Um amor improvável

11 Visita a Margot


No dia seguinte, cedo, Fabinho chegou na agência. Já estava sabendo que Natan havia ganho o prêmio de melhor publicitário do ano. Quando chegou na agência, viu que estavam todos reunidos para uma comemoração.

— Opa! Tá rolando festa? E aí, Natan? Parabéns, hein? Bacana! — disse o rapaz.

— Fabinho, vem aqui, na minha sala. — chamou Natan.

Fabinho percebeu que Natan estava furioso. Assim que entraram na sala, Natan disse:

— A mídia inteira tá perguntando sobre o meu filme. Não é curioso que isso tenha acontecido depois da nossa conversa?

— Como assim, Natan? Não sei do que você está falando. — disse Fabinho, se fazendo de desentendido.

Fabinho se perguntou por que Natan achava que tinha sido ele. Não era possível que somente ele soubesse que Natan sonhava em ser cineasta quando jovem. Natan devia ter comentado isso com outras pessoas.

— Você foi a única pessoa pra quem eu disse que gostaria de ter sido cineasta. Você, por acaso, comentou isso com alguém? — perguntou Natan.

O clima era de tensão. Porém, Fabinho não se abalou.

— Natan, naquele dia, eu saí daqui, eu fui na casa da Bárbara Ellen devolver os DVDs do Plínio Campana. — disse o rapaz. — Não lembro. Talvez eu tenha comentado alguma coisa, ela perguntou sobre você.

— Bárbara Ellen! Então, agora, tá explicado! — disse Natan.

— Natan, se eu te prejudiquei de alguma forma, perdão. — disse Fabinho.

— Tá bom. Tá bom. Dessa vez, passa. Agora, se você, por acaso, passar adiante mais alguma informação confidencial, você tá na rua, entendeu?

— Tá, é que eu não sabia que era confidencial. — disse Fabinho, se fazendo de inocente, de bom moço. — Desculpa causar algum problema.

— Tudo bem, pode ir. — disse Natan.

— Não vai acontecer, prometo. — disse Fabinho, saindo da sala.

Fabinho foi direto para sua mesa. Edu foi logo lhe dando ordens:

— Aí, Fabinho, vai lá no estúdio, pega as cópias que eu mandei imprimir.

Fabinho não estava nem um pouco a fim de se submeter às ordens do Edu. Na opinião dele, Edu era um idiota.

— Isso não é minha função não, cara. — disse Fabinho, levantando-se.

— A tua função é fazer o que a gente manda. — disse Cléo. — Anda, rapaz! Vai lá!

— Fabinho, passei uma ligação pra você no ramal da Júlia. — disse Karol. — Tem uma pessoa querendo falar urgente.

— Quem é? — perguntou Fabinho.

— Da casa da dona Verônica, a esposa do Natan. — disse Karol.

Fabinho se perguntou quem poderia querer falar com ele, ainda mais da casa da Verônica. Maurício não era, do contrário, Karol teria dito que era o Maurício. Tampouco era Verônica. Quem seria?

— Pra mim? — perguntou Fabinho, achando estranho.

Ele foi atender ao telefone.

— Alô?

— Alô, Fabinho? Sou eu, Santa.

Fabinho não estava acreditando. Ele se questionou como Santa sabia que ele estava trabalhando na Class Mídia e o que ela estava fazendo na casa da ex-esposa de Natan. Agora que ela o encontrou, iria ficar na cola dele. Santa sabia demais. Era amiga de Margot há muitos anos. Ela o conhecia, não ia com a cara dele, sabia de quase tudo o que ele havia aprontado em Ribeirão Bonito. Ela sabia do histórico dele, e que ele era pobre. Sabia também que ele não tinha faculdade. Se ela abrisse a boca, iria prejudicá-lo. Era um grande problema para ele. Ninguém podia saber das coisas que ele havia aprontado, nem que sua família adotiva perdera afortuna. Ninguém podia saber de absolutamente nada. Nem que ele havia participado de um racha, que havia deixado a mãe adotiva pagar por um crime que ele cometera. As pessoas em São Paulo iriam pensar mal dele. Se Natan, Maurício, e até mesmo Plínio soubessem que ele era um delinquente, estaria tudo acabado. Seus planos estariam todos arruinados.

