Um amor inesperado

50 Show da Jesuton


Giane passou o resto do dia trabalhando na loja. À noite, resolveu sair, para tomar ar, e levou a câmera fotográfica junto. Sempre aproveitava para treinar, tirar várias fotos. Quanto mais praticava, melhores ficavam as fotografias. Assim que saiu de casa, encontrou Fabinho jogando bola, em um campinho, o mesmo local onde costumavam jogar bola quando crianças. O campinho ficava perto da casa dela, ao lado. O garoto realmente não levava o menor jeito para o futebol. Mas ficava tão engraçadinho, tão lindo. Para ela, Fabinho estava sempre lindo. Será que ele se dava conta do quanto era atraente? Ela resolveu fotografá-lo. Começou a tirar fotos dele. Até que Fabinho olhou e percebeu que ela estava fotografando-o.

— O que você tá fazendo? Tá me zoando, garota?

— E precisa? — disse Giane, e tirou mais uma foto. — Você joga mal pra caramba. Que tal a gente fazer um vídeo? A gente podia mandar pra aquele quadro lá do Fantástico, aquele bola murcha. Podia ganhar uma grana, hein?

— É? Então, vem cá me ensinar. Vem cá me ensinar e para de tirar foto. — disse Fabinho, jogando a bola para ela.

Giane deixou a câmera em cima do muro e mostrou a ele como se fazia. Realmente, Fabinho não sabia nem como chutar a bola, nem conseguia roubar a bola dela. Ficaram batendo bola, divertindo-se juntos.

Bento estava passando por perto e viu Giane e Fabinho divertindo-se juntos. Não gostou nada. Não confiava em Fabinho. Tentou alertar Giane, mas foi em vão. Mas se Fabinho e Giane estavam se divertindo, ele é que não iria interromper. Estava cansado. Foi embora para casa. Não teve um bom dia. Descobriu que Amora havia mentido para ele, mais uma vez. Ela não fez as pazes com a irmã, e ainda tinha mandado a irmã e os sobrinhos sumirem, para ele ficar com pena dela e não se separar. Bento estava decepcionado com Amora, e queria ter uma conversa bem séria com ela. Simone havia implorado para ele compreender e perdoar Amora, para ele não virar as costas para ela. Mas Bento havia decidido se divorciar.

Fabinho correu em direção a Giane, escorregou e acabou caindo em cima da garota. Giane acabou prendendo a respiração. Sentiu o coração acelerar. Podia sentir o cheiro, o hálito dele. Aquela boca maravilhosa estava tão próxima. Desejou que ele a beijasse. Fabinho parecia estar prestes a beijá-la, porém, Giane resolveu empurrá-lo. Não queria fazer uma loucura, não naquele momento. Ainda não era a hora certa. Levantou-se.

— Sai! Vamos botar esse pé numa forma. — disse a garota.

Fabinho levantou-se. Sem que a garota percebesse, pois estava de costas para ele, ele a olhou de baixo para cima. Giane virou-se.

— Vamos lá. Gol a gol, quem perder paga um sorvete.

Jogaram mais um pouco. Depois ficaram andando pela rua. Giane continuava fotografando tudo o que via. Foram à praça, e viram Érico e Renata se beijando, se agarrando.

— Olha só! O Érico e a Renata se agarrando! — disse Giane, e tirou logo uma foto dos dois.

Antes de sofrer o acidente, Érico havia terminado tudo com Verônica e agora voltou com Renata. Só que desta vez, não era um compromisso, um relacionamento sério. Desde que sofreu o acidente, Érico vinha agindo de maneira diferente. O médico dissera que eram sintomas do transtorno comportamental, causado pelo edema no cérebro, mas que regrediria em pouco tempo. Érico estava mais agitado, desinibido, mais agressivo. Nem parecia mais o mesmo rapaz gentil e romântico de antes. Salma e Gilson estavam bem preocupados com ele. Érico havia virado outra pessoa.

Fabinho jogou a bola no braço de Giane, de brincadeira.

