Um amor inesperado

7 Aniversário de Bento


Enquanto jogava bola sozinha na rua, Giane viu Fabinho sair da casa de Bento. A motocicleta de Fabinho estava parada na frente da casa de Gilson. Imediatamente, Giane pensou que Fabinho tinha ido até lá para pedir que Bento ficasse longe de Amora. Para ela era evidente que Fabinho tinha interesse na Amora. Afinal, ele havia aparecido na rua de manhã, procurando por ela. Giane achava incrível como Fabinho permanecia obcecado por Amora, mesmo com o passar do tempo. A rivalidade entre Bento e Fabinho, que frequentemente disputavam a atenção de Amora desde a infância, era alimentada tanto por essa disputa quanto pela inveja que Fabinho sentia de Bento. Decidida, Giane resolveu confrontar Fabinho, aproveitando que estavam a sós. Com aquela confusão toda, na hora do almoço, ela e Fabinho acabaram mal se falando, além do mais, Fabinho só queria saber de Amora e nem se despedira dela e de Bento. Giane estava determinada a impedir que Fabinho atormentasse a vida de Bento.

Ela não conseguia entender a razão do desprezo e da hostilidade que ele demonstrava. Ele não tinha falado com ela de manhã, só com Amora, e agora estava de saída novamente, sem dirigir uma palavra a ela. Fabinho parecia estar evitando-a. Foi então que ela falou, em voz alta:

— Olha, a pensão ali abriu vaga pra rapazes, hein?

Na rua havia a pensão da dona Cida.

— Não entendi. — disse Fabinho, próximo à sua moto.

— Ué. — disse Giane, aproximando-se, fazendo umas embaixadinhas com a bola. — Você não sai mais daqui. Achei que você estava procurando um lugar.

Ele tinha aparecido ali na rua duas vezes no mesmo dia, tudo por causa da Amora. Ninguém mais existia para ele, somente a Amora. Ainda mais agora, que ela havia se tornado a maior it-girl do país. Contudo, se ele estivesse precisando de um lugar para ficar, Giane resolveu sugerir que ele se hospedasse na pensão. Era uma opção, mas ela tinha certeza de que ele não iria querer viver ali. Ela só fez a sugestão para ver qual seria a reação dele. Era óbvio que ele tinha horror da rua onde cresceu e queria esquecer da infância que teve, depois de ser adotado por uma família rica.

— Tá louco. — disse Fabinho, subindo na moto. Pegou o capacete. — Fica tranquilo que eu não volto mais aqui, não.

Na opinião de Giane, Fabinho era um esnobe, que nem fazia questão de esconder o desprezo que sentia pelo bairro onde foi criado. Ela chegou à conclusão de que aquele papo de que ele queria matar saudades do passado era mentira. Para ela era evidente que Fabinho agora só queria saber dos Jardins ou de qualquer bairro nobre.

Quando era criança, Fabinho não demonstrava grande apreço pela maioria das pessoas dali. Era um garoto fechado, distante e ressentido. Ele se comportava como se o mundo devesse alguma coisa para ele. Mas todos esperavam que com o tempo e com a chance que a vida lhe havia dado (ter sido adotado e amado por uma boa família), o coração do garoto tivesse amolecido. Acreditavam que assim que o rancor passasse, Fabinho iria perceber o bem que lhe fizeram, reconheceria finalmente que apesar de ter sido abandonado por uma família rica (a mãe biológica havia deixado um anel caro com ele, então a conclusão óbvia era que a família tinha dinheiro), ele teve muita sorte. Em vez de ir parar nas ruas, ele havia tido um teto, comida e a oportunidade de crescer em um ambiente saudável e acolhedor. Ele havia sido muito bem cuidado. Se não fosse por Gilson e Salma, nem adotado Fabinho seria, porque eram eles que atuavam na mediação dos processos de adoção. A vida havia tirado a família biológica de Fabinho, mas em compensação, ele havia ganhado pais adotivos maravilhosos e havia ficado rico, de qualquer maneira. Ninguém esperava que Fabinho renegasse completamente o passado e que tratasse a todos ali com tanta superioridade e arrogância. Para Giane, não havia nada mais abominável do que cuspir no prato que comeu.