— Fabinho, tá me ouvindo? Responde! — disse Santa.

Fabinho resolveu desligar o telefone na cara dela. Além das razões mencionadas, não suportava ouvir a voz de Santa. Santa o lembrava de Margot, e Margot o lembrava de um passado que ele queria desesperadamente esquecer. Queria esquecer que era adotado e não filho biológico, e queria esquecer que cresceu em um lar de adoção. Cléo perguntou:

— E aí? O quê que tá rolando? Era a dona Verônica, mesmo?

O rapaz tratou logo de arrumar uma desculpa.

— Não, não, era trote. — disse Fabinho.

— Vem cá, o Natan sabe que você anda divulgando o número da agência entre seus amiguinhos, pra se promover? — perguntou Edu.

— E o nível dos coleguinhas é tão alto, que eles se dão ao luxo de te passar um trote? — disse Cléo. — Ah, faça-me o favor! É o fim da picada, como diz minha avó!

Fabinho continuou na agência. Porém, continuava fazendo corpo mole.

— Ô Fabinho, precisa repor aqui urgente o papel da impressora, cara! — disse Edu.

Fabinho fez que não ouviu. Ele não era o único estagiário ali. Ele se perguntou por que Edu não pedia para a Cléo. Ela era estagiária também.

— Ei! Não adianta se fazer de surdo, não, achando que vai sobrar pra mim! — disse Cléo, levantando-se de sua mesa. — Todo mundo sabe que o último estagiário a entrar é sempre o que faz as funções mais toscas. Anda, vai lá!

— Olha, eu tenho que dar uma saída. Desculpa. — disse Fabinho, levantando-se e da mesa e pegando a bolsa.

Cléo ficou indignada.

— Você tá falando sério? — Cléo riu, nervosa. — Mas é muita palhaçada!

Fabinho não estava nem aí para o trabalho. Estava preocupado com outra coisa. Santa estava sabendo que ele estava trabalhando na Class Mídia, por isso ligara ali na empresa. E se ela resolvesse aparecer por ali, atrás dele? Descobririam tudo. Ela contaria para Natan o que sabia e logo toda a equipe da Class Mídia ficaria sabendo. Fabinho achou que era melhor dar o fora, antes que Santa o encontrasse ali.

Ao sair da agência e montar na moto, Fabinho deu de cara com Santa.

— Então, você deixa a sua mãe com a ficha suja na polícia e vem pagar de playboy aqui. — disse Santa, abanando a cabeça. — Te peguei no pulo, hein, moleque!

Santa tinha raiva de Fabinho por tudo o que ele fez com Margot. Ela não aguentava mais ver a amiga sofrer nas mãos do moleque, que só a tratava mal, a deixara fichada na polícia e a abandonara. Margot era uma pessoa maravilhosa, e não merecia esse desgosto. Era uma pena o garoto não dar valor à mãe que tinha. Para Santa, isso era realmente muito triste. Margot era uma boa mãe, tinha um amor inabalável pelo filho. Contudo, Fabinho não estava nem aí para a mulher que o criou. Na opinião de Santa, se Fabinho não dava valor à Margot, também não saberia dar valor aos pais de sangue. Ele só podia ter ido atrás do dinheiro do Plínio. No ponto de vista de Santa, Fabinho era um interesseiro, um pilantra, não valia nada. Ela só não contara para todo mundo o que o garoto havia feito com a mãe, porque Margot implorara para ela não fazê-lo. Margot achava que, se ela, Santa, desmascarasse Fabinho, falasse mal dele, ele não voltaria nunca mais para casa. Mas a vontade que Santa tinha era de contar para todo mundo que Fabinho não prestava.

Fabinho aborreceu-se ao ver Santa ali. Pelo visto, Santa já estava sabendo que ele havia deixado a mãe pagar por um roubo em seu lugar. Santa veio encher o saco. Acabaram indo para um café.

— Como é que você me encontrou aqui, Santa? — perguntou Fabinho.

Ele não entendia ainda o que ela fazia na casa do Maurício.

