Um amor improvável

50 Briga na Casa Verde


No dia seguinte, Fabinho foi trabalhar na Crash Mídia. Érico desligou o telefone, após falar com um cliente. Olhou para Fabinho.

— Vem cá, esse nome “Class Mídia” te diz alguma coisa?

Fabinho fez uma careta. Érico bateu na mesa e anunciou em alto e bom som:

— Acabamos de ganhar mais um ex-cliente do Natan Vasquez!

— Boa notícia! Boa! — disse Fabinho. Todos comemoraram.

Renata chegou neste momento, bufando de raiva, e aproximou-se de Érico.

— Bom dia, né? — disse Renata, ao pé do ouvido dele.

— Rê, olha só, eu tô ocupado. — disse Érico. — E vem cá, você não tinha que estar trabalhando agora não?

— Ah, então agora é assim, hã? Me fala. — disse Renata. — Você dorme comigo e vai embora sem se despedir?

Érico levantou-se da mesa.

— Renata, olha só, por favor, vem cá, sem frescura. A gente já se conhece há o quê? Há 200 anos!

— Justamente por isso! — disse Renata. — Por a gente ter uma história tão longa que você não pode me tratar como se eu fosse uma...

— Renata, vem cá, o que foi? — murmurou Érico, puxando-a pelo braço. — O quê que é? É só porque a gente dormiu ontem, que você acha o quê? Que pode colocar a coleira no meu pescoço de novo? É isso?

— Érico, você não pode falar assim comigo! — disse Renata, indignada. — Como se eu fosse realmente uma vagabunda, é isso?

— Ô gata, eu tô atolado de trabalho. — disse Érico. — Vamos fazer o seguinte, só uma sugestão, tá? Vamos se encontrar de noite? Mas não é pra discutir a relação, não, tá?

— Faz o seguinte, pega essa sua sugestão e esquece! — disse Renata, furiosa. — Não continua, não vale a pena a gente se encontrar, tá?

Renata foi embora furiosa, louca da vida, e Érico resolveu ir atrás dela:

— Renata!

Quase toda a equipe foi testemunha da briga entre Érico e Renata, com exceção de Sílvia, que não estava.

Vinny, o office-boy, quase foi atrás da Renata. Todos sabiam que Vinny gostava da Renata, haviam até tido um rolo. Vinny estava saindo com Karol, porém, não havia esquecido completamente a Renata. Porém, Jonas o puxou pelo braço, impedindo-o de ir atrás da Renata.

— Fica aí. Você não combinou de encontrar com a Karol hoje?

— Tem razão. — disse Vinny.

Fabinho passou atrás da cadeira onde Júlia estava sentada, indo em direção ao seu lugar. Viu que Júlia estava fuçando no celular, enviando mensagens para Cléo, certamente para dizer que ela tinha chances com Érico.

— Ô, alcoviteira! — disse Fabinho. — Tá querendo empurrar o Érico pra Cléo, é? Não adianta, não. O negócio dele é a Renata. — sentou-se em sua cadeira.

— É? E como é que você tem tanta certeza disso? — perguntou Júlia.

— Porque eu sou homem, né? Homem conhece homem. — disse Fabinho. — E homem não gosta de mulher fácil, assim, que nem você e a Cléo, não.

Tina começou a rir. Ela e a Júlia viviam se alfinetando, desde os tempos em que trabalhavam juntas na Class Mídia.

— Desculpa. — disse Tina, levantando as mãos. — Essa desceu quadrado, essa rasgou por dentro! — passou as mãos no peito.

— Essa vale pra você também, paixão. — disse Fabinho.

Júlia riu e passou as mãos no pescoço, dizendo:

— Essa então, essa desceu aqui, ardendo. Tá ardendo até agora!

— Vudu loiro, vudu loiro, fica quietinha, amor, sabe por quê? Agora eu sou famosa. — disse Tina, estalando os dedos. — Famosinha. Amor, só pra você saber, a Família Calabresa é um estouro, tá?

Tina agora, além de trabalhar como secretária, também trabalhava em um seriado de televisão que estava fazendo sucesso. Foi convidada para trabalhar no seriado logo depois que Natan fez uma espécie de documentário amador no Cantaí. Usando o celular, ele filmou toda a confusão que ocorreu no Cantaí, no dia do concurso do novo famosinho da Casa Verde, e postou na internet. Tina estava no Cantaí, no meio da confusão. O vídeo fez um enorme sucesso. Desde então, Tina se tornou uma celebridade.

