Um amor inesperado
5 Programa da Sueli Pedrosa
De manhã, Giane foi abordada por Sueli Pedrosa ao sair da casa de Bento. O escândalo que Giane causou no casamento continua a ter consequências e agora a imprensa está no bairro investigando o passado de Amora. Sueli Pedrosa disse:
— Ah! A mocinha que esteve no casamento do Vitinho Barata, disposta a contar tudo o que sabia!
Giane não estava disposta a dar entrevistas e se recusou a falar com a imprensa. Ela considerava que tinha mais o que fazer do que discutir a vida de outras pessoas. Estava na cara que Sueli foi até ali para tentar descobrir algum podre da it girl. Mas Giane queria que a imprensa a deixasse fora disso.
— Dá licença, tenho que trabalhar. — disse Giane.
— Peraí... — insistiu Sueli Pedrosa.
— Sai! — disse Giane, andando em direção à van.
— Mas é só um minutinho! Por favor, pô! — implorou Sueli Pedrosa.
Depois de algum tempo, ela e Bento já estavam na floricultura, onde trabalhavam e cuidavam das flores, como era de costume. Bento disse:
— Queria entender como e por que a Sueli Pedrosa baixou aqui na Casa Verde.
Giane supôs imediatamente que a responsável por ter mandado a jornalista Sueli Pedrosa ao local era Lara.
— Isso é coisa daquela perua que esteve aqui outro dia com papinho pra cima de mim. Aquela Lara Keller, sabe? Ela apresentava lá o Luxury antes da Amora. — disse Giane, regando um vaso de flor.
— Você acha que eu assisto esses programas imbecis de TV fechada, Giane? — disse Bento.
De fato, ele não se interessava nem um pouco por programas de futilidades, de fofoca a respeito da vida de ricos e famosos.
— Você sabe, Bento. — disse Giane. — Essa Lara, ela engravidou daquele tal Manolo. Vive saindo aí em capa de revista. E devia estar com muita raiva da Amora, viu? Porque chegou aqui querendo saber dos podres da patricinha.
— O que você falou pra ela? — perguntou Bento.
Bento esperava que Giane não tivesse falado mal de Amora, como o fato de ela não cumprimentar Renata ou ignorar o povo da Casa Verde. Embora estivesse chateado com Amora, ele não tinha intenção de prejudicar a imagem dela, pois nunca foi uma pessoa vingativa.
— Ué, mandei a perua pastar, né? Óbvio. Mas também é só entrar na internet pra descobrir que a Amora morava lá no tio Gilson antes de ser adotada aí pela Bárbara Ellen. — disse Giane, continuando a regar as flores. Amora não gostava de falar sobre seu passado. No entanto, se alguém quisesse saber a respeito de sua infância, bastava consultar o blog da Socorro. Socorro fazia questão de espalhar que Amora havia morado no mesmo lar que ela.
— Quer saber? Que se dane a Amora, a Lara Keller e a Sueli Pedrosa. Daqui pra frente vou tocar minha vida ao lado de quem eu gosto e de quem gosta de mim. — disse Bento, indo atrás do balcão.
Visto que Amora não queria mais saber dele, ele decidiu esquecê-la. Amora não havia procurado por ele novamente, desde que aparecera na floricultura. Parecia que ele não significava nada para ela, e por isso, ele decidiu não procurá-la mais.
— Esse é o Bento que eu conheço! — disse Giane, e sorriu. — Mas e esse papo aí de tocar a vida ao lado de quem você gosta... Você tá falando de alguém assim... Especial? — perguntou, com ciúmes.
Ela se recordou de tê-lo visto na companhia de Charlene, e pensou se ele estaria interessado nela.
— Como assim? — perguntou Bento, sem entender nada.
— Ah, não sei, é que... Eu vi você lá e a Charlene no maior clima. Pensei que...
Giane refletiu sobre a fala de Bento de que esqueceria Amora. Ela se questionou se ele estaria pensando em namorar Charlene, agora que ela tinha terminado com Lucindo, e se ele pretendia seguir sua vida ao lado de Charlene.
— Pensou besteira... — disse Bento, batendo no balcão. — Pra variar! Eu estava me referindo aos meus amigos, sua tonta. Você, seu pai, o tio Gilson, a tia Salma...E a Charlene também, que é uma amiga que eu gosto, tá?
