para ver uma casa para morarmos, e foi então que Lou apareceu. Ainda me lembro de suas bochechas coradas por causa do frio que atormentava a região. Assim que me viu, foi até meu irmão perguntar se eu podia brincar com ele. Lembro-me de meu irmão me deixar ir enquanto ele ainda estava vendo a casa. Eu e Lou brincamos de tudo que se podia existir e até brincamos de coisas fantasiosas. Depois de brincarmos por horas, lembro que eu pedia freneticamente para Mike comprar a casa, que era ao lado de meu mais novo amigo. Sorri com todas essas lembranças, pois me ajudou a recordar que ele era um ótimo amigo e que em partes ele estava certo.

-Eu sei, só nunca mais fala isso. –pedi. Ele cruzou os dedos e os beijou como uma forma de prometer algo.

-Obrigada. –falou e eu sabia que era porque eu tinha o perdoado.

-E me desculpe também. Que droga eu tenho na cabeça? De falar e falar da minha vida e não escutar a sua? –brinco, ele ri.

-É. Eu acho que você tem muita merda de passarinho. –concordou ele. O bati de leve, o que fez levar a sua mão em direção da batida.

-A gente não era pra ter brigado. –comentei.

-Eu não era pra ter falado aquilo. –lembrou. — Eu estou me sentindo um inútil! –exasperou, sorri por ver tamanho drama.

-Você não é inútil, mas com certeza é idiota. –brinquei, ele me lançou um olhar irônico.

-Mas eu te aguento. –lembrou. — E isso você nem agradece! –revidou, ri irônica.

-Eu sei que você me ama! –falei importante, mas pude o sentir revirar os olhos.

-Pra falar besteira, você sempre se supera! –falou desdém.

-Eu sei, eu sou demais! –o ignoro.

-Ai meu Deus, começou a se achar. –falou baixo.

-Eu não estava perdida. –revidei, ele me olhou por um estante e então, começou a rir fazendo assim que eu risse também. Nós éramos bem assim ... loucos.

-Estou muito louco para ir para Cannes. –ele mudou de assunto, como quem pisca os olhos. O olhei assustada.

-Da última vez que falou isso, nós brigamos. –o lembrei, ele sorriu baixo.

-Eu sei que tem problemas com ela, mas Cannes não é culpada por tudo ter acontecido. Cannes apenas foi o local onde aconteceu. –relembrou, suspirei.

-Você me conhece bem. –falei por alto, ele riu.

-Bem mais do que eu gostaria. –suspirou. O olhei indignada.

-Nossa! Você e o seu poder de me machucar. –falei, ele olhou estranho.

-Não. – começou. — Você e o seu jeito de me magoar. –falou.

-Vamos brigar por isso também? –pergunto.

-Pode ser. –diz de um jeito maroto. Sorrio.

-Vou sentir saudades de Lille. –eu disse meio que de repente, ele levou os seus olhos ao meu encontro e me observou.

-Não, você vai sentir saudades de quem irá ficar em Lille. –parei pra pensar melhor no que ele acabara de dizer. Era verdade.

-É, pode ser. –falei cabisbaixa.

-Lille não é nossa cidade. É Cannes. –relembrou-me. Sorri em resposta. –Dê uma chance a sua cidade. Talvez a sua mãe quisesse que você voltasse lá. –o interrompi.

-Não acredito que ela seja tão burra. – falei mal humorada.

-Ei! –reclamou.

-Sei lá –comecei. –É que... Não sei. –falei por fim. Ele me olhou divertido.

-Você está pronta Ni, se é isso que você quer saber. –sorri. –Eu sinto que você é como uma pequena lagarta e todo esse tempo aqui em Lille era como se fosse seu casulo. Mas você sabe que pra se tornar uma borboleta você tem que mudar de fase. Você está tendo essa chance agora. É só sair do casulo, ver as lindas asas que você tem e voar. –o olhei surpresa. O que é que deu nessas pessoas pra ficarem falando coisas tão lindas?

-Nossa! –exclamei surpresa por todo esse falatório. –Não é normal ver você dando uma de autor de autoajuda. O que foi? Nunca te vi lendo esse tipo de livro! –brinquei com sua cara, mas ele sabia que era meu jeito de lhe dizer obrigada.

-Então posso continuar falando besteira? –sugeriu.

-Com certeza. –assenti. A noite já estava caindo sobre nós, mas agradeci por Lille ser uma cidade cheia de postes. Muitas vezes, as pessoas ao nosso redor nos olhavam curiosas, mas não era pra menos. Eu e Louis éramos assim, amávamos conversar por longas horas.

-Sabe, eu tinha amigos em Cannes... -ele já iria começar outro assunto e com certeza era isso que eu mais gostava no Louis, pois ele nunca ficava sem assunto. Mas ao escutar aquilo que ele disse, eu o interrompi.

-Espera. –alarmei. — Você tinha amigos além de mim em Cannes? –perguntei fingindo surpresa. Eu já comente que adoro tirar sarro da cara dele?

-Não, depois dessa eu me senti um completo antissocial. –resmungou. Ele havia fisgado a isca direitinho.

-Louis, você é um completo antissocial. –assenti enquanto falava.

