Um amor inesperado
56 Falso aborto
No dia seguinte, Giane arrumou-se. Tinha um compromisso. Ao andar pela rua, porém, viu Fabinho discutindo com Socorro.
— Fabinho, desculpa, eu tô muito nervosa. Me deixe em paz! Me deixe em paz! — disse Socorro, afastando-se de Fabinho.
— O que foi isso, Fabinho? — perguntou Giane, aproximando-se.
— É pior do que eu pensava, com certeza. — disse Fabinho.
Giane não gostou. De novo aquela história da sabotagem do bufê? Fabinho não havia prometido que não iria se meter nisso, que ficaria longe da Amora? Mas Fabinho era teimoso como uma mula mesmo.
— Fabinho, você não aprende, né? Eu falei pra você não se meter... Cara... — disse Giane, puxando-o pelo braço. Saíram andando.
Ouviram Tina gritando atrás deles:
— Giane! Fabinho!
Fabinho e Giane viraram-se. Tina correu em direção a eles.
— Graças a Deus! Perfeito! — disse Tina. — Finalmente, encontrei assim um cara gato e uma fotógrafa! Tira uma foto minha com o Fabinho. Rapidinho, por favor. Obrigada. — entregou o celular para Giane.
— Claro, Tina. Mas por quê? — perguntou Giane.
— Ah, não, porque eu quero fazer ciúmes no Lulis, sabe? Que vive na casa da patroa e não tá me dando a devida assistência! — disse Tina.
Tina tinha um rolo com Lucindo, mas ele também tinha um caso com a Damáris, ex-mulher do Wilson, e com uma tal de Gladys do Cabuçu, que Damáris dizia ser sua irmã gêmea. No fundo, quase todo mundo sabia ou ao menos desconfiava que Damáris e Gladys eram a mesma pessoa, porque as duas nunca foram vistas juntas.
— Tô indo embora, tá? Tchau! — disse Fabinho, retirando-se.
Porém, Tina puxou-o pelo braço:
— Ai, Fabinho, rapidinho! — disse Tina. — É só uma foto comigo dando uma sensualizada de leve. Quer dizer, não precisa ser tão de leve, né? Pode rolar um beijo técnico. Seria até melhor. Mas, pensando bem, não precisa ser tão técnico assim...
Giane não estava gostando nada. Tina estava querendo agarrar o Fabi-nho, beijá-lo para valer, era isso mesmo? Ela não permitiria. Ninguém iria tirar casquinha do seu namorado, ainda mais na frente dela. Tina era uma safada.
— Tina, para e pensa no que você tá falando! — disse Giane, enciu-mada. — Você tá louca? — devolveu o celular para ela. — Ai, vai se tratar, garota!
Fabinho e Giane afastaram-se, e Tina falou atrás deles:
— Giane, você é egoísta, sabia? Garota, você é egoísta!
Giane e Fabinho não deram ouvidos. Giane conversou um pouco com Fabinho, e ficou sabendo que Gilson resolveu dar uma nova chance a ele. Ele continuaria como garçom no Cantaí. Pouco tempo depois, Giane foi para a Crash Mídia. Quando chegou, Érico, Sílvia e Jonas estavam à sua espera, e Douglas também estava.
— E aí, gente? — disse Giane, entrando.
— Oi, Giane. — disse Érico. — Olha quem tá ali.
— Vocês não pediram pra eu vir? Tô aqui. — disse Giane.
— Chegou na hora certa. — disse Sílvia, apontando para a tela, que exibia a campanha da close-up, com uma foto imensa de Giane. — Olha só como tá ficando a nossa campanha.
— Uau! Olha aí, Érico! — exclamou Giane.
— Linda. — disse Sílvia.
— Vem cá. — disse Érico, e Giane aproximou-se. — Deixa eu te fazer uma perguntinha. Desculpa me intrometer... Você tá gostando mesmo do Fabinho, Giane?
Érico não confiava no caráter de Fabinho e se preocupava com o fato de Giane estar namorando um bandido. Giane era como se fosse da família, era como uma irmã mais nova para ele.
Mas Giane não queria discutir com Érico sobre o namoro. Até porque não era da conta dele. Ela estava ali a trabalho.
— Érico, viemos aqui falar de trabalho. — disse Giane, batendo as mãos. — Então, bora trabalhar.
— É isso aí. Jonas, mostra a outra foto pra ela. — disse Sílvia. — Põe lá pra ela ver. Olha aí.
— Esse vestido ficou bom, né? — disse Giane, apontando para a tela.
