Um amor improvável
21 A revelação
Assim que saiu do apartamento de Plínio, Fabinho foi direto para a agência. Precisaria trabalhar, pelo menos até conseguir tudo o que era seu por direito. Sabia como levar Natan no papo facilmente. Ao chegar na agência, falou com Karol, que ligou para Natan. Natan mandou-o entrar. Fabinho entrou na sala de Natan batendo na porta, que estava aberta. Natan estava de pé, à sua espera.
— Muito bem, muito bem. — disse Natan. — Então, o dia hoje não está suficientemente ensolarado, você resolveu pegar no batente! Olha aqui, Fabinho, não vou admitir que você...
Fabinho resolveu fazer o papel do bom menino. Sabia que Natan simpatizava com ele. Além do mais, nenhum chefe consegue ficar bravo com um funcionário que admite seus erros e implore por perdão.
— Natan, eu não vim pedir o meu emprego de volta. — disse o rapaz.
— Ah, não? Veio fazer o quê, aqui, então? — perguntou Natan.
— Eu vim pedir desculpas. — disse Fabinho. — E te agradecer pela oportunidade. Eu aprendi muito com você e eu tô muito mal de ter vacilado.
— É, vacilou mesmo. — disse Natan. — Não satisfeito de ter faltado o trabalho, você foi debochado, você me agrediu, você me ridicularizou!
Fabinho já sabia, de antemão, que desculpa dar. Resolveu dizer a Natan que foi vítima da paixão e de sua impulsividade. Ele detestava uma certa garota e também detestava o fato de não conseguir tirá-la da cabeça, mas pelo menos isso servia para inventar umas histórias.
— Natan, eu me apaixonei por uma menina. E eu quis aparecer pra ela, eu queria mostrar que eu não estava nem aí pra nada. — disse Fabinho. — Falei aquelas coisas pra você. Mas no fim, deu tudo errado, eu perdi a menina e perdi o teu respeito também. Eu sei que eu errei.
Fabinho sabia que Natan cairia na conversa dele. Natan iria se identificar. Era muito mulherengo, sedutor, já devia ter se ferrado, se metido em muitas roubadas, feito muitas mancadas por causa de mulher.
Percebeu que Natan estava ficando comovido.
— Bom, eu vou indo embora, eu não quero tomar o seu tempo. — disse Fabinho, andando em direção à porta. — Só é ruim saber que eu não vou cruzar com ninguém tão genial e generoso como você, de novo.
Ele não deixaria de bajular o chefe. Natan adorava ser bajulado.
— Poxa, Fabinho. — disse Natan.
Fabinho fez de conta que ia embora, mas voltou. Fez questão de lembrar a Natan do slogan das fraldas Fuffy.
— Natan, só uma coisa. A campanha da fralda Fuffy vai rolar?
Natan assentiu.
— Vai, o cliente adorou teu slogan. — disse Natan.
— Que bom! Pelo menos, alguma coisa boa eu fiz, né? — disse Fabinho. — Valeu por tudo, Natan!
Estava indo em direção à porta, quando Natan chamou.
— Espera aí, Fabinho!
Fabinho voltou.
— Bom, também não precisamos transformar isso numa novela, né? — disse Natan. — Quem na sua idade já não cometeu burrices por causa de mulher?
— Você me perdoa, então? Eu posso voltar? — perguntou Fabinho.
— O importante é que você aprendeu a lição. — disse Natan. — Agora, senta aí e me ajuda... — sentou-se na cadeira. — Que eu estou precisando de ideias novas pra nova campanha do Kim Park.
— Tem outra? — perguntou Fabinho, sentando-se em frente a Natan.
— Pois é. — disse Natan.
Fabinho continuou na agência. Horas depois, ligou para Malu, para combinar quando e como fariam para arrancar uma confissão da Bárbara. Ele queria que tudo se resolvesse o quanto antes. Já esperou demais. Ele esperou uma vida inteira para encontrar sua família biológica.
— Eu tô pronto pra começar. — disse Fabinho. — Se você quiser, eu vou pra aí, agora mesmo!
