Um amor improvável
23 Desmascarando Bárbara
A princípio, Bárbara correspondeu ao beijo, porém, logo o repeliu:
— Não! Nós não podemos! Nós não devemos! Não! — disse Bárbara, ofegante.
Fabinho continuou abraçando-a por trás, sem soltá-la:
— Não resiste a esse coração apaixonado, por favor! — disse o rapaz, beijando abaixo da orelha dela, nos ombros e nas costas.
— Ai, mas você está com a minha filha! — protestou Bárbara, enquanto o rapaz a enchia de beijos. — Eu sou noiva do seu patrão! Nós não podemos ceder a esse ímpeto insano e machucar as pessoas que nos amam!
— Você tem razão! — disse Fabinho, afastando-se.
— Eu tenho? — disse Bárbara, espantada.
Estava na cara que ela havia caído no jogo dele.
— Mas eu não quero ficar com esse desejo, Bárbara! — disse o rapaz, puxando-a e beijando-a. Sabia que Bárbara não se importava em machucar os outros. Ela só estava fazendo cena. Era puro teatro.
— Que bom! Você me assustou! — disse Bárbara, rindo.
— Vamos fazer o seguinte, eu vou falar pra Malu que eu tô indo embora e eu vou ficar embaixo da janela. — disse Fabinho. — Quando todo mundo for dormir, você me chama! Você faz um sinal que eu venho e a gente recomeça a festa, eu e você! — beijou-a mais uma vez.
— Não, isso é uma insanidade! Você não tem noção do perigo! — disse Bárbara, beijando-o.
— Bárbara, por você, qualquer risco! — disse Fabinho, enchendo-a de beijos.
— Não! Não! Não! — disse Bárbara afastando-se. — Eu tenho que usar a cabeça! Eu tenho que usar a razão e expulsar você da minha casa e da minha vida! — jogou-se nos braços dele. — Mas eu sou fraca! Por quê? Por quê?
— Porque você nasceu para ser amada! — disse Fabinho, levantando-a. — Você nasceu pra ser amada e nasceu pra amar, Bárbara!
Fabinho encheu o pescoço dela de beijos.
— Ai, até que enfim um homem que me entende. — disse Bárbara, derretida. — Ai, obrigada, Deus! Obrigada!
Fabinho beijou-a.
— Eu vou. — ele disse, e beijou-a novamente. — Meu Deus, como é difícil!
Ele encheu-a novamente de beijos.
— Vai! Vai! Vai! — disse Bárbara, expulsando-o. — Vai sem medo, hein!
Fabinho parou na porta. Ainda não havia soltado a mão dela.
— Olha, espera o sinal, tá bom? — disse Bárbara. — E eu vou subir e ficar esperando por você. Tá?
— Tá. Tá bom. — disse Fabinho, antes de agarrá-la e lascar o maior beijo. Passou até a mão na perna dela. Saiu e deixou-a ofegante.
Saindo da adega, Fabinho foi à sala. Limpou a boca. Malu desceu as escadas.
— Fabinho, descobriu alguma coisa? — ela perguntou.
— Não. Por enquanto, não. Mas de hoje não passa. — disse Fabinho. — Seguinte, o plano agora é fazer de conta que eu tô indo embora e vou ficar lá fora esperando a sua mãe me chamar pra suíte dela.
— Você tá seduzindo a minha mãe? — perguntou Malu, horrorizada.
Luz havia lhe dito que o rapaz havia flertado com sua mãe a noite toda. E agora ele pretendia se enfiar no quarto dela. Será que ele pretendia dormir com a ex-mulher do pai dele, mãe da irmã dele? Malu não gostava nem de pensar nisso. Era nojento.
— Malu, você conhece jeito melhor de arrancar alguma coisa de uma mulher?
— Olha aqui, isso não foi combinado, não! — disse Malu. — Eu não vou deixar você fazer essa coisa nojenta!
— Malu, eu não vou tocar na sua mãe. — disse Fabinho. — Tudo bem, é só um joguinho pra ela abrir o bico.
— Olha, se eu soubesse que você ia fazer isso, eu juro por Deus, que não ia permitir que você entrasse... — disse Malu, indignada.
Bárbara apareceu neste exato momento.
— Fabinho, você ainda está aqui?