— Adorei. — disse Sílvia.
— Ficou ótimo. — disse Giane.
— Você tá linda. — disse Sílvia.
Após a reunião na Crash Mídia, Giane foi para a emissora, para ser entrevistada no Luxury. Caio agora era o patrocinador do programa, e foi ele quem arrumou a entrevista. E quem a entrevistaria era a Brunettý, que
estava dividindo o programa com Amora. Quando chegaram ao estúdio, se depararam com Brunettý e Peixinho.
— Olha que entrevistada mais linda eu trouxe. — disse Caio.
— Para com isso, Caio. — disse Giane, envergonhada. — Oi, gente.
— E aí? — disse Peixinho.
— Olá. — disse Brunettý.
— Nem sei por quê que eu tô aqui. — disse Giane.
Nunca em sua vida imaginou que algum dia seria entrevistada em um programa de televisão, muito menos no Luxury. A vida dava voltas mesmo. Não se sentia nem um pouco à vontade. Tinha medo de cometer alguma gafe.
— Porque a sua história é luminosa. Começando pela cooperativa. — disse Caio.
— Você não vê o programa mesmo, né? — disse Giane, encostando o braço nele. — A Lara já entrevistou o Bento, pra falar da cooperativa.
— Ah, a Lara já era, gata. — disse Brunettý. — A gente quer te entre-vistar porque você se fez sozinha, entendeu? Você tem um negócio. Além do mais, rica que nasceu rica, já perdeu a graça. E você é modelo também, você tem um monte...
— Ah, mas eu não vou mais ser modelo, não. — disse Giane. — Pode ficar tranquila. Eu também vou largar a cooperativa.
— Ainda assim, é fotógrafa, modelo e empresária, não é? — disse Caio. — Então, para de querer convencer a gente que você não é interessante porque você não tá conseguindo, né?
— Nossa senhora! Mas como o mundo dá voltas, né? — disse Giane. — Eu, aqui, dando entrevista pro Luxury. Mas também só porque é Bru-nettý. Porque se fosse a Amora, nem que Jesus me pedisse.
— Bom, vamos lá fazer o make, então, pode ser? Vambora. — disse Peixinho.
— Vambora. — disse Giane.
Logo começou a entrevista. Brunnetý fez várias perguntas sobre a carreira e a vida pessoal de Giane.
— E aí, Giane? Conta pra gente, como vai o seu coração?
— Tá ótimo. Eu tô namorando, mas é segredo. — disse Giane.
Giane não quis contar quem estava namorando. Não que tivesse vergonha de Fabinho. Muito pelo contrário. Ela o assumiu para toda a vizinhança. Mas achava que o resto do país não tinha nada a ver com a sua vida pessoal. Ela estava ali para falar do seu trabalho, não de sua vida íntima. Até porque sua vida pessoal não era da conta de ninguém. No que dizia respeito à sua intimidade, pretendia ser sempre discreta e reservada.
Assim que terminou a entrevista, Giane foi para a Casa Verde e ficou sabendo pelos vizinhos que Fabinho havia agredido Amora na frente de todo mundo. Ele havia tentado esganar Amora, que gritava por socorro. Amora foi parar no hospital, por conta de uma ameaça de aborto. Giane não conseguia acreditar no que havia acontecido. Ela havia falando para Fabinho ficar longe da Amora. Como ele foi capaz de agredir uma mulher grávida? Mesmo que Amora tenha provocado, mesmo ela sendo uma cobra, era injustificável. Queria só ver a explicação que ele daria. Que tipo de pessoa ele era? Estava furiosa. Chateada. Decepcionada. Nunca ima-ginou que Fabinho fosse capaz de fazer algo assim. Acreditava que ele havia mudado. Ela não podia ter se enganado dessa maneira, e se apai-xonado por um homem violento e mau-caráter. E o pior é que todo mundo havia visto, contra fatos não havia argumentos. Mas ela precisava falar com Fabinho, dar a chance de ele se defender. Ela queria acreditar nele.
Quando chegou em casa, Silvério e Margot estavam na sala. Fabinho estava sentado no sofá, aflito. Assim que a viu, levantou-se e foi em dire-ção a ela:
— Ai, Giane, que bom que você está bem. — disse Fabinho, beijando-a no rosto e abraçando-a.
Giane estranhou a reação dele ao vê-la.
— Fabinho, peraí! — disse Giane, empurrando-o. — O pessoal já me contou o quê que aconteceu. Fabinho, é verdade que você tentou matar a Amora?
