Um amor improvável
55 Pegando Amora no flagra
Fabinho estava indo para casa. No caminho, passou pela casa do Gilson. Precisava falar com ele, tentar conseguir o emprego de volta. Com certeza, Gilson o demitiu. Gilson devia estar furioso com ele. Afinal, ele saiu em horário de expediente para ir atrás da Irene. Mas teria de esperar até o dia seguinte, pois Gilson ainda estava no Cantaí e só voltaria para casa tarde da noite. Porém, ao chegar à casa do Gilson, Fabinho ouviu uma discussão. Acabou entrando no quintal do Bento e viu Amora e Socorro discutindo.
— Você queria tirar o parque do Wilson! Foi você que sabotou os brinquedos do bufê! — gritava Socorro.
— Opa! Opa! As amiguinhas estão fofocando? — perguntou Fabinho, aproximando-se.
Amora ficou nervosa. Socorro a acusou de sabotar o bufê de Wilson. Esperava que Fabinho não tivesse ouvido. Socorro tornou as coisas ainda mais difíceis do que já estavam.
— Ai, meu Deus! Que lugar sem privacidade! — disse Amora, colocando as mãos no rosto. — Fabinho, o quê que você está olhando? Vaza daqui! Vai ver se eu tô na esquina!
— Não vou embora, porque eu ouvi que você tá querendo ferrar com o Wilson Rabelo. Amorinha safadinha, agora eu te peguei! — disse Fabinho.
Amora ficou furiosa. Como se não bastasse a Socorro acusá-la, agora o Fabinho também iria sair por aí dizendo que ela sabotou o bufê.
— Você nunca vai desistir de me caluniar, né? — disse Amora.
— Não, eu não falei nada. Quem te acusou foi essa menina aqui... — disse Fabinho, apontando para Socorro. — Que, aliás, é a presidente do teu fã-clube, né?
— Não, não, eu não disse nada! Eu não sei de nada! — disse Socorro, e foi embora.
Amora ficou desesperada. Precisava dar um jeito de fazer com que ninguém acreditasse na Socorro. Ela não tinha nada a ver com a sabotagem do bufê, mas Socorro só estava lhe trazendo problemas ao acusá-la. Amora planejou sabotar o bufê, para se vingar de Wilson. Queria ver Wilson na lama e comprar o parque por um preço mais baixo. Wilson era uma pedra no seu sapato, contou para o Bento que ela estava maltratando Simone. Além do mais, Amora odiava Wilson. Na opinião de Amora, Wilson não prestava, brigava com Bento desde quando ele era criança. Expulsou Bento do parque no dia em que ele completou dez anos. Wilson provocou traumas no Bento. Depois do escândalo que Wilson deu, quando soube que ela ia estrelar a campanha do Kim Park, ela nunca mais conseguiu um trabalho. Amora não perdoava Wilson por tudo o que fez com ela e com Bento. Até pediu para Socorro pegar as chaves da Renata, sem que ela percebesse, e fazer uma cópia. Renata trabalhava para Wilson, e tinha as chaves do bufê. Amora havia mandado Bolívar sabotar os brinquedos do Kim Park. Mas Amora acabou desistindo do plano ao descobrir que a irmã estava doente. Mandou uma mensagem para Bolívar, cancelando o plano.
— Espera, Socorro! — disse Amora, porém, Socorro não deu ouvidos. Dirigiu-se a Fabinho. — Gente, essa menina surtou depois que descobriu que eu tô grávida! Tá completamente lelé. Você acredita? Tô com medo dessa menina.
Fabinho, porém, jamais cairia no jogo da Amora. Achava que era puro teatro. Amora era bem capaz de ter mandado sabotar o bufê de Wilson. E era muito conveniente para ela sair por aí dizendo que a Socorro estava louca. Para ela estar assim tão nervosa, só podia ter culpa no cartório.
— É mesmo, é? Teatrinho pra cima de mim, Amora? — disse o rapaz.
— Eu tô falando sério. — disse Amora. — Pode perguntar pro tio Gilson e pra tia Salma. Só porque o Bento cogitou comprar o parque, ela surtou. Começou a dizer que eu e ele sabotamos os brinquedos no dia da festa só pra arrematar por menos. Completamente louca, né?
— Que estranho, né? Porque ela não acusou o Bento, ela acusou você. — disse Fabinho. — E eu sabia que essa história do bufê era sabotagem. Agora, Amora Campana, a grande idealizadora, eu não sabia.
