Um amor improvável
48 Parceiros no futebol
No dia seguinte, Fabinho havia saído de casa, e estava passando pela casa do Gilson, que ficava perto da sua e da de Odila, quando ouviu vozes alteradas. Eram Bento e Amora discutindo. Falavam tão alto que dava para ouvir da rua. Amora estava falando dele. Ele foi até a casa do Bento, que ficava no mesmo terreno da casa do Gilson, ao lado desta e nos fundos. Nos fundos do mesmo terreno ficava a loja. Fabinho andou até a estufa.
— O Fabinho tacou fogo na Toca e você sabe disso! — disse Amora.
Pelo visto, Bento questionou Amora sobre o que ocorreu na noite do incêndio da Toca do Saci, o que surpreendeu Fabinho. Será que Bento finalmente estava usando o cérebro? Será que estava suspeitando da Amora? Mas, com certeza, Bento iria acreditar na palavra da esposa. Ele sempre acreditava na Amora. Era um otário, na opinião de Fabinho.
— Opa, opa! Falando mal de mim, cocotinha? — disse Fabinho.
— O quê que você tá fazendo aqui, Fabinho? — perguntou Bento.
— Não soube? Eu sou seu mais novo vizinho. — disse Fabinho, e Amora fez cara de espanto. — A minha mãe alugou uma casa aqui e eu tô trabalhando na Crash Mídia.
— Isso é um pesadelo, só pode ser. — disse Amora. Já estava sendo difícil para ela viver ali na Casa Verde. Sentia-se mal ali, pois a lembrava o tempo todo da infância descalça. Tinha de fazer um esforço enorme para não gritar e sair correndo. Agora, teria de engolir o Fabinho como vizinho. Era impressionante como Fabinho não conseguia ficar longe dela e do Bento. Pelo visto, era pedir demais.
— Essa vida é muito curiosa, né? Olha eu aqui, de novo. — disse Fabinho. — E você também, né, Amora? O mundo gira, gira... — fez um movimento giratório com os dedos. — E a gente continua nesse mesmo lugar. E esse cafezinho? Cheiro bom. — dirigiu-se a Bento. — Você que fez, né? Porque a Amora não sabe fazer um ovo frito.
— Dá o fora da minha casa, Fabinho! — disse Bento.
No ponto de vista de Bento, ele e Amora estavam no meio de uma conversa importante e Fabinho não tinha nada que atrapalhar. Fabinho não tinha nada que entrar na sua casa sem ser convidado.
— Não, Bento, na boa, eu só entrei porque eu ouvi o meu nome. — disse Fabinho. — Amora, você sabe que é feio acusar as pessoas pelas costas, né?
— Eu não acredito que você entrou na minha casa pra me acusar de ter tacado fogo na Toca do Saci. Você é muito cara de pau, sabia? — disse Amora.
Fabinho achava incrível a capacidade de Amora de inverter o jogo, distorcer os fatos a seu favor. Estava na cara que ela tinha culpa no cartório.
— Em nenhum momento eu te acusei. — disse Fabinho. — Eu só garanti pra Malu que não fui eu que taquei fogo.
— E a estufa também não foi você agora? — perguntou Amora.
— Não, a estufa fui eu, sim. — disse Fabinho, e levantou o antebraço, mostrando as costas da mão direita, onde estava a cicatriz. — Tá aqui a marca do ancinho da Giane que não me deixa mentir.
— Você ainda tem orgulho disso, seu marginal? — disse Bento, furioso.
— Não, Bento, eu não me orgulho. Eu tava com raiva, perdi a cabeça. Foi mal. — disse Fabinho.
— Foi mal? Foi mal? Você tem noção do prejuízo que você me causou? — disse Bento, espumando de raiva, prestes a partir para cima de Fabinho.
— O quê que é? Calma! Olha só, eu já tô assumindo meu erro. Tô pedindo desculpas. — disse Fabinho. — Se teve algum prejuízo, me fala que eu dou um jeito.
— Você acha que você me engana com essa sua história de mudança? — perguntou Bento.