— A Amora armou pra cima de mim e eu caí que nem um idiota.
— Fabinho, me explica direito essa história. — disse Giane.
Giane não estava entendendo como Amora podia ter armado para Fabinho, e por que ela faria isso? Qual seria a razão desta vez? Amora não valia nada, mas ela não era de fazer as coisas sem motivo nenhum.
— A Amora me ligou dizendo que tinha convencido o tio Gilson a me demitir. — disse Fabinho. — E ela sabia, é claro, que eu ia ficar transtor-nado e que ia tirar satisfação na casa dela.
— E pra você tirar satisfação é agredir uma mulher grávida? — pergun-tou Silvério, indignado. Foi grave o que Fabinho fez.
— Meu filho, onde é que você tava com a cabeça? — perguntou Margot.
— Não, eu tava calmo! Eu juro que eu tava calmo! — disse Fabinho, nervoso. — Só que quando eu cheguei na casa dela, eu comecei a ouvir um barulho muito estranho lá dentro. E ela saiu descabelada me dizendo que tinha matado a Giane!
— Como me matado? Se eu tinha saído cedo pra dar entrevista? — per-guntou Giane. O que Fabinho dizia não fazia o menor sentido.
— Mas eu não sabia que você ia dar entrevista! — disse Fabinho. — Eu tentei entrar dentro da casa e ela não deixou. E aí eu fui ficando deses-perado! Eu perdi a cabeça.
Giane pensou melhor. Realmente, ela esqueceu de dizer a Fabinho que iria dar entrevista no Luxury. Como não sabia da entrevista, Fabinho certamente ficou desesperado com a possibilidade de ela estar morta. A última vez em que se viram foi antes de ela ir para a Crash Mídia. Fabinho devia ter achado que ela não tinha saído da Casa Verde. Com certeza, Fabinho achou que ela tinha brigado com Amora para defendê-lo, e que Amora a matou. Isso se realmente fosse verdade que Amora disse que a matou. Ainda assim, não justificava ele ter tentado esganar uma mulher grávida na frente de todo mundo. Fabinho devia saber que ela não seria capaz de agredir uma mulher grávida. Será que a mentira da Amora foi assim tão convincente? Fabinho cairia assim tão fácil? Só por ter ouvido um barulho estranho, e por Amora estar descabelada? Ele não era burro a esse ponto, ou era? Giane tinha dúvidas. Será que Amora seria capaz de colocar em risco a própria gravidez? Giane duvidava. Não que ela acre-ditasse que Amora adorava crianças, ou que já morria de amores pelo bebê. Mas a gravidez era uma arma para Amora continuar casada com Bento. Ela faria de tudo para salvar o casamento e não iria sair com uma mão na frente e outra atrás. Amora podia não prestar, mas não era idiota.
— Mas tem que ser uma pessoa muito ruim pra premeditar uma coisa tão perversa. — disse Margot.
— Mãe, mãe, a Amora é capaz de coisa muito pior, eu... Eu te juro! — disse Fabinho.
— É, mas isso não justifica você fazer o que fez! — disse Giane.
— Giane, por favor, pensa! — disse Fabinho. — Se eu quisesse fazer algum mal pra Amora, você acha que eu ia escolher o quintal da casa dela, em plena luz do dia, com todo mundo podendo aparecer? Você acha que eu sou burro assim?
Giane pensou melhor. Realmente, Fabinho era esperto demais para ter agredido Amora, tentado matá-la na frente de todo mundo. Se ele real-mente quisesse cometer um crime, não iria querer ter testemunhas. Estava na cara que Amora armou para cima dele. Certamente, Amora fez drama para convencer Fabinho de que realmente tinha matado ela, Giane. Devia ter fingido um surto, aparecido toda histérica e chorosa, como fez daquela vez, no shopping. Se isso for verdade, é claro que Fabinho não iria racio-cinar direito, apenas reagiria. Afinal, Fabinho achava que ela tinha morrido, não iria parar para pensar que ela não seria capaz de agredir uma mulher grávida. Ou então, ele não acreditou totalmente na mentira da Amora, achou que ela inventou, alegou legítima defesa para se safar da acusação de homicídio. Fazia sentido, afinal, Amora queria que Fabinho acreditasse que ela tinha matado a namorada dele, para que ele surtasse e a agredisse, mas como não queria ir para a cadeia sob acusação de assassinato, alegou ter se defendido. Fabinho devia ter achado que Amora a matou por pura maldade. Mas por que Amora fez isso? Por que ela se daria ao trabalho de provocar Fabinho, chamá-lo para a briga? O que ela pretendia, o que esperava conseguir com isso? Foi só para prejudicá-lo? O que Amora ganhava prejudicando Fabinho? Ela já não tinha se vingado? Será que ela colocaria mesmo a gravidez em risco? Ela seria tão ruim assim?