Santa conhecia Verônica há muitos anos, desde quando ela era uma menina. Santa até trabalhara muitos anos para Verônica, antes de se mudar com o marido (que falecera há alguns anos) para Ribeirão Bonito. Fabinho não sabia disso, porque jamais se interessara em saber de sua vida, nem tinha obrigação nenhuma de querer saber. O garoto não sabia nada sobre o passado dela, do tempo em que morava em São Paulo.

— Eu tô dando uma mão pra Verônica. — disse Santa. — E acontece que ela é mãe do Maurício, noivo da Amora Campana. E a Margot me contou que você cismou que é filho do Plínio. Foi só juntar dois mais dois. Já pediu a ele pra fazer o exame?

— Ainda não. Quero ir devagar. — disse Fabinho. — Quero que o Plínio me conheça, se afeiçoe a mim.

— Ah, sei. Entendi. — disse Santa. — Assim, você não precisa esperar ele morrer, pra ter a herança, não é? Ele gostando de você, ele solta a grana mais cedo. É nisso que você tá pensando, né?

Fabinho percebeu a reprimenda no tom. Ele não estava a fim de ouvir sermão, lições de moral. Santa não havia entendido nada. Para ele não era apenas uma questão de dinheiro, embora dinheiro fosse realmente importante. Se tratava da vida dele, da família dele. O que ele queria era descobrir sua origem, sua identidade, saber qual era seu lugar no mundo. Ele nunca se sentiu plenamente aceito pelos donos do lar de adoção, nem pelos pais adotivos. Além disso, Plínio era pai dele, claro que ele queria que o pai se afeiçoasse a ele. Quem no lugar dele não iria querer? Claro, seria ótimo se o pai liberasse a grana. Até porque ele não queria trabalhar, pegar no pesado. Queria vida boa, viver do dinheiro do pai. Mas ele não queria apenas dinheiro, queria o afeto do pai. Se Santa o julgava um interesseiro por querer se aproximar do pai, conquistar o afeto do pai, por querer ter vida boa, ter direito à herança, problema dela. As pessoas o julgavam um interesseiro, mas ele era muito mais que isso. De qualquer forma, Santa não tinha nada a ver com isso. Não era da conta dela o que ele pretendia fazer. Fabinho se perguntou por que Santa não ia direto ao ponto, por que não dizia logo o que queria com ele, em vez de dar sermão.

— Santa, é a minha vida. É a minha história. Não se mete.

— Tudo bem. Mas você vai ter que visitar a Margot ainda hoje. — disse Santa. — Ou então, eu vou contar pra todo mundo o bandidinho que você é! — apontou para ele. — Que jogou a sua própria mãe na cadeia!

E agora? Ele teria de ir visitar a mãe adotiva, do contrário, Santa botaria a boca no trombone. O problema é que Fabinho não sabia como olhar para a cara da mãe depois de tê-la deixado pagar por um crime que ele cometeu, e tê-la largado, sozinha, em Ribeirão Bonito. Não saberia nem o que dizer a ela. Não dava para voltar agora, ir visitar a mãe como se nada fosse, com a cara mais deslavada do mundo. Não sabia como seria a reação dela ao vê-lo, depois de tudo. Com certeza ela devia estar furiosa, daria uma bronca nele. Não estava a fim de ouvir sermão. Além do mais, certamente a mãe não ia querer vê-lo nem pintado de ouro, depois do que fizera. Pretendia voltar um dia, quem sabe, visitar a mãe, mas achara que tinha de esperar a poeira abaixar. Esperar a raiva da mãe passar. Margot devia estar ressentida. Porém, Santa ameaçara contar para todo mundo o que sabia. Mas ele não queria ir. Não agora. Precisava de tempo. Ficava em pânico só de pensar em voltar para Ribeirão Bonito, olhar para a mãe e aquela pobreza toda, que o lembravam o tempo todo que ele havia sido largado no orfanato. Era um dos motivos que o levara a dar o fora de lá.

Fabinho resolveu visitar a mãe. Não havia outra saída. Ele teria de fazer o sacrifício de ir para Ribeirão Bonito. Ao chegar na casa da mãe, em Ribeirão Bonito, encontrou-a rezando, sentada à mesa. Margot o viu.

