Um amor inesperado
63 Atentado
Ao assistir ao programa da Sueli Pedrosa, Salma ligou para Silvério, para avisar que Sueli estava falando de Giane:
— Ah, na TV? — disse Silvério. — Tá, pode deixar. Obrigado.
Silvério ligou a televisão, e mostrou Giane batendo na Amora. Pelo visto, alguém havia filmado a briga.
— Meu Deus do céu! — disse Silvério.
Não entendia por que Giane havia batido na Amora na frente de todo mundo.
— O quê que foi, pai? — perguntou Giane, entrando na sala. — Olha aí. — disse Silvério, apontando para a televisão. Giane riu, achando graça. Silvério disse:
— Satisfeita? Filha, você agora é conhecida! Tem uma imagem a zelar!
Porém, Giane não estava nem um pouco preocupada com a opinião pública. Só queria fazer justiça. Não foi apenas por ciúmes que ela bateu na Amora. Talvez ela tenha exagerado, se deixado levar pela raiva que ela tinha da Amora, que só aumentou com o tempo. Ela tinha raiva porque Amora a tratava mal, a esculachava e a humilhava por se sentir superior a ela. A patricinha estava sempre de nariz em pé, esnobando todo mundo. Amora manipulou a vida de um monte de gente com a história da troca dos exames de DNA. Amora prejudicou Bento e Fabinho, que eram duas pessoas que ela mais amava na vida. Agora, Amora estava tentando dar o golpe do baú em Fabinho. Não era a primeira vez que Amora dava em cima de um homem que ela amava. Giane continuava revoltada com Amora e não acreditava na mudança dela. Afinal, Amora já tinha vindo antes com esta história de mudança, e era tudo da boca para fora. E Amora estava mentindo de novo. Se Amora realmente estivesse disposta a mudar, não teria dado em cima do Fabinho. No ponto de vista de Giane, Amora estava merecendo mais uma surra, porque não tomava jeito e continuava aprontando. O problema era que Amora não se arrependia.
— Ah, pai. — disse Giane, colocando a mão sobre o ombro dele. — A imagem de justiceira vende também. Pergunta ao Caio.
Fabinho entrou neste momento. Já estava sabendo do ocorrido.
— Giane, por que você fez isso? Você tá louca?
— Tá com pena? — disse Giane, com ciúmes. Levantou um ombro. — Leva a cocotinha pra casa.
— Giane, você fez isso por ciúmes? — perguntou Fabinho.
— Bati mesmo pra ela não tentar pegar de novo o que é meu. — disse Giane.
— Como assim de novo? Tá falando do Zé Florzinha, teu primeiro grande amor? Palhaçada! — disse Fabinho, enciumado, e tratou de ir embora.
— Que isso? Ô Fabinho! — disse Giane, indo atrás dele. — Para com isso.
No ponto de vista de Giane, Fabinho tinha de largar de ser besta, deixar de ser tão cabeça dura. Ela nutriu uma paixão por Bento, mas esse sentimento ficou no passado. Agora, era Fabinho quem ela amava. Ela brigou com Amora por causa dele, não por causa do Bento.
Ao saírem na rua, encontraram Bento, que estava saindo da casa de Gilson.
— Ó o seu príncipe encantado aí. — disse Fabinho, irônico. — Aproveita e se declara pra ele.
Giane bateu nele com o braço.
— Larga de ser idiota, Fabinho. — disse Giane.
— Giane, você quer me dizer por que você bateu na Amora? — perguntou Bento, aproximando-se.
— Pra ela aprender a não dar em cima do namorado dos outros. — disse Giane.