Giane desejava que Fabinho valorizasse a Casa Verde tanto quanto ela, já que o bairro fazia parte da história dele. Ele devia lembrar de onde veio e das pessoas que o acolheram em seus primeiros anos de vida. Ela não conseguia entender como ele podia desprezar tanto as pessoas que o criaram. Ele podia ter sido uma criança muito rejeitada na infância, mas nem todos o rejeitaram. Fabinho não devia se sentir tão sozinho tendo ela e Bento como companheiros de brincadeiras, além do mais, muitos anos haviam se passado. Era para ele ter superado a orfandade assim como Bento superou. Ainda mais ele que foi adotado, teve pais amorosos.

Na opinião de Giane, Fabinho não devia ser um sujeito desprezível e infeliz, que destratava as pessoas, especialmente as pessoas simples. Pelo contrário, era para ele ter se tornado uma pessoa completamente diferente. Ele teve todas as chances de se tornar uma pessoa feliz, que olhava para a vida com bondade, gratidão, alegria e otimismo. Mas o invés disso, ele pisava nas pessoas, não tinha respeito, carinho, muito menos gratidão por quem o ajudou. Ele havia se tornado um sujeito cínico e desiludido.

Giane não achava que merecia um tratamento tão cruel, pois só fizera bem a ele. Mas, apesar de tudo, ela não se deixaria abalar pela grosseria e arrogância dele, tampouco iria se deixar intimidar por ele.

— Poxa, mas que pena! — disse Giane. — Pensei que eu ia ter alguém pra treinar meus dribles.

Giane fazia questão de lembrar a Fabinho que eles haviam jogado bola juntos na infância. Ela resolveu provocá-lo e desafiá-lo, na tentativa de ver uma reação e chamar a atenção dele. Quando eram crianças, viviam competindo para ver quem marcava mais gols, e ela sempre levava a melhor. Na opinião dela, Fabinho devia ao menos reconhecer que ela foi generosa com ele, que ela tentou ajudá-lo quando eram crianças.

— E eu tenho cara de quem bate bola com moleque de rua? — disse Fabinho, descendo da moto e aproximando-se. — Se liga!

Do ponto de vista de Giane, Fabinho tinha se tornado um babaca. Ele continuava a destratá-la, apesar de, quando eram crianças, eles terem brincado juntos e jogado bola, mesmo ele sendo ruim no futebol. Hoje, ele não queria saber de futebol nem dela, evitando qualquer tipo de conversa ou interação com ela. Sua única preocupação era com Amora. Giane não aceitava o desprezo de Fabinho pelo passado que tiveram e não entendia como ele podia dar mais valor à Amora, apenas por ser rica e famosa. Amora nunca tinha sido amiga dele e não demonstrava interesse por ele. Giane sentia um profundo ressentimento por essa falta de consideração.

Certamente, ele não queria jogar bola para não se sujar. Além de arrogante, era covarde. Ele não tinha era coragem de mostrar que continuava sendo um perna-de-pau. Tinha medo de passar vergonha. Giane riu.

— Sabia que o mariquinha ia amarelar. Aliás, como sempre, né?

A garota não sentia nenhuma culpa por chamá-lo de mariquinha, afinal, ele a chamou de moleque de rua. Ela procurava ser legal com as pessoas, desde que não pisassem no calo dela.

— Mariquinha? — ele disse, indignado. Apontou para a moto. — Você já olhou essa moto aqui? Você tem noção de quanto custa esta máquina, ô marginal?

Ainda por cima, ele se achava o tal só porque tinha uma moto caríssima. Só que ela não ligava a mínima para coisas caras.

— Tô nem aí pra tua máquina, cara. — disse Giane, jogando a bola pra cima. — Quero saber se já virou homem, isso que eu quero saber. Porque da última vez que eu vi, né, você não sabia nem chutar uma bola. Não é, não? Fraldinha!

Já que ele a chamou de marginal, Giane resolveu chamá-lo pelo apelido dele de infância, que ele detestava. Quando ele era pequeno, a molecada da rua chamava ele de Fraldinha, pois era um garoto que parecia ter medo de bola. Era péssimo no futebol e a molecada fazia chacota dele por conta disso.

A garota começou a chutar a bola. Fabinho aceitou o desafio. O garoto tentava tomar a bola dela, mas não conseguia. Ela driblava de todas as maneiras possíveis.