— Olha, olha, eu até entendo que ela queira te prejudicar, mas daí a colocar em risco a gravidez? Não tem cabimento! — disse Silvério.
De repente, uma ideia passou pela cabeça de Giane. Amora era bem capaz de ter mentido sobre a gravidez. Ela podia não estar grávida. Até onde Giane sabia, Amora não havia consultado nenhum médico, nem fez exame nenhum. Nunca ninguém viu qualquer exame que comprovasse a gravidez da Amora. Com certeza, Amora mentiu para continuar casada com Bento, e agora resolveu fingir que perdeu o bebê, para Bento ficar com pena dela. Até porque ela não poderia sustentar a mentira por muito tempo. Bento insistiria para ela ir ao médico e o médico saberia que ela não estava grávida. E é claro, ela armou para que parecesse que Fabinho era o vilão e assim ela sairia de vítima. Amora manipulou a fragilidade do Fabinho, e o fez surtar de propósito. Não era a primeira vez que ela mentia, fazia teatro. Ela sempre fazia ceninha, quando Fabinho chegava perto dela, para fazer parecer que ele estava ameaçando-a. Não era a primeira vez que Amora se fazia de vítima. Era especialista nisso. Para quem foi capaz de forjar o próprio acidente, forjar um aborto era moleza. E não era a primeira vez que ela cutucava onça com vara curta. Ela havia armado para Fabinho naquela vez em que foi visitá-lo na prisão. Realmente, Amora era muito pior do que Giane pensava. Era perversa, sórdida. Mentir sobre gravidez, fingir sofrer um aborto para comover todo mundo, armar toda uma situação para se fazer de vítima de violência, era demais.
Quando é que Amora iria parar de mentir, de armar para cima dos outros? Alguém tinha de parar aquela bandida. Alguém tinha de desmas-cará-la, pegá-la no pulo. Não era possível. Giane estava cansada de ver Amora aprontar e depois conseguir se safar, sair de santa, de heroína ou vítima.
— A não ser que ela não esteja grávida, né? — disse Giane.
— Como é que é? — perguntou Margot, espantada.
— Agora vai todo mundo pensar que ela perdeu o bebê por causa do Fabinho. — disse Giane. — Aí o Bento vai ficar com pena dela, vai comer na mão dela. E ela vai sair linda, loira e vítima, como ela sempre faz, né?
— Isso quer dizer que você acredita em mim? — perguntou Fabinho.
— Você acha que eu ia cair nessa armação da Amora? — perguntou Giane.
Na verdade, ela quase caiu. Só não caiu porque não era idiota e foi capaz de usar a cabeça. Além do mais, amava Fabinho e confiava nele, do contrário, não estaria namorando com ele. A vizinhança podia estar revol-tada com o que viu, mas ninguém ali conhecia Amora, não o suficiente. Ninguém sabia do que ela era capaz, por isso o pessoal caía em qualquer teatrinho que ela fazia. Amora era muito inteligente e sabia como mani-pular as pessoas. Ainda mais pessoas como Érico, que ainda achava que Fabinho entregou a campanha para o Natan. Ou como a Renata, que não conseguia perdoar Fabinho por ele ter ameaçado a mãe dela. Ou como Odila, que foi ameaçada de morte por Fabinho. Amora sabia disso tudo e se aproveitava da raiva que as pessoas tinham do Fabinho. Assim, as pessoas iriam acreditar facilmente nela, inclusive o otário do Bento. Todo mundo iria achar que Fabinho era um monstro e Amora uma coitada. Ainda mais por conta do histórico dele, e Amora sempre se fazia de santa.
— Caramba! — disse Fabinho, emocionado, abraçando-a. — Você é a pessoa mais especial do mundo! Mais linda, mais inteligente! Eu te amo! — beijou-a nos lábios.
Giane não podia acreditar. Ele disse com todas as letras que a amava!
— Até que enfim, você disse que me ama! — disse Giane, encantada.
— Te amo muito! Quando aquela bandida disse que tinha te matado, eu fiquei desesperado e eu percebi como você é importante pra mim. Eu te amo demais! — disse Fabinho.