— Não, melhor você dar um tempo aí porque agora ela tá na defensiva e assim você não vai conseguir arrancar nada dela. — disse Malu.
— Então, tá, você que sabe, maninha. — disse Fabinho. — Você manda e eu executo.
— Deixa ela se sentir mais confiante, relaxada. — disse Malu. — Ó, eu aviso a melhor hora de você agir, tá bom? Tchau, tchau!
Mais ou menos umas duas semanas se passaram. Os dias eram todos iguais. Fabinho passava o dia na Class Mídia, e à noite ficava no hotel, olhando a foto dos pais. Estava preocupado com Irene, pensando em onde ela estaria. Esperava que ela não tivesse feito nenhuma besteira. Mas estava confiante de que logo tudo se resolveria. Ele arrancaria uma confissão da Bárbara, e daria um jeito de trazer a mãe de volta. Só não sabia ainda como. Irene desapareceu sem deixar pistas.
Fabinho e Malu combinaram tudo. Plínio estava a par do plano e havia concordado. Malu convidou Fabinho para o aniversário da Luz. Seria uma festa pequena, somente para os mais íntimos. Nem a mídia foi chamada. Ele e Malu fingiriam que estavam saindo juntos. Ninguém podia desconfiar do que pretendiam fazer, muito menos a Bárbara. Havia chegado a hora de fazer Bárbara confessar o que tinha feito para separar Plínio de Irene.
Fabinho já sabia como faria para que Bárbara confessasse. Nada melhor do que um jogo de sedução para fazer uma mulher abrir o bico. Bárbara já simpatizava com ele, e era bem chegada em um garotão. Tinha sido casada com Jonathan James, que tinha idade para ser filho dela. Seria fácil seduzir Bárbara. Ele era boa pinta e sabia como enlouquecer uma mulher. Bastava dizer coisas que qualquer mulher gostaria de ouvir. Bárbara ficaria envaidecida.
É claro que ele não pretendia dormir com Bárbara. Jamais faria isso com a ex-mulher do seu pai, mãe da sua irmã. Sem falar que ele tinha asco daquela megera. Não cruzaria esta linha. Mas é claro que ainda não disse a Malu exatamente o que faria para arrancar a confissão da Bárbara. Malu era certinha demais, não entenderia e até desistiria do plano. Somente no momento certo diria a ela o que pretendia fazer.
Estava tudo acertado. Ele faria Bárbara confessar e Malu gravaria tudo. Na noite da festa, Malu entrou primeiro e Fabinho ficou esperando do lado de fora, próximo à porta. Malu cumprimentou a todos:
— Boa noite! Boa noite! Desculpem o atraso. Eu trouxe um convidado especial.
Fabinho entrou atrás dela.
— Oi gente! Boa noite! — disse o rapaz, abraçando Malu.
Para Fabinho, foi divertido ver a cara de todos, principalmente daquele otário do Bento. Devia estar estranhando ver ele e Malu juntos. Sabia que Bento não confiava no seu caráter. Mas não estava nem aí. Não importava a opinião do Bento sobre ele. Ele jamais faria mal à irmã. Bárbara disse:
— Fabinho! Há quanto tempo! Você sumiu, não é?
— Pois é. Muito trabalho, né? Fui promovido, aumenta a responsabilidade. — disse Fabinho, abraçado à Malu e fazendo carinhos nela.
— Ah, que bom! E olha só, vocês dois, assim... — disse Bárbara, contente. — Eu não sabia que vocês andavam tão próximos. Malu, você, agora, realmente, me surpreendeu.
Mas a reação de Bárbara não surpreendeu Fabinho. Claro que Bárbara iria gostar de saber que a Malu andava com ele. Afinal, Bárbara achava que ele era rico. Bárbara só não queria que suas filhas andassem com Bento, que era um pobretão. Mas se Bárbara soubesse quem ele realmente era, certamente não ficaria nem um pouco satisfeita.
— É. Fico feliz de não ser tão óbvia. — disse Malu.