— Eu tô... Tô me despedindo da Malu. — disse Fabinho, piscando o olho. Dirigiu-se à Malu. — Vamos?
— Vamos. — disse Malu.
Malu e Fabinho caminharam em direção à porta de saída. Fabinho murmurou:
— Põe uma câmera no quarto dela. Prometo não tocar nela, tá? Por favor. — beijou a mão dela. — Beijo, Malu.
Fabinho ficou esperando embaixo da janela, como havia combinado com Bárbara. Quando todos foram se deitar, Bárbara o chamou. A essa altura, Malu já deveria ter instalado a câmera no quarto. Fabinho e Bárbara foram até a suíte dela. Entraram rindo no quarto. Malu havia se escondido no banheiro.
— Ai, ai. Enfim sós. — disse Bárbara.
O rapaz beijou-a.
— Calma. — disse Fabinho, beijando-a novamente. — Calma, calma, que a gente tem a noite toda.
— Ah, mas eu quero aproveitar cada minuto. — disse Bárbara.
— E eu, cada segundo. Eu queria te propor... — disse Fabinho.
Ouviram um celular tocando. Bárbara assustou-se. Fabinho ficou nervoso.
— Tem alguém espiando a gente. — disse Bárbara. — Quem tá aí?
Parecia que o barulho vinha do banheiro. Bárbara disse:
— Eu vou lá ver! — disse Bárbara.
Fabinho a impediu:
— Não, não, deixa que eu vou!
Foi ao banheiro e encontrou Malu.
— Você não podia ter desligado o celular? — Fabinho sussurrou.
— Deve ter sido ato falho, Fabinho. — disse Malu, pegando na mão dele. — Me diz, o quê que você vai fazer com a minha mãe? Eu vou lá e acabo com tudo isso!
Malu ficava chocada com as coisas que Fabinho fazia. Que espécie de rapaz era aquele, capaz de usar de meios degradantes para atingir um fim?
— Não vou fazer nada! — disse Fabinho. — Eu sei o que eu estou fazendo. Me dá aqui! — pegou o celular da mão dela. — Por favor, fica quietinha, né? Confia em mim!
Fabinho entrou no quarto, onde Bárbara o esperava, e estava tirando os brincos.
— Estranho. Alguém deixou esse celular no teu banheiro. — disse o rapaz, colocando o celular sobre a mesa de cabeceira.
— Ah! Só se for alguma amiguinha da Luz. — disse Bárbara.
Fabinho passou a mão no rosto dela. Bárbara logo o empurrou na cama.
— Agora, vem pra cá!
— Calma aí! — disse o rapaz, beijando-a. — Calma aí, que eu quero propor um joguinho!
— Joguinho? — perguntou Bárbara.
— Ahã. — disse Fabinho, beijando-a.
— Adoro joguinho! — disse Bárbara.
— É? — disse Fabinho, beijando-a.
— Uhum. — disse Bárbara.
— Sabe que eu sempre quis ter a Bárbara Ellen nos meus braços? — disse Fabinho. — Mas eu não quero assim, uma noitada. — beijou-a. — Eu quero que seja por inteiro. Eu quero o teu presente, o teu passado, o teu futuro. — beijou-a novamente. Bárbara riu. — Por dentro, por fora. — beijou-a no rosto e levantou-se. — Então, proponho um jogo da verdade. Cada um pergunta o que quiser pro outro sobre a intimidade.
— E se eu não quiser responder? — perguntou Bárbara.
— Eu tiro uma peça de roupa. — disse Fabinho, fazendo de conta que ia tirar a jaqueta.
— Ah, é? — perguntou Bárbara, gostando da ideia.
— É. — disse o rapaz.
Bárbara riu e levantou-se da cama.
— Eu não vou querer responder nenhuma pergunta.
Malu apareceu na porta do banheiro, olhando feio para ele, sussurrando, pedindo para parar. Até onde ele ia com esse joguinho? Será que ele pretendia mesmo ir para a cama com a mãe dela? Malu ficava horrorizada só de pensar. Fabinho fez um gesto com a mão, pedindo calma. Malu se escondeu novamente. Fabinho aproximou-se de Bárbara, que estava de costas, servindo-se de uma taça de vinho.
— Olha só, o perdedor faz o que o vencedor quiser, tá? — disse Fabinho, beijando o rosto dela.