— É? Então, por quê que você não me entrega pra polícia? Vai lá! Tá esperando o quê? — disse Amora, nervosa.
Mas Fabinho sabia que não podia entregar Amora para a polícia sem provas. Além do mais, não iria perder tempo tentando desmascará-la. Ela iria acabar se ferrando sozinha, e ele não precisaria mover uma palha para isso. Ele também acabou se ferrando sozinho. Ele não gastaria energia tentando abrir os olhos de ninguém sobre Amora, todos iriam descobrir a bandida que ela era, e talvez não demoraria muito.
— Não, não vou entregar, não. — disse Fabinho.
— Não? — disse Amora, surpresa.
— Não, não vou. Sabe por quê? Porque eu tô fora, tô em outra. — disse Fabinho. — Agora, eu sei do que você é capaz, né? Eu já senti na pele. Mas eu só não consigo entender uma coisa... Amora, mulher de florista, você não entendeu que quem planta, colhe?
Amora andava recebendo mensagens ameaçadoras. Ela não sabia de quem eram as mensagens. Só sabia que eram da pessoa que havia sabotado o bufê do Wilson. Alguém sabotou o bufê para incriminá-la. Alguém que sabia que ela havia planejado sabotar os brinquedos, e que também sabia que não havia câmeras de segurança no bufê. O sistema de segurança foi desativado porque Wilson ia trocar. Agora Amora suspeitava de Fabinho. Ele era bandido, era bem capaz de ter feito isso para botar a culpa nela. Só podia ser ele o inimigo oculto que andava perseguindo-a. Se ele não pretendia entregá-la para a polícia, era porque tinha culpa no cartório. Devia estar morrendo de medo que a polícia descobrisse que foi ele.
— Foi você. Você que tá me mandando aquelas mensagens, né?
— Que mensagens? — perguntou Fabinho.
Fabinho não entendia do que ela estava falando. O que mais ela iria inventar? Era sempre assim, a Amora aprontava e depois colocava a culpa nele.
— Você sabe do que eu tô falando, seu marginal! — disse Amora.
Fabinho abanou a cabeça.
— Não, não sei, não. Mas pela sua cara de medo dá pra ver que você tá até o pescoço metida nessa história de sabotagem. — disse Fabinho.
— Você quer mesmo, me responsabilizar pela sabotagem do bufê, né? Você joga muito mal, Fabinho. — disse Amora. — Quem que vai acreditar num marginal, num ladrãozinho, num incendiário que fica me ameaçando na frente de todo mundo? Você tá louco? Isso tudo é inveja do Bento?
— Amora, você é fantástica. Essa sua capacidade de distorcer as coisas e virar a seu favor é espantoso. — disse Fabinho. — Olha, realmente, eu não sou páreo pra você. Você pode ficar fria, porque eu não vou fazer mal nenhum pra você. Eu vou botar minha cadeirinha no camarote e vou ficar assistindo. Porque você sabe, claro, que você vai se estrepar sozinha. Amora, eu só tenho uma dúvida: você não se sente culpada? Porque aquele menininho remelento, seu sobrinho...
Fabinho achava que remorso não era a praia de Amora. Ela fazia uma maldade atrás da outra e não sentia o menor peso na consciência. Não poupava nem crianças, nem mesmo os sobrinhos. Se bem que ela não sabia que os sobrinhos estariam no bufê. Ainda assim, ela machucou um monte de gente inocente só para prejudicar Wilson. Ela podia ter matado alguém. Camilinha, por exemplo, bateu a cabeça ao cair da cama elástica. Precisou ser hospitalizada, ficar em observação. A sorte foi que tinha sido apenas um susto. Mas ela podia ter tido sequelas graves ou até morrido, dependendo da lesão. Fabinho reconhecia que tinha feito maldades, mas não chegavam perto das maldades da Amora. No ponto de vista de Fabinho, ele apenas ameaçou Odila, não chegou nem perto de jogá-la do alto do prédio. Na vez em que quase esganou Amora e Odila na frente de outras pessoas, estava surtado. Não era burro de cometer crime na frente de testemunhas. No caso do incêndio da Toca, ele não pretendia matar ninguém. Uma coisa era destruir patrimônio público ou privado, outra coisa era matar. Assassino ele não era. Por pior que ele fosse, ele não sabotou brinquedos para machucar um monte de gente.