Ele e Charlene haviam passado a noite juntos, o que foi ótimo. No entanto, eles eram apenas amigos. Estavam se consolando mutuamente, buscando curar suas mágoas. Charlene ainda sofria com a traição de Lucindo e havia terminado com ele de vez, apesar das tentativas de reconciliação da parte dele. Já Bento sofria por Amora, por causa da rejeição que havia recebido dela. Charlene havia sugerido que eles tentassem se apaixonar, e Bento chegou a considerar a ideia, mas não deu certo. Eles concluíram que funcionavam melhor como amigos.
— Só amiga, né? — perguntou Giane, enciumada.
— Só, Giane! Em vez de ficar tomando conta da minha vida, porque você não vai tomar conta das flores, hein? — disse Bento, espirrando água na amiga com um borrifador. Giane gritou. — Sua maleta!
— Palhaço! — disse Giane, dando uns tapas no amigo.
Eles continuaram o trabalho na floricultura, mas acabaram ligando a televisão para assistir ao programa de Sueli Pedrosa. Era um programa especial que abordava a infância de Amora no lar de Gilson e havia incluído imagens filmadas da vizinhança.
— A gente mandou bem! — disse Giane, rindo, ao ver ela e Bento na TV.
— Desliga isso aí, Giane. — pediu Bento, cuidando dos afazeres.
— Adorei o jeito que você falou daquela filha de... — disse Giane.
Bento afirmou não ter nada a declarar sobre o caráter de Amora.
— Desliga isso, Giane! Já falei! — explodiu Bento, impaciente.
Bento não gostou de ver a mídia explorando a infância dele e de Amora, considerando aquilo puro sensacionalismo. Ele sentiu que Sueli Pedrosa tinha distorcido a realidade ao fazer com que o pessoal da Casa Verde parecesse grosseiro e sem educação, e que Amora parecesse uma garota apagada na infância, quando estava longe de ser. Amora era a garota mais bonita e mais doce. Na sua perspectiva, a mídia sempre deturpava os fatos.
O fato era que o pessoal estava chateado com as atitudes que Amora andava tendo. Amora havia esnobado não apenas ao Bento, como a todo mundo. Por isso, quando Sueli apareceu na rua para entrevistar os moradores, muitos não quiseram conceder entrevista e mandaram Sueli pastar. Odila falou que Amora era uma menina muito tímida na infância e que comia de vez em quando em sua casa. Somente Socorro devia ter enchido Amora de elogios, no entanto, isso não foi mostrado. Para Bento, Sueli não precisava ter mostrado os moradores enxotando-a e não tinha nada que expor as pessoas. Na opinião de Bento, era melhor Sueli não ter gravado nada. Mas na opinião dele, Sueli não fazia nada que prestasse.
— Ei, calma! — disse Giane, e cutucou no cabelo dele, brincalhona. Em seguida, desligou a televisão.
Dias depois, durante a tarde, enquanto estavam no jardim, cuidando das flores, Bento recebeu um telefonema.
— Temos sim, todas elas — disse o moço. — Menos o copo-de-leite, que ainda não é época. Mas a gente pode substituir por açucenas. A senhora pode me passar o endereço? — pegou um caderninho do bolso traseiro e anotou. — Tá legal. Pode deixar, que a gente entrega em tempo.
— E aí? — disse Giane, aproximando-se.
— Oi, Giane! — disse Bento. — Se prepara, que a gente tem uma encomenda enorme pra levar pro Jardim Europa.
— Agora? — resmungou Giane. Estava cansadíssima.
— É, festa de noivado de algum playboy. — disse Bento. — A mulher que organiza está desesperada.
Giane expressou um grande desânimo através de sua expressão facial.
— Vambora, garota, vamos agilizar! — Bento apressou-a.
— Bora! Babaca! — gritou Giane, saindo correndo ao lado do amigo.
Eles se arrumaram rapidamente e se apressaram para levar as flores para a van, pois estavam atrasados.
— Ô Bento, e aí? Vai começar a decorar festa de rico? Tá chique, ó! — comentou Nestor, um dos vizinhos.
— Eu tô é atrasadíssimo, tio Nestor. — disse Bento. — Ô Giane, a gente vai ter que voar se quiser chegar antes dos convidados, hein?
— Vamos, vamos lá. — disse Giane, colocando os vasos na van.
— Não, senhor! Nada de correr! — disse Salma, preocupada. — Vão devagar que é pra chegar cedo, hein?
— Não pega a Marginal, que a essa hora já tá tudo parado. — aconselhou Gilson.