— Ah, é? — disse Bárbara.
— Uhum.
— Nossa, topadíssimo! — disse Bárbara. — Adorei!
Então começou o jogo. Bárbara fez uma pergunta, e Fabinho havia tirado a jaqueta, pois se recusou a responder. Agora era a vez dele.
— Agora, sou eu. — disse Fabinho. — Eu quero saber qual é a sua maior fantasia.
Bebeu um gole do vinho. Bárbara respondeu:
— A minha maior fantasia? É ver você perder esse jogo. — riu. — Minha vez. Qual é a sua maior fantasia?
A maior fantasia dele era vê-la afundada na lama. Só que ele não diria isso a Bárbara. Ainda não era a hora de tirar a máscara.
— Vai ter que descobrir por conta própria. — disse Fabinho, beijando-a.
— Ops! Acabou de perder mais uma peça de roupa. — disse Bárbara.
— Não tem problema. — disse Fabinho, tirando o cinto. — Mas agora, é a minha vez, né? — bateu nela com o cinto.
— Ai! — gemeu Bárbara, rindo.
— Quantos homens você já teve? — perguntou Fabinho.
— Hum... — disse Bárbara, cobrindo a boca com a mão e rindo.
— Vamos, Bárbara Ellen! — insistiu o rapaz.
— Está bem. Eu tive... Assim...
O jogo continuava. Cada vez que Bárbara fazia alguma pergunta e Fabinho não respondia, ele tirava uma peça de roupa. Estava tirando as botas.
— Minha vez! — disse Bárbara. — Qual foi a mulher mais madura, quer dizer, deliciosamente experiente, que você já ficou?
— Não posso falar. — disse Fabinho, mexendo no cinto, em volta de seu pescoço. Ele na verdade não era chegado em mulheres maduras. A única mulher madura que ele ficou era Bárbara, e ainda assim, era tudo mentira. Apenas um jogo para arrancar uma confissão dela.
— Não? — disse Bárbara.
— Sou um cavalheiro, né? — disse o rapaz.
— Ah, é?
— Ahã.
Bárbara puxou-o pelo cinto.
— Pois o senhor cavalheiro acabou de perder mais uma peça de roupa. — beijou-o.
— Ai, meu Deus do céu! — disse Fabinho. — Vamos lá, hein! Vou de camisa, hein!
— Ahã! Quero ver!
— Camisa agora! — disse o rapaz, desabotoando lentamente a camisa.
— Ai, que delícia! — disse Bárbara, rindo. — Ai, adoro isso!
Malu não estava suportando mais. Foi até a porta do banheiro e olhou feio para Fabinho, pedindo para parar. Achou que ele estava indo longe demais. Ele assentiu, procurando acalmá-la. Fabinho continuou o jogo, dançando de maneira sensual, fazendo um strip-tease.
— Uau! — disse Bárbara, ao ver o peito e a barriga do rapaz.
Fabinho começou a desabotoar os punhos da camisa.
— Ah, vai! — dizia Bárbara.
Ele tirou a camisa. Ficou seminu, somente de calça.
— Uau! — gritou Bárbara.
Fabinho agarrou a camisa com a mão direita e girou-a sobre a cabeça. Bárbara estava adorando o jogo. Em seguida, foi a vez de ele perguntar. Perguntou quem foi o primeiro namorado dela.
— Meu primeiro namorado? — perguntou Bárbara.
— Uhum.
— Foi o Gilson. — disse Bárbara, rindo.
— Nossa! — disse Fabinho.
O rapaz não sabia que Gilson havia sido namorado de Bárbara.
— Exatamente. — disse Bárbara. — O dono do buraco de onde você e a Amora saíram. Belo jovem. Só que nós tínhamos interesses diferentes.
— É por isso que você preferiu casar com o Plínio, então. — disse Fabinho.
— Uhum. Com o Plínio, o meu nome chegou ao topo! — disse Bárbara, levantando a taça de vinho. — Não, mas foi uma verdadeira operação de guerra pra fisgar o idiota! Porque ele era completamente apaixonado pela Irene.
— Irene? — disse Fabinho, se fazendo de desentendido.
