Um amor improvável
4 O Roubo
Margot estava na cozinha, decorando um bolo, quando Fabinho passou e disse:
— Estou saindo e não demoro.
— Filho, espera, espera, vem cá, chega um pouquinho aqui. — disse Margot.
Ele se aproximou.
— Você não tem nada mesmo pra me contar? — ela perguntou.
— Meu Deus do céu, mãe. O que tanto você quer que eu te conte? — perguntou o garoto, enfiando o dedo na cobertura no bolo e levando-o à boca.
— Eu vi no seu quarto uns papéis sobre o Plínio Campana.
De fato, o garoto havia montado um verdadeiro dossiê sobre Plínio e Irene.
— Ah, você está mexendo no meu quarto agora? Tchau! — ele disse, procurando fugir do assunto, e ia saindo. Margot foi atrás.
— Não, agora que eu entendi por quê que você ficou dando corda pra Santa. Eu estranhei. Você nunca ligou pra gente famosa. — disse Margot.
Margot conhecia bem o filho, sabia dos hábitos e interesses dele. Fabinho não ligava para artistas de televisão, de teatro, nada. Ele não gostava de novela e nunca se interessou em fuçar a vida dos famosos. Por isso ela estranhou o súbito interesse do rapaz pelas celebridades.
Realmente, Fabinho só havia levado aquela revista para casa porque falava de Amora, e foi por acaso que ele ficou sabendo de Irene Fiori. A partir de então, ele passou a pesquisar sobre a vida da família. Arranjou revistas com os vizinhos, olhou até uns exemplares velhos da mãe (revistas que ele nunca tinha olhado antes), pesquisou na internet, até pediu DVD emprestado. Antes de levar a revista com a foto de Amora para casa, não sabia quase nada sobre a família de Amora. Só sabia que ela havia sido adotada por uma atriz famosa, conhecida por adotar vários órfãos e por se casar várias vezes. Desde quando foi adotado, não procurou saber notícias de Amora. Não se interessava pela vida dela. Até porque ela fazia parte de um passado que ele queria esquecer. Sabia que Amora havia virado modelo, pois aparecia direto nas capas das revistas, nos outdoors. Mas até então Fabinho nunca quis olhar as revistas, pois não se interessava por moda, nem pela vida das celebridades e fazia de tudo para esquecer a existência de Amora, de tudo o que fazia parte do seu passado. O passado doía demais e por isso mesmo não devia ser lembrado. Foi assim até a família adotiva ficar pobre, e ele encontrar na delegacia uma revista com a foto da Amora na capa e decidir levar. Tudo mudou desde que a família adotiva faliu. Ele se revoltou contra a realidade e agora passou a remexer no passado, a se interessar pela vida de Amora, a invejar o sucesso dela. Ela continuava rica e famosa, enquanto ele vivia na pobreza. Ele agora queria ter de volta tudo o que havia perdido. Decidiu correr atrás.
E agora a mãe estava querendo se meter em um assunto que, no ponto de vista dele, dizia respeito a ele e a mais ninguém.
— Do que você está falando? — Fabinho se fez de desentendido.
— Eu vi na revista a Irene Fiori com um anel igual ao seu.
Uma vez que a mãe havia entendido quais eram as intenções dele, resolveu falar tudo. Não havia mais como esconder.
— Então você está percebendo que as peças se encaixam, né?
— O que você vai fazer? Você vai chegar em São Paulo e se apresentar como filho do Plínio Campana? — perguntou Margot.
— Qual o problema? Eu peço um exame de DNA, comprovo a paternidade, tô rico. — disse Fabinho. Ele acreditava que tinha o direito de saber sua origem e conseguir o que queria, e se perguntava como a mãe podia não entender isso e como podia se conformar com uma vida de privações.
— Mesmo que o Plínio Campana seja seu pai, ele não vai te dar nada se ele desconfiar que está procurando ele por interesse, né? — disse Margot. Ela queria aconselhá-lo. Ela estava tentando botar um pouco de juízo na cabeça do filho, para ele não fazer besteira. Acreditava que era uma maneira de ajudá-lo, mas o garoto não interpretou desta maneira.