— Vamo lá, Fraldinha, não era assim que te chamavam aqui no bairro? Quero ver se você virou macho. É isso que eu quero saber. Vamo lá, vamo lá, Fraldinha! — dizia a garota.

Fabinho se desequilibrou e caiu em uma poça d’água. Giane riu.

— O Fraldinha se molhou todo, é?

— Você me derrubou. — ele disse.

— Ih, nem encostei em você, vacilão! — disse Giane, e estendeu a mão para ele. — Vem, mané.

— Não toque em mim, seu maloqueiro sujo! — disse Fabinho, tinindo de raiva, levantando-se e indo em direção à motocicleta. Giane riu.

— Já vai, frutinha? — disse a garota, retribuindo o xingamento. — Ih, amarelou mesmo!

Fabinho montou na motocicleta.

— Vai te catar, seu favelado, morador de rua! — xingou, e foi embora.

Giane fez um gesto com a mão, satisfeita. Ele continuava ruim de bola

e não era adversário para ela. Ela achou engraçado ver o playboy cair na poça d'água e a expressão que ele fez. Certamente, ele não queria sujar sua roupa cara. Ela se lembrava perfeitamente de ele ter se gabado de ter comprado os sapatos e a jaqueta em Milão. Giane adorou vê-lo perder a pose de superior. Ao cair na poça, ele pareceu mais vulnerável e humano, menos artificial. Ela tinha prazer em provocá-lo, irritá-lo, fazê-lo baixar a crista e perder a pose.

À meia-noite, era o aniversário de Bento. Giane e seu pai, Silvério, mantinham a tradição de serem sempre os primeiros a parabenizá-lo, algo que Bento sempre esperava. Para a comemoração, Giane fez questão de preparar um bolo. Ela e Silvério adoravam Bento; Silvério, em particular, tinha um grande afeto por ele, tratando-o como um filho, pois foi ele quem o trouxe para o lar quando Bento ainda era um recém-nascido.

Eles foram para a casa de Bento, com Silvério indo na frente. Ele bateu na porta, Bento atendeu e ficou contente em vê-lo.

— Feliz aniversário. — disse Silvério, abraçando Bento.

— Obrigado. Achei até que o senhor tinha esquecido, tio Silvério. — disse Bento.

— Acha que eu ia esquecer do seu aniversário? Nunca. — disse Silvério. — Pra mim você é tão meu filho quanto a Giane. — apontou para a porta.

— Obrigado. — disse Bento.

— Eeeee! — gritou Giane, entrando, trazendo um bolo cheio de velas, todas acesas.

— Caramba! — exclamou Bento.

— Ai! Assopra logo antes que elas apaguem. — disse Giane, entregado o bolo para Bento e batendo palmas. — Bora, bora, bora, bora!

Bento assoprou as velas do bolo.

— Eee! — gritou Giane.

— Valeu, Gi. Caramba! — disse Bento, feliz.

— Que esse seja um ano de muita saúde, felicidade e realizações. — disse Silvério. — Porque foi por isso que eu te dei o nome de Bento. Você é um menino abençoado.

— Obrigado, tio Silvério. — disse Bento, abraçando Silvério. — Obrigado por tudo.

O aniversariante deu um abraço em Giane.

— Valeu, Gi.

Bento, Giane e Silvério sentaram-se no balcão e começaram a comer.

— Hum! — disse Bento, mastigando o bolo.

— E aí? Tá bom? Fui eu que fiz. — disse Giane, com a boca cheia. Estava louca para ouvir um elogio de seu amado.

— Hum, foi? Vou ser sincero, tá bem meia boca. — disse Bento, implicando.

Silvério riu. Giane disse:

— Palhaço! Só não te chamo pra briga agora porque é teu aniversário. Nem foi nesse dia que você nasceu, não é não, pai?

— Eu nasci no dia que eu cheguei na casa do tio Gilson, e esse é o dia que eu gosto de comemorar meu aniversário. — disse Bento.

— Você já tinha alguns dias quando aquela senhora te largou comigo na rodoviária. — disse Silvério.

Ao ver a expressão do rosto do rapaz, Silvério disse:

— Ah, desculpa, filho. Eu sei que você não gosta muito quando a gente toca nesse assunto.