Beijaram-se. Giane riu.
— Pelo menos, pra alguma coisa serviu essa armação toda! — disse Giane, abraçando-o. Ela também o amava muito, e acreditava nele.
Silvério acreditava na inocência de Fabinho. O que a filha havia dito fazia todo o sentido para ele. Amora não prestava.
— Olha, filho, nós estamos do seu lado pro que der e vier, tá?
— Agora se prepara! — disse Margot. — Porque essa Amora vai te cul-par por tudo de ruim que acontecer com ela! Inclusive, desse falso aborto.
— A gente tem que agir rápido e pegar a cobra no pulo! — disse Giane.
— Calma, filha, calma! — disse Silvério. — Nós temos que aguardar as notícias primeiro. Depois a gente vai saber como agir, né?
Mais tarde, Giane e Fabinho foram até a casa dele e ficaram namo-rando no sofá. Ficaram aos beijos e amassos, quando Giane resolveu ir embora.
— Deixa eu ir agora. — disse Giane, afastando-se.
— Não, você tá louca! — disse Fabinho, puxando-a pelo braço. — Você tá louca! Tô precisando de proteção, vai ficar aqui comigo! — beijou-a.
— Deixa de ser fraldinha! Para com isso! — disse Giane, afastando-se.
— Eu não sou fraldinha, não, para, para! — disse Fabinho, pegando na mão dela e puxando-a. — Por favor, fica aqui!
Beijaram-se.
— Agora eu vou. Para! — disse Giane, levantando-se e rindo. — Daqui a pouco eu tô de volta. — abriu a porta.
— Ai, meu Deus do céu, não, não! — disse Fabinho, levantando-se do sofá e indo atrás dela.
— Daqui a pouco, daqui a pouco, daqui a pouco. — disse Giane, indo embora.
Giane saiu, mas não demorou muito. Logo ficou sabendo pelos vizi-nhos que Amora havia perdido o bebê. Estavam todos revoltados. Giane imaginou que Bento devia estar revoltadíssimo e que a primeira coisa que ele faria seria ir atrás de Fabinho. Giane e o pai foram até à casa de Fabi-nho, para impedir Bento de fazer uma besteira. Quando chegaram, Bento estava espancando Fabinho.
— Bento! Bento, o quê que é isso? Para! — gritou Giane, separando Bento de Fabinho, e empurrando-o.
— Me larga! — gritou Bento.
— Você tá louco? — gritou Giane.
Estava chocada. Nunca pensou que Bento fosse capaz de cometer uma violência. Ele não era assim. Pelo contrário, ele era da paz. Costumava ser
uma pessoa equilibrada, nunca foi de se descontrolar desta maneira. Amora foi capaz de transformar Bento em uma pessoa violenta.
— Esse cara tem que morrer! — berrou Bento, apontando para Fabi-nho. Achava incrível como Fabinho mobilizava o que havia de pior nele. Tinha raiva de Fabinho por tudo o que fez com ele, e a raiva se intensificou depois que Amora perdeu o bebê por culpa do marginal. Pela primeira vez na vida, ele sentiu vontade de matar alguém.
— Não! A culpa não é dele. — gritou Giane, empurrando-o, impedindo de avançar no Fabinho. — A Amora armou contra ele, cara.
— Como é que você pode ser tão cega? Todo mundo viu. — gritou Bento. Na opinião dele, Giane insistia em ver em Fabinho um garoto frágil e carente que precisava de carinho. Mas na visão de Bento, Fabinho se fazia de coitado, de injustiçado e Giane caía como uma pata.
— Cego é você. — gritou Giane. — O Fabinho só fez isso, porque a Amora disse que tinha me matado.
— O quê? — disse Bento.
— Ela me provocou de propósito, porque sabia que eu ia perder a cabe-ça. — gritou Fabinho.
Para Bento, isso não fazia sentido. Amora não faria uma coisa dessas. Dizer que tinha matado a Giane? Não tinha cabimento. No ponto de vista de Bento, Amora não seria louca de provocar o Fabinho e colocar a gravidez em risco. Além do mais, Fabinho não era confiável e a palavra dele não valia de nada. Fabinho estava inventando isso para se safar e a tonta da Giane acreditava. Amora jamais seria uma ameaça para Giane. Amora não teria por que mentir para o Fabinho. Além do mais, Fabinho não amava Giane. Fabinho não amava ninguém, só amava a si próprio.
— Como você pode acreditar nesse cara, Giane? Você acha que a Amo-ra ia colocar a gravidez dela em risco pra te ferrar, garota? Se liga! — gritou Bento.