No ponto de vista de Bento, Amora não teria nem cabeça para dar em cima de alguém. Amora tinha acabado de perder a irmã, tinha os sobrinhos para cuidar. A maior preocupação dela eram as crianças. Na última vez em que ele falou com Amora, ela disse estar sofrendo por ainda gostar dele, e que decidiu se afastar, dar um tempo, porque ele insistia em tratá-la como amiga. Amora aprontou muito, armou horrores, mas Bento tinha certeza absoluta de que Amora gostava dele. De um jeito errado, torto, mas gostava. A última coisa que Amora pensaria era em tomar o namorado de Giane. Amora foi na casa de Fabinho pedir desculpas, e aproveitou para pegar o celular dele, pois suspeitava que ele podia estar mandando aquelas mensagens ameaçadoras. Amora andava uma pilha de nervos por causa das mensagens que recebia. De qualquer maneira, Giane não precisava ter batido na Amora. Bento duvidava que Amora tivesse dado em cima de Fabinho. E mesmo que Amora realmente tivesse se insinuado para o Fabinho, não adiantaria nada. Era de Giane que Fabinho gostava.
— Pelo amor de Deus, ela acabou de enterrar a irmã! — disse Bento.
— Sabe o que você tá merecendo? — perguntou Fabinho para Giane.
— Hum. — disse Giane.
— Um beijinho. Um beijinho, que você é muito ciumentinha. — disse Fabinho, e beijou-a nos lábios. Dirigiu-se a Bento. — Ciumenta ela.
— Ciumenta é a mãe! — disse Giane, dando socos no ombro dele.
Na opinião de Fabinho, Giane era um poço de ciúmes. Quando ela era apaixonada pelo Bento, morria de ciúmes da sombra de toda mulher que se aproximava dele. Bateu na Mel por ciúmes. E deu uma surra na Amora.
Bento tirou um celular do bolso e entregou para Fabinho.
— Bom, a Amora mandou entregar isso aqui pra você. — disse Bento.
— Meu celular? O que meu celular tava fazendo com a Amora? — perguntou Fabinho.
— Ela tá recebendo umas mensagens anônimas de ameaça e resolveu checar se era você. — disse Bento.
Giane não acreditou que Amora estivesse sendo ameaçada. Para ela, Amora só podia estar inventando esta história para se safar. Primeiro, Amora botava culpa na Socorro, agora resolveu botar a culpa no Fabinho.
Lara Keller se aproximou e ouviu parte da conversa.
— Gente, que bafo! Então, a Amora tá sendo ameaçada, é isso?
— Bom, Giane, você não tinha nada que ter agredido a Amora, tá? — disse Bento, retirando-se.
— Sério? Giane, eu já te falei que eu sou sua fã? — perguntou Lara.
Na opinião de Giane, Lara não estava sendo sincera. E se tinha uma coisa que ela detestava, era falsidade.
— Fica na sua, que senão você é a próxima. — disse Giane. Fabinho riu.
— Vambora, Fabinho. — disse Giane.
Um pouco mais tarde, Amora ligou para Giane. Estava furiosa, porque alguém havia filmado a briga e mandado o vídeo para Sueli Pedrosa. Agora, o país inteiro estava achando que ela tentou dar o golpe no Fabinho. As pessoas já tinham raiva dela, agora iriam ficar com mais ódio. Depois disso, seria muito difícil ela conseguir se reerguer, conseguir algum emprego. No ponto de vista de Amora, Giane só podia ter armado para cima dela.
— Giane, qual que é a sua, hein? Você deu agora pra armar pra cima dos outros? Tá na cara que você chamou alguém pra gravar a gente enquanto você me batia. Você não tem compaixão? Eu acabei de enterrar minha irmã. Quer saber? Eu não vou te perdoar por isso. Você vai me pagar e vai ser muito caro.
— Você tá me ameaçando, é, Amora? — disse Giane.
— Não, dá aqui, dá aqui, dá aqui. Deixa eu falar com ela. — disse Fabinho, aproximando-se. Ele havia ouvido Giane falar ao celular com Amora.
Fabinho pegou o celular.
— O que você tá falando, Amora? Amora! Desligou. Ela tá pensando que vai ficar assim? Não vai ficar assim não. — disse Fabinho, indignado, tentando ligar para Amora.