— Ah, é? Engraçado, então por quê que eu não tô vendo nenhum fã ali na tua porta? — perguntou Júlia.

— Fofinha, eu sou uma atriz discreta. — disse Tina. — Sou uma atriz cool, na minha. Eu não dei endereço pros meus fãs. Quando eu der, amor, vai ser gente gritando o meu nome: “Tina!”. Você acha que eu vou precisar usar segurança? Tô preocupada.

Érico, que havia voltado, aproximara-se de Tina e pigarreou.

— Então, tá, então, enquanto isso não tá acontecendo, que tal voltar a trabalhar, hein? — disse Érico, impaciente.

— Olha só, você fala direito comigo, sabe por quê? Porque quando eu virar uma estrela, estrelato total, vai pegar bem pra tua agência eu ter trabalhado aqui, meu amor. — disse Tina, apontando para ele. — E posso até te arrumar cliente famoso, hein?

Mas a paciência de Érico já havia se esgotado. Tina estava deixando a fama subir à cabeça e nem estava dando conta do trabalho.

— É? Então, vamos fazer o seguinte? Trabalhando, porque senão, você vai ficar famosa em outro lugar. — explodiu Érico.

Júlia riu. Mas Tina ainda achava que estava com a razão:

— Que isso? Que homem louco!

Fabinho continuou trabalhando, e toda a equipe também. Uma hora, Fabinho viu Giane em frente à Crash Mídia. Ao chegar na entrada, viu que Caio havia acabado de ir embora com Camilinha. Aproximou-se de Giane.

— Se deu bem, hein, moleque de rua? — disse Fabinho, colocando o braço sobre o ombro dela e em seguida estalando os dedos. — Agora vai estalar o dedo e ser primeira-dama da Quatre Mondes.

— Primeira-dama, vai te catar, Fraldinha! — disse Giane.

— Ué, quando o cara era pobre você dava mole, agora que ele é rico, você não quer. É burro, né? É burro, moleque! — brincou Fabinho.

— Burro é você! Idiota, cretino, ridículo! — disse Giane, andando na frente.

— Vem cá, você vai no show comigo? — perguntou Fabinho.

— Vou pensar. — disse Giane, antes de ir embora.

Júlia, que estava logo atrás de Fabinho, notou o clima entre os dois.

— Vem cá, impressão minha ou você tá a fim da Giane? — perguntou Júlia.

Fabinho achava que o que ele sentia ou deixava de sentir não era da conta de Júlia. Ela que cuidasse da própria vida.

— Vem cá, é impressão minha ou você perdeu a noção da realidade? Liga pro Edu, marca um encontro com ele, que você faz melhor. — disse Fabinho, dando uns tapinhas no ombro dela e entrando na Crash Mídia. — Abraço.

Érico e toda a equipe começaram a trabalhar na campanha da close-up. Érico foi mostrando os cartazes com os conceitos:

— Atração instantânea, sorriso branco, branqueamento instantâneo, sorriso atraente, tá? São alguns dos conceitos que o nosso cliente quer passar.

— Um produto de beleza é indispensável no dia a dia. — disse Sílvia.

— Que prático, né, gente? — disse Júlia, dando uma olhada em um dos produtos da marca. — Aqui, ó, dá pra botar na bolsa.

— Já tô até vendo a Giane estampando a campanha com aquele sorrisão que ela tem. — disse Fabinho. Não conseguia tirar Giane da cabeça.

— Fabinho! — disse Sílvia, dando um tapinha no braço dele, de brincadeira.

— É isso aí, gente! Olha só, ideias pra amanhã, viu? — disse Érico.

— Com esse produto assim dá até gosto de trabalhar. — disse Fabinho.

— E o melhor é pensar que o Natan sempre quis essa conta e agora ela é nossa. — disse Érico.

— Ai, gente, posso falar? Eu queria assim ser uma formiguinha pra ver a cara de tacho do Natan quando descobrir que a gente levou mais essa parada! — disse Júlia.

— Formiguinha, você? — disse Fabinho, rindo. — Tem que dar uma emagrecida.

Júlia fechou a cara, e Sílvia dirigiu um olhar de reprimenda para Fabinho. Fabinho estava sempre alfinetando alguém, impressionante! Podia ter melhorado, mas, definitivamente, de santo não tinha nada.

