Um caminho através da escuridão

2 Capítulo um: // Nina Jiordana, Lille França //


Notas iniciais
Bom capítulo...

Capítulo um: //Nina Jiordana, Lille(França) //

“Você pode fechar os seus olhos para as coisas que você não quer ver, mas não pode fechar o seu coração para as coisas que não quer sentir.”

–William Shakespeare.

A casa estava uma zona, pois Maria, a nossa empregada, estava de folga. Não liguei pra isso e fui tratando de ir logo para meu quarto. Eu realmente iria sentir saudades dali, dessa grande e confortável casa. Mas era verdade o que Lou disse: eu iria sentir falta das pessoas que ficarão aqui. Mike, Maria, Dominic, o pessoal da agência. Seria difícil, mas isso seria mais um obstáculo para enfrentar. Eu teria que aceitar o fato de ter que começar uma nova vida em Cannes. Eu, realmente, gostaria de esquecer o que ficou lá, mas isto é uma parte de mim. O meu quarto estava uma bagunça, o que fez lembrar-me do que Mike diria. Sorri e suspirei antes de entrar. Peguei minhas malas e comecei a colocar tudo que era meu e que eu gostaria de ter lá em Cannes. No começo eu dobrei blusa por blusa, até que me cansei e comecei a jogar tudo bagunçado na mala, afinal, eu teria que engomar tudo mesmo. Quando eu já estava perto de acabar, resolvi ir ao quarto de Mike e vi que ele tinha escolhido algumas malas, o que achei estranho, pois somente eu iria viajar. Mas isso não foi somente o que eu achei esquisito, também tinha remédios espalhados por sua mesinha. Peguei um dos frascos, mas não absorvi nenhuma informação, pois era como se as palavras estivessem em grego. Devolvi-os no mesmo canto e abri seu closet. De longe, o quarto do Mike era o mais arrumado. Sorri ao ver todos os seus blusões, blusas, calças e outros, arrumados lindamente. Fechei o closet e deitei em sua gigantesca cama e foi aí que eu me dei conta de que sentiria, realmente, sua falta. Não que eu já não soubesse, mas é que olhando para suas coisas e relembrando nossas histórias e dificuldades, tudo parecia mais forte e difícil de dizer adeus. Fiquei ali deitada, pensando que eu não poderia ser fraca. Olhei a hora em meu celular e já passavam das sete da noite. Suspirei. Eu sabia que Mike não voltaria tão cedo. Então, eu acho que se eu dormisse um pouco, não haveria problema.

//Mike Drew, Lille (França) //

A noite poderia ser um grande problema para mim. Eu sempre saia tarde da agência e quase sempre dormia mal. Mas aquele dia foi diferente. Nina iria embora de madrugada e eu poderia ter a feito companhia, mas não. Eu tinha que ficar aqui. Dominic estava me ajudando a fechar os computadores e as demais coisas.

–Obrigado. –disse com um olhar cansado. Ela sorriu simples, o que me fez pensar o que leva a pessoa a ser tão feliz assim.

–Você deveria ter ficado com ela. –diz após um tempo. Ela estava com as chaves de seu carro na mão.

–Eu sei. –digo cabisbaixo, mas ela não teve pena de mim. Ela sabia que eu poderia ficar com ela, mas o que ela não sabia era que eu apenas estava tentando encontrar algo antes de todo mundo. Ela me olhou triste e saiu. Era sempre assim, acho que nunca irei encontrar alguém como Dominic, mas sou eu que sou o chato e não corro atrás. Pego meus remédios e guardo-os em minha bolsa. Saio daquele sobrado e direciono-me ao meu carro. Assim que entro, não o ligo de imediato, fico esperando uma força maior tomar-me, mas nada acontece. Pisco os olhos freneticamente e concentro-me em sair daquele local e é isso que faço. Vou seguindo o mesmo trajeto de sempre até chegar em casa. Estaciono meu carro na garagem de minha casa e após certificar que tudo está fechado, eu subo em direção ao meu quarto. Assim que entro no mesmo me surpreendo ao ver Nina dormindo em minha cama. Sorrio, mas logo meu sorriso desaparece ao perceber que deixei meus remédios em cima da mesinha. Culpo-me por ter sido tão desleixado, isso seria apenas mais um motivo para perguntas. Após guardar meus remédios, vou em direção a cama, sento-me e fico a observando dormir, acho que ela sentiu-se observada, pois abriu os olhos lentamente.