— E você acha que ela tá grávida? Você tá louco! Sai! — gritou Giane.
Bento não estava entendendo. De onde Giane tirou que Amora não estava grávida? Por que ela mentiria sobre um assunto tão sério? Amora não faria isso. Ela sabia que ele adoraria ser pai. Se Amora o amava, não brincaria com o sonho dele. Não o faria sofrer à toa, por um filho que não existia. Amora não fez exame nenhum, mas iria fazer. Ela concordou em consultar o médico. Se ela estivesse mentindo, inventaria uma desculpa para não ir ao médico. No ponto de vista de Bento, não havia razão alguma para Amora fingir que estava grávida, ou para forjar um aborto. Ele podia até entender o que a levou a fazer um falso bazar para proteger os sapatos dela. Ela errou sim, ao enganar todo mundo, mentir para ele. Ela não con-seguiu ser honesta com o que sentia, com o que desejava. Simplesmente, não conseguiu se desfazer dos sapatos. Mas Amora tinha razões para fazer o que fez. Ela tinha um trauma por passar a infância descalça. Estava doente. Agora, qual seria a razão para ela fingir que estava grávida? Para manter o casamento? Filho não segura casamento. Além disso, Amora sabia que, se continuasse mentindo, o casamento estaria acabado. Ela sabia que ele estava farto das mentiras dela. Falsa gravidez era fácil de ser descoberta. Ela não arriscaria o casamento só para ferrar o Fabinho. Além do mais, não era possível. Todo mundo viu Fabinho tentar esganar Amora. Amora foi parar no hospital. Ele falou com o médico.
— Eu falei com o médico, eu vi a Amora! — disse Bento.
Giane achava que Bento era mesmo um otário. Então ele falou com o médico? Mas palavras não bastam. Ele não viu exame nenhum, nem viu ultrassom. Não foi a nenhuma consulta com Amora. A notícia da gravidez foi dada no dia anterior. Ele acreditou na palavra dela, que não valia de nada. Amora podia muito bem ter pagado um médico vigarista para dizer que ela estava grávida e havia perdido o bebê. Amora tinha capangas, mandava fazer as coisas. Gente como ela sempre tem contatos com bandidos. Ela mentia e Bento acreditava, era impressionante! Amora já havia mentido outras vezes, e Bento continuava acreditando nela. Ele devia exigir um exame dela, para comprovar o aborto. E não devia acreditar cegamente em um sujeito que se dizia médico.
— Bento, se eu quisesse fazer mal pra Amora, você acha que eu ia escolher o quintal da tua casa? Com todo mundo podendo ver? Pensa, cara! — gritou Fabinho.
No ponto de vista de Bento, Fabinho foi burro e mau-caráter o sufi-ciente para tentar esganar Odila na frente de toda a vizinhança. Para atirar uma cadeira nele, na frente de Plínio, Irene, Gilson e Salma. E tentou esganar Amora na frente do delegado. Por que Fabinho não tentaria matar Amora novamente, na frente de todo mundo?
— Não adianta argumentar não. Que esse cara tá muito cego, muito surdo, burro. — disse Giane, furiosa.
— Tio Silvério, você não tá acreditando nesse marginal, tá? — pergun-tou Bento, apontando para Fabinho.
Para Bento, não era possível que Giane e Silvério estivessem acredi-tando no Fabinho. Todo mundo viu Fabinho atacar Amora. E todo mundo estava cansado de saber que Fabinho não prestava. Fabinho o odiava, sempre teve inveja dele, faria qualquer coisa para destruí-lo. Por isso quase matou a Amora. O Érico e a Renata contaram que Fabinho andou perse-guindo Amora, ameaçando-a, fazendo tortura psicológica com ela. Érico e Renata confirmaram suas suspeitas, de que Fabinho andava rondando Amora. Só isso explicava a preocupação da Simone, o nervosismo da Amora. Bem que ele estava achando Amora assustada ultimamente. Amora insistiu para se mudarem, morarem em outro lugar, pois Fabinho os odiava e ela estava se sentindo frágil e vulnerável. Só que ele não deu ouvidos, achava que nada aconteceria com Amora. Agora, Bento achava que devia ter ouvido a esposa e se mudado do bairro.
— Olha filho, tá todo mundo muito nervoso... — disse Silvério.
— Esse cara é um assassino! — berrou Bento. — Ele tentou matar a Odila, tentou matar a Amora, tentou me matar, e agora ele matou meu filho! — usou os dedos para enumerar os crimes que atribuía a Fabinho.