— Ô menina! — brincou Fabinho, e Giane deu um tapa nele. — Quem gosta de chantagear os outros sou eu, não é você, não.

— Não gosto de chantagear, eu gosto de fotografar! — disse Giane, tirando mais uma foto da Renata e do Érico.

— Pelo jeito você gosta mais de fotografar do que posar, né?

— Posar é chato. — disse Giane.

— Por quê que você não investe nisso, então? — perguntou Fabinho. — Faz um curso de fotografia. Não sei. Você vai se divertir, vocêvai ganhar dinheiro. Porque ficar plantando flor com o Bento a vida inteira não dá, né?

Giane até pensou em fazer um curso de fotografia. Caio uma vez sugeriu que ela fizesse um curso de fotografia de moda, depois que ela terminasse o curso de inglês. Giane achou a ideia ótima. Mas ainda não terminou o curso de inglês, e não tinha tempo para fazer nenhum outro curso. Por enquanto, iria continuar tirando fotos, praticando por conta própria. Mas vender flores até que dava um bom dinheiro. O que Fabinho entendia do negócio, para ficar falando?

— O quê que você sabe do nosso negócio? — perguntou Giane.

— Eu sei que o Bento tá milionário e não investe um centavo nessa empresa, não viaja, não conhece o mundo, fica enfurnado dentro dessa garagem. — disse Fabinho. — É um otário, né?

No ponto de vista de Giane, Fabinho não deixava de ter razão. Bento nunca ligou para dinheiro, nem fazia questão de luxo. Recusava a herança por orgulho, por não querer nada de mão beijada, apenas por ser filho do Plínio. Bento tinha pudor em aceitar a ajuda financeira de Plínio. Não aceitava dinheiro nem para ampliar a Acácia Amarela. Para Bento, o que valia era a grana que ganhava com o seu trabalho. Para se ter uma ideia, Bento nem quis ser registrado como filho de Plínio. No ponto de vista dele, não precisava nem ser registrado, porque não tinha interesse na herança. Bastava ter os pais por perto. Além disso, ele nunca ligou a mínima para sobrenome importante. Para ele, era o que menos importava e não precisava de registro para se sentir parte da família. Para Bento, mais importante do que registro em cartório, era o afeto. Continuava assinando Bento de Jesus. Ele queria ir devagar na questão da herança. Só que Fabinho jamais se importou com a origem da grana, se era de mão beijada ou não. Se a vida tivesse lhe dado o privilégio de ser filho de pai rico, certamente ele iria querer aproveitar, no pensamento de Giane.

— Se você fosse o filho do Plínio, você ia aprontar, hein? — disse Giane.

— Você tá louca! Se eu fosse filho do Plínio, eu ia estar abrindo minha

própria agência agora, porque nisso eu sou bom, querida. — disse Fabinho.

Giane surpreendeu-se. Antes, o único objetivo de vida de Fabinho era ficar rico. Não pensava em trabalhar, em pegar no pesado. Só em viver de herança. Queria usar o dinheiro para se vingar, humilhar, pisar, destruir as pessoas por ter crescido órfão, na pobreza. Tanto que queria comprar a rua para demolir a casa onde foi criado. Pretendia derrubar tudo, destruir tudo. Ameaçou mandar Gilson, Salma e toda a vizinhança para debaixo da ponte. Agora estava falando em montar um negócio.

— Outro dia você estava falando de comprar a rua, agora é agência. — disse Giane. — O quê que mais você ia fazer de bom?

— Eu ia investir na minha carreira de jogador de futebol. É. — brincou Fabinho.

Giane riu, divertida.

— Tira a foto aí, vê se parece que eu sei jogar, vai. — disse Fabinho, tentando fazer umas embaixadinhas. — Aproveita que o modelo é top.

— O modelo é podrede metido. Isso sim! — disse Giane, fotografando-o.

Tirou várias fotos do rapaz, enquanto ele fazia embaixadinhas com a bola. Fabinho até conseguiu controlar a bola por algum tempo, usando os joelhos, porém, logo deixou a bola cair.