— Vá em frente, tio Silvério.

— Bom, antes de ver a mulher, eu ouvi o seu choro. — disse Silvério. — Quando eu virei, vi uma senhora com um bebê no colo e uma expressão

de desespero porque você não parava de chorar. Eu perguntei se ela precisava de alguma coisa. Foi quando ela me perguntou se eu podia ficar com você por um minuto enquanto ela ia buscar a mamadeira no ônibus.

— Nunca mais voltou pra me buscar. — disse Bento.

— Eu bem que procurei, perguntei pra todo mundo, disse que se tratava de uma senhora muito distinta, usando roupas caras, mas nada. Ela simplesmente evaporou. — disse Silvério. — Eu nem sabia o nome dela. Não tinha a menor ideia de quem era. Então eu levei você pra minha casa.

— Como meu pai não tinha condição de te criar, aí te levou lá pra casa do tio Gilson e da tia Salma. — disse Giane.

Naquela época, Silvério trabalhava como faxineiro na rodoviária e o dinheiro que ganhava mal dava para sustentar a ele e Giane. A mãe de Giane estava doente e faleceu pouco tempo depois. Por esses motivos, Silvério acabou não adotando Bento oficialmente. No entanto, ele sempre esteve presente na vida do garoto, acompanhando seu crescimento e vendo-o se transformar em um rapaz afetuoso, honesto, trabalhador e cheio de princípios, que sempre se mantinha firme em seus ideais. Silvério sentia um orgulho imenso de Bento.

— E essa mulher era minha mãe? — perguntou Bento, referindo-se à mulher que o abandonou na rodoviária.

— Não acho não. — disse Silvério. — Ela tinha uma certa idade já. Era uma senhora fina, bem tratada. Olha, eu tenho certeza que se visse na rua ia reconhecer, mas eu nunca mais cruzei com ela.

— Não faz mal. — disse Bento. — Olha a sorte que eu tive quando ela me colocou nos seus braços. Olha onde eu estou agora. Fazendo o que eu quero, cercado de gente que me ama e que eu amo também.

Bento realmente não guardava mágoa alguma por ter crescido no lar de Gilson. Ele considerava Gilson e Salma como seus pais, e Érico, Jonas e Socorro como seus irmãos. Amava todas as pessoas da Casa Verde e sentia que aquela era a sua verdadeira família. Era, de fato, muito feliz vivendo ali. Ele não tinha vergonha de sua história nem das pessoas que o acolheram e cuidaram dele, pelo contrário, tinha orgulho de suas origens.

Giane admirava, acima de tudo, a forma leve com que o amigo levava a vida, e a maneira otimista e amorosa como ele encarava o mundo. Não que Bento considerasse bom ter crescido órfão, mas ele conseguia ver o lado positivo das coisas e da vida, apesar das dificuldades. Ele nunca reclamava por não ter tido um pai, uma mãe ou uma família de sangue, até porque nunca lhe faltou carinho, e ele recebeu muito amor de Salma e Gilson, dos vizinhos e de todos ao redor. Para Bento, família não se limitava aos laços de sangue, mas sim aos laços de afeto, e ele sentia que tinha, sim, uma família. Bento não reclamava de nada; ele conseguia tirar algo bom até mesmo das coisas ruins. No lugar dele, qualquer pessoa se revoltaria, mas Bento não era revoltado. Na opinião de Giane, ele era uma pessoa verdadeiramente incrível e extraordinária, alguém raro de se encontrar, pois nem todo órfão encarava as coisas do mesmo jeito que ele. Bento tinha verdadeira vocação para a felicidade. Ele não ficava remoendo o passado, não se angustiava pelo futuro e focava no presente. Ele recusava o papel de vítima, se enxergar como um coitado por ter sido abandonado na rodoviária. Ele escolheu não ter pena de si mesmo e não se amargurar por causa do que perdeu, para não sofrer.