Trabalharam na campanha até o expediente se encerrar. À noite, Fabinho foi ao Cantaí, assistir ao show da Jesuton. Toda a vizinhança foi assistir ao show. O Cantaí ficou cheio de gente, até mesmo celebridades apareceram. Giane estava encostada em uma coluna, assistindo ao show, quando Fabinho chegou. O rapaz aproximou-se e tocou no braço da garota. Giane olhou para ele, e abriu um sorriso tímido. Era óbvio que estava feliz ao vê-lo. Assistiram ao show inteiro juntos. Passaram horas agradáveis no Cantaí. Divertiram-se muito e até arriscaram dançar, embora não levassem o menor jeito para isso. Fabinho resolveu acompanhá-la até em casa. É claro que aproveitou para sacaneá-la:

— Olha, vou te falar uma coisa. Tô pra conhecer alguém que dance tão mal como você. Tá louco.

— Ah, e você pode ir pra dança dos famosos, né? Cavalo! — disse Giane.

— Cavalo, eu? Tô com a marca da tua ferradura, até agora, aqui no meu pé. Ai, ai, aqui ó.

O celular de Giane tocou e ela atendeu. Era Caio.

— Oi, Caio. Você tá bem? Quer que eu vá aí, ficar com você?

— É inacreditável isso. — murmurou Fabinho, enciumado.

Fabinho estava furioso. Agora o otário do Caio iria ficar ligando para Giane toda hora? Isso cortou qualquer clima. Ele tinha que ligar àquela hora da noite? E por que ela foi se oferecer para ficar com ele?

— Tá. Mas qualquer coisa me liga, tá? Beijo. — disse Giane.

A garota desligou o celular e virou-se. Porém, viu que Fabinho havia fechado a cara.

— Que cara é essa, Fabinho? — perguntou Giane.

— Que cara é essa, Fabinho? “Você quer que eu vá aí ficar com você”?

— É! Você acha que eu tô o quê, dando um golpe no Caio? Ele é meu amigo. — disse Giane. — Ele está passando por um momento difícil e ele precisa da minha ajuda.

Fabinho abanou a cabeça, irônico. Não achava que Giane estivesse dando um golpe no Caio. Até porque a conhecia muito bem e estava cansado de saber que Giane não ligava para dinheiro. Sabia que ela não queria nada com aquele otário, do contrário, não teria terminado o namoro com ele. Só não gostava muito da amizade dela com Caio. Giane podia ver Caio como amigo, mas o Caio ainda era apaixonado por ela e não se conformava com o fim do namoro. Caio estava sempre atrás da Giane. Continuava dando em cima dela. Não queria largar o osso, de jeito nenhum. E Giane ainda esperava que ele, Fabinho, achasse isso normal? O ex andar atrás dela o tempo todo, grudar que nem carrapato? Além do mais, Caio estragou o clima entre ele e Giane, ligando naquela hora. Era até natural que Giane quisesse ser solidária. Ele até admirava isso nela, mas dormir na casa do cara já era demais. Mas não queria bater boca com ela.

— Tá bom. — disse Fabinho.

— Não, mas eu esqueci. Você não sabe o significado de solidariedade, né?

Pelo visto, ela estava a fim de discutir.

— Solidariedade é se entregar de bandeja pra dormir na casa do cara? Legal, hein? — disse Fabinho.

Giane lhe deu um tabefe na cara. Estava ofendida.

— Se você acha que eu sou ordinária. — disse Giane, apontando para Amora, que estava passando por ali. — Feito aquela ali. Então, você não fala mais comigo! Palhaço!

Entrou e fechou o portão atrás de si, furiosa. Amora ficou espantada ao ver o tapão que Giane deu em Fabinho.

— Que fora, hein? — disse Amora. — Olha, eu não queria falar nada, não. Mas eu estou vendo a marca dos 5 dedos... — levantou a mão. — Da mão dela, aí, no seu rosto, ó.

— Amora, vai pro inferno! — disse Fabinho.

Amora começou a atravessar a rua.

— Fabinho, é impressão minha ou você e a Giane estavam tendo uma briguinha tipo de namorado? Você tá a fim dela, é?

Na visão dela, Fabinho e Giane estavam se comportando como um casal. Ela se perguntou se eles estavam saindo juntos.