— Ah, uma atrizinha. Você nunca deve ter ouvido falar dela. — disse Bárbara. — Ele dirigia uma peça de teatro quando foi convidado pra dirigir uma novela. E claro, deu o papel da protagonista pra ela, né? Só que o papel parecia ter sido escrito especialmente pra mim. Adivinha o que eu fiz?
— Não sei. Quero saber. — disse Fabinho.
Bárbara riu e disse:
— Eu cheguei no teatro duas horas antes, liguei para o Plínio dizendo que eu estava louca de paixão! E que eu ia me matar se ele não viesse correndo! Claro! Que quando ele chegou e me viu chorando no palco, ele fez um apelo dramático à vida! E eu, então, fingi que desmaiei, ele me carregou no colo e colocou na cama do cenário. Eu fiquei esperando os minutos pra idiota da Irene entrar. Quando ela chegou, eu peguei o noivinho dela e lasquei um beijão!
Fabinho ficou revoltado, porém disfarçou. Sabia disfarçar muito bem. Não era hora de explodir. Ele tinha de agir de cabeça fria, para não botar tudo a perder. Bárbara não podia desconfiar de nada.
— Flagrante, né? Ela deve ter feito o maior escândalo! — disse o rapaz.
— Nada! Em vez dela brigar pelo homem dela, ela sumiu no mundo sem nem tomar satisfações. A Irene era uma perfeita idiota!
— Ela deve ter achado que vocês tinham um caso secreto. — disse Fabinho.
Bárbara bebeu um gole do vinho.
— Ahã! Mais do que isso! Ela viu a química que existia entre mim e o Plínio! Porque naquele beijo roubado, o Plínio pegou fogo! Ai, eu realmente tenho alguma coisa que incendeia os homens!
— Isso explica por que o Plínio não foi atrás da Irene, né?
— Na verdade, o Plínio nem sabe que ela viu esse beijo. — disse Bárbara. — Mas foi inteligente o suficiente pra perceber que eu sou muito mais mulher! Por quê que você acha que eu casei tantas vezes? Porque não tem páreo para mim! Você não vê o Natan? Hã? Bastou um empurrãozinho pra ele deixar a Verônica!
— Eu vi. Você fez assim com o dedinho e ele foi, né? — disse Fabinho, fazendo movimento com o dedo.
— Eu armei com a secretária! — disse Bárbara, rindo. — Ela teve que chegar mais cedo em casa e pegou a gente agarrados na alcova do casal! Ah, foi mais fácil do que roubar dentadura de defunto! Você sabe que no amor e na guerra vale tudo.
Bárbara tomou mais um gole do vinho. Fabinho sempre achou Bárbara ruim, porém, não tinha noção do quanto ela era sórdida, maquiavélica. Ela tinha a capacidade de destruir as pessoas sem o menor remorso. Por causa dela, ele cresceu em um lar de adoção, longe dos pais. Ficou doente. Mas ele daria o troco na mesma moeda.
— Bárbara, eu sempre te achei divina. — disse Fabinho. — Mas, agora, eu tô vendo que não existe mulher como você.
Bárbara riu.
— Me diz uma coisa. — disse Fabinho.
— Hum?
— De quem você gostou mais? Plínio ou Natan?
— O Plínio é um mala metido a idealista! — disse Bárbara. — Sempre teve tudo de mão beijada! Por isso que ele se dá ao luxo de desprezar o dinheiro. Dizia que eu gastava muito! Que eu era fútil! Eu não aguento mesquinharia por muito tempo, não! Agora, o Natan, ele é perfeito! Porque ele se considera um gênio, mas come aqui, ó, na minha mão!
Fabinho riu e beijou na palma da mão dela.
— De quem foi a ideia de fazer o filme? — perguntou Bárbara.
Fabinho passou o dedo no nariz dela e sorriu.
— Bárbara Ellen.
— Exatamente. — disse Bárbara. — Só que ele é tão limitado e tão vaidoso que ele mordeu a isca feito um peixinho cego!
Bárbara e Fabinho riram.
— Agora, essa é a grande diferença entre vocês dois. — disse Bárbara, passando as mãos no rosto do rapaz.
Fabinho passou a mão no rosto dela.
— Você é um amante jovem, másculo, vigoroso. — disse Bárbara, passando as mãos nos ombros do rapaz e olhando para o corpo dele. — Ele sempre será um marido regular.