— Mas é muito ruim mesmo, hein? — disse Giane, fotografando.

Fabinho pegou a bola.

— Vamos lá. — disse Giane, voltando a fotografá-lo.

Margot apareceu neste momento.

— Giane, hoje, você janta lá em casa. Vou chamar teu pai.

Deu uma olhada em Fabinho e Giane e viu que eles estavam imundos.

— Credo, que sujeira, vocês parecem crianças! — disse Margot, rindo.

— Esse marginal aí que me jogou no chão umas 20 vezes. — disse Fabinho.

Giane riu.

— Ele que me derrubou! Era só o que faltava! — disse Giane, descendo a rua.

— Vem cá, você quer ir no show da Jesuton comigo? — perguntou Fabinho.

Giane olhou rapidamente para trás e disse:

— Pode ser.

— Tchau. — disse Fabinho, indo para casa.

Giane foi para casa, tomou um banho e arrumou-se. Silvério também, e foram jantar na casa da Margot. Quando estavam no meio da sobremesa, Caio ligou para Giane, e contou que o pai havia falecido. Cardoso sofreu um infarto durante a cerimônia de casamento. Nem terminou de assinar os papéis. Caio estava arrasado. Não era para menos. Ele podia não se dar bem com Cardoso, mas era o pai dele. Caio perdeu a mãe cedo, e agora perdeu o pai. Era triste perder o único parente próximo que restava. Não havia mais ninguém, e Caio estava sozinho.

— Ai, meu Deus, fica tranquilo, tá? — disse Giane, ao celular. — Eu tô indo praí. Tá bom. Tchau.

Giane desligou o celular e falou para Silvério:

— Pai, o pai do Caio morreu!

— Ih! — disse Silvério.

— Vamos lá dar uma força? Você vai comigo? — perguntou Giane.

— Claro. — disse Silvério.

— Calma, gente. Vocês nem tomaram cafezinho ainda. Calma aí. — disse Fabinho.

— É porque ele não está segurando a barra. — disse Giane, levantando-se da mesa. — Ele perdeu a mãe cedo, o pai era um tosco. Ele tinha uma relação péssima. Tudo errado. Obrigada, viu, dona Margot?

— Imagina. Nessas horas que a gente tem que prestar solidariedade. — disse Margot, indo abrir a porta para Silvério e Giane. — Vão com Deus! Vão com Deus!

— Tchau! Tchau, Fabinho! — disse Giane, saindo.

— Tchau, dona Margot! — disse Silvério, apertando a mão de Margot. — Estava tudo muito gostoso, viu? É... Vou fazer que nem cachorro magro, mas é que... O Caio é um bom menino. A gente vai dar uma força. — soltou a mão dela. — Fabinho, tchau! — acenou, e foi embora.

— Vão com Deus. — disse Margot.

Silvério e Giane foram ao velório do Franklin Cardoso. Giane nunca simpatizou com o falecido, mas tinha um carinho enorme por Caio, e gratidão, por tudo o que ele fez por ela. Caio elevou sua autoestima, fez seu book, a ajudou a arrumar trabalhos como modelo, a incentivou a se matricular no curso de inglês e graças a ele, descobriu uma nova paixão, a fotografia. Seria sempre grata a ele. Além do mais, Caio continuava a ser seu amigo. Por isso resolveu ficar ao lado dele neste momento difícil. Per-der o pai não era nada fácil, mesmo se tratando de um pai que não valia nada. Cardoso era uma pessoa horrível. Mas ninguém escolhe pai ou mãe. Ainda assim era triste, porque Caio só tinha um pai, que acabou de falecer.

No dia seguinte, Giane resolveu falar com Rosemere sobre Fabinho. À essa altura, Rosemere já havia saído da casa da Glória e se mudado para a Casa Verde. Não via sentido em continuar lá, desde que Filipinho se mudou para os EUA. Agora estava morando na casa da irmã, Odila.

