AINDA TRÊS ANOS DEPOIS:
Seattle, 8h a.m, 04/02

Na aula de química, o professor Jeremy trouxe um experimento para a classe, foi bem divertido, não abrimos o estômago de um sapo, mas valeu a tentativa.
Às 12h15 estávamos tendo a sexta aula, história. A professora Lúcia contava sobre o Antigo Egito, e detalhava os fatos.
E então, o sinal soou e fomos liberados.
Meu pai dissera para pegar um ônibus para retornar para casa, já que ele não tinha condições de estar me buscando todos os dias, e assim o fiz.
Caminhei até a parada de ônibus mais próxima e sentei-me em um dos bancos. Logo, duas meninas sentaram-se ao meu lado.
—Que demora! —murmurava a mais alta, desenfreada.
—Se você quiser, pode ir, não me incomodo de ficar aqui sozinha —responde a garota ao lado.

E depois eu parei de prestar atenção, só percebi alguns minutos depois que a morena, mais alta, já tinha ido embora.
—Ei? Ouviu o que eu disse? —perguntava a loira.
—Ahn, oi. —falei, voltando para terra.
—Perguntei que ônibus vai pegar... Se não quiser dizer, tá tudo bem, eu só...
—Eu vou pegar o que passa na avenida 13, da oitava rua. —respondi.
—Eu sou a Lily. —informou a menina, delicada.
Ela mantinha seus olhos grandes, e azuis em mim, e —por mais clichê e mentiroso que possa parecer —seus longos cabelos ondulados, e loiros, caíam por sob seus ombros.
—Me chamo Tyler —disse, e percebi a minha voz meio falha.
—Eu sei —Lily admitiu, sorridente, e eu a olhei, meio assustado —Você falou lá na sala, eu estudo com você... Dã!
—Ah, claro... —respondi.
—Bem, foi um prazer, mas meu ônibus chegou. Tchau, Tyler, até amanhã.
E assim ela entrou no ônibus, e pela janela, pude vê-la colocando fones de ouvido, fechando os olhos. Não demorou muito até meu ônibus chegar.
Após em casa, e depois quando meu pai chegou, ele fez a pergunta que não quer calar:
—Filho! Fez algum amigo?
—Talvez —falei, subindo as escadas.

QUATRO ANOS ANTES:
Seattle, 14h a.m, 02/05.

Papai estava deitado na cama fazendo massagem na barriga da minha mãe, que choraminga de dor. Ela tem cólicas diárias, quando está... Como é mesmo que elas dizem? Ah, 'naqueles dias'.
—Tyler, pegue mais compressa —pedia-me, meu pai.
E eu ia até lá buscar. Depois de segundos, monótono. Meu pai me chama novamente.
—Tyler...

—Oi, pai? —eu perguntava, do jeito mais atencioso que podia.

—Pegue meu telefone, em cima da mesa, por favor.

—Está tudo bem?
—É claro que está, mas vou chamar o médico, sua mãe está sangrando muito. De novo.
E então eu ia pegar seu telefone, papai ligava pra o médico Robert, que ficou aflito ao vir. Ele a examinou e nos deu medicamentos. Acontece que ele era o médico da minha família há muito tempo, e ele já fazia parte da nossa história.
—Ela ficará bem —garante —, mas precisará fazer mais alguns exames. Talvez amanhã vocês possam passar lá na clínica, ficarei feliz em atende-los e ajudar com o que for preciso.
—Absolutamente. Obrigado.
E assim, a tarde se foi, o sol se pôs às 17h em ponto, o que não era muito comum aqui. Eu só fiquei lá, ao lado dos meus pais, fazendo-os companhia.
—John? —mamãe sussurrou baixinho —obrigada.
—Pelo o que, meu amor?
—Por tudo. Eu te amo.
—Eu também amo você, e sempre vou amar.
Naquele momento, senti que deveria ficar feliz por eles, senti que deveria ser amigável, e abraça-los, mas não o fiz. Uma pontada adentrou meu peito, e fez-se um nó na minha garganta, me obrigando a chorar.
Mas eu não podia chorar, precisava ser forte. Eu tinha que ser. Não que uma vez ou outra eu não entrasse em meu quarto e choramingasse feito bebê, mas cá entre nós, eu só tenho nove anos, e não se espera de uma criança de nove anos que ela chore as escondidas.