Fabinho nem quis responder. Se ele estava ou não a fim, o que Amora tinha com isso? Primeiro a Júlia, agora a Amora. Será que agora todo mundo estava percebendo, era assim tão óbvio o que ele sentia?

— Amora, na boa, vai encostar o umbigo no fogão, por favor.

Para Amora estava na cara que Fabinho estava a fim da Giane. Ela nunca imaginou que veria Fabinho apaixonado. Na opinião de Amora, Fabinho era um sujeito sem escrúpulos que só pensava em ficar rico, só pensava em se dar bem às custas dos outros. Achava que Fabinho não gostava de ninguém, além dele mesmo. Diferente dela, que amava Bento. Ela nunca acreditou que Fabinho tivesse gostado dela de verdade. Ele tinha era inveja do Bento. Só andava atrás dela para disputar com o Bento. Ela achava até engraçado, logo o Fabinho, que era para ter sido herdeiro do Plínio, a fim da maloqueira. Ela se perguntava o que Fabinho tinha visto na Giane. Na opinião dela, Giane era sem graça, sem charme algum.

— Eu não acredito! — disse Amora. — O ex-futuro herdeiro tá investindo na maloqueira da Casa Verde! Fabinho, eu sabia que você estava no fundo do poço, mas eu não sabia que o poço era tão fundo assim!

Fabinho não gostou. Quem era Amora para falar mal de Giane? Amora devia era limpar a boca para falar da Giane.

— Amora, a Giane é muito melhor do que você. — defendeu Fabinho. — Ela é mais bonita, ela é mais inteligente, ela é muito mais...

Na opinião de Amora, para Fabinho dizer que Giane era melhor do que ela, só podia mesmo estar com os quatro pneus arriados.

— Uau! Você, realmente, tá muito apaixonado! Gente! A mocoronga te laçou, amigo! — disse Amora.

— Imbecil! Você é imbecil! Imbecil! — xingou Fabinho, e foi embora.

— Ai, gente! Eu vivi pra ver essa cena! — disse Amora.

Fabinho acabou voltando ao Cantaí. Queria ver se encontrava algum conhecido, para jogar conversa fora. Acabou vendo Júlia com Edu, que continuava trabalhando na Class Mídia. O que será que Júlia estava fazendo com Edu? Será que Júlia resolveu seguir o conselho dele? Ainda assim, achava estranho Edu ter topado sair com Júlia. Até onde ele, Fabinho, sabia, Júlia sempre gostou do Edu, porém Edu jamais deu a menor bola para ela. Edu vivia sacaneando, zoando a Júlia. O que Edu queria com Júlia agora? De qualquer maneira, não era problema dele. Resolveu ir para casa.

No dia seguinte, Fabinho e Jonas acordaram cedo e se encontraram com Érico em frente à casa de Gilson. Jonas perguntou:

— Você resolveu passar a reunião pra tarde, mano? Por quê?

— Ah, o Natan pediu pra apresentar o projeto dele primeiro. — disse Érico. — Ele não tem a menor chance com o cliente, Jonas.

Para Fabinho, o fato de Natan querer apresentar primeiro era motivo para desconfiar. Natan só podia estar armando alguma.

— Se liga, hein, cara! Esse cara pode estar aprontando alguma coisa.

— Não, relaxa, Fabinho. O Natan tá liquidado. — disse Érico.

Renata chegou neste momento, e estava furiosíssima.

— Ordinário! — xingou Renata, e começou a encher Érico de tapas.

— O quê que é isso? Renata, para! Para! — disse Érico.

— Desgraçado! Como você pôde fazer isso comigo, Érico? — disse Renata, e continuava a bater nele.

— Você tá louca? Para com isso! Para, Renata! — disse Érico.

Renata continuava xingando e estapeando Érico.

— Renata, sossega! Olha aqui, eu não tenho mais nada com você, garota! Para com isso! — disse Érico, e Renata parou de bater nele.

— Calma aí, cara. Ela tá descontrolada. Calma. — disse Fabinho, colocando-se entre Érico e Renata. — Calma, por favor.

Bento chegou neste momento, atraído pela gritaria, e Gilson e Salma também estavam saindo de casa para ver o que estava acontecendo.

— Meu Deus, como é que pode? — disse Renata para Érico. — Você não perdoa nem a Malu, agora?