Era o que Fabinho passou a admirar em Malu. Nos últimos dias, eles andaram se falando e ele finalmente estava conhecendo melhor a irmã. Fabinho ainda tinha esperanças de conquistar o afeto de Malu.
— Vamos lá falar com a Luz? — perguntou Fabinho, sorrindo.
— Vamos. — disse Malu.
— Vamos lá. — disse Fabinho. — Licença. Licença. Luz! Parabéns!
Malu e Fabinho foram cumprimentar a aniversariante. Depois voltaram de mãos dadas para a sala, onde estavam Amora e Bento.
— Malu e Fabinho, que casal mais simpático! — disse Amora, irônica.
Amora não estava entendendo o que Fabinho estava fazendo ao lado de Malu. O que será que estava acontecendo? Dava para ver que Fabinho não estava nem um pouco a fim da Malu. Ele era obcecado por ela, Amora. Estava na cara que Fabinho estava armando alguma coisa. E ela nunca imaginou que a sonsa da Malu sairia com Fabinho. Afinal, Malu não ia com a cara dele. O que Malu pretendia com isso? Será que Malu pretendia fazer ciúmes no Bento? Amora achava impressionante como Malu estava sempre de olho nos namorados dela.
— A Malu me contou que vocês estão juntos. — disse Fabinho, abraçando Malu. Abanou a cabeça positivamente. — Parabéns, hein, campeão? — deu um tapinha no ombro de Bento. — Tanto fez que conseguiu! — sorriu.
Desta vez, Amora realmente o surpreendeu. Fabinho nunca imaginou que ela ia realmente trocar o Maurício pelo Bento, um florista pobretão, que estava longe de ser o parceiro ideal para o mundo fashion. Ele não achava que ela romperia com Maurício, perto do casamento, arriscando perder a campanha da Cosy Bed. Fabinho sabia que Amora gostava do Bento, mas não achava que ela iria tão longe. Afinal, Amora era ambiciosa. Por mais que gostasse do Bento, Amora não iria querer colocar sua carreira em risco. Ela não abriria mão da fama, do dinheiro, de nada do que conquistou. Para Amora, o que importava era manter as aparências. Ela queria vender para o mundo que tinha a vida perfeita. Fabinho podia até imaginar Amora tendo um caso com Bento às escondidas, mas não que ela largasse o noivo rico para ficar com o florista. Se bem que o Bento, sempre tão certinho e cheio de escrúpulos, não concordaria em ter um caso clandestino com Amora. E agora, o que ela pretendia fazer? Assumir o namoro com Bento para a mídia? Inserir o Bento no mundo dela? No ponto de vista de Fabinho, isso seria muito difícil, praticamente impossível. Os fãs dela não veriam com bons olhos o namoro com Bento, um reles florista. Afinal, os fãs achavam que Amora era uma princesa e que ela deveria estar ao lado de um príncipe, não de um sapo jardineiro. E Amora se preocupava até demais com a opinião alheia sobre sua vida íntima.
Fabinho acreditava que o romance de Amora com Bento não daria certo. Amora e Bento eram de mundos completamente diferentes. Eles podiam ter tido uma forte amizade na infância, até um namorico, mas agora não tinham mais nada a ver um com o outro. Não eram mais aquelas crianças. Os dois queriam coisas diferentes da vida. Amora podia estar encantada pelo Bento, mas não iria aguentá-lo por muito tempo. Amora queria alguém para apresentar à mídia, para ir a todos os eventos com ela, e Bento detestava holofotes. Era bem capaz de ela largá-lo no primeiro chilique que ele desse. E como ela hesitava em assumir para o público o romance com Bento, estava na cara que o namoro não daria certo. O romance deles estava fadado ao fracasso. Para Fabinho, Bento não estava à altura da Amora, jamais estaria. Amora acabaria percebendo que o homem certo para ela era ele, Fabinho. Ele era filho de um cineasta podre de rico, teria cacife suficiente para estar ao lado dela.
Fabinho aproximou-se de Amora para cumprimentá-la:
— Amora, deixa eu falar direito com você.