— Pode deixar que eu conheço todas as quebradas, tio Gilson. — disse Bento, enquanto ele e Giane fechavam as portas traseiras da Van. — Pessoal, obrigado a força.
— Valeu, gente! — Giane despediu-se.
— Tchau, gente! — disse Salma.
— Valeu! — disse Gilson.
— Vamos nessa! — gritou Giane, entrando na van.
Conseguiram chegar a tempo na mansão onde o noivado ocorreria. Com a ajuda dos empregados, carregaram as flores para dentro. Embora tenham chegado em cima da hora, eles conseguiram cumprir o prazo.
— Bora, Giane. — disse Bento. — Tava tudo parado. — referindo-se ao trânsito.
— Ai! Graças! Vocês chegaram. — disse Verônica ao vê-los. — Lindo! Lindo! Lindo!
— A senhora desculpa o horário, o trânsito não tava fácil. — disse Bento.
— Me ajuda a colocar aqui. — pediu Verônica.
— A gente trouxe aí umas flores soltas, como a senhora pediu, viu? — disse Giane, colocando as flores sobre uma coluna.
— Ah, bota aí! — disse Verônica. — Puxa, muito obrigada, que lindas flores! Acho maravilhosas! Que bom! As soltas, eu vou dispor as duas mesas, me ajuda? — perguntou, dirigindo-se a Bento.
— A gente ajuda. — disse Bento.
Em pouco tempo, espalharam as flores pelas mesas e por todo o lugar. Bárbara chegou e cumprimentou Natan e Maurício, que tinham acabado de chegar. Maurício elogiou a decoração e parabenizou Verônica, sua mãe, por ter contratado bons profissionais. Ele perguntou pela noiva, e Bárbara informou que ela já estava descendo para receber os convidados.
— Verônica, por favor, dispensa logo esse pessoal, porque eles estão muito malvestidos. — pediu Bárbara. Não gostou da presença de Giane e Bento, pois não suportava pessoas com a aparência descuidada.
— “Esse pessoal”, Bárbara, salvou a festa da sua filha. — disse Verônica.
Verônica se aproximou de Giane e Bento enquanto eles estavam arrumando as flores em uma das mesas.
— Bento! Eu não tenho como agradecer. Eu vou lá dentro pegar o cheque e já volto.
— Não se preocupe, a senhora acerta comigo depois. — disse Bento.
Giane demonstrou, através de sua expressão, que não concordava com ele e pensava que o ideal era a tal madame pagar pelos serviços o quanto antes. O problema de Bento era ser bondoso demais e confiar demais nas pessoas. Eles não podiam correr o risco de levar um calote.
— Eu faço questão. — disse Verônica, antes de entrar dentro da casa.
Giane murmurou algo de forma insatisfeita para Bento.
— Enfim, missão comprida. — disse Giane, terminando de arrumar as flores.
— Nossa, eu não vejo a hora de tomar um banho e cair na cama. — disse Bento, ajeitando as flores.
— Pô, nem fala, nem fala. — disse Giane.
Giane e Bento ficaram surpresos ao verem Amora saindo da mansão e dando um selinho em seu noivo, Maurício.
— Amora? — disse Bento, sem conseguir acreditar.
Então, ele havia ido fazer uma entrega justamente na festa de noivado de Amora. Quando falou com Verônica ao telefone, ela havia pedido para decorar a festa do filho, mas não mencionou o nome do rapaz, muito menos o sobrenome. Ele apenas sabia que a festa era no Jardim Europa e concluiu que era a festa de um playboy. Ele não sabia que a madame era a mãe do noivo de Amora. Talvez agora ele tivesse a chance de falar com Amora. Afinal, Amora não podia ignorá-lo, já que eram amigos de infância. Amora estava noiva, mas nada os impedia de conversarem e matarem a saudade da infância.
Giane não gostou de ver Amora e não conseguia acreditar que, com tantos lugares para fazer a entrega, eles tivessem ido parar justo na casa dela. Ela torcia para que Amora não os tratasse com desdém.
Todos foram surpreendidos pela chegada de um desconhecido em uma moto. Só o reconheceram quando ele tirou o capacete.
— Fabinho? — surpreendeu-se Amora. Ela não esperava vê-lo ali e, ao mesmo tempo, se sentia desconfortável com a sua presença. Ele representava um passado que ela preferia esquecer.
— Agora o reencontro tá completo. — disse o moço.