— Fabinho! Meu filho, você voltou! Você voltou! — disse Margot, feliz, abraçando-o.

Fabinho revirou os olhos. Lá vinha a mãe com pieguice. Até parecia que ele tinha vindo da guerra. A mãe era muito sentimental, e adorava fazer drama. Ao contrário dele, que não se dava ao luxo de fraquejar por nada neste mundo. Para sobreviver, ele precisava ser durão.

Para ele era um suplício estar ali. Não suportava aquela casa. Aos olhos dele, aquilo era um muquifo. Odiava pobreza. Definitivamente, ele não havia nascido para ser pobre. A humildade da casa o constrangia. Além do mais, a pobreza o fazia se lembrar da pior época de sua vida. Para ele, pobreza era mais do que apenas ter menos dinheiro. A pobreza era para ele uma marca do seu passado que precisava ser apagada. Por isso ele ficou tão revoltado quando a família faliu. Dinheiro, para ele, significava segurança. Ele sentia que precisava do dinheiro para se sentir seguro. Além do mais, o dinheiro o fazia se sentir um pouco menos inferior.

A falência da família adotiva não foi para ele apenas a perda do dinheiro; foi a perda da chance de ser alguém respeitado e a confirmação de que ele estava destinado a ser um ninguém, rejeitado e sem valor.

Quando a família era rica, Fabinho se sentia seguro. Ele se sentia bem na casa dos pais adotivos, porque estava longe do lar de adoção. Longe de Bento e daquele bando de puxa-sacos em torno dele. Não havia Bento para competir com ele pelo afeto das pessoas. A vida que ele levava em nada lembrava a vida no lar. Era outro mundo e ele se sentia outra pessoa. Margot e o marido o tratavam bem, muito melhor do que qualquer pessoa da Casa Verde. Os pais adotivos jamais o criticaram em demasia, não ficavam apontando defeitos nele nem comparando-o ao Bento. Os pais adotivos não o viam como o menino malvado. Ele até fizera questão de esquecer que existia Bento ou a Casa Verde. Até evitava comprar revistas sobre Amora, justamente para não lembrar. A foto que ele tirou com Bento e Amora ficava esquecida na gaveta, junto às outras tralhas, porque o retrato fazia parte de uma vida que ele havia deixado para trás. Os pais lhe davam toda a atenção, faziam todas as suas vontades, enchiam-no de presentes. Ele se sentia protegido e nem pensava muito no lar de adoção.

Fabinho acreditava que o dinheiro iria resolver todos os seus problemas, suas inseguranças, sua carência, e preencher o vazio emocional que o acometia. Para ele, quanto mais dinheiro, melhor. Ele sentia que dinheiro e status eram as únicas coisas em que ele podia confiar. Já que ele não conseguia ter o afeto de ninguém, ao menos tinha o dinheiro. Ele acreditava que o dinheiro o tornaria imune à rejeição social.

Porém, quando o pai morreu e ele e a mãe passaram a viver na pobreza, a levar uma vida mais simples e modesta, ele voltou a sentir um vazio. Ficou inseguro e vulnerável. A pobreza o assustava, e foi mais um trauma para ele, além do que já tinha, por ter passado a infância naquele lar. A lembrança de sua antiga vida, antes de ser adotado, o aterrorizava. Por isso se agarrava a qualquer oportunidade de ficar rico novamente. Ele queria se reinventar, levar uma nova vida, virar outra pessoa, criar outra identidade, deixar definitivamente para trás aquele órfão rejeitado. Ele morria de medo de ser humilhado e rejeitado novamente, e acreditava que junto com a pobreza, vinha a humilhação. Ele acreditava que sendo rico e poderoso, seria ao menos respeitado e valorizado na sociedade.

Fabinho esperava que a mãe não enchesse o saco, não pegasse muito no pé dele. A mãe tinha de entender que não mandava nele, nem tinha de se meter na vida dele. Até porque ela não era sua mãe de verdade, além do mais, ele era adulto e não devia satisfações a ela.

