Um amor sob medida
2 Definitivamente, uma perdição.
Notas iniciais
“Olhe para o lado, Charlie. Há muito aqui para se ver”.
Eu ralhei mentalmente comigo mesma, obrigando-me a tirar os olhos do traseiro do meu chefe. O era pior? A) Um chefe lindo de morrer, gentil e possivelmente gay ou B) Um chefe feio e que possivelmente te odeia? Eu começava a considerar seriamente a primeira opção.
Gregori Ivanov era a personificação da beleza. O queixo másculo e quadrado, a barba por fazer, os ombros largos e os braços fortes. Eu podia sentir o arrepio que passava por mim só de imaginá-lo sem aquela camisa social.
Suspirei, observando-o e sentindo-me como um cão faminto cobiçando o belo e pomposo frango assado, girando e girando e girando naquele espeto cheio de temperos deliciosos...
— Srta. Moore? – Ergui meus olhos, sentindo minhas bochechas adquirirem um tom característico de vermelho.
Era só o que eu precisava. Ser demitida por assédio sexual. Pigarreei, tentando manter minha expressão séria a indiferente, mas falhando miseravelmente, considerando que meu próprio chefe parecia se divertir muito com a situação.
— Sim, senhor Ivanov?
Ele esticou em minha direção uma pasta grossa e só então notei que havíamos parado em frente a uma sala. – Esta é a sua sala. – Ele declarou com um sorriso amistoso.
Um sorriso mais lindo que o outro. Assim ele fere meu pobre coração fraquinho de pessoa que só come feast-food.
— Espero que você goste, estarei na sala em frente. – Então ele fez uma pausa, esticando-me as chaves da sala. – Se precisar de qualquer coisa, é só me chamar. – Piscou sedutor e eu assenti meio idiota.
Claro, tipo você nu na minha cama? O que acha bonitão? Podemos brincar de médico, de professor, de casinha, do que você quiser...
— Srta. Moore? – Chamou novamente, parecendo confuso. A sobrancelha arqueada e o sorriso presunçoso, no entanto, denunciavam que o cafajeste sabia exatamente o efeito que tinha sobre as mulheres.
Vem aqui, meu querido! Se você pensa que com esse sorriso pode conseguir o que quiser e ainda manter sua pose de gostoso... Bem, você está completamente certo! Eu me daria de bandeja pra esse homem!
Eu dei uma risadinha constrangida — mais pelo meus próprios pensamentos do que por sua expressão, de fato. Eu novamente esquecera de responde-lo, possivelmente, ele devia estar pensando que eu era muito mal-educada ou uma tarada, considerando que eu vinha cobiçando-o por completo desde o andar debaixo. – Certo. Obrigada Senhor Ivanov. Adorei a sala. – Pontuei, ainda que a porta estivesse fechada. Eu indiquei atrás de mim onde uma plaquinha com o nome "Charlotte Moore" estava pendurada. – Quero dizer, não pode ser pior que as minhas outras salas, sabe? Não que ela seja ruim, aposto que é boa, incrível e olha essa placa! Eu só tive uma placa uma vez no peito, porque era garçonete na faculdade... Eu vou... Ali, calar a boca e me organizar. Obrigada e de nada. – Indiquei a sala outra vez e rapidamente atravessei a soleira adentrando a sala gigantesca.
E o prêmio de maior habilidade em envergonhar a si mesma vai para...? Charlie Moore! Palmas para a king Kong do ano!
Por fim, depois de alguns suspiros, eu observei realmente a sala ao meu redor. Havia um painel com alguns desenhos pregados – que em breve seriam substituídos pelos meus desenhos -, além de uma mesa gigantesca em uma extremidade da sala, a vista então... Era formidável, eu conseguia ver o Empire State daqui! Era simplesmente arrasador. Eu suspirei outra vez, observando com atenção o carpete cor-de-rosa bebê da sala.
Minha sala tinha um carpete peludo! Dá pra acreditar?!
Havia três manequins em outra extremidade e uma poltrona que parecia pra lá de confortável.
Céus, esse era meu maior sonho se realizando.
E antes que eu pudesse refrear meus instintos, eu já estava fazendo uma dancinha da vitória da forma mais ridícula que existia.