Giane fechou a cara e cruzou os braços, não gostando nada de reencontrar Fabinho, especialmente naquelas circunstâncias. Ela se questionou o que ele fazia no noivado de Amora, já que nunca foram amigos íntimos, nem mesmo na infância. Fabinho nem foi convidado; do contrário, Amora não teria demonstrado surpresa ao vê-lo. Ele nunca visitou o lar de adoção onde foi criado, nunca ligou ou escreveu para dar notícias, mas fazia questão de aparecer em festas de gente rica. Giane notou que ele se tornou um playboy muito do metido e não gostou da mudança.
Bento também achou a situação estranha. Fabinho ficou muitos anos sem aparecer ou dar notícias e, de repente, reapareceu justamente no noivado de Amora. Fabinho e Amora nunca tiveram uma amizade próxima. Pelo menos na Casa Verde, Fabinho nunca mais apareceu. E, com certeza, Fabinho não visitou Amora nenhuma vez nos últimos quinze anos, até porque moravam longe um do outro, já que Fabinho vivia no interior.
— Que marginal é esse invadindo a minha casa? — reclamou Bárbara.
Amora aproximou-se da mãe e colocou a mão sobre o ombro dela.
— Mãe. — disse Amora.
— Seguranças, por favor, tirem esse sujeito e essa moto daqui já!
Bárbara estava indignada, pois não conhecia Fabinho, que nem sequer havia sido convidado. Ele era um completo estranho para ela e ainda por cima invadiu a casa, passando com a moto e destruindo o jardim e o gramado. Na opinião dela, só podia mesmo ser um marginal.
— Mãe, eu conheço ele. É o Fabinho. — disse Amora.
— Como assim Fabinho? — estranhou Bárbara.
— Olha, perdão pela invasão. — disse Fabinho, descendo da moto. — É que eu cheguei de Londres ontem e eu vi no jornal que ia ter o noivado. Eu não aguentei. Eu quis matar a saudade da minha amiga.
Fabinho aproximou-se.
— Você não vai dar um abraço no seu velho amigo?
Amora hesitou, mas acabou abraçando Fabinho. Para ela, a aparição dele justamente em sua festa de noivado foi uma surpresa.
— Você continua igual, né? — murmurou Amora.
— E você está cada vez mais linda. — elogiou ele.
— Escuta, vocês se conhecem de onde? — perguntou Bárbara.
— O Fabinho morou na mesma casa que eu. — explicou Amora, e olhou para Bento. — Ele e o Bento.
Para Amora, Giane era invisível e insignificante. Ela não se importou em cumprimentá-la, até porque achava Giane mal vestida. Ver Fabinho também a deixava desconfortável, mas olhar para Giane era ainda pior. Giane a lembrava de um trauma, de uma dor e de sua vergonha, pois foi Giane quem lhe deu sapatos quando chegou ao lar. Além disso, Amora não tinha a menor intenção de apresentar aquela pessoa desleixada como sua amiga de infância, pois, na verdade, Giane nem era sua amiga. Amora só cumprimentava quem considerava importante ou de seu interesse, o que não era o caso de Giane.
Amora foi forçada a cumprimentar e apresentar Fabinho porque ele impôs sua presença. No entanto, o fato de ele ser rico e estar bem-vestido a fazia sentir-se um pouco melhor ao vê-lo. Embora Fabinho fizesse parte de um passado que a amedrontava, ele não representava mais a pobreza. Quanto a Bento, mesmo que ele estivesse com trajes simples, Amora não o trataria mal. Embora ele também fizesse parte de sua infância, que ela desejava esquecer, Amora ainda sentia um carinho enorme por ele, e a presença dele a fazia se sentir em paz. Em relação a Giane, Amora não conseguia entender como ela não tinha vergonha de se vestir de forma tão masculinizada e se sentia envergonhada pela presença de Giane.
Giane ficou chateada, pois Amora nem a cumprimentou, agindo como se só conhecesse Bento e Fabinho, como se ela não existisse. Giane percebeu que mais uma vez Amora deixou claro que tinha vergonha dela. Embora Giane não gostasse muito de Amora, achou que Amora poderia tê-la apresentado, mas não o fez. Giane ficou magoada com a grosseria e a falta de consideração. Ela e Amora foram vizinhas na mesma rua, ela sempre procurou ser gentil com Amora, e agora Amora a tratava com desprezo. Fabinho também a ignorou e agia como se fosse um grande amigo de Amora. Ele também ignorou Bento. Giane considerou absurdo Fabinho fingir não conhecer duas pessoas com quem brincou na infância, classificando a atitude como uma maldade e grosseria imensas.