— Ela não tava grávida! — gritou Fabinho, levantando-se do sofá. — Ela tava te fazendo de idiota, que é a melhor coisa que ela faz.
Bento deu um soco na boca de Fabinho, fazendo-o cair no sofá.
— Bento, para! — gritou Giane.
— O que é isso? Para! — disse Silvério.
No ponto de vista de Bento, a morte para Fabinho seria um alívio, e era por isso que não o mataria, além do mais, não sujaria suas mãos. Não valeria a pena gastar seu réu primário por causa do Fabinho. Ele não deixaria Fabinho se safar. Ele teria de pagar pelo o que fez.
— A morte é pouco pra você, Fabinho. Eu vou dar queixa na delegacia, você vai apodrecer na cadeia. — disse Bento, antes de ir embora.
— Pai, pelo amor de Deus, não deixa ele fazer isso. — implorou Giane, colocando a mão sobre o ombro do pai.
Giane não deixaria Fabinho ser preso por causa de uma armação da Amora.
— Tá. Eu vou falar com ele, pode deixar. — disse Silvério, indo atrás de Bento. — Bento, Bento vem cá!
— Meu Deus, Fabinho. — disse Giane, sentando-se no sofá, pegando no queixo de Fabinho e dando uma olhada no machucado.
— Eu vou matar aquela desgraçada. — disse Fabinho, furioso.
— Vai matar ninguém. Vai ficar quieto. — disse Giane. — Parar com essa violência. Deixa eu cuidar disso, peraí.
Giane tratou de cuidar do ferimento de Fabinho. Mais tarde, à noite, Silvério foi à casa de Fabinho. Contou que conseguiu convencer Bento a não denunciá-lo. Mas Bento queria Fabinho bem longe dali, da rua. Bento queria Fabinho longe de Amora, do contrário, ele ligaria na hora para a polícia. Margot achou melhor o filho ficar em um hotel, até a poeira abaixar. Ela tinha umas economias, e daria para pagar um hotel barato. Acreditava que não seria por muito tempo. Era só até os ânimos se acalmarem, e tudo se esclarecer. A vizinhança estava revoltada.
— Como é que é, mãe? Você tá me expulsando de casa? — perguntou Fabinho, chateado.
— Pelo menos por enquanto, meu filho. Pro seu bem. — disse Margot.
— É. A vizinhança tá muito revoltada com essa história toda, Fabinho. Você pode ser agredido fisicamente. — disse Silvério.
Ouviram batidas na porta. Silvério foi abrir.
— Ah! Oi, Irene. Faz favor. — disse Silvério.
— Boa noite, seu Silvério. Tudo bem? — disse Irene, entrando. Foi dar um beijo na Margot. — Boa noite, Margot.
— Oi, Irene. Você veio me pedir pra sumir do mapa, também? — per-guntou Fabinho.
— Claro que não, Fabinho. Que isso? Eu tô do seu lado. Eu sei que foi armação da Amora. — disse Irene. — A Malu e o Maurício já descobriram tudo.
Maurício e Malu sabiam que Amora havia sido agredida por Fabinho, por isso foram ao hospital. Quando chegaram, cruzaram com Bento, que estava saindo do hospital. Na sala de espera, além de Salma, Érico e Renata, também encontraram Perácio, que acompanhou Bento até o hospital. Bento estava na casa da Glória quando recebeu a notícia de que Amora estava com uma ameaça de aborto.
Perácio reconheceu o médico que atendeu Amora, um tal de Zezão. Perácio disse que Zezão era um charlatão, vigarista, amante da Brenda. Contou que Zezão tirou o apêndice de Xande sem necessidade, por uma armação da Brenda. Brenda fazia de tudo para não ser expulsa de casa pela sogra, Glória, e não se importava de colocar em risco a saúde e a vida do filho Xande, caso achasse necessário. Xande e Tábata eram muitas vezes cúmplices da mãe nas armações. E Zezão apareceu uma vez, no Cantaí, no aniversário de Rosemere, se fazendo passar por um antigo cliente dela, pois ela havia sido garota de programa na juventude. Mais uma vez, era uma armação de Brenda, para que Perácio não se separasse dela para ficar com Rosemere. O que ela não queria era perder Perácio para Rosemere. Zezão era cúmplice da Brenda e a ajudava nas armações. Maurício e Malu logo suspeitaram do médico, e ao verem Tábata, logo ficaram sabendo que ela estava com Amora. Tábata não era de confiança, pois ela estava metida até o último fio de cabelo na história do bazar falso. Era cúmplice de Amora. Ela e Amora eram velhas conhecidas, pois Tábata foi assessora de imprensa de Amora e Bárbara. Amora organizou o bazar com ajuda de Tábata. Foi Tábata quem criou um site, no qual ninguém conseguia se inscrever, na hora de comprar os sapatos. Tábata também contratou atrizes de teatro desconhecidas do público para tirarem fotos ao lado de Amora, como se estivessem levando os sapatos, para depois deixá-los no apartamento que Amora alugou.