Fabinho não entendia por que as pessoas diziam que ele havia mudado. No ponto de vista dele, ele não havia mudado tanto assim. Só havia cansado de confusão e não queria nada além de ficar quieto, na dele. Ele não estava tentando provar nada para ninguém. Estava apenas tentando seguir em frente com a vida dele. Se ele estava assumindo o erro e pedindo desculpas, era porque era o certo a fazer, e não para fazer o bom moço, o santinho. Ele não estava buscando aprovação de ninguém, não estava fazendo nada para agradar as pessoas e nem para fazê-las de trouxas. Ele não havia se transformado em um anjinho e se as pessoas acreditavam ou não em sua sinceridade, era problema delas. Ele não ligava a mínima. Ele sabia que levaria tempo até conquistar a confiança dos demais, mas para ele tanto fazia, não deixaria mais a opinião alheia defini-lo. No ponto de vista de Fabinho, ele estava agindo de maneira oposta à da Amora, que ficava se fazendo de santa, fingindo que havia mudado, deixado de ser fútil, para o trouxa do marido dela achar que ela havia voltado a ser a menina doce e simples que ele havia conhecido na infância.
— Mas quem te falou que eu mudei? Eu só não quero mais problema, cara. Eu tô respondendo um bando de processo, eu tomei porrada de tudo que é lado da vida. — disse Fabinho. Olhou para Amora. — Não se preocupa comigo, não. Se preocupa com a tua mulher. Porque ela ganha de lavada em cara de pau e mentira.
— Sai daqui, sai daqui, seu canalha! Seu marginal! Vai embora! — gritou Amora.
Quem era Amora para chamá-lo de marginal, de canalha? Ele podia ter cometido crimes, mas ela também era uma bandida. Quanta hipocrisia! Ela enganou muita gente com aquela história do bazar falso. Amora era ainda pior do que ele, pois ganhava de lavada em mentiras e armações. Além do mais, Amora colocou em risco a vida do homem que dizia amar, só para posar de heroína, para atingir a Malu e incriminar a ele, Fabinho. Ele reconhecia que fez muita coisa errada. Armou, mentiu, cometeu crimes. Mas jamais colocou em risco a vida da mãe adotiva, nem de Irene, nem de Plínio, nem de Malu, nem de ninguém que ele gostasse. E Amora dizia amar o Bento, mas fazia ele de idiota o tempo todo. Quem era ela para falar dele? Amora ainda se julgava melhor do que ele? Para estar tão nervosinha assim, só podia estar se sentindo acuada.
— Você tá nervosa? — perguntou Fabinho.
— Tô. — disse Amora.
— Está nervosa. Claro, né? Não viu o dinheiro do maridão. — disse Fabinho, irônico. — Também, como é que você ia imaginar que ia casar com o herdeiro do Plínio Campana e não ia ver o dinheiro dele, né? Ia morar nesse muquifo. — dirigiu-se a Bento. — Pô, Bento, você? Eu achei que você ia dar uma vida melhor pra maior it girl deste país. Que decepção!
Fabinho tinha certeza de que Amora estava odiando viver na Casa Verde. Aquela conversa de mudança, de levar uma vida simples e longe dos holofotes era só da boca da fora. Ela mentiu, armou, fingiu aceitar ter mudado de vida, para Bento casar com ela. Amora achava que um dia iria convencer o Bento a sair dali e a comprar uma casa nos Jardins para ela. Só que nada estava saindo como ela esperava. Até porque Bento era muito cabeça dura e dificilmente alguém conseguia fazê-lo mudar de ideia. E
Fabinho achava muito bem feito para Amora.
— Pela última vez, sai fora da minha casa! — disse Bento.
— O quê que tá pegando aqui, Bento? — perguntou Giane.
— Não, não é nada, Giane. É mais uma crise da cocotinha. — disse Fabinho.
Fabinho foi embora. Foi direto para a Crash Mídia. Jonas, Júlia e Sílvia já haviam chegado. Só faltavam Érico e Maurício.
— Ah, não, Sílvia! Que isso? Pra hoje, não dá. — reclamou Júlia. — Até o Natan, que era um carrasco, tinha prazos melhores, não é, gente?
— Eu não posso fazer nada. — disse Sílvia. — O cliente já comprou todas as mídias e a gente precisa ajustar vários pontos ainda.
— Olha só, gente. — disse Fabinho, em frente ao computador. — Por favor, se eu tiver paz, eu crio dez slogans. Mas com essa gritaria, com essa bagunça, não dá.
Ele ainda não suportava ninguém gritando ou falando alto no ouvido dele.
— É, Sílvia! — disse Jonas. — O meu negócio é fazer no capricho. Num dia só, não dá.
— É, não dá. — disse Júlia.
— Sílvia! — disse Érico, que acabou de chegar. — Você tem que ver o meu carro novo.
— Não precisa nem me dizer, que eu já sei qual é. — disse Sílvia.