Fabinho não achou que a mãe ficaria feliz ao vê-lo, depois do que fizera. Achou que ela devia estar odiando-o. Porém, Margot o recebeu muito bem. Para Fabinho, foi um alívio. Achou que levaria bronca. Fabinho tomou um banho, trocou de roupa, foi sentar-se no sofá. Margot estava preparando o jantar.

— Estou fazendo aquela lasanha que você gosta. — disse Margot.

Margot estava feliz com a presença do filho. Sentiu falta dele. Esteve o tempo todo preocupada, sem ter notícias dele. O filho havia sumido, e ela ficou sem saber por onde exatamente ele andava, com quem, ou o que andava fazendo. Ela não sabia nem onde ele estava se hospedando, e com que dinheiro. Tentou ligar para o rapaz, mas ele não atendia. Então Margot pediu a Santa para ir atrás dele, ver se o achava em São Paulo. Afinal, Fabinho cismou com Plínio. Ela esperava que ele não fizesse besteira. Margot se perguntou se Fabinho havia encontrado o Plínio Campana, se conversara com ele.

Margot continuava amando o filho, mesmo depois de tudo. Mesmo depois de ele tê-la deixado assumir o roubo, largado ela na delegacia e ido embora. A saudade que sentia dele prevaleceu sobre a mágoa. Margot achava que o filho agia assim por culpa dela. Fabinho não tinha limites. Ela não havia dado limites para ele. Fabinho crescera acostumado a ter tudo o que queria, na hora que queria. Além do mais, nem sempre ele a tratara mal. Fabinho já fora um filho mais carinhoso. Antes da falência financeira da família, ele não descontava suas frustrações nela. Claro, o relacionamento deles nunca foi fácil, porque o garoto vivia aprontando. Parecia querer testar sua paciência, seu amor, seu carinho. Fabinho fazia de tudo para chamar atenção. Era um garoto carente. Mas eles tiveram bons momentos. Até a família perder a fortuna e Fabinho se revoltar.

Fabinho sorriu.

— Ai, quase morri de preocupação! — disse Margot, sentando-se no sofá, ao lado do filho. — Deixa eu ver como é que você está. — passou as mãos no rosto do filho. — Ah, o cabelo está bom! — Fabinho sorriu e passou a mão no cabelo. — Está meio magrinho, né? Está comendo direito?

No pensamento de Fabinho, a mãe, como sempre, estava querendo tomar conta da vida dele, controlá-lo, saber se ele estava se alimentando. Sempre achava que ele estava magro. Mas Fabinho não tinha tempo a perder. Ele precisava que a mãe o ajudasse. Ele não podia deixar que a Santa o prejudicasse, que colocasse tudo a perder.

— Mãe, eu estou ótimo. — disse Fabinho. — Eu podia estar ainda melhor se a Santa não tivesse ido me perturbar.

— Ah, ela te achou? — perguntou Margot. — Então, pelo visto, você está perto do Plínio Campana.

Fabinho entendeu que a mãe pedira para Santa ir atrás dele.

— Mãe, eu estou perto de conseguir tudo o que é meu por direito. Mas a Santa não pode atrapalhar tudo. Ela não pode sair por aí falando nada contra mim, entendeu? Por favor, me ajuda! — disse Fabinho.

— Você veio até aqui só pra me pedir isso? — espantou-se Margot, levantando-se do sofá. — Depois de ter me largado na delegacia e sumido? Você tem ideia da...

— Tá bom. Tá bom. Eu sei que errei. Foi mal. — disse Fabinho, interrompendo-a. Sabia que a mãe a qualquer momento iria dar sermão, e ele não queria ouvir.

— Foi mal? — disse Margot. — Eu mereço um pouco de consideração. Eu posso não ser sua mãe biológica, mas...

— Foi mal! Eu já pedi desculpa! Você quer que eu fale o quê? — disse Fabinho, impaciente. No ponto de vista dele, a mãe sempre fazia drama.

Fabinho sabia que havia errado ao deixar a mãe pagar por um crime que ele cometeu. Ele não se sentia bem com isso, mas também não estava realmente arrependido. Afinal, na visão dele, a mãe assumiu a culpa pelo roubo porque quis. Ele não pediu à mãe para assumir o roubo em seu lugar, nem a obrigou a nada. Tudo o que ele pediu era que a mãe dissesse ao delegado que ele era inocente. A mãe estava sempre livrando-o de encrenca, qual era o mal de ela livrá-lo mais uma vez?