Giane queria ajudar Fabinho a descobrir sua origem, a saber quem são seus pais. Sempre foi importante para Fabinho descobrir sua verdadeira identidade. Ele dissera que não queria mais saber, mas estava na cara que ele tinha era medo de se machucar. Giane achava que seria bom para ele encontrar a família biológica. Além do mais, ele tinha direito de saber. E esse direito lhe foi negado a vida toda, por várias razões. Fabinho tinha direito de saber a verdade. Ainda mais agora que havia deixado a revolta para trás. Fabinho não iria mais usar esta informação contra o mundo.

— Me explica essa história direito, Rosemere. — disse Giane, entrando no Cantaí com Rosemere. — O Perácio quer que o Fabinho faça um exame de DNA porque acha que ele é sobrinho?

Rosemere e Giane foram até o balcão.

— Falei pra ele deixar quieto. — disse Rosemere, e dirigiu-se à atendente. — Jacira, vê uma água aqui, por favor?

— Mas o Perácio, ele é filho da dona Glória, não é? — perguntou Giane. — Ela considera o Bento neto.

Giane e Rosemere pegaram seus copos e suas garrafinhas com água.

— Giane, o Bento não tem parentesco com ela. — disse Rosemere.

— Rosemere, mas se o Fabinho é realmente neto, ele tem que saber, né? — disse Giane, sentando-se em uma das mesas. — Você... Você quer que eu leve um papo com ele?

— Ainda não. Melhor não mexer com isso. — disse Rosemere, sentando-se na frente de Giane. — Até porque a dona Glória não quer conhecer o Fabinho. E ela se recusa a considerar ele como neto. Você acha que o Fabinho precisa de mais uma rejeição? Não, né? Ainda mais agora que ele tá indo tão bem!

A última coisa que Giane queria era ver Fabinho ser rejeitado novamente. Não queria que ele sofresse. Não queria vê-lo triste, magoado. Nisso Rosemere tinha razão, ele não precisava de mais uma rejeição, porque sofreu rejeição uma vida inteira. Claro, ela, Giane, não podia nem imaginar a dor do abandono, de ter crescido órfão, sem saber de onde vinha, quem eram os pais. Ela não sabia o que era isso. Ela era órfã de mãe. Perdeu a mãe cedo. Claro que sentiu falta de uma mãe, a vida toda. Não conheceu sua mãe, que morreu quando ela era bebê. Mas Salma, que ajudou a criá-la, se tornou uma figura materna para ela. Além disso, ela sempre teve o pai do lado dela. Ela não foi abandonada, rejeitada. E ela sabia quem foi sua mãe. Diferente de Fabinho, que não tinha pai nem mãe antes de ser adotado pela Margot, e nem sabia sua origem. Ele foi criado por Salma e Gilson antes de ser adotado, porém para ele, não era a mesma coisa. Mas ela conhecia bem a dor da rejeição, ainda que por motivos e circunstâncias diferentes. E não queria que Fabinho se sentisse rejeitado novamente. Ela não queria que ele fosse chutado de novo. Faria tudo para poupá-lo, para protegê-lo. Rosemere tinha razão, melhor não mexer nisso. Mas ainda tinha curiosidade em saber quem era o pai de Fabinho.

— Mas se ele for neto, quem seriam os pais, hein, Rosemere? Porque eu sei que a dona Glória teve uma filha que morreu, né? Mas e o pai, quem é?

— Sério, Giane. Melhor deixar a poeira baixar, o Fabinho tomar jeito, aí, sim, quem sabe, a gente volta nesse papo. — disse Rosemere.

Giane achou que o pai de Fabinho só podia ser montado na grana. Só podia ser esta a razão para Rosemere não querer contar quem era, nem para ela, Giane, pois é claro que ela contaria para Fabinho.