Porém, Giane se deu conta de que havia exagerado. Não precisava ter batido na Amora. Amora aprontou muito, mas não cabia a ela fazer justiça. Tudo o que sabia era que Amora tinha ido falar com Fabinho. Ela não estava lá para saber se Amora realmente havia tentado seduzi-lo. E mesmo que Amora tivesse se insinuado para ele, não justificava. Giane sabia que Fabinho gostava dela, e ele jamais iria cair na conversa da Amora, depois de tudo o que ela fez. Fabinho detestava Amora. Fabinho jamais a trocaria por Amora. E, pensando bem, Amora acabou de enterrar a irmã. Giane achava que não devia ter batido na Amora no momento mais difícil da vida dela, quando ela acabou de perder a irmã e tinha dois sobrinhos para criar. Amora estava passando por um momento difícil e ela criou ainda mais problemas. Amora acabou sendo exposta mais uma vez, ela e os sobrinhos.
— Fabinho, deixa quieto. — disse Giane. — Deixa quieto. Peguei pesado mesmo. Não devia ter feito isso. Amora acabou de perder a irmã.
— Calma aí. Se ela estivesse tão mal assim, ela não tinha vindo aqui me procurar. — disse Fabinho.
— Quer dizer que ela veio mesmo dar em cima de você? — perguntou Giane.
— Sutilmente. Depois a gente conversa sobre isso, tá? Vou pra agência. — disse Fabinho, e deu um beijo nos lábios dela. — Fica bem.
— “Fica bem”. — murmurou Giane, furiosa, assim que ele se afastou.
Mais tarde, Giane foi para um desfile. Iria desfilar usando roupas da coleção de um cliente da Crash Mídia. Ao chegar, foi para o camarim. Cami-linha, sentada ao lado dela, disse:
— Quem diria, hein, Giane? Eu e você modelando juntas.
— Uhum. — disse Giane, enquanto se maquiava. — Engraçado, achei que você era booker, não modelo.
— É, eu sou, mas é que o cliente insistiu tanto, né? Sabe como é. — disse Camilinha.
Giane levantou-se e perguntou para Vanessa:
— E você, Vanessa? Como é que anda o namoro com o Jonas?
— Não anda mais. Agora eu preciso me dedicar à carreira, né? — disse Vanessa, e deu para ver que ela estava chateada.
— Ah! — disse Giane.
Sílvia entrou no camarim neste momento.
— Gente! — disse Sílvia, batendo palmas. — Todo mundo superalto-astral! No clima da coleção, ok? Vamos começar! Vambora!
Todas as modelos desfilaram ao longo da passarela. Mais tarde, Giane foi à casa de Fabinho. Ele esteve no desfile para vê-la. Namoraram um pouco, fizeram amor. Giane tomou banho e se arrumou para ir ao aniversário de Nestor. A festa seria realizada no Cantaí. Porém, Fabinho ainda não estava pronto. Tinha acabado de sair do banho e ainda estava enrolado na toalha. Fabinho estava preocupado, pois ela havia sido ameaçada por Amora. Morria de medo de Amora fazer alguma maldade com ela.
— Não, a Amora não foi atrás de mim no desfile pra me esquartejar. Relaxa. — disse Giane. — Agora, anda. Para de enrolar pra gente ir pro aniversário do Nestor.
— É, engraçadinha, você se prepara porque ela vai querer te dar o troco. Você sabe, né? — disse Fabinho. — Ainda mais agora com seu vídeo dando uma surra nela bombando na internet.
— Ah... — disse Giane, e Fabinho beijou-a.
— Eu não sabia que você me amava tanto. — disse Fabinho, pegando nos cabelos dela.
— Hum. Quem disse que eu te amo? Tá se achando, hein!
— Eu não tô me achando não. Eu vi ali o vídeo, você morrendo de medo de me perder. — disse Fabinho.