-Claro que não! –negou petulante. Eu ri. –Só por que nas festas eu gosto de mexer no meu celular, não significa que eu seja um completo antissocial! –eu sabia que ele havia entrado na minha brincadeira.

-Você é antissocial! –assenti, e no mesmo momento estava passando um casal. Eu aproveitei o momento e me virei para o casal dizendo:

-O Louis é um completo antissocial! –eles riram da minha cara e pude escutar Lou pedir desculpas por mim e me arrastar para mais longe dali. Assim que saímos de perto, ele começou a rir, o que me fez rir também.

-Você é louca e, sim, eu tinha amigos. Eram três. –eu o aplaudi, ele riu.

-Olha as coisas melhorando! –comentei.

-Eram duas mulheres e um homem. –comentou convicto, mas logo um olhar de dúvida lhe surgiu. –Ou seriam dois homens e uma mulher? –o olhei intrigada e surpresa.

-Não, depois dessa! Pelo amor de Deus! –reclamei. –Não sabe nem os amigos que tem! Jesus! –exclamei.

-Não, não! –balançou as mãos — Eram dois homens e uma mulher! –suspirou aliviado.

-Não sei se acredito em você depois dessa. –falei rindo. –Mas me conte mais deles. –pedi.

-Tem o Julian, ele é Francês e costuma ser um ótimo ouvinte e amigo. Ele é muito especial para todos nós. Ele sempre nos ajudou quando tivemos dúvidas. Tem o Harry, ele é Britânico e tem um gênio forte como você, mas é só nisso que se parecem. O Harry é extremamente pontual, quando chegávamos atrasados em algum compromisso ele sempre dava um sermão de como é importante a pessoa ser pontual, para que possa ser um bom profissional. Mas tirando isso ele é uma boa pessoa. O Haz é meio difícil, pois sofreu muito com o amor, mas com o tempo você se acostuma. –deu uma pausa para respirar e fiquei tentando imaginá-los em minha cabeça. –E por fim, tem a Jane. –ele deu um grande suspiro, como fazem os que estão apaixonados.

-Ah, entendi esse seu suspiro apaixonado! –zombei.

-Quê? Suspiro apaixonado? Eu não! –enrolou-se todo, o que me fez rir mais.

- “E por fim, tem a Jane”. — o imitei, mas é claro que eu coloquei bem mais dramático. –Se isso não foi um suspiro apaixonado, eu sou uma foca! –ri mais ainda.

-Foca? Então eu vou levá-la agora para o circo. – fez como tivesse me levando para algum canto. Ri.

-Louis, você não é engraçado. –digo fazendo desdém.

-É já me disseram isso. Mas eu tento continuar com essa minha carreira, mas ninguém me aceita como eu sou. –fingiu que estava a chorar, eu o abracei de consolo.

-É Lou, só eu te entendo! –fingi chorar também, mas logo caímos na risada.

-Idiota, mas você gosta mesmo dela? –perguntei por fim. Ele olhava nervoso.

-Ela é minha amiga, igual aos outros. –respondeu.

-Ah, então você também gosta de homem? –perguntei para encrencar. Ele revirou os olhos.

-Idiota! –foi à vez dele de me chamar assim.

-Não, eu só estou perguntando! –levantei as mãos pra cima. –Pois se os seus sentimentos por eles são os mesmos que por ela, então meu bem, você também está apaixonado por eles. –falei rindo. Ele revirou os olhos. –Cara, você está apaixonado por ela! Deixa de ser burro! -repreendi –o.

-Ei, eu não sou burro! –reclamou. –E não estou apaixonado por ela! –adicionou.

-Meu bem, negar é primeiro sintoma! –exclamei.

-Você é tão má! –disse após uns segundos.

-E você é tão cego! –reclamei.

-Mudando de assunto. –anunciou.

-Ah, claro! Por que em um momento desses, em que eu estou certa, você quer mudar de assunto! –exclamo, mas ele me ignora.

-Eu já liguei pra ela e pra minha mãe... –eu o interrompi.

-Ligou pra ela! –exclamei.

-E pra minha mãe! –enfatizou bem “minha mãe”.

-Ah, a tia? Como ela está? –perguntei animada.

-Ela está muito bem! –respondeu-me.

-Eu estou morrendo de saudades dela! E daqueles biscoitos que ela sempre fazia! –relembrei.

-Eram ótimos. –concordou. Neste momento estávamos perto de chegar em casa. O que me fez agradecer.

-Cara, eu estou morrendo. –falei me jogando em cima dele.

-Não, eu que estou morrendo, afinal não é você que está levando você. –ele falou cansado.

-Isso soou estranho. –ri de leve, então percebi que já havíamos chegado. –Acho que já fazia um tempo que não nós falávamos assim. –lembrei-o.

-Verdade. –concordou. – É melhor eu pegar o carro logo agora? –perguntou.

-Sim e dá pra chegar aqui as quatro da manhã? –perguntei cansada.

-Dá sim. – respondeu. Joguei a chave da garagem para ele e logo saiu com o carro, me entregando a chave da garagem. E pude o ver ir embora. Ele não morava longe, era bem perto da minha casa. Eu estava tão cansada, mas tinha que criar forças e foi o que eu fiz.