–Mike? –sua voz estava rouca e sonolenta.

–Sim? –pergunto com um sorriso. Nina já tinha seus dezessete anos, era tão crescida. Iria fazer dezoito anos no próximo mês. Já eu era dez anos mais velhos que ela.

–Já está na hora de ir embora? –perguntou fazendo um pouco de esforço para levantar-se, mas acabou desistindo.

–Não, pode dormir. –acalmei-a — Eu só estava lhe observando. –expliquei, ela sorriu de leve.

–Mike, você poderia me acordar às três da manhã? – pergunta bocejando. Escuto atentamente e programo o despertador.

–Não se preocupe. –asseguro. –E me desculpe por não ter vindo cedo. –pedi, ela já estava com a cabeça encostada no travesseiro.

–Eu já estou acostumada. –murmurou e caiu em um sono pesado. Sorri e acabei por dormir ao seu lado.

//Nina Jiordana, Lille (França) //

Eu não acredito que exista uma maneira legal de acordar, mas eu acho que acordar ao som de buzinadas desenfreadas, está na lista dos piores jeitos.

–Que droga é essa? –grito levantando da cama rapidamente, mas logo me arrependo, pois acabei por ficar tonta e por acordar Mike.

–O quê? –perguntou atordoado. Eu nunca pensei que em Lille pudesse haver loucos que buzinam freneticamente à porta de sua casa. Bufei e fui em direção a janela, percebi que ainda estava escuro, mas pude ver que era o carro que Louis havia pegado para viajarmos.

–Ai meu Deus! Ele vai me matar! –gritei.

–O quê? –Mike ainda estava lesado e eu pedi mentalmente que ele voltasse ao normal.

–Mike! Você disse que ia me acordar! Agora o Louis está lá embaixo! –gritei desesperada, tentando encontrar meu calçado. –E ele vai me matar! Vai lá embaixo e abra a porta! –apontei freneticamente para a porta do quarto.

–Me desculpe. –gritou e saiu correndo. Entrei às pressas no banheiro.

//Louis Tooley, Lille (França) //

Eu já vinha planejando essa mudança há meses. Mike havia me dito que Nina iria viajar para Cannes e que eu poderia ir também. Eu já tinha contratado um grande carro para levar meus móveis e utensílios. Eu acho que Nina não percebeu nada, às vezes ela poderia ser bem lesada. Agora, eu só tinha uma mala com roupas e produtos de uso pessoal, e sem tirar o fato das roupas sujas. Mas o bom de morar longe da família é que, assim que você volta a sua mãe faz tudo pra você; mima-te, faz à melhor comida do mundo, lava a sua roupa suja e tudo isso sem pestanejar. Eu estava ansioso por isso. Agora, eu estava terminando de me arrumar, mas não parava de pensar na minha sorte de ter conseguido uma boa grana com meu apartamento. O cara para quem eu vendi, iria ser um homem de sorte, pois a janela do meu quarto dá uma ótima visão para o quarto de minha vizinha. Eu sei que não consegui o melhor preço, mas era o que ele podia pagar e eu não estava arrependido.