Riram. Bárbara deu mais um beijo em Fabinho. Para a surpresa de ambos, Natan, que ouviu tudo atrás da porta, invadiu o quarto.
— Natan! — disse Bárbara, perplexa.
Fabinho se levantou da cama. Ele achou ótimo ver Natan ali. Natan não estava com uma cara boa. Estava tudo saindo melhor do que Fabinho esperava. A megera merecia perder Natan. Ela tinha de pagar por todo o mal que fez, pelo que fez com ele e seus pais. Não sabia o que Natan veio fazer ali, àquela hora, mas estava achando divertido ver a vadia ser humilhada. Deu para perceber que Natan estava possesso. Fabinho sabia também que havia perdido o emprego na agência. Natan não iria querer vê-lo nem pintado de ouro depois disso. Mas não se importava. Cedo ou tarde sairia daquela agência mesmo. Nunca pretendeu seguir carreira na publicidade. Em breve conseguiria o que era seu por direito.
— Então você... Você só tá comigo por interesse, Bárbara? — gritou Natan.
Bárbara abanou a cabeça. Estava desesperada.
— Pois o vaidoso e limitado aqui acaba de abrir os olhos! — gritou Natan. — Você tá liquidada, sua pilantra! É o teu fim, Bárbara! O fim!
— Eu... Eu posso explicar, Natan. — disse Bárbara, desesperada, levantando-se da cama e aproximando-se dele. — Eu posso explicar.
Fabinho começou a vestir a camisa.
— Ah, é? E o que ainda falta pro limitado aqui entender? — gritou Natan.
— É que o sonho do Fabinho sempre foi ser ator. — disse Bárbara. — Então, a gente estava fazendo um exercício de improvisação.
— Ah! — disse Natan, sem acreditar no que ela dizia. — E vocês resolveram improvisar justamente um par de chifres na minha testa?
— Não... — disse Bárbara, rindo de nervoso.
— E aí, ele tirou a roupa, né? E você decidiu avacalhar a mim, ao Plínio e a todos os idiotas que fizeram figuração nessa tua cama? — perguntou Natan.
Fabinho continuava vestindo a roupa, achando tudo aquilo divertido. Estava adorando ver o circo pegar fogo.
— Não! Não, não! — disse Bárbara, andando pelo quarto e parando ao lado de Fabinho. — Isso é um exercício do curso do Actor’s Studios. Isso. A gente reinventa a nossa própria vida, só que ao contrário. Eu só pedi pra ele, sei lá, ficar mais à vontade. Porque os atores precisam lidar com a própria nudez.
Fabinho abanava a cabeça, divertido. Era divino isso.
— Entendi. — disse Natan, furioso. — E você resolveu me dar o papel de imbecil nessa peça? Porque eu jamais ouvi desculpa mais estapafúrdia, Bárbara! — dirigiu-se a Fabinho. — E pensar que eu dei uma segunda chance pra você na minha firma!
Natan foi em direção ao rapaz e o agarrou, pronto para agredi-lo. Estava decepcionado com Fabinho. Ele simpatizava com o garoto. Considerava Fabinho seu braço direito na empresa, e Fabinho foi capaz de traí-lo, ir para a cama com Bárbara, e ainda rir dele.
— Não vem, não! Ah, Natan! — disse Fabinho, soltando-se. — Não vem não, que eu sou faixa marrom, meu irmão.
— Não. Você... Sabe o que você é, Fabinho? — disse Natan. — Você é um cocozinho. Além de demitido, eu vou fazer o possível pra você jamais conseguir um emprego decente nessa cidade, nesse país, nesse planeta. — dirigiu-se a Bárbara. — E você, Bárbara, esquece filme, esquece TV, esquece tudo!
— Não! — disse Bárbara, cobrindo o rosto com as mãos.
— No que depender de mim, vocês dois estão queimados pra sempre. — disse Natan, indo embora.
— Natan! — chamou Bárbara. — Não! Natan, Natan! Bárbara correu atrás de Natan.
Malu saiu do banheiro.
— Quem será que avisou o Natan? — perguntou Malu.
— Não sei. — disse Fabinho, terminando de se vestir. — Mas se eu tivesse planejado, não ia ser mais perfeito. Vem cá, tem que salvar esse vídeo, hein?