Amora viu que o sobrinho estava observando. Resolveu se fazer de vítima, para fazer o garoto acreditar que Fabinho estava ameaçando-a. Todos tinham se acreditar que Fabinho era uma ameaça. Assim, todos contariam para o Bento, no momento oportuno. Ela Não deixaria ninguém contar para o Bento, somente quando ela achasse que estava na hora. E o Bento concordaria em se mudar daquele bairro miserável. Além do mais, mostraria a Fabinho que ele não podia com ela, que persegui-la não era boa ideia:
— Para, Fabinho! Eu não aguento mais! Eu não tô bem, me deixa em paz! — gritou Amora.
Fabinho não entendeu nada. Amora afastou-se, e Fabinho ainda gritou atrás dela:
— Que é isso? Está passando mal? Vai tomar um copinho de água com açúcar na tua casa, ô sonsa! Sua hora vai chegar!
Começou a cantarolar:
— Amorinha de Jesus, de uma queda, foi ao chão! Sabotou o Kim Bufê e depois foi pra prisão! Eu tinha que ser poeta, mesmo!
Foi para casa. Assim que chegou, sentou-se no sofá. Giane sentou-se ao seu lado. Fabinho não ficou nem um pouco surpreso ao ver Giane e Silvério em sua casa. Afinal, Giane e o pai viviam visitando-o, a ele e à Margot. Com frequência, jantavam juntos, se não na casa de Giane, na casa dele.
— E aí, você encontrou a Irene? — perguntou Giane, colocando a mão sobre a perna dele.
— Encontrei. Ela tava na ala psiquiátrica do HC. — disse Fabinho.
— E como é que você soube que ela ia estar lá? — perguntou Margot.
— A primeira vez que ela pirou, ela foi levada pra lá, né? — disse Fabinho. — Não sei. Me pareceu meio óbvio que se ela surtasse de novo, ela ia procurar um lugar que ela sabia que ela ia ter ajuda, né? Que nem eu vim parar aqui nessa rua quando tava quase morrendo.
— É, mas você não sabia disso, né? Você foi na intuição. — disse Giane. — Que louca essa sua ligação com a Irene, né? Mesmo você não sendo filho dela. — colocou a mão sobre o ombro dele.
— É. — disse Fabinho.
— Isso é coisa de gente que se ama muito. Pode ter certeza. — disse Margot, sentada no sofá, na frente do filho.
— Aliás, falando nisso. — disse Giane, dando uns tapinhas no joelho de Fabinho. — Adivinha quem tá junto?
Silvério, que estava perto da Margot, colocou as mãos nos ombros dela. Margot segurou uma das mãos dele.
— Eu e o Silvério. A gente tá namorando. — disse Margot, rindo.
— É. — disse Silvério, rindo. — É. Mas pode ficar tranquilo que as minhas intenções são as melhores possíveis.
Bem que Fabinho havia desconfiado que havia um clima entre a mãe e Silvério.
— Como assim? — perguntou Fabinho, levantando-se do sofá.
— Como assim, o quê? — perguntou Silvério.
— Não tô entendendo. — disse Fabinho.
— O quê? — disse Silvério.
— Não tô entendendo. — disse Fabinho, aproximando-se de Silvério.
— O que foi? O quê que tem? — disse Silvério, estranhando a reação do rapaz.
— Você é meu sogro ou meu padrasto? — disse Fabinho, brincalhão, mexendo com Silvério.
Silvério e Margot riram. Fabinho também riu. Ouviram-se batidas na porta.
— Dona Margot, hein? Ó, ó! O quê que é isso? Abalando a Casa Verde! — disse Fabinho, indo abrir a porta. — Vamos ver quem nos atrapalha.
Fabinho estava feliz pela mãe. Ela estava há muitos anos sozinha. Merecia ser feliz, ter um companheiro.
Abriu a porta e viu que era Simone.
— Oi, Simone. — disse Fabinho.
— Dá licença. Fábio, eu queria falar com você. — disse Simone.
— Entra. — disse Fabinho, e Simone entrou. Parecia nervosa.