— Eu estou na Runway. Yeah! Eu estou na Runway. Yeah! – Cantarolei para mim mesma com diversão. – Quem é demais? Quem é a marvilhosa? Uhul! Charlie! Charlie! Ch-arlie! Ch-Ch-Chaaar-lie! Charlie!Charlie!
Eu gritei quando o som de riso atrapalhou meu ridículo desempenho como dançarina.
— Você é a maravilhosa! – Ele pontuou categoricamente e eu me virei lentamente, sentindo cada músculo do meu corpo morrer de vergonha. Certo, eu já posso cavar um buraco para enfiar minha cabeça agora? – E esqueceu de trancar a porta. – Continuou e eu fiz uma careta.
Os olhos escuros fitavam-me com diversão e ele estava displicentemente escorado no batente da porta de braços cruzados. Os músculos em evidência agora que ele usava só a blusa social, aberta dois botões, mostrando o começo de alguns pelinhos em seu peito, inconscientemente eu mordi meus lábios e vi sua expressão mudar drasticamente. Aquele sorriso, o sorriso que dizia “eu sei que sou um baita gostosão e que meio mundo me quer” estava em seu rosto.
— Você viu tudo não é? – Perguntei com outra careta.
Eu tinha que parar com as caretas.Fiz um post-it mental, colando-o em minha... mente (?).
— Claro. Mas acredite, espontaneidade é uma coisa que queremos na Runway. Além de que, se houver um ensaio sobre dançarinas, pensarei em você... Parada, é claro.
Balancei a cabeça, sentindo a vergonha me abandonar e estreitei os olhos em sua direção. – Obrigada.
Gregori riu e som me contagiou. – Vim te passar algumas coisas que precisa saber. Ia pedir para Mia fazer isso mas... – Ele balançou a cabeça. – Ela não está disposta.
— Você podia mandá-la. – Eu disse e me dei conta de como a frase soara. – Não que você estar aqui seja ruim, claro que não. – Até porque, você é um homem muito lindo, um colírio para os olhos. Eu podia te observar e tentar descobrir algum defeito na pele perfeita, no cabelo preto cortado e desorganizado, no sorriso sexy e nos músculos bem esculpidos.
— Certo. – Gregori disse com certa confusão e eu apertei meus lábios, contendo o impulso de dizer mais qualquer coisa que fosse. Eu tinha um sério problema com caras bonitos. – Você será minha parceira... – Ele parou e imediatamente minha mente imaginou diversas opções de parceria.
Por cima ou por baixo? Em pé? Claro. Quem liga pra posição? Parceiros!
— Vamos trabalhar juntos em alguns catálogos importantes. – Ele continuou, alheio ao assedio – abuso – que sofria repetidamente em minha mente. – O primeiro vai ser esse, é pra uma marca importante... Eles querem alguém que desenhe algo que seja inovador, genial, fofo e ainda assim sexy.
— Ok. – Murmurei começando a ficar receosa diante do desafio.
— Observei seus desenhos, Charlie. – Gregori me encarou com intensidade, confiança transbordando de seus olhos. – Sei que você vai conseguir. – Então ele sorriu, estendendo-me outra pasta. – Fique à vontade para visitar as sessões do prédio, há muitas coisas aqui que irão te ajudar.
Gregori e eu continuamos conversando sobre os futuros trabalhos e cada palavra saída de seus lábios, eu tinha cada vez mais certeza: Ele era gay. Bom, os fatos eram óbvios e gritantes e apesar dele ser todo presunçoso, me parecia bastante lógico que ele fosse um ser purpurizado — se é que essa palavra existe. Mas o cara gritava "Hello, bitch. I'm fabulous!"
1)Ele sabia muito, muito mesmo sobre moda. O cara era um guru da moda. Miranda Prewsley não era ninguém perto de Gregori Ivanov – o deus da moda!
Tudo bem, talvez saber muito de moda não seja um motivo tão forte assim. Alguns caras gostavam de moda... Rá! Quem eu queria enganar? Em todos esses anos Vanessaa indústria vital eu nunca vi um homem-homem-homem gostar de moda! Não que eu tenha muitos anos nesta indústria vital.