Ela e Fabinho tinham o costume de jogar bola juntos quando eram crianças. A relação deles era completamente diferente da que ela tinha com Bento. A amizade com Bento era verdadeira, inabalável e especial, e ela sempre fora apaixonada por ele. Para Giane, Bento era seu melhor amigo. Ela nunca enxergou Fabinho como um grande amigo. Para ela era apenas um órfão entre tantos que Gilson e Salma acolheram. Mas ela era uma das poucas crianças que brincavam com ele, e era desta maneira que Fabinho retribuía sua bondade e gentileza, com desprezo e falta de consideração, fingindo não conhecê-la. Estava parecendo que Fabinho só se interessava em se aproximar de pessoas ricas e famosas como Amora.
Bento percebeu que Amora não apresentou Giane para a mãe dela e nem a cumprimentou. Ele decidiu que conversaria sobre isso com Amora em um momento mais apropriado, pois não queria brigar, especialmente depois de tanto tempo sem se verem ouse falarem. Além disso, ele e Giane estavam ali a trabalho, e ele não queria causar um conflito na festa de noivado de Amora.
— Então o florista é o... Ah, não, meu Deus! Isso não pode estar acontecendo. — disse Bárbara.
— Olha, gente, eu sei que eu não fui oficialmente convidado, mas eu... Mas eu... Mas... — disse Fabinho, sem jeito.
— Não. Não. Imagina. Seja bem-vindo. — disse Maurício, cumprimentando-o.
— Obrigado. Prazer. — Fabinho sorriu.
Bento não gostou do fato de Fabinho não cumprimentar nem ele nem Giane, agindo como se não existissem. Ele concluiu que Fabinho tinha vergonha deles, o que considerou uma enorme grosseria e falta de consideração, principalmente porque os dois foram as únicas pessoas com quem Fabinho brincava quando morava no lar.
— Você também. — disse Maurício, indo cumprimentar Bento. — Amigo da Amora é amigo meu também. Vocês não precisam de convite, não. Fique à vontade.
— Bento, me desculpe a demora. — disse Verônica, chegando com o cheque. — Aqui está. Não tenho como agradecer mesmo.
— Bom, precisando, a senhora já sabe. — disse Bento.
— Mãe, você viu que coincidência? — perguntou Maurício, aproximando-se da mãe. — O Bento é amigo da Amora.
— Ah, é? — disse Verônica, olhando para Amora. — Pois então, Amora, agradeça a seu amigo essas lindas flores. Ele salvou a sua festa.
— Pena que ela não possa chegar muito perto, porque ela é alérgica, ela pode espirrar, não é Verônica? — disse Bárbara. Dirigiu-se à filha. — Amora, por favor, os convidados estão chegando. Faça as honras da casa.
— Giane, você me ajuda a terminar de organizar as flores lá dentro, por favor? — pediu Verônica.
— Sim senhora. — disse Giane, entrando na mansão com Verônica.
Bento conversou com Amora por um tempo e depois entrou para ajudar Verônica e Giane a arrumarem as flores. Os convidados começaram a chegar, e a festa teve início. Após terminar de organizar as flores na mansão, Giane procurou Bento, que havia ido para o terraço. Lá, ela o viu conversando com Fabinho e acabou ouvindo parte da conversa deles.
— ... Conheci cada coisa, cada lugar, cada país. — dizia Fabinho. — E você na Casa Verde ainda plantando flor. Legal. Legal. Achei legal.
Giane ficou furiosa com o tratamento que Fabinho dispensou a Bento. Ela imaginou que Fabinho se achava superior a eles por ser rico, e talvez por isso nem os tivesse cumprimentado. Para ela, Fabinho era um babaca. Giane questionou quem ele pensava que era para tratar Bento daquela forma. Ele achava que a riqueza lhe dava o direito de pisar neles? Ela não conseguia entender como Fabinho podia tratar tão mal duas pessoas que cresceram com ele. Fabinho só cumprimentou Amora e seu noivo, o que demonstrava que ele só se importava com gente rica. Embora Fabinho se achasse melhor que Bento, Giane pensava o contrário, pois Bento, mesmo sem dinheiro e sem ter viajado, era um ser humano muito melhor que muita gente cheia da grana, porque ele valorizava os afetos e as amizades. Bento nunca a destratara e também não o fez com Fabinho, mesmo com todas as diferenças que sempre existiram entre eles. Giane concluiu que Fabinho precisava ouvir algumas verdades para deixar de ser besta.