Perácio e Malu interrogaram Tábata, que disse que só levou a Amora até o hospital. Ela disse que foi uma coincidência, que ela estava lá na Casa Verde procurando locação para o seriado, que viu a Amora, foi dar um oi rápido, e voltou para ajudar Vitinho, quando começou a confusão. Perácio logo achou que Amora e Tábata estavam tramando algo, Malu e Maurício também. Estranharam a reação de Tábata, que estava nervosa. Malu e Maurício pediram o endereço do médico a Perácio, que disse que sabia quem tinha o endereço. Então Malu e Maurício foram até à casa de Perácio pedir o endereço a Brenda. Em seguida, foram atrás do médico. Malu conseguiu gravar uma conversa com o médico, em que ele falou de forjar um atestado de óbito fetal. Malu e Maurício ofereceram dinheiro para o médico, para ele contar a armação da Amora para o Bento. Se o médico se recusasse, Maurício e Malu o denunciariam ao Conselho Regional de Medicina.
Irene, porém, acabou não entrando em detalhes de como Maurício e Malu descobriram a farsa, para não se atrapalhar. Depois explicaria direito esta história, contaria para Fabinho que um conhecido de Bento estava no hospital, reconheceu o médico vigarista e ajudou a descobrir a farsa. Ela veio ver como Fabinho estava, e também para tranquilizá-lo. Queria que Fabinho soubesse que não estava sozinho, que havia pessoas que estavam do lado dele, dispostas a ajudá-lo.
— Como assim? — perguntou Fabinho, levantando-se do sofá.
— É. A Amora armou tudo pra incriminar você. Eu nunca pensei que ela pudesse ser tão maquiavélica assim. Mas a gente vai te ajudar. — disse Irene.
— Mentirosa, desgraçada. Eu devia ter matado aquela garota mesmo. — disse Fabinho, furioso, revoltado.
— Não fala isso, nem em pensamento. — disse Giane. — Vai que alguém escuta?
— Tá vendo, meu filho? Você não tá sozinho. A gente tá do seu lado. — disse Margot. — E agora, com a ajuda da Malu e do Maurício, a gente vai provar a tua inocência pra todo mundo.
— E a Amora nem grávida estava, hein? — disse Silvério, sentado no sofá. — Como é que você descobriu isso, filha?
— Ah, não descobri. Intuição, pai. — disse Giane.
Era só uma questão de botar a cabeça para funcionar. Ela conhecia muito bem a Amora e sabia do que aquela víbora era capaz. Fabinho não era nenhum santo, e ela sabia disso. Mas Amora conseguia ser ainda pior.
— Fabinho, eu sei que você tá muito revoltado. — disse Irene. — Mas eu vim até aqui pra te pedir paciência. — colocou as mãos no rosto dele. — Amanhã, quando a Amora voltar do hospital, a Malu vai trazer o tal mé-dico aqui. Ele vai contar toda a armação na frente do Bento.
— Mas se ele fugir? — perguntou Fabinho.
— Ele não vai fugir. A Malu e o Maurício conseguiram provas muito graves contra ele. — disse Irene. — Então, por favor, meu filho, se acalma. Não faz mais nada, não se expõe. Promete?
— Ouve a Irene. Não vai botar tudo a perder de novo, Fabinho. — disse Margot.
— Você tem que ajudar a gente a te ajudar, né, Fabinho? Senão fica difícil. — disse Giane.
— Obrigado, gente. Vocês estão botando fé em mim. — disse Fabinho.
— Eu que agradeço o que você fez por mim. — disse Irene, acariciando o rosto dele. — E olha, adorei esse namoro, hein? — apontou para Fabinho e para Giane. — Vocês têm tudo a ver.
— Como assim? Tenho cara de maloqueiro? — brincou Fabinho.
— E eu lá tenho cara de tonta? — brincou Giane.
Todos riram.
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