Fabinho tinha certeza que a mãe adotiva ia julgá-lo um interesseiro por querer ter direito à herança. Ele concluiu que ela certamente devia pensar que ele era um ingrato por querer procurar os pais biológicos. Assim, é claro que ela iria tentar impedi-lo de ir atrás de sua história, e conseguir tudo o que era dele por direito. Por ela, ele permaneceria do lado dela, vivendo na pobreza. Mas se Margot se conformou com a vida de pobreza, ele não. Ele tinha horror àquela vida e queria escapar da realidade.
— Você está vendo por que é que eu não te falei nada? Porque você é egoísta. Você pensa em você, você torce contra, você quer que eu morra aqui, pobre, ferrado, mas aqui, do seu lado. — disse, colocando a mão no ombro da mãe. — Só que eu sou filho da Irene Fiori e do Plínio Campana. E eu vou atrás do que é meu.
Margot ficou chateada. Achou que o filho pretendia abandoná-la.
— Um filho só tem direito depois da morte do pai. — disse Margot.
No ponto de vista dela, Fabinho não tinha nada que brigar por uma herança a que nem tinha direito. Não dava para cantar vitória ainda. Ele nem sabia se era mesmo filho do Plínio, além do mais, Plínio estava vivo ainda, gozando de boa saúde. Mesmo se Fabinho fosse filho do Plínio, era preciso esperar o Plínio morrer para pensar em herança. Ela não via nada de errado em Fabinho querer ser rico, e seria natural o garoto ter curiosidade, querer conhecer o pai biológico. Mas Fabinho estava pensando em se aproximar do Plínio já de olho na herança, e aos olhos de Margot, isso não era bom. Na opinião dela, não era correto se aproximar das pessoas por interesse, para ganhar algo em troca.
Fabinho não ligava a mínima para a lei, não queria seguir trâmites legais e achava que não precisaria esperar a morte do pai para ter boa vida. O que era do Plínio, era dele. Pelo menos uma parte. Ele conquistaria o afeto do pai, e assim, Plínio liberaria a grana. Um pai milionário não deixaria o filho viver na pobreza. Ele tinha certeza de que iria conseguir convencer Plínio a adiantar a herança. Além do mais, ele pensava em usar o dinheiro para se vingar de todos os seus inimigos, a começar por Bárbara Ellen, que o prejudicou, o fazendo crescer órfão. O dinheiro lhe daria poder para acabar com a vida daquela desgraçada, além do mais, sua maior vingança seria mostrar para o pessoal da Casa Verde que ele havia vencido. Ele não pretendia conviver com aquele povo, mas aquele pessoal ainda iria ouvir falar dele. Todos iriam ficar sabendo quem ele era, de quem era filho. Aquele povo achava que havia feito um favor a ele ao lhe dar teto e comida, mas o que aquela gente fez foi destruí-lo por dentro.
— Mas eu não vou esperar o Plínio morrer pra montar na grana dele. Eu vou fazer esse cara gostar de mim. Ele vai me dar a vida que eu sempre quis. Você vai ver. — garantiu o garoto.
Uma cliente de Margot apareceu batendo na porta:
— Margot? Dá licença! Oi, querida!
— Entra! — disse Margot.
— Tudo bem? — disse a cliente, entrando e dando um beijo na Margot. — E o meu bolo? Está pronto?
— Quase pronto. Vem cá. — disse Margot, indo à cozinha.
— Oi, tudo bem? — disse a cliente, cumprimentando Fabinho e deixando a bolsa que trazia consigo sobre o sofá.
— Oi! — disse Fabinho.
— Deixa eu ver. — disse a cliente, indo para a cozinha atrás de Margot. Ao chegar na cozinha, a cliente ficou espantada ao ver o bolo.
— Tá quase. — disse Margot.
— Que maravilha! — exclamou a cliente.
— É só melhorar uma coisinha ou outra... — dizia Margot.
Fabinho aproveitou-se do momento em que a cliente estava na cozinha para mexer em sua bolsa. Pegou a carteira e retirou de lá dinheiro, cartão, um talão de cheques e o documento de identidade dela. Colocou a carteira de volta na bolsa e saiu.