Giane achou que Fabinho era mesmo um convencido. Mas ele estava coberto de razão. Ela ficou morrendo de medo de perdê-lo. Afinal, Amora armou um monte para tirar Bento de Malu, até fez os dois pensarem que eram irmãos. O que Amora não seria capaz de fazer para tomar Fabinho dela, Giane? Amora já havia mostrado ser capaz de qualquer coisa para se dar bem. Se bem que Fabinho não era otário como o Bento, e era esperto. Mas Amora era ainda mais inteligente do que ele. Ele já se ferrou por cair nas armações dela. Ela, Giane, teve medo sim, e ficou morrendo de ciúmes, mas ela é que não iria dar o braço a torcer:
— Ah, que te perder? Tô nem aí pra você, seu babaca. — disse Giane, brincando, mexendo no cabelo.
— “Tô nem aí pra você!” — disse Fabinho, mexendo no cabelo, imitando-a. — Eu vou te ensinar modos, que você tá muito rebelde.
Agarrou-a e beijou-a. Estavam se beijando, quando ouviram a notificação do celular. Giane interrompeu o beijo imediatamente.
— Peraí. — disse a garota, tirando o celular do bolso.
— O que foi? — perguntou Fabinho.
— Mensagem do Bento. — disse Giane, fuçando no celular. Olhou a mensagem: “Fogo na Acácia! Traz a van! Corre!”.
— Acácia tá pegando fogo! — disse Giane, alarmada. — Meu Deus do Céu! — começou a correr. — Ele tá pedindo pra eu levar a van lá! Peraí!
Giane correu até a van, que estava na rua ao lado da casa do Bento. Pegou a chave, que Bento costumava deixar em cima do pneu esquerdo da frente, e entrou na van. Enfiou a chave na ignição e ligou o motor. Mexeu na alavanca de câmbio. Porém, começou a sair uma fumaça de dentro da van. Giane tossiu. Começou a sentir-se mal. Tentou abrir a porta várias vezes, sem sucesso. Tentou abrir o vidro, mas o vidro não abria. Tentou abrir outra porta, que também permanecia trancada. Começou a ficar desesperada. Precisava sair da van. Sentia-se sufocar. Bateu no para-brisa. Tentou buzinar, sem sucesso. Começou a gritar, batendo no para-brisa:
— Ei! Socorro! Eu tô passando mal! Por favor, me ajuda! Por favor! Socorro! Alguém... Alguém me ajuda! Eu tô passando mal! Por favor!
Fabinho saiu de casa e foi atrás de Giane. Acabou encontrando Amora na rua. Ela estava saindo da casa do Bento.
— Amora! O que você tá fazendo aqui?
No ponto de vista de Fabinho, Amora só podia ter vindo para aprontar, fazer alguma maldade com Giane. Porém, Amora veio atrás de Bento. Recebeu uma mensagem do celular do Bento, pedindo para se encontrarem na casa dele. Porém, quando ela foi à casa dele, ele não estava.
— Sai fora, Fabinho. Meu assunto é com o Bento. — disse Amora.
— Não, com Bento coisa nenhuma. Você veio aprontar alguma pra cima da Giane que eu sei. Fala! — disse Fabinho. Afinal, Amora ameaçou Giane. Amora não iria deixar barato a surra que levou. Alguma ela veio aprontar.
— Não tô nem aí pra você e pra favelada! — disse Amora.
— Então o que você veio aprontar aqui? Fala! — disse Fabinho.
— Ei! — gritou Giane, ao ver Amora e Fabinho em frente à casa do Bento. Ela estava dentro da van, do lado da casa do Bento, a pouca distân-cia de onde Fabinho e Amora estavam. E de onde estavam, só dava para ver a cabine da van. Só que não estavam olhando na direção dela.
Amora ficou com a impressão de ter ouvido um barulho, e gritos.
— Você ouviu esse barulho? — perguntou Amora.
— Alguém me ajuda! — gritava Giane, batendo no para-brisa. — Por favor!
— Fala o que você veio aprontar! — disse Fabinho para Amora.
— Giane! — gritou Socorro, saindo da casa de Odila. — Alguém ajuda, por favor!
— Socorro! — gritava Giane.
— Isso você ouviu? — perguntou Amora para Fabinho.
— O quê que foi? — perguntou Fabinho.