— Ai, Érico, me convida pra dar uma volta. — disse Júlia.
— Tem que fazer por merecer. — disse Érico. — E aí, Fabinho, beleza?
— Tudo certo! Tirando o carnaval fora de época, tudo certo! — disse Fabinho.
— Que carnaval fora de época? Você está querendo o quê? Silêncio? — disse Érico, e Fabinho balançou a cabeça positivamente. — Se quer trabalhar com silêncio agora, vai para um mosteiro, meu querido. Nesse ramo é assim, ora.
Érico vinha se comportando de uma maneira diferente desde que sofrera o acidente. Estava mais agitado, mas desinibido e mais agressivo. Todos diziam que eram sintomas de um transtorno comportamental, causado por um edema no cérebro. Fabinho achava que não estava sendo nada fácil lidar com Érico.
Maurício chegou neste momento.
— Bom dia, bom dia, bom dia! — disse Maurício, animado. Estava apaixonado, e teve uma noite maravilhosa com Malu.
Ele e Malu estavam mais próximos desde a história do exame de DNA. Malu ficou arrasada ao descobrir que Bento era seu irmão, e Maurício ficou do lado dela, ajudando, dando força, apoio, carinho e compreensão, consolando-a sempre que ela ficava triste. Até porque ela sempre esteve ao lado dele nos momentos ruins. Ela o consolou quando os pais dele se separaram, e quando Amora rompeu o noivado com ele e correu para os braços de Bento. Foi dele a ideia de fazer o mutirão para reconstruir a Toca depois do incêndio.
Ele e Malu eram amigos desde os tempos de colégio, porém, ele só foi perceber, de verdade, a garota incrível que Malu era depois de ter terminado o noivado com Amora e se consolado nos braços da Lara. Na verdade, ele sempre soube que Malu era gente boa, porém, não sabia que ela era tão maravilhosa. Ele a via como amiga e só enxergava Amora como mulher. Levou muito tempo até ele se dar conta de que Malu era a mulher certa para ele. Ele começou a dar razão para a mãe, que sempre torceu para que ele Malu namorassem e nunca aprovou a relação dele com Amora. Quando Maurício começou a gostar de Malu, a enxergá-la com outros olhos, ela ainda sofria pelo Bento. Levou tempo até Malu superar a história com Bento. Agora, o coração dela parecia estar, aos poucos, cicatrizando. Ultimamente, um clima estava rolando entre ele, Maurício, e Malu. Mas Malu tinha receio de estragar a amizade e a parceria entre eles. Além do mais, ainda não se sentia pronta para iniciar outro relacionamento e queria conhecer gente nova, para conhecer melhor a si mesma e saber o que queria. Depois da noite de amor que tiveram, Maurício a pediu em namoro, porém Malu disse que não queria precipitar as coisas e que por enquanto queria apenas curtir, sem compromisso. Maurício concordou. Meio que a contragosto, mas acabou concordando, para não forçar a barra. Mas ele queria a chance de ter um relacionamento de verdade com Malu. Agora percebia que seu relacionamento com Amora era superficial. Ele gostava de Amora, mas para ela, a relação era um contrato, uma sociedade. Ela gostava era de aparecer nas capas de revistas ao lado dele. Ele queria viver uma história de amor real, com uma pessoa de quem gostasse e que também gostasse dele. Ele acreditava que Malu era a mulher ideal.
— E aí, Maurício? — cumprimentou Érico.
— Bom dia! — Sílvia e Júlia disseram em uníssono.
Fabinho se perguntou o que será que aconteceu para Maurício estar tão animado.
— Bom dia Mauricinho, acordou animadinho? Ó, o slogan! — disse Fabinho.
Maurício fez que não ouviu e foi cumprimentar Jonas.
— E aí, Jonas? — disse Maurício, dando um tapinha no braço de Jonas.
— Como é que tá? — apertou a mão de Jonas.
— Bom dia, mano! — disse Jonas.
— Maurício! O Fabinho falou com você, cara. — disse Érico.
— Não, ele não falou comigo, não. Foi uma provocação. — disse Maurício.
— Não! Maurício, ele perguntou se você está animado. — disse Érico.