2) Ele tinha a pele de um pêssego. Não, ok. Ele tinha a pele de um bebê. Macia, sedosa, brilhante e muito mordível. Eu sentia vontade de lamber Gregori Ivanov. O homem era o pecado em forma de gente.
3) Reparando bem, dava para ver que ele tirava as sobrancelhas, e ainda tinha as unhas bem feitas. Que delicinha, meu Deus!
4)Não usava uma aliança. O que é duvidoso, considerando que ele é um pouco mais velho e normalmente homens assim não passam muito tempo solteiros, e imagino que apesar de maior parte da população masculina seja gay, deve ser um pouco difícil encontrar um parceiro que compreenda seus anseios de moda, afinal, eu também sofro muito com isso.
5)Ultimo fato que me chamara atenção. Ele me entendia perfeitamente! Céus, ele parecia a minha psicóloga. Depois de duas horas de conversa, eu confiava tanto em Gregori quanto confiava em Vanessa, certo, não exatamente da mesma forma... Mas nós tínhamos um vinculo, uma ligação. E se havia algo com que eu tinha experiência, eram homens e eles absolutamente nunca me entendiam, parecia suspeito que esse fosse o fazer agora e isso é realmente muita coisa. Por favor!
Era um fato épico, assustador e completamente arrasador. Gregori Ivanov é gay! Para a tristeza da população feminina, esse pecado ambulante, gostava da mesma fruta que eu. Que tragédia!
Tirando a eterna decepção – que jamais sumiria do meu coração cheio de colesterol – meu primeiro dia foi incrível, mágico e maravilhoso! Eu me sentia como Andy Sachs quando ela finalmente aprendeu a se vestir como gente! No fim do expediente, Gregori apareceu para se despedir, depositando um beijo em minha bochecha e a essa altura, eu já havia aceitado sua opção sexual – não que eu concordasse (eu jamais concordaria, vale ressaltar) -, então não me importei em ficar envergonhada perto dele. De qualquer forma, eu não tinha bem o que ele queria, certo?
Porque me descabelar por um homem que não vai me olhar dessa forma?
Mundo cruel!
Por fim, decidi ligar para Vanessa e convidá-la para jantarmos fora, precisávamos comemorar afinal! Vanessa era formada em psicologia e ao contrário do que pensávamos foi muito fácil para ela conseguir um emprego aqui em Nova Iorque, exatamente por isso, eu recebera trinta e três mensagens de texto exultantes da minha melhor amiga.
Assim que estacionei em frente ao restaurante que Vanessa indicara — e que meu GPS encarecidamente passara o caminho mais longo — eu me senti maravilhosamente satisfeita por estar Vanessaa cidade.
Tudo era lindo e vivo. E as cores e os brilhos! Eu estava ficando impossível de aguentar com tamanha animação. O restaurante era sofisticado e apesar de estar lotado, havia somente um burburinho rolando aqui, as pessoas conversavam silenciosamente entre si, como se estivessem querendo guardar segredo. A decoração era creme e haviam velas por diversas partes do restaurante. Quis imediatamente esfolar Vanessa por escolher um lugar tão romântico.
Hello, baby. Eu ainda não superei o fato do homem perfeito — vulgo amor da minha vida — não estar disponível nem hoje, nem amanhã e nem nunca!
— Charlie! — Vanessa acenou de sua mesa e eu sorri, seguindo em sua direção. A loira usava um vestido azul claro, soltinho. Completamente doce, exatamente como ela mesma. O casaco estava no encosto da cadeira e eu imitei seu gesto, retirando o meu e colocando na minha. — Eu adorei essa cidade! — Ela finalmente desabafou com um gritinho, atraindo olhares reprovadores em nossa direção.
Eu ri, entusiasmada. — Eu também. Você viu o prédio que o King Kong sobe? Eu tenho uma vista para ele!