Olhei em meu relógio de pulso, que marcava três e quarenta e cinco. Lembrei-me que Nina pediu para chegar a sua casa as quatro, mas algo me dizia que Nina ainda estaria dormindo. Nina sempre foi muito desleixada, acho que já disse isso umas mil vezes. Peguei minhas malas, tranquei toda a casa e pus minhas coisas no porta-malas. Dirigi em direção à casa de Nina, enquanto Lille ainda dormia. Estacionei o carro à calçada da casa de Nina. Direcionei meu olhar às janelas da casa, mas tudo estava escuro. Bufei. Eu já sabia que ela não iria acordar. Comecei a buzinar freneticamente e nada, foi então que eu percebi que tinha de parar de buzinar se não quisesse ser preso. Sai do carro e comecei a bater na porta, mas desta vez foi rápido para alguém abrir a porta. Era Mike, ele ainda estava de camisola, mas estava desesperado. Entrei na sala.

–Desculpe. –pediu — Nina me pediu para acordá-la às três da manhã, mas eu não sei o que houve, acho que estávamos muito cansados. –desculpou-se. Neguei.

–Duvido que ela tenha lhe pedido. –retruquei, isso era bem da Nina.

–Não, o erro foi meu. –pareceu-me sincero.

–Está bem. –suspirei e sentei naquele grande e confortável sofá. Qualquer pessoa poderia dormir naquele móvel sem pestanejar, era simplesmente o melhor sofá de todo o mundo!

–Agora, iremos sair daqui às seis da manhã. –reclamei mais uma vez.

–Ah não! –negou — Talvez vocês saiam daqui às cinco. –riu de seu próprio comentário. Revirei os olhos.

–Ótimo. –reclamei.

–Ei! Eu escute! –uma voz abafada veio lá de cima. – Eu já estou terminando o banho! –era Nina. Eu e Mike arregalamos os olhos.

–Você escutou o que eu escutei? –pergunto assustado, ele assente. –Meu Deus! Ela já está terminando o banho! Isso é inacreditável! Depois dessa vou ter que ir me confessar, pois é como se tivesse começado o apocalipse! –exclamei e não estava sendo irônico. Isso, realmente, era algo histórico. Já eram umas quatro e vinte quando ela apareceu na escada.

–Tempo recorde! –anunciou — Vinte minutos! –disse orgulhosa. Eu e Mike nos aproximamos e começamos a “vistoriá-la”.

–Ela está cheirosa, limpinha, com roupa bonita, e não menos importante, está com sua bolsa do dinheiro. –falei enquanto Mike apenas assentia. –Você realmente provou que é capaz de ficar pronta em vinte minutos. Estupendo! –falei maravilhado com a ideia de não mais sairmos às seis horas do dia.

–Está bem! Já me zoaram muito! –exclamou risonha.

–Ah não! –fiz birra. –Ainda está no começo do dia, eu ainda vou lhe perturbar muito! –garanto-a.

–Lou, minhas duas malas estão lá em cima, pode pegá-las? –pediu e já sabia que quando ela estava sendo educada demais, era porque ela queria ficar a sós.

–Essa é minha deixa. –falo subindo as escadas e indo em direção ao quarto da mesma.

//Nina Jiordana, Lille (França) //

Virei-me para encarar melhor Mike. Ele estava nervoso. Eu acho que ainda não citei que detesto despedidas.

–Que remédios eram aqueles? –perguntei, eu estava preocupada pelo fato de meu irmão poder ter algo sério e eu não saber. E ele sabia do que eu estava falando. Suspirou.

–Bom... Aqueles remédios são de Dominic. –franzi a testa.

–Mas ela não irá precisar dos remédios? –perguntei desconfiada.

–Ah sim! Ela esqueceu-os aqui. –explicou. — E pediu para que eu os guardasse. –adicionou.

–Mas é algo grave? –pergunto curiosa.

–Ah não. Não é nada grave. Problemas de mulher. –terminou e não pude deixar de sorrir.

–Você sabe que eu posso pesquisar os nomes dos remédios e saber do que se tratam. –ele deu de ombros.

–Eu sei, mas só iria encontrar o que eu já disse. –falou normalmente. Se ele estivesse mentindo, eu apenas o mataria.

–Está bom. –falei. –Mas o que ela andou fazendo aqui? –ele parecia perdido. –Não vai me dizer que... –um sorriso já brotava em meus lábios.

