Notas iniciais
Outro capítulo meio introdutório para colocar a linha do tempo da história nos eixos, mas prometo que as coisas ficarão mais interessantes em breve :)

Na morna e colorida primavera de seus 14 anos, Ema Cavalcante se viu apaixonada pela primeira vez na vida.

Jorge era filho do advogado de seu avô, o Barão de Ouro Verde, e um bom amigo da família Cavalcante. Ele também era um rapaz bonito, muito gentil e, é claro, mais velho. Ema o via constantemente em jantares familiares, festas na mansão promovidas por seu avô e todas as vezes que o pai de Jorge visitava o Vale do Café para tratar de negócios com o Barão.

Jorge era solícito e atencioso com ela e os dois sempre conversavam alegremente sobre música, literatura e viagens, apesar dos anos de diferença que existiam entre eles. O rapaz deixava clara sua predileção por leituras mais sérias que os romances açucarados que a menina costumava ler, mas ele não hesitava em dizer à amiga o quanto a achava uma moça culta e madura para a pouca idade que tinha.

Quando se deu conta, Ema já suspirava pelos cantos da mansão, imaginando como seria o dia de seu casamento com o jovem estudante de Direito.

Ao confessar sua paixão às amigas Benedito nos jardins da fazenda Ouro Verde, Ema se deparou com os sorrisos entusiasmados de Jane e Mariana e com uma expressão de completa incredulidade estampada no rosto de Elisabeta. Cecília, por sua vez, deixara de andar com os meninos por ordens expressas de dona Ofélia, mas naquele momento se preocupava mais com o livro de investigação que lia sob a sombra de uma mangueira cheia de frutos a alguns metros de distância dali do que com o segredo romântico de Ema.

— Ema! — exclamou Elisabeta, que completaria 17 anos no verão seguinte, sendo assim a mais velha entre as garotas do grupo — A diferença de idade entre vocês é gritante! Quantos anos tem Jorge, afinal? Vinte e dois, vinte e três?

— Eu acho romântico! — interveio Mariana com um grande sorriso no rosto e um intenso brilho no olhar — Ele é maduro, mais experiente, já deve ter conhecido outras mulheres... — Ela soltou uma risadinha excitada levando uma das mãos à boca.

— Mariana! — espantou-se Jane — Isso é coisa que se diga?

Mariana deu de ombros, não se preocupando tanto com a reprovação da irmã.

— O que estou tentando dizer — ela recomeçou um pouco mais cautelosa — é que se Jorge corresponde aos sentimentos de Ema, mesmo tendo conhecido outras mulheres antes dela, significa que ele realmente a considera especial.

O coração de Ema disparou acelerado dentro do peito e ela não pôde esconder o pequeno sorriso que brotou em seus lábios.

Jorge era a personificação dos príncipes dos romances e contos de fada que ela lia e se ele realmente a considerasse uma moça especial, todos no Vale do Café teriam por ela o mesmo apreço, respeito e admiração que desprendiam à sua mãe, dona Helena.

— Eu ainda acho que somos muito jovens para pensar em matrimônio — continuou Elisabeta obstinada.

— Ah, é? — Ema fez uma careta desagradável para a amiga — E quando a senhorita acha que seremos maduras o suficiente para nos casarmos?

Elisabeta abriu um largo sorriso travesso, sabendo que a melhor amiga nunca se acostumaria com a resposta que ela estava prestes a dar.

— Bom, querida Ema, talvez nunca! — Elisa riu — Talvez tenhamos que ganhar o mundo antes de viver um grande amor ou de casar. Talvez possamos nos tornar mulheres independentes! Quem sabe independentes até dos homens?

Mariana sorriu ao ouvir as tão conhecidas estranhezas da irmã mais velha enquanto Jane encarava todas elas com olhos bem atentos e uma expressão séria no rosto. Ema, contudo, sabia muito bem que Elisabeta dizia aquelas bobagens só mesmo para provocá-la.

— Você e essas suas ideias estapafúrdias de ganhar o mundo, Elisa! — ela suspirou — Existe coisa mais sagrada que o casamento? Que o amor?

— Ema — Elisabeta respirou fundo tentando não perder a paciência com a amiga — nós nem sequer sabemos o que é amor...

— Mesmo assim, Elisa! — Ema insistiu — Nós mulheres nascemos para cumprir o nosso papel de mãe e esposa!

— As senhoritas mal saíram dos cueiros e já estão tagarelando sobre casamento?

Ema e as Benedito não notaram a aproximação furtiva dos três meninos pelos jardins da fazenda. Edmundo caminhava lentamente em direção a elas, mas Ernesto e Luccino já as tinham alcançado com aqueles sorrisos triunfantes de quem conhecia um segredo que as garotas ignoravam. Os irmãos Pricelli tinham os pés descalços e carregavam dentro das boinas os frutos rosados e maduros da mangueira cuja sombra da copa abrigava a sossegada leitura de Cecília. Edmundo, mais disciplinado e contido do que os amigos italianos, vestia sapatos de couro importado da Europa e trazia consigo apenas um sorriso tímido no rosto.

— Italiano abusado! — Ema bufou impaciente ao encarar o desafeto — A conversa ainda não chegou nos estábulos, Ernesto!

— Não seja rude, Ema — intrometeu-se Elisabeta com um olhar de reprovação para a mais nova.