— Você deu mermo sorte de ter sido adotado pela família rica que queria adotar o Bento, né, Fabinho? — Giane fez questão de confrontar o rapaz, para que ele parasse de se sentir superior a Bento.
— Ela é a famosa quem mesmo? — Fabinho perguntou ao Bento.
Giane esboçou um sorriso irônico. Para ela, já não bastava Fabinho ter esnobado Bento, e agora ele ainda fingia que não a reconhecia, mesmo sabendo perfeitamente quem ela era. Embora fizesse anos que não se viam, ela não tinha mudado tanto assim. Eles não eram propriamente amigos, mas na prática, ela era uma das pessoas mais próximas a ele. Nada justificava a forma desdenhosa como Fabinho a estava tratando, primeiro fingindo que ela não estava ali e depois olhando-a de cima. Ele nem sequer falou com ela, apenas se dirigiu a Bento para tratá-lo como um ser inferior. Giane não gostou de maneira nenhuma do tratamento que Fabinho estava dando a ela e a Bento. Quando criança, Fabinho estava longe de ser um anjo. Mas ela percebeu que ele havia piorado, tornando-se um sujeito esnobe e com jeito de cafajeste.
— Ela é a Giane, Fabinho, você está cansado de conhecer. — disse Bento, impaciente.
Para Bento era impossível que Fabinho não se lembrasse de Giane, já que cresceram juntos. Eles moravam na mesma rua, no mesmo bairro e compartilharam a infância. Fabinho e Giane costumavam jogar bola juntos. Nunca tiveram uma amizade profunda, mas Giane sempre havia sido gentil com Fabinho. Fabinho e Giane podiam não ter sido melhores amigos, mas também não eram estranhos um para o outro. E mesmo que tivessem sido, para Bento, nada justificava o comportamento de Fabinho. Bento não entendia como Fabinho podia tratar Giane com tanto desprezo.
— Ah... — Fabinho sorriu, olhando para ela. — É que a última vez que eu vi ela era um moleque. — riu. — E, pelo visto, continua sendo, né?
Giane sentiu a raiva ferver dentro de si. Odiava ser chamada de moleque, e Fabinho estava cansado de saber disso, porque a conhecia muito bem, ou pelo menos o suficiente para saber o que a irritava.
— É? E você continua sendo o mesmo filho de uma... — descontrolou-se.
— Vambora, vambora. — disse Bento, arrastando-a. Giane era muito barraqueira, e ele queria evitar confusão. Eles vieram ali a trabalho.
— Bento, Bento! Pô, cara, por que você não deixou eu dizer umas verdades pra esse... — reclamou a garota.
— Porque não vale a pena se desgastar por causa do Fabinho, Giane. E outra, a gente tá aqui a trabalho, lembra?
— Tá. O trabalho acabou. Vambora, vambora! — disse Giane.
— Vamos. Peraí, daqui a pouco, tá? — disse Bento, observando Amora, que estava abraçada a Maurício, tirando diversas fotografias. Amora tinha solicitado que ele aguardasse, pois desejava conversar mais com ele. Ao reencontrá-la, ele sentiu-se emocionado. Ele e Amora haviam tido uma breve conversa antes de Bárbara a incumbir de receber os convidados.
Giane revirou os olhos e soltou um grunhido de insatisfação.
— Cara, deixa de ser otário, Bento. Olha ela ali com o noivo dela, os fotógrafos, os bacana todo aí! Ela nem vai olhar pra você, cara.
— Bento, não é? — Bárbara perguntou, aproximando-se. Bento assentiu.
— No convite que eu emiti estava escrito “traje casual chic” — disse Bárbara, olhando-o de cima a baixo. Olhou-o com desdém. Bento explicou:
— É que eu não recebi convite. Fui convidado pelo noivo agora pouco.
— Pois então você deveria sair e se vestir adequadamente. — disse Bárbara. — É o mínimo exigido pela etiqueta. Caso você não tenha uma roupa adequada, compre com o dinheiro das flores, alguma coisa decente pra você e seu amiguinho aí.
— Ei, eu sou mulher, cara. — disse Giane.
A garota não gostava de que se referissem a ela pelo pronome masculino, pois era mulher, e desejava ser tratada como tal.
— Você? — disse Bárbara, rindo. — Você não ter a menor ideia do que significa ser mulher. Agora, por favor, saiam da minha casa. Hum?