Fabinho achou que Bárbara devia ter algum inimigo dentro da própria casa. Só que ele não podia imaginar quem era. Algum dos empregados, talvez. Não seria de se surpreender, pois Bárbara não tratava bem as pessoas e vivia passando por cima dos outros para se dar bem.
Malu pegou a câmera, que estava pendurada na janela, meio escondida atrás das cortinas. Fabinho notou que a irmã estava com uma cara péssima.
— Você tá bem? — perguntou Fabinho.
Malu sentou-se no sofá.
— Como você se sentiria se tivesse escutado o que eu escutei?
— Agora você sabe que é minha irmã, né?
Fabinho estava feliz. Havia conseguido desmascarar a Bárbara, e a relação da megera com Natan já era. Conseguiu provar para Malu que era irmão dela. Quem sabe ele ainda teria chance de conquistar o afeto de Malu. Ela não simpatizava com ele. Porém, Fabinho ainda tinha esperança de ainda conseguir virar o jogo. Ele queria muito ser amigo da irmã. Ele sempre quis ter um irmão ou irmã, e desejava ter o carinho de Malu.
Malu ficou quieta. Ficou desolada ao saber que foi fruto de um golpe que a mãe deu no pai. Doía também saber que o pai perdeu Irene, a mulher da vida dele, por causa desse golpe.
Fabinho saiu da suíte. Desceu as escadas e encontrou Bárbara e Tina na sala. Natan não estava mais ali. Havia ido embora.
— Fabinho, nós fomos vítimas de um complô! — disse Bárbara.
Fabinho decidiu que era a hora de tirar a máscara. Estava cansado de fazer o papel de bom menino para a megera. Não iria mais se fazer de amiguinho, de cúmplice, de fã. Fabinho queria mais era despejar nela todo o ódio que estava sentindo. Ela estava precisando ouvir umas verdades. Há muito tempo esperou por este momento. Ele queria pisar nela, humilhá-la, ser cruel com ela como ela havia sido com Irene, com ele. Por ele, Bárbara iria para a sarjeta. Bárbara não merecia viver no luxo. Ela separou seus pais, fez sua mãe sofrer. Se Irene ficou doente, a culpa era da Bárbara. Se ele ficou anos naquele lar e adoeceu, a culpa era da Bárbara.
— Não, não, Bárbara. Nós, não. Você. — disse Fabinho.
— Como assim? Você também se ferrou. — disse Bárbara, sem entender nada.
— Bárbara, tua máscara caiu. — disse Fabinho. — Você pode dar adeus a essa vida luxuosa que você conseguiu com o sofrimento das pessoas. Bem-vinda à lama.
— Então, você armou pro Natan flagrar a gente, é isso? — disse Bárbara, indignada.
— Ah, mas não é você a especialista nesse tipo de armadilha? — disse Fabinho, irônico.
— Por que tamanho ódio e tamanho sarcasmo? Eu posso saber?
O rapaz achou que ainda não era hora de Bárbara saber de tudo, sobre quem ele era.
— Você vê, né? Que o problema do esperto é achar que todo mundo é otário. Você viu como foi fácil te levar no papo? Eu te fiz três elogios. — disse Fabinho, levantando três dedos da mão. — Três elogios e você caiu feito a pata velha que você é!
Bárbara ficou chocada com a insolência do garoto. Tina falou:
— Que é isso, garoto? Isso é jeito de falar com ela?
Para Fabinho, Bárbara não merecia nenhum respeito e a maneira como ele a tratava ainda era pouco. Bárbara havia acabado com sua vida. Por causa dela, ele cresceu órfão, se sentindo abandonado e indesejado. Ele cresceu longe de seus pais, passou por dificuldades, foi excluído, isolado e alvo de chacota de outras crianças no lar e mais tarde, viveu na pobreza, pois a família adotiva faliu. Se não fosse a armação de Bárbara, ele não teria ido parar naquele lar, não teria sido adotado, teria sido criado por seus pais e teria levado uma vida de príncipe. Teria recebido o amor de sua família. Sua vida teria sido outra. Ele devia à Bárbara anos de sofrimento, de humilhações, de rejeição. Ela iria pagar bem caro por isso.