Simone resolveu pedir para Fabinho deixar Amora em paz. Além do mais, não custava nada ouvir o que ele teria a dizer. André contou que Fabinho havia ameaçado Amora. Simone foi até à casa da irmã e conversou com ela, para saber o que havia de fato acontecido. Amora lhe disse que Fabinho fazia tortura psicológica com ela, que a perseguia, a ameaçava, tudo escondido. Que até um blog para difamá-la ele fez. Amora também disse que Fabinho tacou fogo na Toca do Saci e fez a cabeça da Malu contra ela. Fabinho conseguiu convencer Malu de que não foi ele, e sim Amora. Simone disse que Amora devia falar com Bento sobre isso, mas Amora disse que Malu era invejosa, que sempre teve inveja dela a vida toda e que iria dizer que ela estava mentindo, iria fazer a cabeça do Bento contra ela. Amora disse também que Malu havia até inventado uma fundação ridícula para colar no Bento. Amora reclamou que tinha um monte de gente tentando destruí-la. Simone decidiu ter uma conversa séria com Fabinho.
Fabinho logo imaginou que Amora se fez de vítima para a irmã. Com certeza, Simone veio tirar satisfações.
— Você veio fazer o que aqui? — perguntou Fabinho, fechando a porta. — Defender a sua irmã? Porque se é isso, você pode...
— Não, não, não, não, olha só, eu não vim brigar, não. — disse Simone, interrompendo. — Eu vim aqui em missão de paz. A minha irmã me contou do longo histórico de desentendimentos...
— Desentendimentos, não! — disse Fabinho, interrompendo. — A sua irmã é uma criminosa.
— Calma, Fabinho, calma! — pediu Margot.
— Não! Calma, não! — disse Fabinho. — Ela precisa saber quem é a irmã dela. Claro! Ela chegou agora, tá achando que a irmãzinha dela é uma coitada injustiçada. Não. A sua irmã é um capeta!
— É. Se você não sabe, é melhor você saber logo. — disse Giane para Simone. — A Amora é um monstro.
— Monstro? Desculpa, mas até onde eu sei, o bandido dessa história aqui é você. — disse Simone para Fabinho. No ponto de vista dela, o mau-caráter era Fabinho. Era ele que perseguia sua irmã. Ela sabia que Amora não era santa. Amora a tratou mal quando ela chegou à Casa Verde. Amora fingiu fazer as pazes com ela só para impressionar o Bento, ofereceu dinheiro para ela sumir com os filhos, fez ameaças e tudo. Mas Simone entendia o que levou Amora a agir desta maneira. Amora estava magoada e com muita raiva. Não era para menos, pois Amora foi abandonada nas ruas, aos nove anos de idade. Era compreensível que Amora não quisesse vê-la nem pintada. Ela fazia Amora lembrar de coisas ruins. Ao olhar para ela, Amora revivia tudo o que havia passado nas ruas. Simone acreditava que foi seu abandono que fez de Amora uma garota dissimulada, mentirosa, rancorosa, cruel. Mas Amora não era uma pessoa ruim. Ela e Amora estavam se entendendo. Aos poucos, Amora estava voltando a ser aquela garota doce, carinhosa e parceira. Estava voltando a ser a sua Mayara. Fabinho não sabia do que estava falando.
Do ponto de vista de Fabinho, Simone era uma tonta. Simone se sentia culpada ainda por ter abandonado Amora quando ela tinha nove anos de idade. Achava que Amora era uma coitada. Para Simone, a Amora ainda era aquela menininha meiga. Mas aquela garotinha que Simone amava não existia mais. Amora se transformou em um monstro. Amora havia ameaçado a irmã, os sobrinhos. O que mais Amora precisaria fazer para Simone se tocar de que a irmã não valia nada?
Era impressionante o que a culpa fazia com uma pessoa. Simone era uma otária, não enxergava um palmo na frente do nariz. Fabinho até entendia que Simone não podia evitar a culpa. Amora ficou traumatizada por ter sido abandonada nas ruas, passado a infância descalça. Que Amora era doente, ele sabia. Fazer coleção de centenas de sapatos repetidos não era normal. Mas bem que Amora usava isso para comover as pessoas, manipular. Em vez de fazer terapia e cuidar da própria vida, Amora ficava armando uma atrás da outra e botando a culpa nele. Não conseguia entender por que Amora não o deixava em paz. E nada justificava a cegueira de Simone, que parecia não querer enxergar quem era a verdadeira Amora.