–Está bem, eu lhe explicou. Nós meio que estamos juntos, mas nós concordamos em não contar para ninguém. Desculpe. –ele estava meio nervoso, o que eu achei fofo.

–Que legal! Eu sabia que iam ficar juntos! Vocês foram feitos um para o outro! –exclamei. Seus olhos brilharam.

–Você acha? –perguntou esperançoso.

–Claro, e além do mais, eu quero sobrinhos! –dei um beijo estalado em sua bochecha e o abracei com força.

–Não prometo nada. –sussurrou. Ficamos abraçados meio que por muitos minutos.

–Eu irei sentir sua falta. –falei assim que nos separamos.

–Eu também irei, mas logo nos veremos. –garantiu-me. Sorri amarelo.

–Que pena que Maria não está aqui, ela podia, pelo menos, lhe amparar. –ele negou.

–Não mesmo. Acho que eu que iria ampará-la. –ri fraco.

–Desculpe, mas Ni, eu já coloquei as malas no carro. –a voz de Lou soou ao meu lado. Sorrio para ele.

–Claro. –digo simples.

–Venha, irei deixá-los até lá. –falou Mike, mas o impedi.

–Não, por favor, não. Eu detesto despedidas. Fique aqui. –pedi e pude ver que ele não concordou muito, mas acabou assentindo.

–Lou cuide dela, e Nina não faça nada de louco. E lembre-se sempre, posso estar longe em matéria, mas em coração eu sempre irei estar perto. –ele me abraçou pela última vez e, enfim, saímos. Tentei controlar as lágrimas, mas foi em vão. Lou me abraçou.

–Eu estou aqui. –lembrou-me. — Você nunca irá estar sozinha. – adicionou.

–Eu posso voltar pra casa? –pergunto como uma criança.

–Ainda nem saímos. –ele deu uma pequena risada. Fomos em direção ao carro. Lou não ligou o carro de imediato, ele ficou me olhando como se tivesse que fazer isso para poder saber se eu estava bem.

–Eu estou bem. –assegurei, mas eu não estava. A maioria dos adolescentes na minha idade quer viajar, sair de casa e morar sozinhos, mas eu não sei se já falei, eu não sou igual às outras pessoas.

–Tudo bem. –aquilo era mais pra ele do que pra mim. Começamos a nossa viajem as cinco horas da manhã.

–O som é meu. –avisei-o, ele sorrio maldosamente.

–Espere, preciso abrir com chave de ouro. –falou e revirei os olhos. Foi então que ele começou a imitar um som de guitarra e logo depois a bateria, em seguida o baixo e logo após entrou com a voz: — We're the kids in America, we're the kids in America, everybody live for the music-go-round! –ri um bocado com essa canção, afinal o quão esse menino podia ser idiota? E o que eu mais gosto nesse idiota é que ele me faz rir quando eu mais preciso.

–Mas não somos da América! –falei com dificuldade, pois ainda estava rindo.

–Estraga prazer! –reclamou, então continuou. –We´re the kids in Europe, we´re the kids in Europe, everybody live for the music go-round! – depois da nova versão, eu ri mais ainda.

–Você é uma graça! –brinco. Ele sorri vitorioso.

–Pelo menos te fiz rir. –falou baixinho. Parei de olhar para ele e peguei o mapa que estava dobrado no chão do carro.

–Deveria cuidar melhor das suas coisas. –ele desviou seu olhar por um instante, só para ver do que eu estava falando.

–Não preciso de mapas. –zombou. –Na verdade, eu nem os entendo. Por mais incrível que pareça, eles são mais complicados que você Nina. –ri de seu comentário.

–Bom, então não devo me preocupar. –falei por alto.

–Claro que não. Já viajei para Cannes de carro várias vezes. –falou e então me lembrei que Lou sempre ia pra Cannes quando estava de férias.

–É mesmo. –concordei. –Quantas horas de viagem? –perguntei.

–Que horas saímos de lá? –me respondeu com uma pergunta.