A primogênita dos Benedito tinha uma grande afeição pelos membros da família Pricelli e sempre tentava apaziguar os ânimos entre a melhor amiga e o filho do meio de dona Nicoletta. Os dois pareciam cão e gato e travavam discussões como aquela, no mínimo, três vezes por dia.

— É, não seja rude, Ema! — Ernesto concordou, divertindo-se — Mas, bom... se as moças almejam casar, um pobre colono como eu provavelmente não pode opinar muito sobre isso.

— Ah, nisso o senhor tem razão — concordou Ema com deboche.

— Calma aí, Ernesto — Elisabeta os interrompeu — Eu, pessoalmente, não planejo me casar tão cedo. Não me inclua nessa história.

— Ah, a Elisabeta é esquisita mesmo — disse Mariana ainda com aquele brilho intenso no olhar e o sorriso de entusiasmo grudado no rosto — Ela deve ser a única mulher no mundo que não sonha com um grande amor.

— Quem disse que não, minha irmã? — Elisa questionou — Eu só acho que há muito para ser feito, explorado e descoberto antes de finalmente encontrarmos um grande amor, entende?

Ernesto se empertigou deixando algumas frutas caírem de dentro de sua boina sobre a grama bem aparada da fazenda. Ele abriu um largo sorriso para Elisabeta e acenou com a cabeça em acordo com o que ela tinha dito.

— Eu entendo perfeitamente o que você quer dizer, Elisa. O mundo é um lugar muito grande e cheio de oportunidades para nos preocuparmos com coisas tão fúteis como fazem certas baronesinhas...

Ema guinchou enraivecida ao ouvir o ataque. Colocando as mãos na cintura, ela encarou o menino com uma carranca de desagrado.

— Ora! Fúteis! Fúteis! O senhor não entende nada mesmo! Não passa de um grosseirão!

— Por favor, não briguem — pediu Jane, exasperada. Sua personalidade dócil a tornava incapaz de lidar com conflitos.

— Eu? Brigar com a baronesinha? — Ernesto revirou os olhos — Meu tempo é muito precioso, Jane. Não vou gastá-lo com besteiras.

— Besteiras? — Ema protestou.

E assim mais uma guerra se iniciava entre a herdeira do Barão de Ouro Verde e o jovem italiano. Jane tentava tranquilizá-los com toda a sua calma e doçura, mas Mariana e Luccino achavam a situação engraçada. Os dois aproveitaram o tumulto para pegar os frutos que o caçula e Ernesto colheram da mangueira ali próxima e começaram a comê-los enquanto assistiam à discussão acalorada dos amigos.

Elisabeta, porém, achou mais sensato se afastar da confusão. Percebera de pronto que Edmundo estivera estranhamente calado desde sua chegada com os irmãos Pricelli.

— Está tudo bem, Edmundo?

— O quê? Ah! Sim, sim, tudo bem — ele respondeu meio surpreso com a repentina atenção — Só estou sentindo muita falta de Rômulo desde que ele partiu para a Europa. Só isso.

Elisabeta não soube dizer ao certo se aquela era mesmo a única fonte da postura taciturna do caçula dos Tibúrcio, mas resolveu tentar consolá-lo de qualquer maneira.

— Pense pelo lado positivo, meu amigo. O seu irmão se tornará um médico renomado e respeitado em breve. Poderá ajudar muitas pessoas.

— Sim — Edmundo sorriu, mas ainda parecia distante — Elisa, por acaso você saberia me dizer onde está Fani?

Elisabeta conhecia, sim, o paradeiro de Fani e estava prestes a dizer a Edmundo que a garota fora incumbida de ajudar dona Nicoletta com os serviços na cozinha da mansão, já que agora a matriarca dos Pricelli precisava também se dedicar aos cuidados médicos da adoentada e cada vez mais frágil Helena Cavalcante. Entretanto, aquele pensamento se dissipou da mente de Elisa quando ela avistou o pai de Ema, Aurélio, caminhando rapidamente em direção a eles pelos campos da fazenda.

— Ema, minha filha — ele chamou a alguns metros de distância das crianças — É sua mãe. Ela quer lhe falar. Venha.

Ema – que, antes da chegada do pai, ainda discutia em alto e bom som com Ernesto – pareceu paralisar em seu lugar, ficando repentinamente pálida e imóvel.

— Ema, minha filha, você ouviu o que eu disse?

Em choque, Elisabeta e os outros observaram quando Ernesto Pricelli pousou as mãos dele delicadamente sobre as mãos de uma aturdida Ema Cavalcante. O menino tinha uma expressão preocupada no rosto que Elisa nunca testemunhara antes.

— Baronesinha?

Ema piscou surpresa ao ouvir, pela primeira vez, aquele apelido ser pronunciado de forma tão doce e cuidadosa.

— S-sim?

Ernesto sorriu gentilmente para ela, segurou-lhe as mãos com mais firmeza e olhou-a bem no fundo dos olhos.

Vai ficar tudo bem — ele sussurrou como se entre eles houvesse algo de íntimo.

Ema respirou fundo e acenou, tomando para ela a coragem atrevida que emanava do sorriso de Ernesto. Alguns anos depois, se olhasse para trás, ela teria certeza que foi aquela coragem que a fez direcionar suas pernas – frágeis e bambas – até onde seu pai estava e seguir com ele até as portas da mansão.

Notas finais
No próximo capítulo teremos dona Julieta e Camilo :) Escrever multiship não é moleza, não! L.