— Não, minha querida, eu não sou bandido, não. — disse Fabinho, furioso. — Eu realmente fiz um blog pra difamar a sua irmã. Mas pra se vingar ela... Ela me botou na cadeia, ela me fez perder o meu emprego e ela me acusou de ter incendiado um projeto social. — usou os dedos para contar tudo o que Amora aprontara para incriminá-lo.
— Em vez de falar com a gente, fala com a Malu. A irmã dela. — disse Giane.
— Do jeito que vocês falam, parece que a Amora é uma bandida, criminosa... — disse Simone, nervosa, chateada.
— Não parece, ela é uma bandida! — disse Fabinho. — E ela faz exatamente isso! Ela usa as pessoas pra conseguir o que ela quer.
— Olha só, Simone, fica com os dois pés bem atrás nessa sua relação com ela. — disse Giane. — Pro seu bem e pro bem dos seus filhos.
— Não, eu quero entender direito por que vocês têm tanta raiva da Amora? — perguntou Simone, nervosa.
— Como é que você não entende? Como é que você não entende? — perguntou Fabinho, furioso. Tinha Amora atravessada na garganta. Ela o perseguia, fazia de tudo para prejudicá-lo e depois fazia cara de santa.
— Ela não é essa pessoa que vocês estão pensando. — disse Simone.
— A Amora é uma... — disse Fabinho.
Simone desmaiou, e Fabinho segurou-a, antes que caísse no chão.
— Simone, Simone? — disse Silvério.
— O que é isso, gente? — disse Fabinho, colocando-a sobre o sofá. Não esperava que Simone fosse desmaiar.
Giane foi até a casa de Bento. Precisava contar a ele que Simone havia passado mal. Silvério, Margot e Fabinho conseguiram reanimar Simone, que já estava acordada quando Giane chegou com Bento e Amora.
— A minha pressão caiu. Foi só isso. Desculpa. — disse Simone.
— Eu vou buscar um pouco de sal. — disse Silvério.
— Não, não. Não precisa, não, já tô bem. — disse Simone. — Amora, me leva pra casa?
— Vamos. Lógico. — disse Amora, ajudando a irmã a se levantar. Diri-giu-se a Fabinho. — Você nunca mais se meta com a minha família.
Amora não acreditava na mudança de Fabinho. Para ela, Fabinho continuava sendo um canalha, um mau-caráter que havia aprontado muito com ela e com Bento. Não queria Fabinho se metendo com sua família. No ponto de vista de Amora, se Fabinho fez mal a ela, era bem capaz de fazer mal à Simone, ao André e à Mayara. Além do mais, Fabinho perseguia Bento desde criança. Amora imaginou que Simone veio tirar satisfações com Fabinho, e ele disse um monte de coisas que não podia provar. Claro que ele tentaria se safar das acusações que pesavam contra ele. No ponto de vista de Amora, Simone passou mal por culpa de Fabinho.
Fabinho abriu um sorriso irônico. Não adiantava Amora fazer ceninha, nem ameaçá-lo. Ele não tinha medo dela. Além do mais, Amora podia enganar o Bento, podia enganar a Simone, mas a ele, Fabinho, Amora não enganava. Estava na cara que Amora estava era fingindo estar morrendo de preocupação com a irmã, querendo se fazer de boazinha, para impres-sionar o otário do Bento. Claro que o tonto cairia como um patinho.
Amora e Simone aproximaram-se de Bento.
— Eu vou passar a noite com a Simone, tá bom? — disse Amora para Bento.
— Tá bom. — disse Bento.
Bento esperou Amora e Simone irem embora para perguntar:
— O que a Simone veio fazer aqui?
Bento ainda não sabia o que Simone estava fazendo ali, na casa do Fabinho. Certamente, ela não veio fazer uma visita de cortesia ao marginal. Para ela ter vindo ali, só podia ter um motivo: Amora. O que será que Fabinho andou aprontando, para ter deixado Simone tão preocupada?
— Ela veio pedir pra eu nunca mais me meter com a sua mulherzinha. — disse Fabinho, irônico.
— Ah, então, você assume que estava rondando a Amora? — perguntou Bento.
— Não, não. Eu assumo que a sua mulher tá tentando me ferrar. E não só a mim. — disse Fabinho. — Então, você se prepara, Bento. Porque vem bomba por aí.
Fabinho sentou-se no sofá. Mas era óbvio que Bento não acreditou nele.
— Impressionante, hein, Giane? Como você caiu no papo desse cara. — disse Bento, levantando o polegar, antes de ir embora.
