O dia ainda não chegava perto da uma hora, mas eu já estava sentado naquela carteira. Eu aguardava com ansiedade, finalmente seria minha última prova de vestibular e, depois dela, estaria livre.

Nesse momento percebi que estava prestes a começar a prova. Foi ao virar meu rosto para a direção da lousa que o vi. Ele usava uma camiseta larga, parecia maior que o seu número normal e seu cabelo era curto e bagunçado, mas esse parecia ser o charme.

Então ouvi sua voz, ele tinha a língua presa e falava baixo, mas isso só me fez olhar seu rosto com mais firmeza, passei mais de quatro minutos olhando-o com fixação.

Quem seria ele? Não sabia nem seu nome, quanto mais se estava solteiro, mas fiquei hipnotizada. Chegava a hora de colher as digitais, confesso que sonhava acordada com ele pegando meus dedos finos e apertando contra o papel, como uma moça fez em outra prova. Entretanto, isso não passou de expectativa. Ele apenas perguntou se eu precisava de algo para limpar meu dedo, mas recusei com um simples gesto.

Porém, percebi duas coisas quando ele se aproximou. Primeiro notei seus penetrantes olhos verdes, únicos que sempre guardarei na minha memória. Outra coisa foi o seu nome, notei que o crachá pendurado sobre sua grande camisa tinha 'FÁBIO' escrito nela de vermelho.

Era hora dos avisos finais, a ansiedade voltou e me preparei para a prova. Quando esta começou acabei esquecendo do fiscal. Me perdi em meio a números e fórmulas por cerca de uma hora, quando ele me trouxe de volta à Terra.

— Posso pegar seu RG? E assine aqui, ele disse.

Entreguei com meu jeito desajeitado e ele olhou rapidamente. Decidi retornar minha atenção e as dúvidas retornaram, "será que ele viu meu nome?", "será que ele me notou por um segundo sequer?".

A possibilidade de um futuro na universidade me trouxe de volta à prova e em torno das cinco horas acabei. Levantei meu braço e ele fez uma expressão silenciosa, como que dizendo "já acabou tudo?" e eu afirmei com meu rosto.

Ele chegou perto de mim e pegou minha prova, juntei minhas coisas e me levantei, caminhei em direção a prova é só pensei no que dizer a ele, nesse momento que poderia ser a última vez que o vi.

"Tchau" foi tudo o que disse, e ele me respondeu educadamente. Conforme andei pelos corredores em direção à saída pensei nele e no que senti e me conformei.

Me conformei com o fato de nunca mais vê-lo ou ouvir sua voz, mas não me conformei em ter esse fato somente como lembrança.

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Fiz esse texto para jamais esquecer de quem eu vi e do que senti, talvez o que realmente aconteceu não foi com um Fábio, mas com um Guilherme ou Júlia, isso fica a cargo do leitor (se houver um).

Para mim esse sentimento ocorreu e foi tão forte pelo enigma, a ideia de me alegrar com alguém que jamais saberá disso. Essa é a mais bela forma de amor que uma pessoa pode sentir, mesmo que ela passe.

Se você, leitor, passou por isso sabe do que senti. Se não passou, saiba que alguém, na rua, no comércio ou no seu emprego pode ter sentido isso por você. :)

P.S.: Se estiver lendo isso fiscal, obrigado pelo sentimento.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!