Ele precisava comprar roupas novas, de marca. Estava sem dinheiro, por isso roubou a cliente da mãe. Não podia se apresentar para o Plínio com roupa de pobre. Seu genitor não podia nem desconfiar que ele era pobre. Se Plínio soubesse que ele, Fabinho, era pobre, que sua família perdeu a fortuna há muito tempo e que sua mãe dava duro para sobreviver, iria pensar mal dele. Plínio iria achar que ele estava apenas de olho na herança. Além disso, Amora não iria querer saber de um pobretão. Fabinho pensava que era melhor que todos pensassem que ele continuava rico. Com sorte, a cliente demoraria para descobrir quem a roubou. Se é que descobriria. A cliente já havia pago a mãe pela encomenda, não iria mexer na carteira tão cedo. Fabinho imaginou que a cliente já devia ter passado em algum outro lugar, deixado a bolsa com outra pessoa. Qualquer pessoa poderia roubá-la. Ele não seria o único suspeito.
No dia seguinte, nem bem ele acordou e a cliente de Margot apareceu em sua casa em companhia do delegado. Ela havia descoberto o roubo. Apontou para Fabinho:
— Eu tenho certeza que foi ele que me roubou. — ela acusou.
— Que isso, senhora? Tá doida? — disse Fabinho.
— Baixa a crista, rapaz e vai te vestir, vai, que eu vou te levar pra delegacia. — disse o delegado.
O delegado conhecia o rapaz. Sabia de seu histórico. Não era a primeira vez que Fabinho aprontava. Ele não era réu primário. O rapaz já havia passado por sua delegacia várias vezes. Viviam em Ribeirão Bonito, uma cidade pequena, onde todos se conheciam. A mulher tinha certeza de que foi Fabinho quem a roubou. Mas era evidente que Fabinho negaria até a morte a responsabilidade pelo furto.
— O que essa louca tá falando? Que história de roubo é essa?
— Eu tenho certeza que eu fui roubada nesta casa, doutor. — a cliente disse ao delegado. Dirigiu-se a Fabinho. — Você pegou meu dinheiro, meu talão de cheque, um cartão e ainda levou meu RG pra falsificar a minha assinatura. Eu peguei dois cheques que você tentou passar na loja de roupa, tá legal?
— A senhora tem prova disso? — perguntou Fabinho.
— Olha aqui a prova! — disse a cliente, apontando para umas sacolas que estavam sobre o sofá. — Foi nessa loja, doutor.
— Mas isso não é meu. — mentiu Fabinho. — E mesmo que fosse também, isso não prova nada, doutor!
— Escuta aqui, rapaz. — disse o delegado. — Você não é mais réu primário. Então é melhor você confessar e devolver o roubo, senão vai mofar na cadeia.
Fabinho ficou desesperado. Ele não sabia como sair desta enrascada. Não queria ir para a cadeia. Se fosse preso, não poderia ir a São Paulo atrás do pai e conseguir tudo o que era seu por direito. Estava ferrado.
— Mãe, a senhora sabe que eu sou inocente. Fala pra ele que eu sou inocente, mãe. — implorou.
— Tá, tá. Chega, chega. Vai. Vai se vestir, vai, que eu vou te levar. — disse o delegado. — E olha, não apronta nenhuma gracinha não, viu? Eu estou com uma viatura aí na frente.
— Não foi ele, não, seu delegado — disse Margot.
Margot não queria ver o filho ser preso novamente.
— Claro que foi! — disse a cliente. — A única vez em que eu me separei da minha bolsa foi aqui nesta sala, e ele estava aqui.
— Ele não estava aqui quando a senhora foi ao banheiro, lembra? — disse Margot. — Quem roubou a senhora dona Dulce, fui eu.
Fabinho ficou surpreso. Ele não esperava que a mãe assumisse a culpa pelo roubo em seu lugar.
— Como é que é? Por que, Margot? — espantou-se a cliente.
— Pra pagar dívidas! — disse Margot. — Eu usei seu cheque, seu dinheiro pra pagar o que eu devo. Fui nessa loja, comprei umas roupas pro meu filho... Mas ele não sabia de nada, eu juro.
