Um amor improvável
26 Pela porta dos fundos
Fabinho continuou escondido. Afinal, ninguém podia saber que ele estava em São Paulo. E ele sempre procurava saber notícias sobre Amora e Bárbara. Estava sempre fuçando na internet. Ele ficou sabendo que, por conta do escândalo, Amora até havia sido afastada do Luxury. Fabinho estava no quarto do hotel quando recebeu uma ligação da Mel:
— Bela consideração você tem por mim, hein? — disse Mel. — Então você é filho do Plínio Campana e eu sou a última a saber? E aquela história toda de você ser filho de fazendeiro?
Fabinho entendeu que a história já havia se espalhado. Até a Mel estava sabendo. Certamente ela olhou na internet, e também devia ter ouvido as pessoas comentarem. O pessoal da Class Mídia devia ter comentado. Karol, Cléo, Júlia e Edu ouviram quando Fabinho contou a Plínio que era filho dele, no dia em que Plínio foi à agência atrás dele.
— Mas eu sou um herdeiro rico. — disse Fabinho. — E eu já sabia disso quando eu vim pra São Paulo e a gente se conheceu, gatinha.
— Tá. E por que você não ligou mais pra mim? — perguntou Mel.
— É que eu estou, estrategicamente, fora de circulação. — disse Fabinho. — Mas eu volto logo, logo pra pegar tudo que é meu, inclusive você.
— É mesmo? — disse Mel.
— Mas eu preciso de um favorzinho. — disse Fabinho. — Eu acho que o meu pai está achando que eu escrevi um blog pra ferrar a Bárbara, e eu preciso saber quem foi.
— Mas como é que eu vou descobrir isso? — perguntou Mel. — Você não tinha um favorzinho mais fácil pra me pedir, não?
— Tenho. Tenho um bem facinho. — disse Fabinho. — Eu li que a Bárbara foi embora. Tenta descobrir, por favor, pra onde ela se mandou e me avisa.
Bárbara andava fugindo da mídia e se escondendo, por conta do escândalo envolvendo Plínio e Irene. Ele mesmo se encarregaria de entregar Bárbara para a imprensa. Aquela víbora não iria se safar assim tão fácil. Bárbara iria pagar, e bem caro, por ele ter crescido órfão.
Mel prometeu que avisaria se descobrisse onde Bárbara estava. Fabinho passou o dia todo no quarto, porém, resolveu sair à noite. Não aguentava mais ficar trancado no hotel. Dificilmente o encontrariam em uma cidade enorme como São Paulo. Ele estava na balada quando Mel ligou:
— Fabinho, você não queria que eu descobrisse onde a Bárbara está?
Mel havia acabado de descobrir que Bárbara estava se escondendo na casa dela. Porém, Bárbara era egoísta, espaçosa, autoritária, nem bem chegou e foi dando ordens como se fosse a dona da casa. Mel não estava a fim de aturar a perua mandona da Bárbara, então resolveu ligar para Fabinho, que estava louco para saber onde Bárbara estava.
Porém, o som estava tão alto que Fabinho não entendeu o que ela dizia:
— Eu não tô te entendendo. Você pode falar mais alto?
— Que música é essa? — perguntou Mel.
— Você falou alguma coisa da Bárbara? — perguntou Fabinho.
— Onde você está, hein? — perguntou Mel.
— Eu tô numa festinha, comemorando um aniversário. — disse Fabinho.
— Ué, você não tava no interior? — estranhou Mel.
— Eu tô no interior. — Fabinho mentiu. — A gente está comemorando o aniversário da minha mãe.
Karol, que estava por perto, falou alto:
— Mentira! Ele está num lounge, em São Paulo.
— Mentiroso! Cachorro! — xingou Mel, desligando o celular.
— Você está louca? — disse Fabinho para Karol.
— Com quem você estava falando? — perguntou Karol.
No ponto de vista de Fabinho, não era da conta da Karol com quem ele falava ou deixava de falar. Ela que fosse cuidar da própria vida, em vez de se meter na vida dele.
— Você está louca, bonitinha? Nunca te dei mole, não. — disse Fabinho.
O rapaz começou a abordar as pessoas que dançavam na pista de dança. Não perdia uma oportunidade de chamar atenção e impressionar as pessoas. Afinal, estava perto de conseguir tudo o que queria e que era dele por direito. Seria rico e poderoso. E queria mostrar ao mundo o quanto estava feliz por ter encontrado sua verdadeira família, a de sangue, e por ter tudo o que merecia. Queria reconhecimento também. Em breve, o rosto dele estaria estampado nas páginas de todos os jornais e revistas. Seria apresentado à sociedade paulistana como filho do Plínio.