— Pois é. — disse Amora, sem o menor entusiasmo.
Bento não estava entendendo nada. Malu sabia que Fabinho era mau-caráter. Ela nunca simpatizou com ele. Por que ela o convidou para o aniversário da Luz? O que será que Fabinho estava aprontando? O que ele queria com a Malu? Malu tinha de lhe dar explicações. Bento estava achando tudo muito esquisito. Malu era uma pessoa boa, mas não era boba. Era esperta e não cairia facilmente na conversa do Fabinho. Bento não acreditava que Malu seria capaz de usar Fabinho para fazer ciúmes nele. Fabinho seria capaz de usar Malu para tentar fazer ciúmes na Amora, porque sempre foi obcecado por ela. Ou então, ele pretendia dar um golpe na Malu. Como não conseguiu nada com Amora, estaria se garantindo. No ponto de vista de Bento, o dinheiro para Fabinho era como um vício, ele sempre queria mais, nunca estava satisfeito. Mas Malu nunca deu confiança para Fabinho. Bento não podia acreditar que Malu estava com Fabinho depois de tudo que ele aprontou. Fabinho destruiu a estufa dele, e difamou ele e a Malu, manchou a imagem deles.
Bento aproximou-se de Malu e murmurou:
— Vem cá, você quer me explicar que história é essa?
Malu achava que ainda não era hora de explicar ao Bento o que estava acontecendo. No momento certo, contaria tudo para ele. Ela sabia que Bento não estava entendendo nada e estava preocupado com ela. Bento era assim, ele se importava com as pessoas, se preocupava, sempre queria cuidar, proteger as pessoas de que gostava. Era uma das coisas que ela admirava nele. Mas independentemente do caráter de Fabinho, ele podia ser seu irmão. Ela precisava descobrir se Fabinho estava falando a verdade, se sua mãe havia mesmo armado para separar seu pai de Irene. Precisava esclarecer esta história. Além do mais, ela sabia muito bem se defender.
Amora ficou de olho em Bento, viu que ele estava cochichando algo para Malu. Ficou com ciúmes. Era evidente que Bento não gostou de ver Malu com Fabinho. Ele disse não ter ciúmes, que estava apenas preocupado com Malu. Mas no ponto de vista de Amora, Malu sabia se cuidar, sabia perfeitamente o que estava fazendo e com quem estava lidando. Amora não entendia o cuidado que Bento tinha com Malu, achava exagerada essa proteção. Ela era a namorada dele, não a Malu. Antes que Malu respondesse à pergunta que Bento fez, Tina, a nova empregada, apareceu, com uma bandeja cheia de taças de champanhe.
— Champanhe! — disse Tina.
— Um brinde à paz! — disse Malu, pegando uma taça de champanhe.
— Ai, eu adoro paz. Eu posso brindar também? — perguntou Tina.
— Lógico, Tina! — disse Malu. — Aqui, ó.
Fabinho deu uns tapinhas no ombro de Bento e pegou uma taça de champanhe. Amora também.
— Obrigado. — disse Fabinho.
— Cadê a luz?
— Luz! — chamou Malu.
A aniversariante apareceu, atendendo ao chamado, e brindaram. Fabinho foi conversar com Bárbara.
— Que bom que o trabalho na agência te deu uma folga pra sua vida pessoal. — disse Bárbara.
Fabinho bebeu um gole do champanhe.
— Sabe que eu adorei a novidade? — disse Bárbara.
— A melhor novidade é estar aqui, com você. — disse Fabinho.
Ele já começou com seu joguinho. Pelo visto, Bárbara adorou.
— Galante. I loved. Por quê que você quer seduzir mãe e filha?
— Por quê, eu teria alguma chance?
Estava tudo saindo melhor do que ele esperava. Fabinho sabia ser sedutor, galanteador quando queria. E Bárbara estava caindo como uma pata. Ela achava que ainda estava com a bola toda, que enlouquecia os homens, que todos caíam aos seus pés.