Além do mais, ela era ré primária, talvez nem fosse presa pelo roubo. Com certeza ela teria uma punição mais leve. Para ele era conveniente que a mãe assumisse a culpa pelo crime. Ele não era réu primário. Certamente, ficaria na cadeia por muito tempo. A mãe tinha mais chances de responder ao processo em liberdade do que ele, pois tinha bons antecedentes. O histórico dele não ajudava. Se ele tivesse sido preso, não poderia ir a São Paulo, atrás do pai. Para ele, os fins justificavam os meios. Não que Fabinho não gostasse da mãe, mas ele vinha sempre em primeiro lugar. Ele não sentia nenhuma culpa em se colocar em primeiro lugar. Infelizmente, ele teve de prejudicar a mãe um pouquinho para poder ir atrás do pai biológico. Não que ele gostasse de prejudicá-la. Mas também o que estava feito, estava feito e não tinha como voltar atrás, como desfazer.

Fabinho sabia estar sendo egoísta, mas para ele, se tratava de uma questão de sobrevivência. Se não pensasse em si próprio, ninguém mais pensaria. Ninguém havia pensado nele na hora de largá-lo no lar de adoção. Por causa de uma perua ordinária, ele foi largado naquele “buraco” como se fosse cachorro. Aliás, isso não era coisa que se fazia nem com um cão. A vida não havia sido nem um pouco legal com ele. Mas ele daria o troco em todos que o fizeram sofrer. As pessoas não foram boazinhas. Sempre o fizeram sentir como se fosse um lixo. Ele também não seria bonzinho. Ninguém teve pena dele, logo, ele não teria pena de ninguém.

Margot estava chocada com o egoísmo do filho. O rapaz só pensava nele, nos interesses e necessidades dele e não ligava a mínima para tudo o que ela estava passando. Ela ficou com a ficha suja na polícia por causa dele. No entanto, Fabinho só pensava em ir atrás do Plínio Campana. Isso virou uma obsessão para ele. O rapaz não via mais nada, nem ninguém.

— Eu não quero desculpa! — disse Margot. — Eu quero que você se interesse por mim! Sabia que eu fui indiciada por causa daquele roubo?

— Mãe, você não vai ser presa por isso. — disse Fabinho, levantando-se. — Você vai ter que prestar um serviço comunitário, no máximo. E, olha, eu vou ficar bem. Eu vou te bancar, tá? Você vai voltar a ter boa vida. — colocou as mãos sobre os ombros da mãe.

Ele compensaria a mãe pelo que havia feito com ela, e estaria tudo resolvido. A mãe voltaria a ter boa vida. Ele apagaria a miséria da vida dela também. Ela iria ter a chance de ter uma vida nova, longe daquela pobreza.

Margot ficou perplexa. Fabinho achava que dinheiro resolvia tudo. Não era dinheiro que ela queria, até porque ela sabia muito bem se virar. Ela queria que o filho a tratasse melhor, que tivesse consideração, que se interessasse por ela. Margot queria o filho lhe desse amor, carinho, que eram duas coisas que ele não dava desde que ficaram pobres.

— O Plínio Campana já sabe que você acha que é filho dele? — perguntou Margot.

— Ainda não. — disse Fabinho. — Primeiro eu tenho que descobrir o quê que a Bárbara aprontou pra minha mãe. Depois eu abro o jogo pra ele.

Fabinho passou a noite na casa de Margot. No dia seguinte, acordou cedo e tomou café com a mãe.

— Você promete, então, pedir pra Santa ficar de bico calado? — perguntou Fabinho, tomando um gole do suco.

— A Santa tem um coração de ouro. — defendeu Margot, colocando café na xícara. — Ela só ameaçou te entregar pra você vir me ver. E aí? Promete que você vai me ligar?

— Prometo, mãe. Eu vou te ligar. — disse Fabinho, limpando a boca com o guardanapo. — Vou pra São Paulo, tá? Que eu não posso perder meu emprego.