Fabinho acreditava que não tinha nada de especial, nenhum talento, então, no ponto de vista dele, somente sendo reconhecido como filho do Plínio Campana, o mais novo milionário, seria valorizado na sociedade.
— Alô, alô, pessoal, licença! Gostaria de dizer que a próxima rodada é por minha conta. Queria que vocês comemorassem comigo. Meu pai acaba de ganhar uma concorrência milionária, tá entendendo? Não vou ficar falando aqui, quantidade de dinheiro. Essas coisas eu não acho legal. Não acho que seja...
— Fabinho! — chamou Maurício.
Fabinho saiu correndo. Tinha de sair dali. Ele não podia deixar Maurício encontrá-lo. Com certeza Maurício iria querer tirar satisfações, pois foi eleito o maior corno do ano e iria exigir que ele se retratasse, desmentisse tudo. Só que Fabinho era esperto e jamais deixaria ninguém apanhá-lo. Voltou para o hotel. Tentou ligar para Mel, descobrir o que ela queria, porém, ela não atendeu. Fabinho continuou fuçando na internet, a fim de saber mais coisas sobre Bárbara e Amora.
No dia seguinte, quando estava no parque, Fabinho ligou para Mel:
— Melzinha, coisa mais linda do mundo. Tudo bem? Você me ligou ontem pra falar alguma coisa da Bárbara. Eu não entendi. Quando eu liguei depois, caiu na secretária.
— Eu descobri onde a Bárbara tá. — disse Mel. — Mas você estava na farra com uma vadia, né?
No ponto de vista de Fabinho, Mel não podia cobrar nada, pois havia ido atrás de Filipinho, o famosinho da Casa Verde, no Rio de Janeiro. Esta notícia havia se espalhado pela internet. Mel tentou seduzir Filipinho, foi rejeitada e gritou para quem quisesse ouvir que o famosinho era gay. Foi o maior escândalo. Não que Fabinho se importasse. Ele tinha coisas mais importantes a fazer do que se estressar com isso. Até porque era evidente que Mel não gostava de Filipinho. Ela só se aproximou dele por ele ser famoso, e como foi rejeitada, aproveitou para fazer aquele escândalo e aparecer na mídia. Mel era uma baita de uma oportunista. Estava louca para virar celebridade, fazia de tudo para chamar atenção. Para ela, não importava o preço a pagar, nem o que tivesse de fazer, ela queria fama.
Se Fabinho e Mel tivessem assumido para a mídia que estavam juntos, seria diferente. Seria uma vergonha e uma humilhação para Fabinho todo mundo saber que ele foi trocado por Filipinho. Mas não era o caso. Por enquanto, ele e a Mel estavam apenas se divertindo juntos. Mel não valia nada, tanto quanto ele. Além do mais, Fabinho não tinha ciúmes da Mel. Não amava Mel. Mas Mel podia ser útil para seus planos futuros.
— Não, Mel, para. Para de ciúme bobo. Isso aqui é sério. — disse Fabinho. — Quando você foi atrás do famosinho da Casa Verde, eu enchi teu saco?
— Quem te contou isso? — perguntou Mel.
— Eu sou antenado, gata. Mas eu não me estressei por causa disso, não. Agora, fala, minha gostosinha. Cadê a Bárbara?
— Perdeu o furo, playboy. Agora já contei pra Sueli. — disse Mel. — Em troca, ganhei uma entrevista no Luxury.
Fabinho teve uma ideia. Mel gostava de aparecer, e morria de inveja da Amora. Mel não se importaria de ajudar a derrubar Amora. Por muito tempo, Mel puxou o saco da Amora, e a Amora sempre a tratou mal. Mel faria de tudo para obter fama, e acataria a sugestão dele.
— Parabéns, Melzinha! Não, não. Não tô bravo, não. Claro que não. Se você falou pra Sueli Pedrosa onde tá a Bárbara, tá em boas mãos. Você não quer ficar famosa? Então, aproveita. Agora não é só entrevista, não. Tem que fazer...
Sentiu um tapa no ombro. Virou-se e viu que era Maurício. Maurício não podia acreditar na sorte de ter encontrado Fabinho em um parque na região dos Jardins.
— Não acredito que eu te encontrei, seu canalha. — disse Maurício.
Ele estava furioso com Fabinho, por ele ter espalhado boatos na internet sobre uma suposta traição de Amora. Mas Maurício estava disposto a acabar com a raça de Fabinho, se ele não se retratasse.
Fabinho desligou o celular. Mais tarde falaria com Mel.
— Como é que estava lá, em Ribeirão Bonito, Fabinho? Tudo bem? — perguntou Maurício, irônico. — Seu pai e sua mãe?
— Tudo bem, Maurício. Obrigado por perguntar. — disse Fabinho. — Posso saber por que você está me chamando de canalha?