Rosemere reconhecia que Fabinho havia parado de aprontar, e estava fazendo de tudo para melhorar, mudar de vida. Fabinho estava se esforçando. Mas ela ainda tinha receio de contar ao garoto quem era o pai dele. Se tratava de um homem rico. Rosemere tinha receio de que Fabinho deixasse o dinheiro subir à cabeça e voltasse a esnobar as pessoas, a aprontar. Havia o risco de ele ficar deslumbrado. Rosemere também não esqueceu o que Fabinho fez com Odila, ou o que ele aprontou na casa do Gilson. Fabinho ameaçou Odila para se vingar. Queria comprar a rua para

se vingar de todo mundo, pois culpava todo o pessoal pela orfandade dele. Rosemere tinha receio de que Fabinho se revoltasse contra Glória, por tê-lo abandonado, e resolvesse se vingar. Para ela, era melhor dar tempo ao tempo. Fabinho precisava mostrar que tomou juízo de verdade, aí sim, quem sabe, voltariam a tocar no assunto com ele. Primeiro, Fabinho precisava amadurecer. Rosemere e Perácio até haviam conversado com Margot, e ela achou melhor não dizerem nada ao Fabinho, por enquanto. Margot reconhecia que Fabinho estava criando juízo, mas ainda assim, tinha medo de que o garoto surtasse, deixasse o dinheiro subir à cabeça de novo. Ela se preocupava, pois o filho era instável, impulsivo. Margot também achava que era melhor esperar um pouco para contar ao garoto.

Giane acreditava que Fabinho estava mudando. Giane não acreditava que Fabinho voltaria a mentir, armar, cometer crimes. Ele não falava mais em destruir as pessoas. Ele aprendeu a lição. Estava trabalhando, indo bem na agência do Érico. Mas já que Rosemere não queria falar, não iria insistir. De nada adiantaria forçar a barra. E se o pai dele o rejeitasse também? A reputação de Fabinho não era das melhores. Giane não queria que Fabinho sofresse outra rejeição. Além do mais, Fabinho não queria saber quem eram seus pais. Ele mesmo dissera que era uma página virada na vida dele, que ele não queria mais reviver aquele inferno de exame, de desconfiança. A garota achou que talvez fosse melhor esperar o momento certo para contar. Nisso Rosemere tinha razão. Levaria um bom tempo até Fabinho conquistar a confiança das pessoas. Não seria de um dia para o outro. As pessoas ainda tinham dúvidas se ele realmente mudou. Fabinho aprontou a vida inteira. Era natural que as pessoas ficassem com o pé atrás, tivessem medo. Com certeza, Glória o rejeitava porque ficou chocada com tudo o que ouviu falar sobre ele. Seria preciso um pouco mais de tempo para Fabinho mostrar que realmente mudou, amadureceu. Quem sabe, com o tempo, Glória aceitasse Fabinho como neto. Mas ela precisaria ver que ele mudou, estar convencida disso. Era melhor esperar Fabinho tomar jeito, para só então, contar tudo. Enquanto Glória o rejeitasse, era melhor não contar. Giane decidiu não tocar mais no assunto. Na hora certa, Fabinho saberia. E Glória o receberia de braços abertos quando visse que ele criou juízo. O pai dele também, quem quer que fosse. Era questão de tempo.

— Tá bom. Você vai pra faculdade? — perguntou Giane.

Rosemere bebeu um gole de água do copo.

— Antes, eu vou dar uma passada na casa da dona Glória. — disse Rosemere.

— Tá. Eu também vou lá pra perto. — disse Giane. — Vim só tomar um banho aí em casa e vou voltar pra dar uma força pro Caio aí.

Giane passou em casa, tomou banho, trocou de roupa e foi ao enterro do Cardoso. Não gostava do Cardoso, mas quis prestar solidariedade ao Caio. Um monte de gente compareceu ao enterro: políticos, empresários, celebridades. Após o enterro, Caio, Giane, Camilinha e Peixinho foram ao Cantaí.

— Apesar de tudo, é muito duro saber que meu pai não tá aqui, saiba? — disse Caio, triste. Estava realmente sofrendo com a morte do pai.