— Como é que é? — disse Bento, nervoso.

— Olha aqui, só foi um beijo, garota! Qual o problema? — disse Érico.

— Que beijo? Ele seduziu! — disse Renata, referindo-se a Érico.

— Você ainda pergunta qual o problema? — disse Bento, furioso, partindo para cima de Érico e lhe dando um soco na cara.

— Érico! — gritou Gilson.

— Bento, para! Bento! Eles vão se matar! Gilson! Gilson! — gritou Salma.

Bento e Érico caíam na porrada. Gilson, Jonas e Fabinho foram tentar separá-los. Jonas segurou Bento por trás.

— Solta ele, cara! Tá maluco? — disse Jonas.

— Vamos entrar. Vem, vem. — disse Odila, arrastando Renata.

— Nossa, gente! Brigando na rua, hein! Que feio! — disse Socorro, que havia acabado de chegar. Estava com as chaves da Renata. Ela procurou Renata, fingiu que estava sofrendo e precisando desabafar, e pegou as chaves sem Renata perceber. Renata agora trabalhava no Kim Park, e tinha as chaves do bufê. Amora pediu para Socorro pegar as chaves e fazer uma cópia. Amora pretendia mandar alguém sabotar os brinquedos do bufê do Wilson. Amora queria se vingar de Wilson, por tudo o que ele havia feito com ela e com Bento. Socorro pensou logo em uma maneira de devolver as chaves. Aproveitou a confusão para jogar as chaves na rua, assim Renata pensaria que havia deixado o chaveiro cair. Como estavam todos distraídos, ninguém viu Socorro jogar as chaves no chão.

— Sai! Sai pra lá! — disse Gilson, empurrando Érico.

Odila começou a levar Renata para casa.

— Mãe, quem é esse cara? Não pode ser o Érico. — disse Renata. Onde estava aquele rapaz doce, fiel e romântico que ela conheceu um dia? Renata nunca pensou que algum dia Érico se tornaria um cafajeste.

Odila acabou avistando o chaveiro caído no chão.

— Aqui, Renata, o teu chaveiro. Meu Deus, que perigo, hein? — disse Odila, juntando o chaveiro do chão.

Renata podia jurar que o chaveiro estava em sua bolsa. Não se lem-brava de ter pegado as chaves. Mas talvez ela tivesse pegado o chaveiro, enfiado no bolso da calça e as chaves podiam ter caído na rua sem que ela percebesse. Só podia ser isso. Afinal, ela estava brigando com Érico. Também, ela estava com a cabeça cheia de preocupações, por conta da situação do Kim Park, que estava operando no vermelho. Ela pensava que, se o Kim Park fosse à falência, ela teria de procurar outro emprego. Não estava prestando atenção em nada do que fazia, andava muito distraída. Estava também muito decepcionada, muito aborrecida com Érico.

Bento e Érico continuavam brigando. Jonas continuava segurando Bento.

— Como é que você me apronta uma cafajestada dessas, cara? — perguntou Bento, possesso.

Fabinho continuava segurando Érico. Érico gritou:

— Porque ela quis, tá bom? Foi ela quem me deu mole!

Bento ficou mais furioso ainda e mais uma vez partiu para cima do Érico, dando-lhe um soco.

— Não! Bento! — gritou Salma.

Giane e Silvério chegaram neste momento e viram a briga.

— Bento! Para, cara! Você tá louco? — gritou Giane, aproximando-se junto com Silvério. Ela e o pai colocaram-se entre Bento e Érico, separando-os. Gilson também ajudou a separar os dois. Jonas continuava segurando Bento. Gilson e Fabinho seguravam Érico.

— Se você chegar perto da Malu, de novo, eu te mato, você ouviu? — gritou Bento para Érico. Giane, Jonas e Silvério o seguravam.

— Bento, pelo amor de Deus! Não diz isso nem brincando! — gritou Salma.

— Olha aqui, eu não tô nem aí pra você, tá bom? — gritou Érico para Bento. Dirigiu-se à mãe. — E você, vai tomar conta aí do seu filhinho queridinho, do seu favorito! Pensa que eu não sei?

— Para! Para! Vai embora! Tá maluco? — gritou Gilson para Érico.

— Bento, o quê que foi isso? Por quê que você brigou com o Érico, cara? — perguntou Giane.