Fabinho circulou pela casa. Foi para a varanda, e acenou para algumas pessoas que lá estavam. Cruzou com Xande e Luz. Ele viu que Amora também estava por lá, sentada no corrimão da varanda. Aproximou-se.
— Amorinha... Amorinha... — Fabinho cantarolou.
— Aff! — resmungou Amora.
O rapaz subiu no corrimão, ao lado dela. Deu para ver que Amora não gostava nada da presença dele, pois não fez uma cara boa.
— Que foi? Que cara é essa? — disse Fabinho, sarcástico. — Você está triste, porque me viu com a Malu?
Amora pensou que se Fabinho pretendia usar Malu para fazer ciúmes nela, não funcionou. Ela amava Bento e jamais olharia para qualquer outro homem, muito menos para Fabinho. E continuava não entendendo a cisma de Fabinho com ela. Há tempos ela deixou claro que não queria nada com ele. Será que Fabinho não se cansava de atazaná-la?
— Hum! Se você casar com ela e carregar ela pra Sibéria, é um favor que você me faz. — disse Amora. — Mas dá pra ver que você não gosta da Malu.
Fabinho sorriu. Amora se achava a tal. Ela realmente acreditava que todos os homens viviam caindo aos pés dela. Igualzinha à mãe adotiva.
— Não, né? Eu gosto de quem? De você? — disse Fabinho. — Amora, um pouquinho de humildade não ia te fazer mal, você sabe, né?
— Ué? Não era você que vivia correndo atrás de mim? — disse Amora, bebendo um gole do champanhe. Fabinho sempre foi obcecado por ela. Desde criança, ele vivia brigando com Bento por causa dela. Não apenas por causa dela, mas sobretudo por causa da inveja que Fabinho tinha de Bento. Fabinho queria tirar tudo do Bento, inclusive a namorada. Fabinho vivia azucrinando o Bento e ela. O que Fabinho queria que ela pensasse?
— Era. Mas o que eu quero agora não tem nada a ver com você, não. — disse Fabinho. — Mas a gente pode conversar. Até porque, a gente tem muito assunto, não é, Amora? E você pode ter certeza que você vai me procurar.
Amora ficou perplexa. O rapaz achava mesmo que ela ia procurá-lo? Por quê? Será que ele não se enxergava? Ela jamais iria querer nada com ele. Já era para Fabinho ter se tocado disso.
— A Amora pode ter certeza do quê, Fabinho? — perguntou Bento, aproximando-se. Havia ouvido parte da conversa.
— Bento! — disse Fabinho. — Que vocês vão ser muito felizes. Só que vai durar pouco tempo.
Bento continuava preocupado com Malu. Na opinião dele, Fabinho não era boa companhia nem para Malu, nem para ninguém.
— Eu só vou te dar um toque, tá? — disse Bento. — Se você fizer a Malu sofrer, eu acabo com você, entendeu?
Fabinho achou graça. Bento, como sempre, fazendo o papel de herói, defensor de mocinhas indefesas. No ponto de vista de Fabinho, Bento não precisava se preocupar com Malu. Ele jamais faria mal à sua irmã. Além do mais, ela sabia muito bem se cuidar. Bento devia era cuidar da própria vida em vez de ficar se metendo na vida dos outros.
Fabinho percebeu que Amora ficou mordida de ciúmes ao ver Bento defender Malu. E achou que Bento só podia estar com ciúmes de Malu. Devia ser porque Malu não estava dando muita atenção para ele.
— O que é isso, rapaz? Não basta a Amora, quer a Malu também? Que fome, hein, garoto? — disse Fabinho, rindo. — Ô Amora!
Amora olhou feio para ele, e Bento também. Na opinião de Bento, Fabinho era um canalha. Ele sentia necessidade de proteger Malu, de defendê-la. Era apaixonado por Amora. Mas tinha um carinho enorme por Malu, ela era uma boa amiga. Bento achava que Fabinho estava aprontando alguma. A última coisa que Bento queria era ver Malu sofrer. Para Bento era evidente que Fabinho estava querendo se aproveitar, usar Malu.