— Caio, o velho te prejudicou mais que a todo mundo. — disse Giane. — Eu acho que você já fez muito de preparar o enterro e o velório.

— Você não sabe o nojo que eu senti, Giane, em ver aquele bando de urubu chorando do lado do caixão, só pra aparecer nas fotos. — disse Caio.

— A Lara deve ter chorado mesmo, de tristeza de perder a grana. —disse Giane.

Lara havia feito um contrato pré-nupcial com Cardoso. Estava crente que embolsaria dois milhões de dólares. Só que Cardoso morreu sem assinar os papéis. A assinatura ficou incompleta, pois ele enfartou na hora.

— Ó, digo mais, pelo bem que conheço a Lara, ela não vai sair de mão abanando, não, viu? — disse Peixinho. — Ela vai querer, pelo menos, uma boa parte da grana do teu pai.

— Se ela quiser, ela pode ficar com tudo. — disse Caio.

— Você ficou louco, Caio? — disse Camilinha. — Olha só, você não pode deixar pra essa vigarista aquilo que te pertence por direito. Tá? Se teu pai foi um sacana, mais uma razão pra você não abrir mão da grana que ele deixou.

— Caio, ela tem razão. — disse Peixinho. — Você não pode facilitar nada pra Lara, não.

— Os chupins vão cair matando, né? — perguntou Giane.

— Hum. — disse Peixinho.

— Aí, ó, primeira. — disse Giane, ao ver Brunettý entrar no Cantaí.

Cardoso era patrocinador do Luxury. Ultimamente, era o Cardoso quem mandava e desmandava no programa, e havia colocado Brunettý como apresentadora, dividindo o programa com a Lara. Brunettý era garota-propaganda das joalherias Quatre Mondes.

— Oi, gente! — disse Brunettý, aproximando-se e colocando a bolsa sobre uma das cadeiras. — Caio, fofo! Meus parabéns, viu? Não! É... Meus pêsames! — uniu as mãos. — E aí, topa dar uma exclusiva pra mim? Hã? Eu tô pensando em fazer um especial sobre a vida do seu pai.

— Depois, tá, queridinha? Depois. — disse Camilinha, colocando a mão no ombro de Caio. — Porque primeiro ele vai pra Bali comigo. Que a gente está precisando espairecer. Não é, Caio?

— Gente, mas antes a gente precisa definir se o patrocínio da joalheria continua. — disse Brunettý. — É. Porque depois do falecimento do Cardoso, eu preciso saber...

Caio já estava sem paciência, e acabou perdendo as estribeiras:

— Quer saber? Vai pro inferno! — gritou Caio. — Me deixa em paz!

O rapaz não queria tomar nenhuma decisão naquele momento. O pai tinha acabado de morrer. Será que as pessoas não eram capazes de res-peitar? Acabou de vir do enterro, e já apareceu alguém para encher o saco.

Caio andou em direção à saída, e Camilinha resolveu ir atrás dele:

— Espera aí, Caio, espera! — disse Camilinha, correndo atrás do Caio.

Giane levantou-se. Foi ver como Caio estava. Peixinho falou:

— Meu, o quê que você tem na cabeça, Brunettý? Pô, sem noção total, né?

— Mas o que foi que eu fiz? — perguntou Brunettý, ingenuamente.

Quando Giane chegou na rua, Caio e Camilinha haviam montado na moto. A moto estava estacionada bem em frente à sede da Crash Mídia.

— Caio, se cuida, tá? Precisando, já sabe. — disse Giane.

— Pode deixar que eu cuido dele, tá? — disse Camilinha, enciumada.

— Obrigado pela força, Giane, valeu! — disse Caio.

— Tchau. — disse Giane.

Caio colocou o capacete e deu partida. Ele e Camilinha foram embora. Neste momento, Fabinho saiu da Crash Mídia, e Júlia saiu logo atrás. Fabinho viu que Caio acabou de ir embora, e resolveu mexer com Giane.