— Só porque ele pegou a Malu, cara? — provocou Fabinho.

— Cala a boca, moleque! Você quer apanhar também? — gritou Bento.

— Para! — disse Giane. Refletiu por um momento. — Pegou a Malu? Ligeirinha ela, hein? Gostei de ver.

Amora logo voltou da padaria e ficou sabendo que Érico havia beijado Malu. Bento contou. Fabinho, que estava por perto, ouviu a conversa dos dois. Amora e Bento estavam descendo a rua e ainda nem haviam notado a presença de Fabinho.

— Essa Malu é uma sonsa mesmo. Eu sempre te disse. — disse Amora.

— Mas eu aposto que foi o Érico que se aproveitou dela. — disse Bento.

Na opinião dele, Érico havia se tornado um canalha e só podia ter seduzido a Malu, que era uma garota especial, sensível e romântica. Ele não gostava de injustiças e ficou possesso com a canalhice do Érico. Ele bateu no Érico para defender e proteger a Malu. Porém, Amora sempre achou que Malu era uma sonsa que posava de santa.

No ponto de vista de Fabinho, Malu podia ficar com quem quisesse e ninguém tinha nada com isso. Ela era adulta, solteira, livre e desimpedida. Qual era o problema de ela ficar com Érico? Por acaso Bento pensava que Malu era uma criança? Fabinho até gostava do fato de Malu não ser tão óbvia, nem tão certinha. Ela estava só se divertindo. Aliás, Fabinho sabia muito bem qual era o problema de Bento. Antes ele tinha três mulheres que disputavam a atenção dele. Agora não tinha mais Malu nem Giane, tinha de se contentar apenas com Amora. Mas pelo visto, Bento não estava satisfeito.

— A Malu não é nenhuma virgenzinha inocente, não. — disse Amora. — Ela ficou com ele porque ela quis! Não sei por que de todo esse drama.

Amora sempre soube que Malu não era nenhuma santa. Aliás, desta vez Malu a surpreendeu. Parecia que Malu finalmente havia resolvido se desfazer da imagem de garota recatada. Ponto para a songa monga. Mas ela não entendia por que Bento insistia em ver Malu como uma moça pura e ingênua. Na opinião dela, Bento era ingênuo demais.

— Eu sei. — disse Fabinho.

Bento e Amora viraram-se.

— O quê que é, moleque? — disse Bento. — Você deu pra seguir a gente, agora, é isso?

— Não soube, querido? A rua é pública. — disse Fabinho, apontando para a rua.

— Fabinho, eu vou te falar só uma vez, cara, vaza porque eu não tô legal hoje. — disse Bento.

— Porque você não é mais o rei do pedaço? Porque você não tem mais todas as mulheres que você sempre quis do seu lado? Quem era? — disse Fabinho, e contou nos dedos. — Era a Giane, é Malu, quem mais? Amora! Quem mais tinha? — coçou o nariz.

— Sabe qual é o teu problema? — perguntou Bento.

— Hum. — disse Fabinho.

— Inveja! — disse Bento. — Você sempre quis estar no meu lugar.

Na opinião de Bento, Fabinho morria de inveja dele porque queria ser herdeiro de uma fortuna, e queria ter casado com Amora. Ele, Bento, ficou com tudo que Fabinho achava que era para ser dele. E era óbvio que Fabinho queria ter sucesso com as mulheres, mas não tinha. Não que Bento se achasse grande coisa, mas no ponto de vista dele, era óbvio que Fabinho morria de inveja da vida dele, dos afetos dele, da facilidade que ele tinha em se relacionar com as pessoas.

— Me descobriu. Exatamente. — disse Fabinho, irônico. — Eu queria morar numa garagem, queria casar com uma bandida. Você tá falando sério? Tem que ser muito maluco... — colocou os dedos nas têmporas. — Pra querer o que você quer.