O fato de a família biológica ser possivelmente rica (afinal, a senhora que o abandonou usava roupas caras) não tinha a menor importância para Bento, que sempre valorizou o afeto acima do dinheiro. Para Bento, as pessoas que o acolheram, cuidaram dele e lhe deram amor, tinham mais valor do que a senhora rica que o abandonou, o rejeitou. Para Bento, a senhora que o abandonou certamente não tinha amor para dar, e se ela não tinha amor para oferecer, de nada valia o dinheiro. Para Bento, a felicidade vinha de dentro, da maneira de ver a vida, era uma escolha diária, independia de circunstâncias externas, pois todos tinham seus problemas e dificuldades; e não dependia de dinheiro nem da aprovação alheia. Ele encontrava felicidade e satisfação nas coisas simples: no pôr do sol, no trabalho como florista, na vida comunitária, nas amizades e nos afetos em geral. Uma vida simples e digna bastava para ele ser feliz.

— Então bora lá. — disse Giane.

— Fala sério, gente! Eu podia ser mais feliz? — perguntou Bento.

— Não, claro que não! — disse Giane, levantando o copo com refrigerante. — Então um brinde ao rejeitadinho mais querido do Brasil.

— É isso mesmo, Giane, sua bestalhona. — disse Bento.

— Como não podia faltar... — disse Giane esfregando bolo na cara de Bento.

— Não acredito que você... — disse Bento, tentando esfregar bolo na cara dela. — Vai ter volta, hein? Não, Giane! Toma!

No dia seguinte, Giane e Bento acordaram cedo para ir trabalhar.

— Tô indo nessa, tio! — disse Bento a Gilson, enquanto carregava as flores até a van.

— Bora lá. — disse Giane.

Bento deu uma flor para Damáris, que estava ali por perto. Damáris era uma pessoa infeliz. Ela vivia correndo atrás do ex-marido, que era irmão do Gilson, mas o ex-marido não queria saber dela de jeito nenhum. Inclusive, ela acabara de perguntar pelo marido a Gilson e Salma. Bento, notando a situação e a tristeza de Damáris, achou que ela estava precisando de um pouco de alegria, e por isso lhe ofereceu a flor.

— Pra você. — disse Bento.

— Você está dando uma flor pra mim? — perguntou Damáris, sur-presa.

O rapaz assentiu.

— Por quê? — perguntou Damáris.

— Ué? Pra alegrar o seu dia. — disse Bento.

— Rapaz, você está alegrado meu ano. — disse Damáris, emocionada. — Não me lembro de alguém ter feito por mim um gesto tão belo.

Bento riu. Para ele, parecia inacreditável que Damáris nunca tivesse ganhado uma flor na vida. Ele realmente não imaginava que ela fosse ficar tão emocionada com o gesto, que fosse valorizar tanto aquela pequena atitude.

— Vem cá, é impressão minha ou a sua cunhada está num momento difícil? — Bento perguntou para Salma.

— O momento é difícil, e ela não é uma pessoa nada fácil. — disse Salma.

Salma e Bento riram.

— Bom, vamos trabalhar que hoje o dia promete e a noite é de festa. — disse Bento, dando um beijo na Salma.

— Tchau, filho. — disse Salma. — Tchau. — disse Bento.

— Valeu, tio. — disse Giane.

Entraram na van. Giane percebeu que Bento estava animado. Giane concluiu que a razão para a animação só podia ser Amora, já que ela tinha prometido que iria à festa de aniversário de Bento.

— Tá todo alegrinho assim porque a Amora vem na sua festa, não é não? — a garota perguntou, com ciúmes.

— Eu estou alegre porque o dia está lindo, porque a felicidade existe e que Amora vem na minha festa, sim. — disse Bento. — E nem adianta você vir com rabugice pra cima de mim, que hoje você não vai estragar meu dia, tá?

Giane fez uma careta, demonstrando descontentamento ou desagrado com a situação. Em seguida, eles foram para a loja. Chegando lá, Bento dedicou algum tempo a distribuir rosas para as mulheres que passavam na rua. Giane disse:

— Bento, manera! Olha o preju...

Ela reclamou não apenas por conta do prejuízo que ia dar, mas porque tinha ciúmes. Não gostava de ver Bento distribuir flores para a mulherada.

— Ih, o que é, Giane? Tá brava porque não ganhou uma rosa, é? —disse Bento, brincalhão, mexendo com ela. Entrou na loja.

— Imagina! Eu lá ligo pra flor? — disse Giane, entrando na loja atrás dele. No fundo, sabia que ele tinha razão. Ela estava chateada porque ele ficava distribuindo flores para a mulherada e não deu uma mísera flor para ela. Mas é claro que não iria admitir isso para Bento.