–Saímos às cinco. –respondi.

–Chegaremos as sete e quarenta e pouco. Afinal são duas horas de viagem, mas sei que nem eu nem você tomamos café da manhã, então quando for lá pra seis e meia iremos parar para comer algo. Está bem? –ele havia planejado tudo, o que me fez ficar surpresa.

–Planejou tudo direitinho. –o caçoei. Ele sorri de lado. –Acho que vou tirar uma soneca, já que depois do café eu irei assumir o posto de motorista. –bocejei.

–Não se preocupe, eu irei dirigir. Afinal, você não saberia o caminho e eu iria ter de ensinar e seria muito chato. Mas eu sei que você ama dormir, então vá em frente. Durma! –neguei relutante.

–Nem pensar, já que não irei dirigir tenho, pelo menos, que lhe fazer companhia. –expliquei.

–Pode dormir. –aquela palavra meio que me atordoou, pois eu deitei minha cabeça e meus olhos acabaram pesando cada vez mais.

–Eu não... –mas não consegui completar a frase.

//Louis Tooley, Dream (Estrada)//

Já era umas seis e vinte e cinco, quando avistei a Dream, a cafeteria que eu sempre passava quando estava indo para Cannes. O café de lá era ótimo, acho que por isso o nome. Nina havia dormido o tempo todo, ela parecia um anjo, mas só dormindo mesmo. Estacionei o carro. Não havia sinal de o estabelecimento estar cheio. Chamei por seu nome, e por fim, ela acordou.

–O que? –perguntou com a voz rouca e atordoada. Sorri.

–Chegamos à cafeteria. –ela sorriu em resposta e se ajeitou um pouco, não que ela precisasse. Esperei que ela saísse e entramos juntos no estabelecimento. O local não mudara muito desde a última vez. As cadeiras e mesas simples, mas sempre bem cuidadas, e o local sempre cheirando bem, me faziam sentir-se mais perto de casa. Nina sorriu pra mim.

–Aqui é ótimo. –falou sorridente e sentou-se em uma mesa qualquer perto da janela. Sentei-me ao seu lado e logo veio Susana, uma mulher de seus quarenta anos.

–Bom dia. –saudou-nos, e nós respondemos. –Estava com saudades Louis, fazia um bom tempo. Vai visitar Cannes com sua namorada? –perguntou curiosa, ela sempre era assim, mas percebi que Nina ficou corada.

–Vamos para Cannes, mas não somos namorados. –expliquei, ela sorriu envergonhada.

–Desculpe-me. O que desejam? –perguntou tentando pular esse assunto.

–Eu vou querer o mesmo de sempre e você Ni? –perguntei-a, ela pensou um pouco.

– Somente um café. –Nina sorriu para mulher. Logo Susana saiu.

–Namorada? Eu tenho cara de sua namorada? –indagou rindo.

–Ah sim, você tem cara de quem está caidinha por mim. Mas não é por nada, mas eu prefiro ser gay a ser seu namorado. –brinquei, mas ela me olhou furiosa.

–Agora sabe por que eu gosto mais do Logan? –sua raiva era evidente.

–Desculpe-me. –peço rindo.

–Isso ria! E saiba que eu nunca iria querer algo com você! Tanto que eu quis ficar com o Logan. –ela estava completamente desnorteada do que falava, mas a olhei curioso.

–Você ficou com ele? –perguntei, ela olhou para a janela.

–O que você tem a ver com isso? Nada! –exasperou. Eu e Nina nunca iríamos ter algo, éramos amigos. Eu sabia que ela não me via daquele jeito, mas eu acho que extrapolei um pouco, mas não admitiria agora. Na mesma hora Susana chegou com os pedidos.

–O que houve aqui? –Susana sempre sentia certas coisas, mas acho que a nossa briga tinha dado ao local uma áurea escura.

–Nada. Não é Ni? –pergunto.

–Não falo com idiotas. Mas Susana não precisa se preocupar. –deu um gole no seu café. –Ah, e o café está ótimo. –sorriu.