Giane sentiu-se humilhada. Bento ficou muito irritado ao ver a mulher os destratar. A atitude dela demonstrava uma grande grosseria e ignorância, mesmo se considerando fina e elegante.
— Olha, a senhora podia ter dito tudo isso num tom mais adequado, casual e chique. — ironizou Bento. — Agora vamos embora, que quem não quer ficar nessa casa sou eu.
Bento sentiu-se chateado porque Amora não se aproximou para falar com ele, deixando-o esperando. O reencontro, embora emocionante, foi estranho. Antes, bastava ele e Amora se olharem nos olhos para um saber o que o outro estava pensando. Agora, pareciam não saber mais o que dizer um ao outro. Amora estava diferente, era outra pessoa, e não deu atenção a ele. Aquela garota que posava para os fotógrafos em nada lembrava sua amiga de infância. Fabinho esnobou tanto ele quanto Giane, e, para piorar, Bárbara também os tratou mal. Diante de tudo isso, Bento decidiu que não iria mais procurar Amora, percebendo que agora eles viviam em mundos diferentes e que ela não era mais a mesma pessoa.
Giane e Bento afastaram-se. Giane reclamou:
— Mulherzinha nojenta, viu? Quem ela pensa que é pra falar com a gente desse jeito? Ah, vá...
— Oi, vizinhos! — disse Lili, ao encontrá-los. — Onde vão com tanta pressa?
— Senhor Lili, eu nem sabia que o senhor estava aí. — disse Bento.
— Pois é. Eu vim fazer o cabelinho da Amora. Vocês estão indo pra casa? Eu queria uma carona. Mas só que tenho que voltar lá dentro, que esqueci a frasqueira, tudo bem?
— Tudo. — disse Bento.
— Ótimo. — disse Lili, entrando na mansão.
— Agora tá explicado, né? Foi o tio Lili que inventou de indicar a gente pra essa roubada aqui. — disse Giane.
— Não, fui eu que indiquei vocês. — disse Malu, aproximando-se.
Até aquele momento, Malu se mantinha escondida dentro da mansão, evitando participar da festa. Para ela, aquele era um dos dias mais tristes de sua vida, e ela só queria ficar invisível. Amando Maurício, era extremamente doloroso vê-lo ficar noivo de Amora. A dor era imensa. Malu tinha indicado os serviços de Bento para Verônica porque um dos fornecedores dela teve um problema na estrada e nenhum outro tinha as flores que ela precisava na quantidade necessária. Malu, assim como Verônica, não queria que a festa de Maurício fosse um desastre. Além disso, quando entrevistou Bento, Malu percebeu imediatamente que ele nutria um carinho especial por Amora. E dias antes do noivado, ela tinha visto Amora chorar abraçada à mãe por causa do programa de Sueli Pedrosa, no qual os moradores da Casa Verde falaram mal dela. Mas Amora ficou pior principalmente pelo que Bento disse. Malu, então, concluiu que Amora ainda tinha um forte sentimento por Bento e decidiu tentar reaproximá-los, na esperança de que assim, Maurício ficasse livre para ela. Contudo, o plano não deu certo. Amora sequer deu atenção a Bento, o que fez Malu pensar que talvez tivesse se enganado e que Amora não gostasse mais dele. Agora, vendo Bento magoado, Malu se sentiu mal por ele e se arrependeu de ter indicado seus serviços a Verônica.
Giane se recordou de Malu, a mesma garota que entrevistou Bento outro dia. Ela já havia aparecido na Casa Verde uma ou duas vezes, chegando a fazer amizade com Charlene, que se ofereceu para ser voluntária em sua ONG. A questão que intrigava Giane era: o que Malu estava fazendo ali?
— Malu? O que você está fazendo aqui? — surpreendeu-se Bento.
— Eu sou irmã da Amora, Bento. — revelou Malu.
— Você também é filha adotiva da Bárbara? — perguntou o rapaz.
— Eu sou a única filha de sangue dela. — disse Malu. Ao contrário de Amora e Bárbara, Malu não gostava de aparecer na mídia e sempre se mantinha longe dos holofotes. Por isso, ao falar com Bento, ela não revelou seu sobrenome, e ele não tinha conhecimento do parentesco entre elas. O público conhecia apenas o rosto de Amora e dos outros irmãos adotivos, já que Malu não fazia questão de conceder entrevistas.