— Ah, é? Uma pena, porque eu tinha reservado as mais belas flores pra minha melhor amiga. — disse Bento, entregando um vaso de flores para ela.

— Pô, Bento... Pô, cara... — disse Giane, abrindo um sorriso. — Pô, que bonito!

— Isso. Agora segura esse sorriso enquanto eu distribuo alegria. — disse Bento. — Hoje é o meu aniversário, eu quero ver todo mundo feliz.

Giane ficou muito feliz com as flores que ganhou de Bento.

À noite, a festa aconteceu no Cantaí. A vizinhança inteira estava pre-sente no local. Gilson, para a ocasião da comemoração, fechou o Cantaí exclusivamente para o evento. Por enquanto, estavam lá apenas as pes-soas mais íntimas de Bento. Todos os presentes fingiram que seria uma festa surpresa para ele. Fizeram uma decoração bonita, encheram o espaço de balões e até penduraram uma faixa com os dizeres: "Feliz Aniversário".

Quando Bento apareceu no bar e todos começaram a cantar os parabéns, ele fingiu estar surpreso. Na verdade, ele já sabia que fariam a festa no Cantaí, mas optou por fingir surpresa para que ficasse mais emocionante. Todos na rua tinham esse costume, essa tradição de sempre fazer de conta que a festa era surpresa, e para eles, o mais importante era não quebrar essa tradição.

— Puxa, gente, isso é covardia! — disse o moço.

— Ah, você achou que ia ficar só naquele bolinho? É ruim, hein? — disse Giane.

— Eu achei! — mentiu Bento.

— E, olha, cada um aqui adoraria te dar um presente do tamanho da beleza que você traz pra vida da gente. — disse Rosemere. — Mas como a coisa tá ruça pra todo mundo, a gente fez uma vaquinha e comprou pra você só uma lembrancinha.

Gilson entregou um saco para o rapaz.

— Nossa, uma lembrancinha, gente? — disse Bento.

Bento não podia acreditar. Era sério mesmo que os vizinhos chamavam um presente daquele tamanho de lembrancinha?

— E a gente foi hoje lá na Teodoro buscar. — disse Filipinho.

— Ô Filipinho! Assim ele vai adivinhar! — disse Lili, dando um beliscão no braço de Filipinho.

— Ai! — gemeu Filipinho.

— Vai me dizer que é... — disse Bento, abrindo o saco e retirando um violão de dentro. — É o que eu estou pensando!

Todos gritaram e bateram palmas.

— Isso aí, Bento, é elétrico, rapaz. — disse Nestor. — Com captador correia, afinador embutido aí.

— Puxa, obrigado, gente! Não sei nem o que dizer! — disse Bento.

— Anda logo, Bento! — disse Érico. — Tira o som dessa maravilha aí pra gente.

Bento tocou o violão, e todos gritaram e bateram palmas.

— Queria dizer que eu sou um cara muito feliz de ter vocês na minha vida. — disse Bento, emocionado. — Eu posso não ter conhecido os meus pais de sangue, mas eu tenho a sorte de ter a melhor família do mundo. Porque... Família são as pessoas que a gente escolhe amar. E eu amo cada um de vocês.

— Nós é que te amamos muito, Bento. — disse Charlene, indo abraçá-lo. — Dá um abraço aqui.

Logo todos se uniram em um grande abraço coletivo.

O salão estava bastante animado. Gilson abriu o bar e os clientes che-garam. Havia muitas pessoas dançando, comendo, conversando. Havia até uma banda no palco tocando. Então Malu resolveu aparecer. Giane não ficou nada contente. Mesmo assim, foi logo avisando Bento:

— Ô Bento, tem uma pessoa aí querendo te ver. — disse Giane.

— Quem? — perguntou Bento.

— Uma pessoa do Jardim Europa. — disse Giane.

Bento achou que era Amora. Mas viu que era Malu. Ficou desapontado por não ser Amora, mas recebeu bem a Malu. Bento ficou conversando por alguns minutos com Malu. Charlene foi dar um abraço nela. Giane apro-ximou-se de Bento para dar um recado:

— Bento, o Jonas tá te chamando.