— A Giane tá presa na van! Parece que tá sufocando ali! — disse Socorro.
Fabinho e Amora correram em direção à van. Fabinho estava desesperado. A van estava cheia de fumaça e Giane estava sufocando lá dentro.
— Giane! Giane! Giane! — disse Fabinho, desesperado, batendo no para-brisa. — Meu amor! Giane! Giane!
— Gente, a Giane tá la dentro! Tira ela daí! Rápido! — gritou Amora, apavorada. Para ela, era difícil acreditar no que estava acontecendo diante de seus olhos. Não parecia real. Parecia uma cena de filme de terror. O que estava havendo? Por que Giane não conseguia sair?
Fabinho saiu correndo. Amora foi tentar abrir a porta.
— Ai, meu Deus! Tá travado isso aqui! Meu Deus! — gritou Amora.
Fabinho pegou uma barra de ferro e correu em direção à van.
— Vai, vai, vai, vai, vai! Ai, meu Deus! Quebra! — gritou Amora.
Fabinho bateu com a barra de ferro no para-brisa. Não estava dando certo. Só conseguiu fazer com que o para-brisa trincasse.
— Ai, meu Deus! — gritou Socorro.
— Não tá funcionando! — gritou Amora.
— Giane! Giane! Giane, vai lá pra trás! — disse Fabinho.
Giane foi para a parte de trás da van.
— Tá travado isso aqui, gente! — disse Amora, tentando abrir a porta lateral mais uma vez.
Fabinho correu até a parte de trás da van, bateu com a barra na maçaneta da porta traseira. Quebrou a maçaneta.
— Vai, Fabinho! Rápido! Ai, meu Deus! — disse Amora.
Fabinho abriu as portas e entrou na van. Pegou Giane no colo. Ela estava desmaiada.
— Giane tá aí? — disse Amora. — Vai rápido! Vem, vem, vem, vem! Vem aqui!
— Respira! — disse Fabinho, desesperado.
Amora, Socorro e Fabinho foram para a frente da van.
— O que foi que aconteceu, gente? — perguntou Amora, nervosa.
— Bota ela aqui, rápido!
Fabinho deitou Giane no chão, com a cabeça no colo de Amora.
— Respira, amor! Respira! — disse Fabinho.
— Tentaram acabar com ela! Você não tá vendo, não? — disse Socorro.
— Chama a ambulância! Eu vou desligar o carro! — disse Fabinho, levantando-se e entrando na van pela porta traseira.
Amora permaneceu ao lado de Giane. Giane continuava desmaiada.
— Ai, meu Deus, gente! Mas ela vai morrer? — disse Socorro.
Aproveitando um momento de distração de Amora, Socorro enfiou o celular do Bento na bolsa dela. O celular estava envolvido em um pano, para não deixar impressões digitais. Socorro havia passado na Acácia Amarela horas mais cedo, e pegou o celular do Bento sem que ele percebesse. Entregou ao misterioso sabotador, que depois lhe devolveu. Amora tinha realmente um inimigo oculto, do qual Socorro era cúmplice. E foi ele que sabotou a van. A admiração que Socorro tinha por Amora se transformou em ódio, depois de tantas humilhações sofridas. Socorro estava fazendo de tudo para destruir Amora, e abriu mão de qualquer escrúpulo, pois não se importou de colocar a vida de Giane em risco. No ponto de vista de Socorro, foi apenas um susto e ela não deixaria Giane morrer. Apenas teve de prejudicar Giane um pouco para dar porrada em quem merecia.
Fabinho já havia puxado os fios de painel e desligado o motor. Saiu da van e ficou do lado de Giane, esperando pela ambulância. Deu um beijo na testa dela. Giane acordou.
— O quê que aconteceu? — perguntou Giane.
— Nada, amor. Nada. Respira, respira. — disse Fabinho, preocupado e ao mesmo tempo aliviado, ao ver que ela havia acordado.
— Giane, o Fabinho teve que arrombar a van praticamente pra te tirar de dentro. — disse Socorro.