— Canalha é pouco. Você é um bandidinho sórdido. — disse Maurício.
Maurício estava com ódio de Fabinho. Agora ele se deu conta de que Fabinho não prestava. Fabinho se aproximou dele por interesse, se fez de amiguinho para conseguir um estágio na Class Mídia, e estava o tempo todo de olho em Amora. E só porque Amora o rejeitou, não quis se casar com ele, Fabinho a difamou e acabou maculando a imagem de Maurício por tabela. Maurício foi eleito o corno do ano. Além do mais, Fabinho ameaçou botar na internet o vídeo onde Bárbara confessou ter armado para separar Natan de Verônica. Usou o vídeo para chantagear Amora, para que se casasse com ele. Na opinião de Maurício, quem fazia esse tipo de coisa não tinha escrúpulo e não valia nada.
Maurício ficava possesso só de pensar que Fabinho quase expôs a ele e à sua família, e também quase expôs a Malu e os irmãos adotivos dela. O calhorda não se importava em atingir a família dos outros em função de seus interesses. Fabinho não se importava nem com a família dele. Não se importava em atingir Malu, irmã dele. Maurício já estava sabendo que Fabinho era filho do Plínio e irmão da Malu, até porque a história se espalhou. Ele viu na internet.
No ponto de vista de Maurício, o canalha do Fabinho só pensava nele mesmo. Maurício ficou sabendo por Amora que Fabinho a ameaçou, chantageou e difamou. Amora ligou pedindo ajuda, para ele dizer à mídia que ela não foi infiel. Maurício continuava magoado com Amora, por ela ter mentido para ele, ter rompido o noivado e corrido para os braços do Bento. Mas ele não achava justo ela pagar o pato, perder trabalhos e ficar queimada no mercado por algo que ela não fez. Amora podia não ter agido corretamente com ele, mas ela não o traiu com Bento. Não ficou com Bento enquanto estava com ele. Ele tentava ser justo. Ele estava com muita raiva e mágoa de Amora, mas não queria vingança. Maurício então soltou uma nota na imprensa dizendo que ele e Amora não estavam mais juntos quando ela ficou com Bento. O que ele fez não foi pouco, porque a vontade dele era de deixar Amora se ferrar. Mas ninguém levou fé. Ficou parecendo que Maurício deu a declaração só para não sair de noivo traído. Maurício tinha viajado, estava no Rio de Janeiro quando o escândalo estourou.
— Maurício, você quer brigar comigo? — perguntou Fabinho.
— Não, eu não sou de briga não, moleque. — disse Maurício, andando à volta dele. — Até porque, seu eu te pegar, eu te mato, Fabinho.
Fabinho sorriu. Não tinha medo de cara feia. Estava acostumado a andar com gente da pior espécie, e um rapaz como Maurício jamais meteria medo nele. Maurício não oferecia perigo nenhum, e nem poderia fazer muita coisa. Tudo o que Maurício poderia fazer era dar uma surra nele, e ele não tinha medo de apanhar. Até porque uma surra ele era capaz de suportar. Era duro na queda, e não era medroso. Ele só tinha medo e horror das pessoas que faziam parte do seu passado. Maurício disse:
— E eu não sou corno, entendeu?
Fabinho riu. Claro que Maurício estava preocupado com a imagem dele.
— E você vai ter que desmentir essa história, moleque. — disse Maurício.
— Hum. — disse Fabinho, virando-se e sorrindo cinicamente. — Entendi. Você está querendo, então, livrar a cara da Amora?
Na opinião de Fabinho, Maurício era um idiota, um otário. Amora o traiu da maneira mais baixa, mentiu para ele, o enganou, se associou a Natan e Bárbara por causa de dinheiro, o trocou por outro praticamente à beira do altar, e ele ainda queria livrar a cara dela?
Maurício abanou a cabeça.
— Não, seu cretino. Estou querendo livrar a minha cara.
— Então, vamos fazer assim, Maurício. — disse Fabinho, cinicamente. — Eu vou falar pra todo mundo que você e a Amora tinham terminado...
— Olha só, Fabinho, não me interessa o que você vai falar! — interrompeu Maurício. — Você não foi bom na hora de fazer essa porcalhada? Então, agora se vira pra consertar o que você fez, entendeu?
Fabinho se questionou quem era Maurício para dizer o que ele devia fazer ou não. Maurício não mandava nele.
— E por quê que eu vou fazer isso? Porque você está mandando? — disse Fabinho, debochado. — Mauricinho, quantos anos você tem? Cinco?
— Então, eu vou te dar um bom motivo pra você fazer o que eu estou mandando. — disse Maurício, dando-lhe um soco no rosto que o derrubou no chão. Não satisfeito, Maurício começou a dar vários chutes.