Vanessa riu também. — Me conte mais. Depois eu conto. — Ela praticamente ordenou e eu tratei de contar absolutamente tudo. Contei sobre como o prédio da revista era lindo e chique, contei sobre as centenas de peças de roupas arquivadas que ninguém nunca mais usaria e que, era totalmente liberada que usássemos, contei sobre meu delicioso e colorido chefe gay e Vanessa faltou cair para trás, ela exclamou um sonoro "Não!" e eu um "Sim" que soou muito mais triste que deveria. Analisando os possíveis fatos, Vanessa concordou que de fato, Gregori tinha tudo para ser gay.
— Você pesquisou sobre ele na internet? Pode ter algo interessante. — Vanessa abriu um sorriso convencido quando minha expressão deixou claro que eu sequer cogitara essa ideia.
Porque eu não pensei nisso antes?
O google tinha tudo que precisávamos!
Vanessa e eu concordamos em fazer a tal pesquisa em casa, então, assim que saímos do restaurante, eu passei em uma loja de conveniência qualquer para comprar sorvete. Minha pseudo-irmã era uma devoradora de sorvetes. Era assustador.
— Charlie, o Henri... Ele é demais! — Ela soltou um suspiro enquanto subíamos o degrau da nossa casa. — Ele é motivador e lindo, e inspirador... Engraçado, entende?
Eu fiz uma careta. — Não.
— Ah, Charlie! É claro que você entende! — Ela continuou tagarelando enquanto caminhávamos em direção à entrada da casa. Era um desses bairros de prédios germinados com uma entradinha coberta de flores. Era lindo e encantador.
A cada momento aqui parecia simplesmente único. Eu me sentia quase como uma caipira vinda do sul do Texas. Até o trânsito de Nova Iorque me era estranho.
Vanessa continuava a falar e eu a viajar mentalmente. Eu tinha que parar com isso.—... Quero dizer, você experimentou a mesma coisa com Gregori, mas ele era gay...
— Êpa, Êpa! — Eu parei Vanessa, jogando os sapatos para o lado assim que chegamos ao apartamento. — Eu não experimentei nada com Gregori. Você sabe que eu não curto essa coisas, Ness.
Vanessa riu sonoramente, aparentemente, me achando muito engraçada. — Tô dizendo sobre aquela sensação dele ser o homem mais lindo do universo, Charlie!
Suspirei, aliviada. — Bem, ele é o mais bonito que já conheci. — Concordei, jogando meu corpo pesado no sofá fofinho.
Vanessa se jogou ao meu lado, puxando o tablet para o colo. — Vamos pesquisar sobre ele.
— Isso não é tipo... stalkear alguém?
— Quem liga? — Vanessa deu de ombros e eu imitei seu gesto. Nós rimos juntas e logo seus dedos digitaram Gregori Ivanov no google.
Os primeiros links eram da vida de um senhor idoso e obviamente muito entediante, então acrescentamos um "Runway" na pesquisa e logo, apareceram centenas de noticias sobre meu chefe.
— Olha, ele é russo! — Vanessa cantarolou e eu lancei a uma olhar entediado. Qual a parte de "sotaque russo sexy pra caramba" ela não entendeu? — Ok. — Murmurou envergonhada e as bochechas coraram, revirei meus olhos e Vanessa continuou a ler o artigo. — Bem, aqui diz que ele tem quatro irmãs que moram em Petersburgo, ele tem 36 anos, ual, ele tá com tudo em cima pra essa idade hein?
— Vanessa!
— Desculpe. Vejamos... Hum, ele nunca aparece com mulheres em revista, o que confirma que talvez ele seja mesmo gay, que pena... Bom, ele já foi modelo, uh! — Vanessa ampliou uma foto de Gregori de sunga.
— Isso é sacrilégio. — Resmunguei indignada observando o contorno do caminho da felicidade. Os músculos eram bem esculpidos e a pele branca estava lisa e perfeita. — É muito gostosura pra um homem só. — Comentei ainda analisando e babando em sua foto. — Eu quero, Ness. — Choraminguei como uma criança e Vanessa riu.
— Ele é mesmo um gato! — Vanessa se abanou com as mãos e eu ri, concordando com a cabeça.
O homem era uma perdição.
Depois dessa breve pesquisa, Vanessa e eu decidimos ir dormir, afinal, ainda era segunda-feira e antes que Rebeca Black começasse a cantar, tínhamos muito, muito trabalho a fazer.
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