–Obrigada. –e saiu com isso. Eu e Nina continuamos em silêncio, mas eu a olhava constantemente.

–Ah qual é? Fala comigo. –ela me olhou e deu um sorriso irônico.

–Vamos embora. — falou e posso dizer que essa foi à última coisa que falou até ali.

//Nina Jiordana, Estrada //

Entramos novamente no carro, isso é claro, antes de nos despedirmos de Susana. O silêncio consumia aquele local. Eu fazia questão de não falar nada, afinal eu ainda estava chateada com ele, mas a maior parte era birra.

–Vamos, fale comigo. –pedia. Eu desviava de seu olhar e pedia, mentalmente, que eu não risse.

–Eu sei que idiota é meu sobrenome, mas, por favor, volte a falar comigo! –exclamou. – Já são sete horas e desde as seis e quarenta que você não fala comigo! –tentou mais uma vez. Aquela situação era hilária. –Fale comigo agora! –ele gritou e pude sentir o carro parando bruscamente. Olhei assustada e vi que quase íamos batendo em um carro parado na nossa frente.

–Seu idiota! Para de falar comigo e olhe pro trânsito! –reclamei. Ele também estava assustado.

–Me desculpe. –pediu. –Mas o que é isso? –saiu do carro e pode ver uma grande fila de carros, todos parados. Ele voltou, sentou-se e suspirou. –Estamos no meio de um engarrafamento. –bufei em resposta.

–Que droga. –murmurei.

–Agora iremos chegar lá pelas oito. –reclamou. Seu maxilar estava tenso. Pus minha mão em seu ombro.

–Está tudo bem. –garanti, ele me olhou curioso.

–O que está bem? –perguntou.

–Entre nós dois. –expliquei, ele sorriu em resposta.

–Acho que vou tirar um cochilo. –eu não estava mais prestando atenção nele, agora eu estava observando a linda paisagem, mas isso foi passageiro, pois logo um carro se meteu ao nosso lado. Bufei. Logo pude ver o vidro do motorista do carro ao lado ser abaixado, revelando assim um garoto com seus vinte anos. Ele sorria, tentando parecer galanteador.

–Olá gatinha. –falou com o mesmo risinho.

–E eu pensando que mais nenhum ser vivo usava essa palavra. –reclamei um pouco baixo, mas foi o suficiente para ele ouvir.

–Esse foi só o começo da nossa conversa. –garantiu.

–Se esse é só o começo, imagina o meio e o fim, e isso é claro, se eu sobreviver até lá. –resmunguei.

–Gatinha, eu acho que você não entendeu. –começou. Eu ri. – Eu quero algo sério e foi só te ver que meu cérebro gritou: “É ela!” — ri escancaradamente.

–Ah, você tem um cérebro? Incrível a medicina para os que necessitam. –zombei.

–Desculpe, não entendi. –fez cara de desentendido.

–Eu não esperava que você entendesse mesmo. –resmunguei e deixei que ele continuasse a falar sozinho. Posso dizer que ele não parava de falar e se pelo menos as cantadas fossem boas...

Quinze minutos depois... E ele continuava falando

Vinte minutos depois... Ele continuava falando. E eu já tinha tentado de tudo! Eu até cantei músicas da Taylor Swift! O jeito foi acordar o Lou.

–Por todo amor que você tem pela sua vida, levanta esse traseiro gordo daí e mata esse garoto! –eu acho que eu estava tão desesperada, que ele acabou acordando depressa.

–O que foi? — perguntou.

–Esse garoto não para de me atormentar, eu vou cometer um assassinato! — exclamei, ele riu.

–E o que você quer que eu faça? –perguntou.

–Eu não sei, eu só sei que quero que ele cale essa boca! — exclamei. Já era sete e quarenta e ainda faltava uma meia hora de viagem. Lou se viu por vencido e saiu do carro.

–Com licença. –escutei ele pedir. O garoto arqueou as sobrancelhas.