— Seu mané! Seu desgraçado! — xingou Fabinho.
— Você que não está entendendo, Fraldinha! — disse Maurício, apontando para ele. — Eu vou te matar da próxima vez que eu te encontrar, se você não desmentir essa história! Seu falso, sujo, canalha! Não cruza nunca mais comigo, entendeu, verme?
Maurício foi embora e Fabinho ficou caído no chão, cheio de dores e morrendo de raiva. Maurício ainda o chamou de Fraldinha. Certamente, foi o pessoal da agência quem contou para Maurício que o apelido dele de infância era Fraldinha. Maurício o humilhou, o fez reviver a infância. Cada vez que alguém o humilhava, a dor da infância voltava com força total. E era uma humilhação para ele ver que Maurício era bom de briga, que era capaz de derrubá-lo.
Mas Fabinho não se deixaria intimidar. Maurício não sabia nem onde encontrá-lo. Achou-o na rua por acaso. Além do mais, Fabinho não tinha medo do Maurício. Maurício era certinho demais, e bom moço que era, era incapaz de matar alguém. Podia ameaçar o quanto quisesse, ele não teria medo. Nada o deteria. Mais tarde, no hotel, Fabinho ligou para Mel e combinaram o que ela iria dizer no Luxury. Ambos ajudariam a Amora a ficar ainda mais famosa. E o desgraçado do Maurício não saberia onde enfiar a cara. Também, ninguém mandou Maurício dar uma surra nele.
Quando chegou a hora do programa, Fabinho ligou a televisão. Como Amora havia sido afastada, para descansar a imagem devido ao escândalo, quem apresentava era Lara Keller. Mel seguiu as suas instruções e falou para Lara que havia deixado de ser amiga de Amora, pois mesmo sendo noiva de Maurício, Amora havia saído com tudo quanto era homem, principalmente com homens casados. Lara perguntou:
— Mas por que uma garota livre e desimpedida como a Amora ia se envolver com homens comprometidos?
— Ela sempre achou que o que é proibido tem mais adrenalina, sabe? — disse Mel.
— Ah, será que foi esse o raciocínio que levou ela pegar o namorado da própria irmã? — perguntou Lara.
— Bom, aí eu já não sei. — disse Mel. — Porque eu me afastei da Amora já faz algum tempo, sabe? Chega uma hora que a gente cansa de ficar dando conselho, né? Eu sempre disse pra ela: “Amora, você é uma figura pública, você precisa ser um exemplo”. Mas ela nunca me ouviu.
— Quem diria que a Mel, com esse nome tão doce, iria nos trazer hoje, em primeira mão, verdades tão amargas? — perguntou Lara. — Olha, Amorinha, se isso for verdade, você merece um puxão de orelhas, hein?
Fabinho riu. Mel continuava dizendo, na televisão:
— Olha, mas eu só contei, porque apesar de tudo, eu gosto da Amora e eu só queria que ela parasse de brincar com a vida dos outros. — disse Mel.
Fabinho elogiou:
— Que maravilha, Mel! Grande atuação. — bateu palmas. — Bravo!
Mais tarde, Fabinho saiu para tomar um café. Ao sair na rua, viu uma revista com a foto de Irene na capa. Escondeu-a na jaqueta. Foi a um botequim. Sentado na mesa, ele olhou a revista.
— Agora, só falta a gente se reencontrar, mamãe, e eu vou ter a vida que eu sempre mereci.
Deu uma mordida no pão. Mal podia esperar para ver a mãe novamente. Ele queria a presença dela, o amor, o carinho, a aprovação dela. Sentia falta dela. Além do mais, Irene iria confirmar a história que Bárbara contou. Ele faria um exame de DNA, comprovaria a paternidade e ficaria rico. Ele e a mãe levariam uma vida maravilhosa. Irene não precisaria mais ficar fazendo bicos, fazendo estátua viva ou contando histórias. E ela podia reconstruir a carreira de atriz, se quisesse.
Mais tarde, na rua, Fabinho ligou para Mel. Já estava sabendo da surra que ela levou de Amora:
— Melzinha, arrebentou! Há muito tempo que eu não me divertia tanto.
— Você curtiu, Fá? Até que eu mandei bem, né? Agora, eu tô nos trending topics junto com a Amora. — disse Mel, rindo.
— E vem cá, essa surra que ela te deu, foi feia mesmo? — perguntou Fabinho, e riu, ouvindo Mel contar da surra. — Muito bem, gata! Rainha morta, rainha posta. Agora, você tá no caminho pra se tornar it girl número um desse país. E Amora Campana saindo de cena pela porta dos fundos. Muito bem.
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