Notas iniciais
ÚLTIMO AVISO: essa fanfic lida com spoilers pesados dos dois primeiros capítulos de Demolidor: Renascido. Vou falar mais sobre a série nas notas finais! Obrigada ao Mad, que não está acompanhando a série ainda mas sempre me apoia muito; à minha mãe; e à minha nova amizade do fandom, karedeviltrash, por surtar comigo :) Boa leitura ~ <3 ~

Karen batucou na mesa da cafeteria que encontraram nos arredores do fórum e olhou pela janela. As ruas, a paisagem de concreto, tudo continuava o mesmo, apenas não era como antes – tinha a impressão de que eram móveis de uma casa prestes a ser vendida, cobertos por um pano para não empoeirar.

Matt se aproximou com dois copos, colocando um deles na frente dela.

— Eu pedi os dois para viagem, caso esteja com o horário apertado.

Ela havia agendado seu retorno para São Francisco no mesmo dia para evitar de ficar tempo desnecessário. Apenas balançou a cabeça, agradecida, bebericando o café com leite e açúcar. Uma parte dela ficava feliz que Matt ainda lembrava as suas preferências – ela repetia em sua mente todos os dias os pedidos usuais dela, de Matt e de Foggy, quando ia tomar café em uma padaria perto de casa.

Uma vez até pediu os três por engano.

Ela afastou aquela lembrança com uma risadinha, e Matt sorriu também.

— Posso perguntar do que você se lembrou agora?

— Nada demais, só de quando vocês reclamavam do meu café.

Matt colocou a mão sobre o peito, exageradamente afetado.

— Não me coloque na vala comum, Page. A senhorita sabe muito bem que eu era incapaz de reclamar do seu café.

— Mas agora você tem uma cafeteira chique no escritório?

— Mas agora eu tenho uma cafeteira, sim.

Naquele momento, Karen se permitiu sorrir, pela primeira vez de verdade; porém o encanto durou pouco, e logo os dois estavam sentados um de frente para o outro de novo, um silêncio ensurdecedor entre eles, mesmo que a rua estivesse barulhenta como sempre foi.

— Olha, desculpa por...

— Por favor, não — Karen cortou a frase pelo meio. — Eu sabia que você iria começar com isso, por isso estava evitando de vir.

A maneira que Matt baixou o rosto, triste, fez com que ela imediatamente se arrependesse da maneira rude que falou. Então Karen esticou o braço sobre a mesa e apertou seu antebraço, buscando confortá-lo.

— Ei, por que você não me conta como vai o trabalho com a Kirsten?

Matt permitiu que os lábios se curvassem levemente para cima.

— Vai bem. Ela é muito mandona, acho que é um resquício do tempo na promotoria.

— É provável.

— E como vai a vida em São Francisco?

Ela deu de ombros e balançou a cabeça.

— Vai... bem, eu acho. Estou procurando um emprego, e vivendo um dia de cada vez.

Novamente, o silêncio se instaurou entre eles. Karen percebeu que talvez aceitar o convite para um café não havia sido uma boa ideia, porque eles provavelmente iriam continuar com conversas vazias de assuntos sem graça até que um deles tivesse a coragem de abrir a barragem de sentimentos construída cuidadosamente, o que iria inundá-los nas mágoas de palavras não ditas e de momentos que terminaram cedo demais.

Ela tomou mais um gole do café, ainda quente, e verificou as horas no celular.

— Eu preciso ir logo, meu voo sai em menos de duas horas.

Matt instintivamente moveu as mãos para cobrir a mão dela, repousando sobre a mesa, e a maneira como ele apertou os lábios e suas sobrancelhas caíram deixaram transparente, naquele momento, o verdadeiro motivo pelo qual ele a havia chamado para aquele café.

Merda.

Ele queria que ela ficasse.

Karen tentou recuar, puxando a mão que estava sob as dele, em vão.

— Por favor.

O coração dela pareceu cair até a boca do seu estômago. Ela inspirou, movendo os olhos do embolado de mãos sobre a mesa para o rosto dele, tentando manter a calma, mas sem esconder o completo pavor de sua expressão.

— Eu não moro mais em Hell’s Kitchen — Matt começou.

— Eu sei.

— Você pode vir morar comigo, se quiser, ou... ou não. A Kirsten deve ter, ou saber quem tenha, um quarto vago — argumentou, uma chama de esperança aparecendo em sua voz e por trás dos seus óculos. — Você pode trabalhar com a gente no escritório, eu só... Eu só não...

— Matt.

A maneira que ela chamou seu nome foi o suficiente para distraí-lo, e ela conseguiu puxar o braço de volta.

— Eu... não posso. Não posso voltar para Nova York.

Sua expressão caiu, a esperança ali depositada quebrando como uma parede de tijolos da qual as palavras de Karen foram as marretadas.

— Me perdoa, Matt. Não é assim que eu gostaria que as coisas fossem... não mesmo. Mas eu não consigo mais ficar aqui — Karen levantou do assento acolchoado como se realmente não aguentasse ficar ali nem mais um minuto.