Para Malu, foi uma surpresa descobrir que Amora tinha crescido no mesmo lar de adoção que Bento. Amora jamais falava de seu passado, de sua origem, nem para a mídia, nem para qualquer outra pessoa, como se não tivesse passado nenhum. Bárbara, por sua vez, nunca revelava a origem de cada criança adotada. Pelo contrário, ela sempre escondia a verdade, mentindo e inventando histórias fantasiosas sobre a procedência dos filhos para impressionar o público e se passar por heroína, salvadora de crianças carentes.
A presidente do fã-clube de Amora havia mencionado em seu blog que morou no mesmo lar de adoção que Amora, o lar de Gilson. Contudo, até conhecer Bento e ver uma foto de Amora ao lado dele e de outro garoto, Malu não deu credibilidade à informação, pois achava que a presidente do fã-clube, a tal da Socorro, estava inventando. Amora era famosa, e muitas pessoas espalhavam boatos de que a conheceram na infância. Com tantos abrigos em São Paulo, ninguém sabia de onde Amora realmente veio. Malu chegou a tentar conversar com Amora sobre Bento, mas Amora não lhe deu ouvidos e nunca prestava atenção no que ela dizia.
— Por que você não me disse isso quando você foi na minha casa? — perguntou Bento.
— Bento, não fica bravo comigo por causa disso. — pediu Malu.
— Eu não tô bravo, Malu. — disse Bento. — Só quero entender duas coisas. Por que você não me falou que era irmã da Amora quando viu a foto dela na minha casa? E por que você indicou o serviço da gente pra Verônica sem me falar nada, sem ao menos me avisar?
— Ah, quis tirar uma da tua cara, né? — disse Giane, furiosa. — Igualzinha à irmã.
Giane pensou que Malu só podia ter indicado os serviços deles para fazê-los de palhaços. Pelo que Giane via, pessoas ricas tinham prazer em humilhar os pobres. Em sua opinião, Malu não se diferenciava muito da irmã.
— Não, não é isso. — disse Malu. — Ô Bento, deixa eu te explicar. Eu...
A princípio, Malu apenas quis proteger Bento, por isso não disse nada ao entrevistá-lo. Ela o considerou uma pessoa sensível e delicada, sentindo que precisava preservá-lo da exposição. Como Amora era uma pessoa pública, a mídia estava sempre atrás dela, buscando informações para matérias em revistas.
Caso Malu revelasse ser irmã de Amora, Bento certamente pediria que ela intermediasse a reaproximação. Se ele fosse atrás de Amora, a mídia, sempre atenta a ela, rapidamente o descobriria, investigando quem ele era e buscando informações sobre a infância de Amora. A imprensa exploraria a infância e a vida íntima deles para criar sensacionalismo, algo que já tinha acontecido quando Sueli Pedrosa foi à Casa Verde para saber mais sobre a infância de Amora. Uma relação entre Amora Campana e um florista pobre da zona norte de São Paulo seria um prato cheio para a mídia, que logo inventaria mentiras, como um suposto caso entre Amora e Bento e uma traição a Maurício. Malu conhecia bem esse mundo midiático, afinal, era filha de Bárbara Ellen (uma atriz famosa, porém decadente e falida) e do cineasta Plínio Campana, e irmã adotiva de Amora Campana.
— Quer saber? Eu não quero ouvir mais nada. — disse Bento. Se tinha uma coisa que ele detestava, era ser feito de idiota.
— Vambora! Vambora! — disse Giane, e ela e Bento foram andando na frente.
— Que isso? Giane! Bento! Bento! — chamou Malu, e eles a ignoraram.
Estavam caminhando em direção à van, quando Lili veio ao encontro deles.
— Que bom que vocês estão aí ainda!
— Vambora, tio Lili. — disse Bento.
— Bora, bora! — disse Giane, mal-humorada.
— Eu já estou cansado. — disse Lili.
Bento e Giane o apressaram. Lili percebeu que eles não estavam com bom humor.
— Vocês estão bravos? Eu fiz alguma coisa?
— Entra na van, tio. — disse Bento.
— Bora sair já dessa casa. Vambora. — disse Giane.
— É só porque vão me levar que estão assim? — perguntou Lili.
Eles entraram na van e seguiram viagem. No caminho, Bento e Giane contaram a Lili o que tinha acontecido para estarem tão zangados. Quando chegaram em casa, Odila e Charlene os receberam. Odila perguntou:
— E aí, gente? Como é que foi a festa dos grã-finos? Conta.
— Um saco! Um bando de gente nojenta. — esbravejou Giane. — Ah, boa noite! Tchau pra quem fica.
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