— Tá, já vou. — disse Bento. — Charlene, cuida da Malu pra mim.

Bento foi resolver algum assunto com o Jonas.

Giane estava morrendo de ciúmes. Pensou que era só o que faltava, outra para ficar correndo atrás do cara. Com certeza, Malu veio com uma boa desculpa na ponta da língua para ter escondido que era irmã da Amora. A uma certa hora, Bento estava em uma mesa com Malu, Silvério, Nestor, Gilson e Jonas.

Filipinho quis cantar com a banda, e estava indo subir no palco, mas Nestor o impediu:

— Opa, opa, opa! Primeiro, o aniversariante!

— É isso mesmo! — disse Bento. — E aí Jonas, vamos estrear essa maravilha?

— Agora. — disse Jonas, que estava segurando o violão. Levantou-se da cadeira.

— A gente começa com Simples Desejo. — disse Bento.

— Mentira que eu adoro essa música! — disse Malu.

— Mentira! Então canta comigo! — disse Bento.

Malu não quis, porém Bento arrastou-a. Gilson disse:

— É tradição aqui. Pisou aqui pela primeira vez, tem que cantar.

— Não! — disse Malu. Tinha vergonha. Achava que não levava o menor jeito para cantar, e não queria passar vexame na frente de todo mundo.

— Bora, Malu! — disse Bento.

Giane ficou o tempo todo de cara amarrada, vendo-os cantar. Bento e Malu passaram a festa inteira conversando. E pelo visto, viram o dia amanhecer juntos, pois Giane viu que Malu foi embora quando o dia já havia clareado. Ao sair de casa, viu o amigo despedir-se de Malu.

— Não acredito, Bento. — disse a garota.

— O quê? — perguntou o rapaz.

— Passou a noite toda aí. Aí com essa patricinha. — Giane disse, enciumada.

— De patricinha ela não tem nada, Giane. — disse Bento. — A Malu é muito gente boa. E tem muito mais a ver com a gente doque você imagina.

Bento bagunçou o cabelo de Giane e saiu andando.

Bento descobriu que tinha coisas em comum com Malu. Defendiam os mesmos ideais, os mesmos princípios. Malu não era uma patricinha deslumbrada com dinheiro e fama. Ela não se considerava superior a ninguém. Ela era muito engajada. Era formada em pedagogia, fazia pós-graduação em assistência social. E também tinha uma ONG de recreação infantil. Malu também criticava o mundo das celebridades. Achava que era um meio perverso. E ela sabia o que falava, pois tinha o exemplo da mãe, que fazia de tudo para aparecer, se manter na mídia, não tinha qualquer escrúpulo e usava de meios sórdidos para obter o que desejava, e também a referência do pai, um homem ético, que se mantinha discreto e reservado, não gostava de holofotes e até fizera um documentário criticando o meio midiático. Eram dois exemplos opostos. Malu seguia o exemplo do pai. Enfim, Malu não tinha absolutamente nada a ver com o mundo de fama e glamour onde vivia Amora e Bárbara Ellen. Bento achava que Giane devia querer conhecer melhor a Malu. De certo modo, elas eram parecidas em alguns aspectos. Assim como Malu, Giane também era bondosa, tinha bons princípios e valores, e fazia o que podia para ajudar o próximo. Giane podia ter aquela marra toda, mas tinha um coração mole, do tamanho do universo. Bento achava que Giane e Malu tinham tudo para serem boas amigas. Era só Giane querer e permitir, e parar de implicar com a Malu.

Ele não estava mais bravo com Malu, por ter omitido que era a irmã de Amora. Compreendeu as razões dela. Malu ficou com medo que ele se aproximasse de Amora e a mídia explorasse a infância deles. Foi o que aconteceu. Bastou ele chegar perto da Amora, para a Sueli Pedrosa aparecer ali, na Casa Verde, fazendo sensacionalismo. Ele ficou feliz por Malu ter aparecido, mas continuava triste por causa de Amora. Ela prometeu que viria em seu aniversário. Sabia que Bárbara dera um jantar para a família de Maurício. Malu lhe contou. Mas Amora nem ao menos ligou para avisar que não poderia ir. Ele ligou para ela, porém, ela não atendeu, nem respondeu às mensagens que ele enviou. Ele estava chateado.