Giane tossiu.
— Tinha um gás no escapamento... — disse Giane.
O escapamento havia sido desviado para dentro da van.
— Tinha, tinha, tinha. — disse Fabinho, e deu um beijo na testa dela.
— Eu não consegui... — disse Giane.
— Não fala, não fala. Descansa, amor, descansa. — disse Fabinho.
Socorro resolveu que era a hora de dar o seu show.
— Gente, sabotaram a van. — disse Socorro. Dirigiu-se à Amora. — Foi você! Bem que eu te vi rondando hoje cedo. Dona Odila também te viu.
— Você tá louca? — perguntou Amora. Dirigiu-se a Fabinho. — Eu tava em casa, eu tava com a Irene. Você pode perguntar pra Irene!
Para Fabinho, Amora tinha culpa no cartório. Ela ameaçou Giane.
— Vou chamar a polícia. — disse Fabinho, pegando o celular.
Giane desmaiou novamente.
— Amor, amor! — disse Fabinho, tentando acordá-la.
— Foi você sim! Sua criminosa, sua assassina! — Socorro acusou Amora.
— Deixa de ser louca! Eu tava ajudando aqui. — disse Amora. — Por quê que eu faria isso?
— Você tá fazendo isso só pra pagar de boazinha pra ninguém descon-fiar de você. Ai, Amora, você é tão óbvia. — disse Socorro.
Fabinho acreditou na Socorro. Não era a primeira vez que Amora po-sava de heroína.
— Óbvia é você! Fabinho, você não acredita que essa garota tá queren-do me incriminar! — disse Amora.
— Vou chamar a polícia. — disse Fabinho, digitando o número no ce-lular.
— Não faz isso, Fabinho! Eu já tô respondendo processo. — disse Amora.
Ela estava respondendo a processo por ter mandado trocar os exames. Fabinho já havia ligado para a polícia.
— Oi, meu nome é Fábio Campana, tentaram matar minha namorada!
Não precisaria falar sobrenome nenhum, e continuava assinando Fábio Queiroz. Mas resolveu dizer que era um Campana, pois era um sobrenome famoso. Acreditava que assim seria atendido com mais rapidez. Amora, nervosa, colocou as mãos na cabeça. Socorro disse:
— Tá tensinha, é, Amora? Tá praticamente assumindo.
— Cala a boca, sua desgraçada! — disse Amora.
Para Amora, era óbvio que Socorro era cúmplice do sabotador e estava querendo incriminá-la. Socorro estava mentindo. Odila não a viu, pois ela não esteve mais na Casa Verde desde de manhã, quando saiu da casa de Fabinho. Era impossível que alguém tivesse a visto rondando por ali. Na verdade, Amora foi para o seu apartamento. Levou os sobrinhos para a escola, depois havia ido para a mansão nos Jardins, pois quis ver o closet uma última vez, antes de ser transformado no quarto do bebê. Ela esteve com a Irene, e com Luz, Kevin e Dorothy. Agora percebia que havia caído em uma armadilha. Alguém mandou uma mensagem pelo celular do Bento, para ela ir até a casa dele. Bem que Amora achou estranho ao receber a mensagem. Bento não era de ficar enviando mensagem. Se ele quisesse falar com ela, teria ligado. Alguém sabotou a van e Socorro estava botando a culpa nela.
— Casa Verde. Tá. — disse Fabinho, ao celular. — Caiu.
Dirigiu-se à Amora:
— Você não vai pensar em fugir não, senão eu te busco no inferno! Capeta.
Fabinho começou a digitar no celular o número da polícia novamente. Giane tossiu.
— Eu não fiz nada. Eu não fiz nada... — disse Amora.
— Oi. Oi, eu já liguei. — disse Fabinho, ao celular. — Meu nome é Fábio Campana, tentaram matar minha namorada.
Depois de ligar para a polícia, Fabinho ligou para Silvério, que estava no Cantaí, ajudando a organizar tudo para a festa de Nestor.
— Alô? Oi, Fabinho. Como é que é? Eu tô indo praí.