Ao contrário do que Fabinho pensava, Bento não pretendia colecionar namoradas, nem gostava de ser o centro da disputa entre Amora e Malu. Na verdade, a situação gerava um desconforto para ele. Ele amava as duas mulheres de maneiras distintas. Por Malu ele tinha amizade, carinho, e Amora era sua paixão, seu amor de infância. Ele não se via como um troféu, um prêmio. O fato de duas mulheres o desejarem estava longe de inflar seu ego. Ele não sentia necessidade de ser cobiçado. Para Bento a situação era difícil, dolorosa, pois ele não queria magoar nenhuma delas.
— Não me olha com essa cara não, que eu não vou embora. — disse Fabinho. — Eu sou convidado da Bárbara e da Malu.
— É verdade. — disse Malu, aproximando-se. — Tem alguém incomodado aqui? Se tiver, pode se retirar.
— Então, é isso que eu vou fazer, porque eu não tenho estômago pra ficar aqui. — disse Bento, afastando-se.
— Bento, espera, que eu vou com você. — disse Amora.
Bento e Amora se afastaram. Fabinho desceu do corrimão. Ele e Malu ficaram a sós. O rapaz disse:
— Se você queria fazer ciúmes no Bento, parabéns. Você conseguiu.
Para Fabinho, era evidente que Malu estava apaixonada por Bento. E como ele previu, ela quebrou a cara. Bento deixou bem claro que gostava de Amora, mas que queria continuar amigo e parceiro de Malu nos projetos que estavam fazendo. Mas Malu ficou muito magoada e estava sem falar com Bento há mais de duas semanas. Era a primeira vez que Bento e Malu se encontravam, depois da última conversa que tiveram, quando Bento começou a namorar com Amora. E Fabinho percebeu que Bento não gostou nada de vê-lo com Malu. Na opinião de Fabinho, Bento era um sonso. Se fazia de bonzinho, certinho, mas no fundo adorava um harém. Ele adorava estar cercado pela mulherada, que jogava confete nele o tempo inteiro.
— Olha só. O fato da gente ter um acordo, não te dá o direito de você se meter na minha vida. — disse Malu. Na opinião dela, se ela gostava ou não do Bento, Fabinho não tinha nada com isso.
— Ué? Mas eu não sou seu irmão? Esqueceu, maninha?
Para Malu estava sendo difícil de aceitar Fabinho como seu irmão. E ela continuava sofrendo pelo Bento. Ela e Bento continuariam sendo parceiros no projeto. Mas Malu tinha certeza de que Amora iria fazer de tudo para sabotar o projeto deles. Amora não iria querer dividir Bento com mais ninguém e não gostava da amizade deles.
Além disso, não estava sendo nada fácil para Malu ver Bento com Amora. Era uma verdadeira tortura. Malu sabia que Bento era apaixonado por Amora desde a infância. Bento nunca a enganou, nem prometeu nada. Ainda assim, ela ficou magoada, porque acreditou que tinha alguma chance com ele. Ela e Bento eram mais parecidos, tinham muito em comum. Amora e Bento eram diferentes demais. Seu coração partiu em mil pedacinhos quando foi atrás dele no jardim e o viu aos beijos com Amora.
Malu se sentiu rejeitada como mulher, e isso doeu muito. Malu tinha raiva de Amora, porque aquela entojada sempre levava a melhor sobre ela. Primeiro Amora namorou Maurício, garoto que ela amou calada durante anos, desde menina. E bastou ela se apaixonar por Bento para Amora resolver ficar com ele. Mas o que doía era o fato de Bento ter escolhido Amora, preferir Amora a ela. Malu ficou com raiva de Bento. Não conseguia entender como alguém como Bento podia gostar de alguém tão fútil e superficial quanto Amora. Será que Bento não percebia que ele e Amora não tinham nada a ver? Não era a primeira vez que um homem escolhia Amora ao invés dela. Malu estava cansada de ser preterida. Ela tinha a sensação persistente de que estava condenada à solidão. Era como se ser boa e inteligente não fosse o suficiente, enquanto ser fútil trazia para Amo-ra toda a admiração e o amor que Malu desejava. Malu morria de vontade de que alguém se apaixonasse por ela a ponto de perder a cabeça. Até conversou com o pai sobre isso, e Plínio lhe dissera que o romance de Bento e Amora não iria durar. Mas Malu não queria esperar pelo Bento. Não ia ficar esperando Bento se tocar de que Amora não era a mulher certa para ele. Já bastavam os anos em que ela ficou esperando por Maurício.