— Foi alguma coisa que eu fiz? — Matt perguntou, e ele tornava aquilo muito mais difícil do que precisava ser.

— Por Deus, não — Karen sussurrou e balançou a cabeça. — De modo algum.

— Então pelo menos me dê a chance de conversar!

— Eu não quero conversar!

Karen levantou um pouco o tom de voz, o suficiente para os clientes da cafeteria olharem de relance para a mesa deles. Matt, porém, permaneceu impassível; ele levantou e apoiou o corpo sobre a mesa, limitando-se a dizer:

— Por que você insiste em mentir?

Ela suspirou.

— Quando você me perguntou do que eu tinha me lembrado, não era do meu café. Era porque em São Francisco eu pedi três cafés por engano uma vez. Mas tudo bem, porque eu estava em um lugar diferente e ninguém ia saber que eu tomei três cafés. Mas se fosse com você, eu não poderia chegar e dizer “olha, Matt, comprei sem querer um café para o Foggy”...

As lágrimas que lutou tanto para esconder brotaram no canto dos seus olhos, e Karen esfregou o rosto com a manga do sobretudo.

— Eu não posso ficar porque não vou conseguir olhar para você todos os dias sem me sentir arrependida, sem... sem pedir desculpas por deixar ele morrer.

A vontade de não estar mais ali tornou-se imperiosa de repente, e Karen deixou o café, saindo do meio da calçada e agachando sobre o meio fio. Quando as lágrimas borraram sua visão, e secar com a roupa não adiantaria mais nada, ela cobriu o rosto com as duas mãos e se permitiu soluçar no meio da rua de uma maneira que não fazia há meses.

Não tardou para ela sentir o toque de Matt em seu ombro.

— Eu precisava pedir desculpas — ele disse enquanto se agachava — Por não estar com você quando ele... olha, lutar era inútil. Eu deveria ter ficado com você. Com vocês.

— Pointdexter ia me matar também — Karen conseguiu dizer em meio aos soluços. — Todos os dias eu penso que era eu quem deveria ter morrido!

— Karen, por favor, não pense...

— É verdade! Era eu quem ele queria. Não sei porque ele envolveu o Foggy nisso. No final — ela levantou a cabeça do asfalto para olhar os carros estacionados do outro lado, fungando —, era eu quem ele queria.

No meio daquele frenesi, Karen não percebeu que Matt a abraçou pelas costas, repousando seu rosto exatamente no meio das suas escápulas, ouvindo seu coração agitado por baixo da caixa torácica – mas, quando ela enfim percebeu o calor irradiando entre eles, ela não se afastou.

— Pointdexter queria atingir a mim, somente, então ele foi no ponto mais fraco — o tom de voz dele era baixo, o suficientemente acima de um sussurro para que ela o escutasse daquela posição. — Não pense que você deveria ter morrido. Não é isso que eu quero, e tenho certeza que não é isso o que o Foggy quer, onde quer que ele esteja.

— Eu sinto tanta falta dele...

— Eu também sinto, Deus sabe o quanto eu sinto falta dele todos os dias — Matt respirou fundo, ele próprio lutando contra as lágrimas. — Também queria pedir desculpas pelas vezes que ignorei você. Eu achei que precisava reconstruir a minha vida do início depois que o Foggy se foi.

Ele gentilmente passou os braços por cima do ombro de Karen e a puxou de maneira que seu tronco finalmente ficasse de frente para ele. Ajoelhado, Matt segurou o corpo de Karen próximo, tão próximo, entre os seus dois braços, e repetidamente beijou o topo de sua cabeça enquanto ela chorava. Eles permaneceram assim por algum tempo – instantes ou horas, nenhum dos dois saberia precisar.

No final, quando as lágrimas eram apenas uma ardência nos olhos claros dela e Matt a havia confortado com palavras gentis por tempo o suficiente para ela se sentir melhor, Karen estava ciente de que tinha de escolher entre ficar, mesmo que por mais um dia, ou ir; e, mesmo que não fosse a escolha certa, ou a que seu coração queria, ela se levantou e olhou novamente as horas no celular.

— Eu preciso ir mesmo — tomou coragem para falar, e percebeu o canto dos lábios de Matt se curvar para baixo enquanto ele se levantava.

— Eu vou com você até o aeroporto — respondeu. — Só preciso pegar nossos cafés.

— Matt, não precisa... Matt!

~.~

Ele voltou para pegar os cafés do mesmo jeito.

Karen terminou de tomar sua bebida no banco de trás do táxi, gravando em sua memória a vista cinzenta de Nova York enquanto uma televisãozinha mostrava um comercial repetido de um talk show. Matt, por sua vez, deixou o café esfriar entre as duas mãos no trajeto silencioso até o aeroporto.

Quando chegaram ao JFK, Matt deu uma gorjeta satisfatória para o motorista e correu por trás do carro para abrir a porta de Karen, segurando seu bíceps enquanto caminhavam pelo aeroporto até a área de embarque.

Matt se postou na frente dela, um pouco afastado da multidão.

— Acho que aqui é o máximo que eu posso vir.

Karen apertou os lábios e assentiu.