Fabinho, Giane, Amora e Socorro continuavam no mesmo lugar. A polí-cia já havia chegado. Giane já estava de pé, e tossia bastante. Fabinho estava abraçado à Giane. Estavam contando aos policiais tudo o que havia acontecido.
— Não dava. Não dava pra abrir nada! Tava tudo... — disse Giane. Ela mal conseguia falar, e tossia bastante.
— Foi sabotada, com certeza. Alguém desviou o gás do escapamento pra dentro do carro e trancou as portas. — disse Fabinho.
Os vizinhos foram chegando, todos ao mesmo tempo. Silvério chegou neste momento, preocupado, e aproximou-se da filha.
— Filha, o que aconteceu? Como é que você tá?
— Tentaram matar a Giane, seu Silvério. — disse Socorro.
— O quê? — disse Silvério, espantado.
Margot também ficou perplexa.
— Como assim tentaram matar a Giane? Que história é essa? — disse Bento, não conseguindo acreditar.
— O que você tá fazendo aqui, Bento? A loja não tá pegando fogo, né? — disse Fabinho.
— Acácia Amarela pegando fogo? Claro que não. — disse Bento.
— Bento, recebi uma mensagem sua pra... Pra levar a van lá na loja! — disse Giane, pegando o celular do bolso e fuçando à procura da mensa-gem.
— Mostra pra ele. — disse Fabinho.
Giane entregou o celular para Fabinho, que entregou para Bento. Bento olhou para a mensagem no celular da amiga.
— Gente, eu não escrevi isso. — disse Bento.
Amora já havia pegado seu celular para mostrar para Bento e para o policial a mensagem que havia recebido.
— Eu também recebi uma mensagem sua, Bento, tá aqui, ó. — disse Amora, mostrando a mensagem. — “Eu te espero na minha casa no início da noite”. Ó. Tá vendo? — entregou o celular para o policial.
— Eu não mandei essas mensagens. Peraí, gente. — disse Bento, apalpando os bolsos, à procura do celular. — Cadê meu telefone? Eu tô sem o meu telefone.
— Aonde você viu seu celular pela última vez? — perguntou um dos policiais.
Bento não conseguia se lembrar onde havia deixado o celular. Jurava que havia colocado o celular no bolso, mas os bolsos estavam vazios. Ele realmente era muito distraído.
— Eu me lembro de ter saído de casa com ele, depois eu não me lembro mais. — disse Bento.
— Aposto que foi a Amora que pegou, mostra a tua bolsa. — disse Socorro.
— Cala a boca, sua cretina! — disse Amora.
— Mostra a tua bolsa! — disse Socorro.
— O que é isso, gente? Que loucura! — disse Amora.
— Amora, deixa eu ver sua bolsa. — pediu Bento. Amora esteve com ele mais cedo. Ele a levou até o ponto de ônibus.
— Deixo. Pode ver. — disse Amora, estendendo a bolsa para ele. Afinal, não tinha nada a esconder. Bento procurou, e tirou seu celular de dentro da bolsa.
Todos ficaram perplexos. Bento ficou decepcionado.
— O que o meu celular tá fazendo aí? — perguntou Bento.
— Mas eu... Eu não peguei o seu celular, Bento. — disse Amora.
— Foi a Amora. Foi a Amora, óbvio. — disse Fabinho. — Ela mandou uma mensagem pra si mesma pra ter um álibi, depois mandou mensagem pra Giane, pra pegar a van.
— Pelos meus sobrinhos, não fui eu, juro. — disse Amora. Ela havia pegado o celular de Fabinho, não o de Bento. E pediu a Bento para devol-ver o celular para Fabinho.
— Vamos esclarecer isso na delegacia. — disse um dos policiais.
— Já falei, não fui eu que peguei o seu celular, Bento. — disse Amora. — Alguém deve ter colocado na minha bolsa pra me incriminar. Só pode ser isso.
— Ih Amora, ninguém aqui acredita mais nas suas mentiras, não. — disse Socorro.