Maurício era outro que devia estar sofrendo muito. Afinal, ele era muito apaixonado por Amora e ela o largou para ficar com Bento. Mas no ponto de vista de Malu, foi até melhor Amora ter terminado com Maurício, pois nem ele, nem ela estavam felizes. Depois que os pais se separaram, Maurício passou a questionar a relação dele com Amora, e ele estava muito inseguro, pois percebia que Bento mexia com Amora. Quando Maurício a questionava, Amora sempre o enrolava. E estava na cara que Amora não gostava dele como ele gostava dela. Para Malu era óbvio que Amora estava com Maurício mais pelo dinheiro e pelo status do que qualquer outra coisa. Ela gostava era de aparecer na mídia ao lado dele. Malu também não levava fé no romance de Bento com Amora. Amora adorava aparecer na mídia, e Bento detestava holofotes. Amora queria, de alguma forma, inserir o Bento no mundo dela. Só que isso não daria certo.
A festa durou horas. Amora e Bento logo foram embora. Amora resolveu passar a noite com Bento na casa dele. Certamente, só voltaria de manhã. Fabinho ficou a festa inteira à espera de uma chance de ficar a sós com Bárbara. Esperou Bárbara se despedir de Filipinho, Brenda, Xande e Tábata. Assim que últimos convidados foram embora, Fabinho aproximou-se de Bárbara por trás:
— Eu acho que agora, a gente está sozinho, né, Bárbara?
— É. A festa acabou. — disse Bárbara.
— Mas você não vai me expulsar, né? — perguntou Fabinho.
— Você? Nunca. — disse Bárbara.
— Que bom, porque eu já me considero seu escravo. — disse Fabinho. — E eu passei a noite toda, esperando a chance de ficar a sós com você.
— Danadinho. Eu vou pegar um vinho pra gente. — disse Bárbara.
Bárbara foi até a adega. Fabinho esperou um pouco, mas logo foi atrás dela. Ela estava dando uma olhada nos vinhos. Fabinho parou na porta.
— Se você fosse uma bebida, seria o mais borbulhante dos champanhes.
Bárbara riu e colocou o vinho de volta no lugar. Fabinho já sabia o que fazer para seduzi-la. Fingiria estar apaixonado por ela, faria uma declaração de amor. Seria fácil. Era só dizer as palavras certas e imaginar uma garota jovem e bonita no lugar da Bárbara. Uma garota por quem ele tinha uma forte atração, mas que reprimia. Desta vez, a atração e o desejo que ele sentia, que ele procurava negar, serviriam para ser convincente. Bárbara iria cair no papo dele, pois ela achava que todo homem comia na mão dela. Ele misturaria verdade com mentira, como sempre fazia.
— Bárbara, Deus sabe como eu lutei pra te esquecer. — disse Fabinho. — Eu fiz de tudo. Você é noiva do Natan. Mas é muito mais forte do que eu. — aproximou-se. — Eu, simplesmente, não consigo tirar você da minha cabeça.
Agarrou Bárbara pela cintura.
— Eu desisto de lutar contra o que eu sinto.
— Como assim? — disse Bárbara, espantada. — O que você quer de mim? Você está com a minha filha!
— Não, não. Eu usei a Malu, pra chegar até você. — disse Fabinho. — É você quem eu quero, Bárbara! Você e mais ninguém.
Não sentia a menor atração por ela, mas precisava convencê-la, fazê-la acreditar na sua paixão. Agarrou-a e começou a beijá-la com voracidade, como se estivesse beijando Giane.
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