— Ô galera, olha só, eu topei dividir o mesmo espaço com o bandidinho aí, agora, ninguém me obriga a falar com ele, não. Tá combinado? — disse Maurício. Ele havia prometido para Malu dar uma chance para Fabinho, que faria isso por ela. Porém, não conseguiu cumprir a promessa. Não engolia Fabinho, de jeito nenhum. Para ele, Fabinho continuava sendo um mau-caráter, um canalha e por ele, Fabinho estaria na cadeia. Não havia se esquecido de tudo o que Fabinho havia aprontado, de todo o mal que Fabinho havia feito não apenas para ele, como para muita gente.
Fabinho já estava de saco cheio. Não tinha mais paciência para o rancor do Maurício. Ele já havia pedido desculpas, e Maurício continuava tratando-o como um lixo. Tudo bem, era até compreensível a raiva que Maurício tinha dele. Afinal, Maurício ficou com a imagem de corno. Isso era a pior coisa para um homem. Mas à essa altura, ninguém mais se lembrava que Maurício havia sido noivo da Amora. O povo não se lembrava mais do escândalo. Amora estava casada com Bento. Na opinião de Fabinho, Maurício devia superar. Além do mais, ele, Fabinho, nem chegou a botar o vídeo da Bárbara na internet. Logo, a família de Maurício não foi exposta. Mas já que Maurício não queria falar com ele, tudo bem, estava no direito dele. Só que ele, Fabinho, não tentaria mais ficar numa boa com Maurício.
— Moral na casa, hein? — disse Fabinho.
— Você também não colabora, né? — disse Sílvia.
— Eu fui pago pra criar, não pra colaborar! — disse Fabinho.
— O Érico, a gente precisa desse clima? — perguntou Maurício.
— Era esse o clima que a agência do seu pai tinha nos velhos tempos, Maurício, não é, não? — disse Érico. — E vamos lá! — bateu na mesa. — Quero todo mundo trabalhando. — deu uns tapinhas nas costas de Jonas. — Quero todo mundo trabalhando, porque eu quero ser indicado aos Profissionais do Ano!
Érico sentou-se em seu lugar. Maurício comentou com Sílvia:
— Eu estou com uma estranha sensação de dèjá vu.
Maurício estava achando o comportamento de Érico parecido com o de Natan.
Continuaram trabalhando na agência. Horas depois, Érico observou o slogan que Fabinho criara.
— Fabinho, eu gostei bastante da sua ideia, viu? Parabéns!
— Ótimo! Vamos marcar a reunião com o cliente, então? — perguntou Sílvia.
— Calma, Sílvia! Primeiro a gente precisa desenvolver a ideia. — disse Érico.
— Eu posso ir embora mais cedo hoje, cara? — perguntou Fabinho.
— Tá. Tá. Vai nessa. — disse Érico.
— Valeu. Obrigado. — disse Fabinho.
— Fabinho, já tá indo? — perguntou Tina, que acabou de chegar. — Passa lá em casa hoje à noite. Eu comprei uma sunguinha branca bem justinha e eu quero saber se te serve ou se não te serve.
— Não vai servir, não. Obrigado! — disse Fabinho, antes de ir embora. Apenas uma mulher o interessava, e não era Tina.
Resolveu procurar por Giane. Estava pensando em convidá-la para tomar um sorvete. Porém, demorou a encontrá-la. Não sabia onde ela estava. Até que a encontrou na rua.
— E aí? Estava onde? — perguntou Fabinho.
— Não é da sua conta. Tá me controlando agora, é? — disse Giane.
— É um cavalo grosso mesmo, né? Eu ia te chamar pra tomar um sorvete comigo.
Giane riu.
— Tô falando sério. — disse Fabinho.
— Vai ter uma peladinha, eu topo. Bora, palhaço. — disse Giane.
— Peladinha? — disse Fabinho, sem entusiasmo.
Fabinho não gostava muito de futebol. Não levava o menor jeito. Além do mais, futebol ainda lhe despertava péssimas lembranças. Mas queria passar um tempo com Giane, então acabou aceitando.
Foram até a praça, depois de passarem na casa casa de Fabinho para pegarem a bola dele. Giane chutava a bola de um lado para o outro.
— Ô, Fraldinha, não sabe jogar bola, não?
— Claro que eu sei. Eu tô destreinado. — disse Fabinho, tentando roubar a bola dela. Porém, não conseguia nem alcançar a bola.
— Vem, Fraldinha! Tem medo de bola, é, Fraldinha? — disse Giane, chutando a bola.
Fabinho ainda tentava roubar a bola dela, sem sucesso. Nessa hora, ele nem ligava que Giane o chamasse de Fraldinha. Era bom estar com ela.