O rapaz resolveu deixar a mãe assumir o roubo em seu lugar. Afinal, ele não podia ser preso. Tinha de ir a São Paulo, saber mais sobre sua história. Herdar sua parte da herança. E se vingar de todos os que lhe fizeram mal.
— Por que você não me procurou e me pediu? Eu tinha emprestado. — disse Dulce.
— O senhor pode me levar pra cadeia. — disse Margot ao delegado.
— Não, isso não. Peraí, calma. — disse Dulce. — Você me devolve o meu documento e eu retiro a queixa. Tudo bem.
Dulce era amiga de Margot, a conhecia muito bem. Margot ela podia perdoar. Ela não perdoaria se fosse Fabinho, porque o moleque não era flor que se cheire e não era a primeira vez que ele aprontava. Dulce acreditava que Margot não teria por que mentir.
— O documento... O documento eu joguei fora. — disse Margot.
— Mas assim você não está me deixando alternativa! — disse Dulce. — Então eu vou ter que fazer o B.O e dar queixa.
Na delegacia, Margot confirmou que foi a responsável pelo roubo.
— Como a senhora é ré primária e tem residência fixa, a senhora não vai ficar detida. — avisou o delegado. — Mas não pode sair da cidade antes do julgamento. — entregou um papel. — A senhora assina aqui, por favor.
Margot sentiu-se humilhada. Fabinho, sentado ao lado da mãe, fez o bom moço:
— Não assina nada antes de falar com advogado.
— E eu lá tenho dinheiro pra advogado, menino? — replicou Margot.
— Não se preocupe. Eu conheço um muito bom da Defensoria Pública. — disse o delegado.
— Eu vou ficar, tá? Vou cuidar de você. Nada de mal vai te acontecer. — prometeu Fabinho.
— Ô rapaz, tudo de pior que podia acontecer com a sua mãe já aconteceu. — rebateu o delegado.
— Mãe, eu vou... — disse Fabinho, levantando-se. — Eu vou conseguir um bom advogado pra você, tá?
— Mas peraí, Fabinho! Peraí! — pediu Margot.
— A gente se vê em casa. — disse Fabinho, saindo da sala.
— Dona Margot, a senhora tem certeza do que está fazendo? — perguntou o delegado. Suspeitava de que Margot estivesse assumindo a culpa pelo furto no lugar do filho. Fabinho era o bandido, não ela. Margot era uma pessoa boa, honesta. Mas se ela estava assumindo a culpa, ele não podia fazer nada. O delegado estava morrendo de pena dela.
— Tenho. — disse Margot, assinando o documento. — A culpa é minha. A culpa é toda minha.
Fabinho foi direto para casa. Arrumou suas coisas, levou o que restava do dinheiro da cliente e mais algumas coisas de valor que havia na casa e saiu. Acabou deixando cair um porta-retrato, onde havia uma foto sua com a mãe, mas não se importou. Nem juntou o porta-retrato. Não que não gostasse da mãe. Mas não gostava daquela foto. Era uma foto dele com a mãe, quando ele tinha dez ou onze anos de idade. A foto despertava-lhe péssimas lembranças. Tirou a foto com a mãe logo que saiu do lar. A foto era para ele um lembrete de sua infância desamparada.
Para ele, sua adoção não representava um ato de amor, mas uma prova de que havia sido abandonado pelos pais biológicos em um lar de acolhimento. Preferia fingir que o retrato nem existia. Ele queria sair daquela casa, deixar para trás aquela vida. Seu destino estava em outro lugar.
Na rua, ele olhou uma motocicleta. Não havia nenhuma chave na ignição. Fez uma ligação direta, montou e saiu em disparada. Primeiro passou em um chaveiro, para conseguir uma cópia das chaves da moto. Em seguida passou em um posto para botar gasolina.
— Enche! — disse Fabinho ao frentista, ao descer da moto.
Ele aproximou-se dos expositores. Pegou um pacote de salgadinhos e uma revista com a foto de Amora na capa.
— Amorinha... Tô chegando, viu? Me espera.
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