Amora achou que Socorro parecia muito interessada em acusá-la, o que só confirmava suas suspeitas de que Socorro estava querendo incriminá-la.
— Por que você tá me acusando desse jeito? Por que você tá fazendo isso comigo? Socorro, foi você, né? — disse Amora, e apontou para Socorro. — Foi ela que colocou o celular do Bento na minha bolsa, não é? — deu um tapa no braço de Socorro. — Fala, Socorro!
— Não tenta inverter o jogo não, que eu te vi rondando hoje de tarde, hein? — disse Socorro.
— Que é isso? — disse Amora, perplexa.
— O senhor Bento estacionou a van que horas? — perguntou o policial.
— Era umas quatro da tarde, mais ou menos. — disse Bento.
— Onde é que você estava nesse momento? — perguntou o policial para Amora.
— Foi nessa hora que eu recebi a mensagem no meu celular. — disse Amora. — A Irene viu, eu mostrei a mensagem pra ela, depois eu peguei o metrô até Santana e de lá eu vinha andando pela Alfredo Pujol.
— Conta outra Amora, você nunca viria andando da Alfredo Pujol até aqui. — disse Socorro.
— Mas porque eu tinha tempo, só tinha que chegar aqui no início da noite. — disse Amora.
— Mas é uma bela caminhada. Por que você não pegou um ônibus? — perguntou o policial.
— O que está acontecendo, Bento? — perguntou Odila, que havia acabado de chegar.
— Sabotaram a van. Quase mataram a Giane asfixiada. — disse Bento.
— Eu perdi a minha irmã há pouco tempo. — disse Amora para o policial. — Eu precisava fazer uma caminhada. Minha cabeça tá muito cheia. Preciso espairecer e hoje é o dia do meu rodízio. Não daria tempo pra eu chegar com o carro até o anoitecer.
— Mentira, que eu te vi rondando hoje cedo. — disse Socorro. — Eu te mostrei até pra dona Odila. Não era ela, dona Odila?
— Não, não vi nada, não. Eu vi uma sombra. Não vi a Amora. — disse Odila.
— Tá vendo? Tá vendo? É mentira! É mentira dela! — disse Amora.
— O que é isso, Amora? O que é que tá acontecendo? Polícia? — perguntou Bárbara, que se aproximou de Amora. Bárbara estava agora morando na Casa Verde, junto com Tina, na casa que pertencia à Madá.
— Estão me acusando de ter tentado matar a Giane. — disse Amora.
— A Giane? Essa trombadinha? — disse Bárbara.
— Mãe! — recriminou Amora.
— Isso é o que nós vamos averiguar na delegacia. — disse o policial.
— Não, pelo amor de Deus, os meus sobrinhos, não fui eu! — disse Amora, desesperada.
— Pode deixar, Amora. Eu cuido deles... — disse Bento.
— Bento, acredita em mim. Eu não fiz isso, não fiz isso. — disse Amora. — Como é que eu ia sabotar a van se não entendo nada de carro?
No ponto de vista de Giane, Amora podia não entender nada de carro, mas certamente mandou alguém fazer o serviço sujo.
— Vamos, vamos. — disse o policial, levando-a.
— Não, por favor! — disse Amora.
— Amora! Amora! — disse Bárbara.
— Bento, acredita em mim! Me ajuda, por favor! — implorava Amora.
— Bento, faz alguma coisa! — pediu Bárbara. — Você não pode deixar eles levarem a Amora!
Bento resolveu ligar para Malu, para ela ficar com as crianças. Ele teria de ir até a delegacia. Digitou o número do celular da Malu e esperou ela atender.
— Malu, você não sabe o que aconteceu!
— O que é isso? — disse Bárbara, nervosa.
Fabinho dirigiu-se à Giane.
— Amor, quando a ambulância chegar, o seu pai vai com você pro pronto-socorro, tá? Eu vou pra delegacia. — disse Fabinho.
Silvério deu uns tapinhas no braço de Fabinho. Ele e Giane ficaram esperando a ambulância.
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