— Vem, Fraldinha! Vem, Fraldinha! — disse Giane, e chutou a bola na direção do gol. — Gol! Uh!
Fabinho agarrou-a pela cintura e começou a rodá-la.
— Não valeu! — gritou Fabinho.
— Me solta! — disse Giane, e o rapaz soltou-a, porém, logo se agarraram. — Valeu, sim!
Fabinho a segurava pela cintura e a puxava para si. Ficaram por alguns instantes se olhando, encantados. Percebeu que Giane olhava fixamente para sua boca. A garota queria beijá-lo. Ele também estava louco para beijá-la. Porém, Caio apareceu e interrompeu o clima.
— Opa, muito bonito! — disse Caio.
Giane e Fabinho afastaram-se, constrangidos.
— Oi, Caio! — disse Giane.
— Qual é a próxima campanha, Giane? É chuteira? — disse Caio, cheio de ciúmes.
— Ah! — disse Giane, sem paciência para as crises de ciúmes do Caio.
— Não entendi, cara. Qual é o problema? — perguntou Fabinho.
Fabinho achava Caio um chato, um mala sem alça, além de um desmancha prazeres. Até quando Caio ficaria enchendo o saco com essas crises de ciúmes? Tudo porque ele estava agarrando Giane? Ele estava brincando, e não estava fazendo nada contra a vontade dela. Se ela não quisesse, teria emitido sinais, teria pedido para ele parar e ele teria respeitado. Mas não houve nenhuma resistência da parte de Giane. O que Caio pensava, que ele estava se aproveitando da pobre menina indefesa? Caio que fosse para o inferno. Ele, Fabinho, e Giane não estavam fazendo nada demais, e mesmo se estivessem, não era da conta do Caio. Ele e Giane estavam se divertindo juntos. Caio não tinha nada que ficar rondando a menina, nem empatando o lance deles. Será que o idiota não entendia que Giane não queria mais nada com ele?
— Deixa que eu falo com ele. — disse Giane. — Vai lá, vai lá treinar... — deu um tapinha no braço dele. — Que tu joga muito mal.
— Se liga, hein, pivete! — disse Fabinho, pegando na nuca dela e chacoalhando de leve. Giane lhe deu um tapa no braço.
Fabinho foi para casa, levando a bola. Tomou banho, trocou de roupa. Foi ajudar a mãe a terminar de arrumar a casa. Até pendurou uns quadros na parede.
— Até que ficou bonitinho, né, mãe? — perguntou o garoto.
— É, ficou mesmo! — disse Margot, passando pano em um dos quadros, para tirar o pó. — Você reparou que a gente, finalmente, tá se dando bem?
— Aí, não, se você também vai falar que eu virei um anjinho, desiste, por favor. Eu continuo a mesma pessoa. — disse Fabinho. — Aliás, eu nem sei por que todo mundo fala que eu mudei tanto.
Fabinho não achava que havia mudado tanto assim. Não sofreu nenhuma lavagem cerebral. Ele não deixou de ser quem era. Só repensou algumas atitudes que andou tendo, nada demais.
Porém, Margot percebeu que o filho estava diferente. Não estava mais tão revoltado com a vida. Estava mais carinhoso com ela. Havia começado a trabalhar, e parecia estar levando o trabalho a sério. Estava se dando melhor com as pessoas. O garoto havia parado de brigar com o mundo.
— Mas você mudou, filho. — disse Margot. — Você vivia com um brilho de raiva no olhar. Vai dizer que você não percebe que aquele brilho sumiu?
— Não sei se era raiva o que eu sentia. — disse Fabinho, emocionado. — Mas é estranho, sabe? Quando eu fico sozinho agora... Eu tenho vontade de chorar. Eu nunca fui disso, você sabe. Não sei, não sei de onde isso vem, por quê que isso acontece. De repente era essa raiva toda querendo ir embora, né?
— Bota pra fora! Chora! — disse Margot, emocionada.
O rapaz estava se segurando para não chorar.
— Se quiser, eu choro com você! — disse Margot.
Mas Fabinho tinha vergonha de chorar na frente da mãe ou de qualquer outra pessoa. Não gostava de fraquejar, sentir-se vulnerável.
— Não vou chorar! — disse Fabinho.
— Ah! — disse Margot.
— Não vou chorar, não adianta. Vem cá! — disse Fabinho, abrindo os braços. Margot aproximou-se e deu um abraço no filho.
Silvério entrou neste momento, trazendo um doce, e ficou feliz ao ver mãe e filho abraçados.
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