— Porque é verdade. — disse Fabinho. — Eu só queria saber como é que ela separou o Plínio da Irene. Mas ela foi se vangloriando, vangloriando, falou tudo. E eu vou te dizer. Eu não acredito em Deus, não. Mas quando eu vi o Natan entrando ali, eu falei: “Opa! É divino. Isso é divino”.
— Você... Você me seduziu pra que eu confessasse, é isso? — perguntou Bárbara.
— Bárbara Ellen, sua mocreia, o quê que um jovem bonito como eu vai querer com você, sua coroa patética? — Fabinho debochou.
Ele sabia que havia tocado no ponto fraco dela. Bárbara se achava uma diva, e acreditava que tinha o poder de enlouquecer os homens.
Bárbara lhe deu um tabefe no rosto.
— Moleque! Insolente! — Bárbara xingou. — Você acha o que, hein? Que não existe nada embaixo dessa casca? Hã? Que por sinal, dá um bom caldo. Eu sou Bárbara Ellen! E eu cheguei onde eu cheguei por causa disso. — colocou as mãos nas coxas. — Por causa disso. — colocou a mão no peito. — Mas, principalmente, por causa disso aqui. — apontou para a cabeça.
— Se tivesse isso aqui. — disse Fabinho, apontando para a cabeça. — Você não tinha caído no meu papo.
Na opinião de Fabinho, Bárbara não era muito inteligente e não tinha o menor talento, não sendo à toa que estava em decadência. Ele tinha certeza de que Irene teria sido muito melhor atriz que Bárbara, e que se não fosse por Bárbara, Irene jamais teria encerrado sua carreira.
— Escuta, qual é o teu interesse nessa história do Plínio e da Irene? — perguntou Bárbara. — Eu posso saber?
— Não, não. Uma coisa de cada vez. — disse Fabinho, indo em direção à porta de saída. — Logo, logo todo mundo vai saber.
— Franguinho presunçoso! — disse Bárbara.
Fabinho parou.
— É a sua palavra contra a minha. — disse Bárbara, apontando para ele e em seguida para si. — Se você disser alguma coisa que eu te disse, eu desminto e tá acabado.
— Acontece, Bárbara, que tem uma terceira versão da história, que é da Irene Fiori. — disse Fabinho. — E você sabe que coincidência? Ela é exatamente igual ao que você acabou de admitir. Portanto...
— A Irene Fiori sumiu no mundo. E a essa altura, já deve ter morrido.
— Não, você que pensa. — disse Fabinho. — Ela tá viva. E muito perto daqui.
— Pra você, que acredita em fantasma. — disse Bárbara. — Porque assombração aparece pra quem quer.
— Então, fica de olho. Porque quando essa assombração aparecer por aqui, eu não vou querer estar na tua pele. — disse Fabinho. — Tchau.
Ele foi andando em direção à porta.
— Tina, pegue esse cara. — disse Bárbara, e Tina correu em direção a ele.
— Vem cá! — disse Bárbara.
— Vem cá, garoto! — disse Tina, pegando-o no braço.
— Volta aqui, moleque! Volta aqui! — disse Bárbara, puxando-o pela camisa. — Deixa eu ver. Onde é que tá o seu celular? Vem cá. — começou a apalpá-lo, em busca do celular. — Não! Porque, pra você estar tão seguro assim... — pegou o celular do bolso dele. — Você deve ter gravado a nossa conversa, não é?
Bárbara colocou o celular no chão e começou a pisoteá-lo. Fabinho achou divertido. Se Bárbara fosse mais esperta, saberia que ele não usaria uma coisa tão óbvia quanto um celular.
— Então, olha aqui, o que eu faço com a sua prova. — disse Bárbara, acabando de pisotear no celular. — Ah, e não conte com a confirmação do Natan, não, viu? Porque ele jamais assumiria em público que ele foi feito de idiota.
Fabinho pegou o celular do chão. Estava todo destruído. Mas, para ele, não fazia mal. Logo compraria outro. Começou a rir.
— Tá rindo de quê, hein, seu fedelho? — perguntou Bárbara. — Chega de blefe. A Irene Fiori já é carta fora do baralho antes mesmo de você ter nascido. Agora, sai! Sai da minha casa! A sua vida acabou! Acabou!
— Não, não, não! Minha vida tá começando. A sua... — disse o rapaz, antes de ir embora.
Fale com o autor