— Se deu bem, hein, moleque de rua? — disse Fabinho, colocando o braço sobre o ombro dela e em seguida estalando os dedos. — Agora vai estalar o dedo e ser primeira-dama da Quatre Mondes.

— Primeira-dama, vai te catar, Fraldinha! — disse Giane.

— Ué, quando o cara era pobre você dava mole, agora que ele é rico, você não quer. É burro, né? É burro, moleque! — brincou Fabinho.

— Burro é você! Idiota, cretino, ridículo! — disse Giane, andando na frente.

— Vem cá, você vai no show comigo? — perguntou Fabinho.

— Vou pensar. — disse Giane, antes de ir embora.

Foi trabalhar na Acácia Amarela. À noite, Giane foi para o Cantaí, assistir ao show da Jesuton. Toda a vizinhança foi assistir ao show. O Cantaí ficou cheio de gente, até mesmo celebridades apareceram. Giane estava encostada em uma coluna, assistindo ao show, quando sentiu alguém chegar perto e tocar em seu braço. Ficou feliz ao ver que era Fabinho. Sorriu, tímida. Assistiram ao show inteiro juntos. Passaram horas agradáveis no Cantaí. Divertiram-se muito e até arriscaram dançar, embora não levassem o menor jeito para isso. Fabinho resolveu acompanhá-la até em casa. E é claro que aproveitou para sacaneá-la:

— Olha, vou te falar uma coisa. Tô pra conhecer alguém que dance tão mal como você. Tá louco.

— Ah, e você pode ir pra dança dos famosos, né? Cavalo! — disse Giane.

— Cavalo, eu? Tô com a marca da tua ferradura, até agora, aqui no meu pé. Ai, ai, aqui ó.

O celular de Giane tocou e ela atendeu. Era Caio.

— Oi, Caio. Você tá bem? Quer que eu vá aí, ficar com você?

Caio disse, ao celular, que ela não precisava ir lá ficar com ele.

— É inacreditável isso. — murmurou Fabinho.

— Tá. Mas qualquer coisa me liga, tá? Beijo. — disse Giane.

Desligou o celular e virou-se. Porém, ela viu que Fabinho havia fechado a cara.

— Que cara é essa, Fabinho? — perguntou Giane.

— Que cara é essa, Fabinho? “Você quer que eu vá aí ficar com você”?

Giane não estava entendendo a reação de Fabinho. Não podia acreditar que ele estivesse pensando mal dela. Ela e Caio eram apenas amigos. Caio estava passando por um momento difícil, e ela estava apenas querendo demonstrar solidariedade. Não havia maldade, nem segundas intenções nisso. Fabinho que só pensava em safadeza, só tinha maldade na cabeça. Será que ele achava que ela estava se aproveitando da situação para dar o golpe do baú? Fabinho achava que todo mundo era interesseiro?

— É! Você acha que eu tô o quê, dando um golpe no Caio? Ele é meu amigo. — disse Giane. — Ele está passando por um momento difícil e ele precisa da minha ajuda.

Fabinho abanou a cabeça, irônico.

— Tá bom. — disse Fabinho.

— Não, mas eu esqueci. Você não sabe o significado de solidariedade, né?

— Solidariedade é se entregar de bandeja pra dormir na casa do cara? Legal, hein? — disse Fabinho.

Giane ficou tão ofendida que acabou dando um tabefe naquele rosto lindo. Afinal, ela não estava se oferecendo para o Caio. Não iria se aproveitar da situação para aplicar o velho golpe do baú. Fabinho era um babaca. Estava cansado de saber que não havia mais nada entre ela e o Caio, e no que dependesse dela, não voltariam a namorar. Caio havia pedido para voltar e ela recusou. Ela não queria nada com o Caio, nem ligava para a grana dele. Do contrário, ainda estaria com ele, não teriam terminado.

— Se você acha que eu sou ordinária. — disse Giane, apontando para Amora, que estava passando por ali. — Feito aquela ali. Então, você não fala mais comigo! Palhaço!

Entrou e fechou o portão atrás de si, furiosa.