–Com licença eu que peço, eu não sei se percebeu, mas eu estou tentando paquerar essa gatinha aqui. –o garoto respondeu, mesmo sem ter nenhuma pergunta. Escutei Lou bufar e cerrar os dentes, eu acho que ele estava percebendo o quão chato aquele criatura era.

–Ô meu amigo. –eu adorava quando ele soava falso — Eu não irei deixar você paquerar a minha N-A-M-O-R-A-D-A! –ele realmente silabou a palavra “namorada”. Pude ver que o garoto estava vermelho. Um a zero pro Louis!

–Interessante você vir só agora. Acho que dormiu no ponto. –finalmente conseguiu retrucar algo, o que fez os seus amigos rirem e baterem as mãos como sinal de “já ganhou”. Lou riu irônico e olhou pra mim, chegou mais perto e me deu um selinho. Foi uma coisa rápida, mas foi o suficiente para o garoto do carro ao lado ficar com vergonha de novo. Eu fiquei um pouco atordoada. Lou virou-se novamente para o garoto.

–Eu realmente tirei um cochilo, mas eu não estou nem um pouco preocupado com você, pois você não é ameaça a mim. Tanto faz você paquerá-la ou não, pois eu e ela nós amamos. Eu só vim aqui porque ela pediu, pois você estava a perturbando, então eu vim pra pedir pra você parar. Eu não quero machucar você, mas você está pedindo. –os punhos de Lou estavam tensionados, eu realmente pensei que Lou fosse bater nele e acho que ele iria, mas o trânsito começou a voltar ao normal. –Se safou por pouco. –dito isso, ele voltou ao carro e ligou o mesmo. Nunca mais vi aquele garoto de novo. Eu ainda estava atordoada pelo que tinha acabado de acontecer. Lou ainda estava nervoso, pois percebi o modo que ele segurava no volante. Logo vi que paramos o carro de novo.

–Tudo bem, senhor policial? – Lou perguntou.

–Ah sim. –começou. –Não se preocupe, foi apenas um caminhão que entrou em confronto com outro, mas agora está tudo bem. –explicou, Lou sorriu. –Está indo pra Cannes? –perguntou.

–Sim. –respondi.

–Que sorte, daqui a dez minutos estarão lá. –disse e deu uma batidinha no ombro de Lou.

–Pensava que ainda ia demorar meia hora. –falei por alto. Lou olhou pra mim.

–Desculpe. –pediu. Assenti.

–Vamos apenas esquecer. –sugeri. Ele suspirou aliviado.

–Já ia me esquecendo. –começou. –Mamãe convidou-a para jantar lá em casa. –deu-me o recado.

–Por quê? –perguntei.

–Deve ser porque estamos chegando de viagem. –sugeriu.

–Tomara que seja só isso. –falei.

–Não se preocupe. Derek não estará lá. –garantiu-me.

–Tomara, já aguentei muita gente chata por hoje. –reclamei, ele riu. –E você vai ficar aonde? –perguntei.

–Na casa da mamãe. –disse.

–Mas vai pelo menos me ajudar com minhas coisas, né? –perguntei.

–Não, afinal, Mike disse que a casa já tem móvel e que está tudo limpo. –disse.

–Nem vai me ajudar a arrumar meu guarda roupa? –perguntei pidona. Ele sorriu. Eu sabia que ele adorava arrumar guarda roupas.

–Mas eu tenho que ir pra casa. –relutou.

–Só pra sua mãe lavar suas roupas sujas? –brinquei, mas eu sabia que era verdade.

–Está bem! –cedeu. — Mande uma mensagem a ela dizendo que só aparecerei na hora do jantar. –assim que ele terminou de falar comecei a escrever.

–Ni. –chamou-me.

–Espera. –pedi, eu ainda estava terminando de escrever. –Pronto. –falei e olhei pra ele.

–Bem vinda a Cannes.

Notas finais
Se estiverem gostando, comentem... Eu preciso saber o que estão achando....
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.