Para Fabinho, era impressionante como Bento ainda caía no papo da Amora. Amora aprontava, depois se fazia de vítima e Bento caía como um patinho. Mesmo depois de tantas mentiras, de tudo o que Amora fez, Bento ainda acreditava nela e dava novas chances para ela. Com a história da gravidez, Bento estava comento na mão de Amora novamente. Já estava achando que Amora estava mudando. Era um otário mesmo. Ainda tinha aquela fantasia de que Amora voltaria a ser a garotinha meiga que ele conheceu na infância. Estava para nascer alguém mais burro que o Bento. Fabinho nunca viu ninguém tão tonto, tão manipulável.
Assim que Bento foi embora, Giane sentou-se no sofá, ao lado de Fabinho.
— Agora, você vai me falar, Fabinho, o quê que você fez pra Amora que deixou a Simone tão assustada? — perguntou Giane.
Fabinho contou que discutiu com Amora. Amora ainda fez cena, como se ele estivesse ameaçando-a. Com certeza, Amora se vitimizou para a irmã. Mentiu, distorceu a história. Por isso Simone veio tirar satisfações. Fabinho também falou que discutiu com Amora por causa da história da sabotagem no bufê. Todos suspeitavam de que alguém havia sabotado os brinquedos do bufê do Wilson, mas ninguém sabia quem era. Não havia câmeras de segurança no bufê. O sistema de segurança foi desativado porque Wilson pretendia trocar. Assim, não havia como saber quem havia entrado no bufê na calada da noite para mexer nos brinquedos. Agora, Fabinho suspeitava que Amora podia ter sabotado os brinquedos do bufê de Wilson, ou mandado alguém fazer o serviço e pretendia comprar o parque dele por um preço mais baixo. Para Fabinho, estava na cara que Amora quis se vingar de Wilson. Amora tinha ódio do Wilson e queria dar o troco por tudo o que ele fez com ela e Bento.
— Quer dizer que a Amora sabotou o bufê do Wilson? — perguntou Giane.
— Isso é uma acusação muito grave, meu filho. — disse Margot, que estava por perto e ouvira a conversa. — De onde é que você tirou isso?
— A presidente do fã-clube dela que acusou. — disse Fabinho. — Eu ouvi uma conversa das duas.
— Mas a Socorro não é confiável. Ela não bate bem das ideias. — disse Giane.
— Mas a obsessão dela pela Amora, pode ter virado ódio. — disse Sil-vério.
— Não, não foi a impressão que eu tive, não. — disse Fabinho. — Eu tenho certeza. Tem dedo da Amora nesse lance do bufê.
— É. Você tendo certeza ou não, não se mete nessa história, Fabinho. — disse Giane. — Vai acabar sobrando pra você. Do jeito que a Amora é, é capaz de ela inverter as coisas e botar a culpa em você. Fica longe da Amora.
— A Giane tem razão. — disse Margot. — Você já não tinha decidido manter distância da Amora? Então?
— Olha só, Fabinho. É isso, ou acabou entre a gente. — disse Giane.
Fabinho achou que Giane tinha razão. Até porque ele, à essa altura, entendeu qual era o jogo da Amora. Amora mentia, intrigava, fazia teatro para todo mundo achar que ele era o vilão e ela a coitada que estava sendo perseguida. Toda vez que ele se aproximava de Amora, ela fazia ceninha para as pessoas acharem que ele estava ameaçando-a. Amora estava fa-zendo de tudo para prejudicá-lo, e para fazer as pessoas ficarem com pena dela. Fabinho não sabia o que Amora pretendia com isso, mas era óbvio que Amora estava armando. Ela estava querendo destruí-lo, desacreditá-lo, fazer todo mundo achar que ele não havia mudado nada. Era melhor ficar longe de Amora. Era melhor que as pessoas nem o vissem perto dela. Decidiu que deixaria esta história da sabotagem do bufê para lá. Senão acabaria sobrando para ele. Amora era capaz de botar a culpa nele pela sabotagem do bufê. Aliás, ela já veio com papo estranho, de umas mensagens que ele teria mandado para ela. Já estava inventando história.
— É. Vocês estão certos. — disse Fabinho, sentando-se ao lado de Giane. — Vou ficar longe dessa história. — deu um beijo no rosto de Giane.
— É isso aí, filho. — disse Margot.
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