Na visão de Fabinho, ele havia escolhido focar no que tinha, que era o amor de Margot, uma das poucas pessoas que o valorizavam e não sentia mais necessidade da aprovação de todos, nem de provar para todo mundo que era tão bom ou superior a Bento. Ele havia amadurecido e achava que não devia provar nada para ninguém, nem para a Casa Verde, nem para Plínio. Ele não sentia mais necessidade de competir. A obsessão dele era provar para o mundo que o Bento não era especial, mas ele havia cansado dessa guerra, de tentar tirar Bento do pedestal e não se sentia mais na obrigação de abrir os olhos dos outros, até porque era inútil. As pessoas podiam pensar o que quiserem. Para ele, Bento era um homem comum, falho como qualquer outro. Bento não era mais especial nem melhor do que ninguém ali, mas se a vizinhança insistia em tratar Bento como herói iluminado e intocável, se Plínio o via como filho ideal, o problema era estritamente deles. Se as pessoas achavam a ele, Fabinho, um mau caráter incorrigível, era problema delas. Ele não tinha mais aquele ódio por Bento, mas também não morria de amores. Fabinho não se sentia na obrigação de idolatrar Bento e não deixaria mais que a opinião alheia o definisse e tivesse peso enorme em sua vida, até porque era impossível agradar todo mundo. Nem Bento agradava a todos. Havia quem gostasse mais do Bento, e havia quem gostasse mais dele, Fabinho. Além disso, no pensamento de Fabinho, se Giane, que era quem mais amava e defendia o Bento e era quem mais o odiava até pouco tempo atrás, viu algum valor nele, a opinião do resto do mundo havia se tornado irrelevante. Se Giane gostava dele e acreditava nele, isso significava que ele não era tão ruim e era digno de afeto. Pelo menos havia pessoas no mundo que davam algum valor a ele.

No ponto de vista de Bento, Fabinho não tinha moral para falar de Amora, pois era muito pior do que ela. Amora errou feio. Ela mentiu, enganou, se fez de boazinha com aquela história do bazar fake, dissera que iria mudar de vida, que não ligava mais para dinheiro e queria levar uma vida simples, e era tudo da boca para fora. Ainda por cima, Amora ameaçou Malu para Madá não dar com a língua nos dentes. Também andou ameaçando Simone, André e Mayara. Mas Amora não tentou matar uma pessoa, não botou a mãe na cadeia e não incendiou nem pichou a Toca. Ele pretendia se divorciar de Amora, mas resolveu dar outra chance a pedido da Simone, que implorou para ele não abandonar Amora. Amora convidou a irmã e os sobrinhos para passar uns tempos com eles. Amora explicou que havia realmente se reconciliado com a irmã, mas que continuava magoada e acabou brigando feio com Simone. Ela disse que a irmã tinha ido embora porque precisava de um tempo para pensar, esfriar a cabeça e, além do mais, estava fugindo do passado, das lembranças ruins e das cobranças dele, que ficava empurrando-a para cima da irmã. Ela não estava pronta para perdoar e ele estava forçando a barra. Amora havia pedido perdão para Simone e pediu perdão para ele também.

Porém, Bento não sabia até onde ia a paciência que ele tinha com Amora. Ele sempre deu força para a esposa solucionar seus problemas. E podia até entender as razões e as limitações dela. Mas não engolia a capacidade que Amora tinha de mentir. Ela também havia mentido sobre fazer terapia. Ela nunca foi atrás do doutor Geraldo, nem da doutora Ivelise, terapeutas que Plínio recomendou, e ainda inventou uma terapeuta que não existia, doutora Letícia Neri. Bento ficou decepcionado, e quando foi falar com Amora, ela disse que havia mentido porque ficou desesperada, com medo de perdê-lo, pois ele disse que iria se separar dela caso ela não se tratasse. Ela disse que cumpriu parte do trato ao trazer Simone e as crianças para perto dela. Mas disse que não queria se tratar, que não suportaria reviver o passado. Amora disse que queria melhorar, até doou os sapatos para a Toca.

Mas Bento não sabia mais quem era Amora, nem o que sentia por ela. Ela não era mais a garotinha doce que ele conheceu na infância. No entanto, por consideração à Simone e também por tudo o que ele Amora haviam vivido juntos desde a infância, resolveu dar mais uma chance.

Amora ficou ofendida. Quem Fabinho pensava que era, para chamá-la de bandida? Logo ele, que tinha várias passagens na polícia.

— Sai daqui, seu marginal! Sai daqui agora! Vai embora! — gritou Amora.

— Você é a bandida e eu sou o marginal? — perguntou Fabinho. Continuava achando que perto de Amora, ele era café pequeno.

A sacola que Amora carregava se rasgou e as compras caíram no chão.

— Ih, meu Deus! Vocês são malucos mesmo! — disse Fabinho, indo embora.