Ele havia contado para Margot que estava trabalhando na Class Mídia.

— Não, peraí! Calma aí, calma aí, a gente tem que conversar. — disse Margot, deixando a garrafa térmica de lado. — Escuta, que história é essa de você estar trabalhando numa agência de publicidade sem ter faculdade? E por quê que até agora você ainda não contou pro Plínio que você é filho dele?

Fabinho suspirou e pensou que agora a mãe resolveu fazer um interro-gatório. Não era hora para isso, ele precisava ir embora, tinha de trabalhar.

— Você é muito ansiosa, né? Muita pergunta. — disse Fabinho, e deu uma pausa. — Eu acho que a Bárbara tá escondendo alguma coisa sobre a minha mãe. Pra eu descobrir o quê que é, eu tenho que ganhar a confiança dela. Por isso, ninguém pode saber quem eu sou, entendeu?

Claro que Fabinho não contaria para a mãe as artimanhas que usou para trabalhar na Class Mídia. A mãe jamais iria aprovar. Ela iria dar sermão se soubesse que ele fizera uso de chantagem, ameaça, que ele posara de herói, que se aproveitara de uma situação para ganhar a confiança do chefe e que até pedira a um comparsa para falsificar um diploma de Comu-nicação.

— Então, quer dizer que você está atrás dessa história de Plínio Campana, não é só por causa do dinheiro. — disse Margot. — Você tá preocupado com a tua família, né, filho?

— Eu tô pensando no dinheiro, eu tô pensando na família e eu tô pensando em ferrar essa bandida. — disse Fabinho, revoltado. — Se não fosse ela, eu não teria ido parar naquele lar e minha vida não tinha virado esse lixo.

No ponto de vista de Fabinho, se ele ficou doente, perturbado, cheio de traumas, a culpa era da pilantra da Bárbara. Ela iria pagar por isso, porque ela separara Plínio da Irene, e a Irene acabara deixando-o naquele maldito lar, onde as crianças faziam chacota dele o tempo inteiro, o excluíam e acabaram fazendo um estrago enorme em sua cabeça. Ele não era doente assim. Ele não estaria assim se não fosse pela Bárbara. Ele não teria sido adotado por uma família rica que viria à falência depois.

Fabinho bebeu um gole do suco de laranja. Margot disse:

— Não, não fala assim, não, porque eu fiz muita coisa por você, viu?

Fabinho estava cansado deste discurso. Na opinião dele, a mãe era sempre muito dramática. Detestava quando a mãe ficava jogando na cara dele tudo o que tinha feito por ele. Por mais que a mãe adotiva tenha feito um monte de coisas, ela não tinha o poder de acabar com o sofrimento dele. Ele se esforçara para ser feliz, mas simplesmente não conseguira parar de sofrer. Durante anos, quando o pai era vivo, ele conseguira se anestesiar, usando dinheiro para isso, mas o sofrimento ainda existia. O fato de ele ter sido adotado, criado por ela, não anulava a mágoa e a revolta que ele sentia por ter sido abandonado naquele lugar horrível, e por ter ficado pobre. Mesmo que os pais adotivos tivessem sido os melhores pais que alguém podia ter, nada no mundo pagaria a rejeição e as humilhações que ele sofreu na infância. Nem dinheiro, nem nada. Dinheiro nenhum seria o suficiente. Mas, na opinião dele, dinheiro poderia ao menos proporcionar uma vida boa. Ele tinha de voar para São Paulo. Estava atrasado e não tinha tempo para ficar conversando com a mãe.

— Eu já conheço, eu já conheço tudo isso. — disse Fabinho. — Tá bom? Sem drama. Daqui até São Paulo são 3 horas. Eu não posso perder meu emprego na agência por tua culpa. — levantou-se. — Não esquece de falar com a Santa.

— Tá. Eu falo. Peraí, me dá um beijinho! — disse Margot, levantando-se da mesa e indo abraçá-lo.

— Tchau! — disse Fabinho, lhe dando um beijo no rosto.

— Vem cá, olha. Não corre, se alimenta, viu? Me liga! — pediu Margot.

Fabinho acenou e saiu.