— Então é aqui que nós nos despedimos...

— Calma — Matt riu, e Karen percebeu uma pontada de desespero naquela risada curta. — Não precisa sair correndo. Eles vão avisar nos alto falantes quando for hora de embarcar. Eu só quero... — ele engoliu em seco. — ... preciso de mais um minuto.

Ela estava nervosa demais para encarar Matt, então tornou o olhar para o café ainda na mão dele e a bengala pendurada no pulso.

— Não vai tomar seu café?

Matt sorriu.

— Vou ter bastante tempo para tomar depois.

Esticando o braço livre, ele tocou o braço dela, que sentiu a pele formigar por baixo do toque.

— Queria agradecer a você por ter aceitado o meu convite. Eu, é, gostei de saber como você se sentia. Por fora e por dentro.

— Claro.

— Nova York vai continuar sendo a sua casa, sempre — Matt deixou os dedos subirem até o ombro de Karen, deixando um rastro de calor por sua pele, ainda que por baixo da roupa. — Eu vou estar aqui. Esperando.

— Certo.

— Mas eu não vou procurar por você.

Aquelas palavras pegaram Karen desprevenida e ela deu um passo para trás, mas Matt permaneceu com a expressão plácida enquanto ainda segurava o seu ombro.

— Como... Como assim?

— Porque você tomou a sua decisão. Então eu não vou ficar implorando para você voltar, ou forçando uma proximidade que você pode não querer ter agora, e eu entendo, porque eu também precisei me afastar.

Karen piscou uma vez, duas vezes, absorvendo o que Matt havia acabado de dizer. Ainda incrédula, ela teve a linha de raciocínio atrapalhada pelo som dos alto falantes: passageiros do voo 3775 com destino à São Francisco...

Karen fez menção de começar a se afastar, mas Matt segurou seu ombro com um pouco mais de firmeza.

— Page, pelo amor de Deus, o avião não vai decolar sem você. Quando você quiser conversar comigo, eu estou a apenas uma ligação de distância. Você pode ligar quando quiser que eu vou atender.

Matt deslizou os dedos novamente até alcançar a mão de Karen, segurando dois de seus dedos e movendo-os em direção ao próprio pescoço, ligeiramente abaixo da mandíbula, e prosseguiu:

— Eu prometo que vou atender. Eu prometo que não vou mais deixar você na mão.

Karen sentiu o pulso estável de Matt por baixo da pele quente de seu pescoço, enquanto o dela aumentava a cada segundo, tão forte que deveria parecer uma percussão nos ouvidos dele. Ela deixou os lábios se partirem em surpresa, sem conseguiu emitir nenhum som. Ao invés disso, apenas balançou a cabeça, os cabelos loiros se mexendo com o movimento.

Matt lentamente deixou ceder, mas ela permaneceu com a mão exatamente onde estava, dessa vez usando os demais dedos e a palma para tocar nele, sua respiração ficando mais entrecortada entre a adrenalina de perder o voo ou de beijar Matt ali mesmo. Ela se aproximou devagar, ao passo que ele passou os dedos por dentro de seus fios de cabelo e trouxe-a para perto em um beijo intenso, em que ambos ativamente tentavam bloquear qualquer contato com o mundo externo, qualquer som que não fosse o das suas respirações recíprocas e qualquer sensação que não fosse o mais puro amor, tão soterrado pela dor dividida que parecia não estar mais ali, mas estava.

Apenas não conseguiram bloquear a voz metálica do alto falante novamente ecoando nos corredores:

Senhores passageiros do voo 3775 com destino à São Francisco, última chamada para embarcar na aeronave...

— É a minha deixa. — Karen recuperou a compostura e ajeitou a bolsa no ombro, recebendo um sorriso enigmático de Matt.

— Esse era o combinado. Boa viagem, senhorita Page.

— Tchau, Murdock. Juízo.

Karen já havia passado o código de embarque e olhou de relance a fila para a inspeção de bagagem, que estava até manejável dado que tinha apenas uma bolsa, quando virou para trás e viu Matt imóvel no mesmo local.

— Vai ficar por aí muito tempo ainda? — perguntou ela, tentando manter um pouco de deboche nas palavras para não perder o costume.

— Eu tenho que tomar o meu café — Matt deu de ombros e continuou sem se mexer.

Depois de passar na revista e correr para o embarque, depois de já estar sentada no assento do avião ao lado de uma mulher e uma senhora, depois que o avião decolou, foi que Karen pensou, ainda com o coração acelerado, que Matt deve ter ficado no mesmo lugar muito depois que o café terminou.


Notas finais
Uau, que viagem foram esses dois primeiros episódios de Born Again! A ideia para essa fic surgiu exatamente em seguida ao episódio, e vou dizer que eu surtei e precisava escrever ela de qualquer maneira. Fico feliz de ter conseguido! Essa fanfic terá mais um capítulo, que eu pensei depois que formulei esse, e resolvi dividir (ao menos aqui no +fiction) porque se não ficaria enorme. Quero postar ele logo! Espero que tenham gostado! Recebam um abraço bem quentinho, e até breve! ~ <3 ~
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.