Um amor improvável

12 Os segredos de Bárbara Ellen


Ao chegar em São Paulo, Fabinho foi direto para a agência. Havia se atrasado muito. Certamente Natan estava furioso.

— Opa! Opa! Bom dia! Bom dia! Bom dia! — disse Fabinho, cumprimentando a toda a equipe, assim que entrou na agência.

— Ah! Seu Fabinho! Dona Júlia! — disse Natan. — Resolveram nos conceder a honra de vossa ilustríssima presença? Na minha sala, os dois! Vamos! Vamos! Vamos!

Fabinho ficou nervoso. Ele sabia que levaria bronca do chefe pelo atraso. E com certeza Júlia levaria bronca por ter faltado ao trabalho há dias. Porém, neste exato momento, Amora apareceu na agência.

— Natan, eu preciso falar com você.

Amora achava que já havia passado da hora de Natan se mexer e marcar uma reunião com os patrocinadores. Na opinião de Amora, Lara estava afundando o programa. Amora estava furiosa com Lara, por ter ocupado seu lugar no Luxury e por ter entrevistado Bento e Malu. O que mais a irritava era Lara ter falado deles como um possível casal.

Amora estava com raiva de Malu. Ela e Bento não estavam se entendendo. O seu trauma e o fato de ser uma celebridade estava atrapalhando a relação. Para se ter uma ideia, ela acabou não indo ao aniversário de Bento. Ela até foi à Casa Verde. Amora tinha resolvido ir à festa de Bento. A vontade de vê-lo havia vencido o medo, o horror que sentia. Porém, ao chegar lá, no Cantaí (o bar do Gilson, onde havia até música ao vivo), ela viu Socorro, que estava conversando com uma garota que ela não conhecia, além de Jonas e Lucindo. Amora acabou voltando para o carro. O medo acabou dominando-a mais uma vez.

Ela não se sentia bem perto daquela gente, naquele ambiente, além do mais, ficou com medo que Socorro tirasse uma foto sua e postasse no blog. Amora não queria que a mídia ficasse explorando sua relação com Bento e o povo da Casa Verde. Ela seria massacrada pela mídia, certamente a acusariam de ter um affair com Bento, de trair o noivo. Os seus fãs não veriam com bons olhos a amizade dela com um florista pobre da zona norte de São Paulo, e estranhariam vê-la em um bar de pagode. Ninguém imaginaria Amora Campana no Cantaí. Ela não podia nem chegar perto de um homem sem ser o noivo, que os jornalistas iriam imaginar que ela estava tendo um caso clandestino. Por isso Amora desistiu de ir à festa.

Claro que Bento ficou chateado por ela não ter aparecido no aniversário dele. Ele ainda veio na casa dela tomar satisfações, por ela ter posado de boazinha para a mídia e dito que visitava e ajudava o povo da Casa Verde. Amora não gostava de mentir. Mas também não podia dizer para Sueli Pedrosa que tinha horror à Casa Verde, falar de seu trauma. Primeiro que era difícil para ela falar sobre isso, segundo, que a Sueli iria cair de pau em cima dela, e o público não iria gostar. Bento também iria odiá-la se ela dissesse o que sentia, que tinha horror do mundo dele. Mas Bento não gostou nada de saber que ela havia mentido. Ele a acusou de negar o passado e falsear a realidade de maneira covarde. Ele gritou com ela na frente da família. Isso enquanto ela, Bárbara, os irmãos adotivos (com exceção de Malu, que não estava presente, se recusou a participar e a mãe acabou dando a desculpa de que ela estava viajando) e Maurício davam uma entrevista. Amora ficou furiosa. Gostava de Bento, mas não podia permitir que ele arruinasse sua imagem. Ela vivia de sua reputação, a imagem era seu ganha-pão. Ela e Bento acabaram discutindo, e ela soltou os cachorros nele. E agora pouco ela havia passado na loja de Bento e discutira com ele por causa da entrevista que ele dera ao Luxury ao lado de Malu.

Na opinião de Amora, Bento só podia estar querendo atingi-la. Ele detestava aparecer, vivia criticando-a por aparecer o tempo todo na mídia. Desde que se reencontraram, ela e Bento só brigavam e isso a fazia se sentir mal. Eles se davam tão bem quando crianças! Raramente brigavam na infância. Agora, estavam sempre se estranhando. As coisas haviam mudado entre eles. E a Malu agora ficava saindo com Bento para cima e para baixo. No ponto de vista de Amora, Malu era uma sonsa e fazia aquilo só para irritá-la. Amora não gostava da proximidade de Malu e Bento.

Do dia para a noite, Malu havia virado a melhor amiga do Bento. Ela conheceu Bento outro dia, e já estava íntima dele, tratava-o como amigo de infância. Só que a melhor amiga do Bento sempre foi ela, Amora. Ela conhecia o Bento desde os dez anos de idade. Ninguém conhecia o Bento melhor do que ela. Não deixaria Malu ocupar o lugar dela na vida do Bento. No ponto de vista de Amora, Malu era uma invejosa. Até pouco tempo atrás, Malu dizia ser louca pelo Maurício, até se declarou para ele. Agora, do dia para a noite, Malu ficou amiga do Bento e não desgruda mais dele. Na visão de Amora, Malu estava sempre de olho nos homens dela. Bastava um homem se aproximar dela, para Malu se interessar por ele. Malu dissera que amava Maurício desde menina, desde os tempos de colégio. Ou seja, antes de Maurício conhecer ela, Amora. Mas Amora acreditava que não tinha culpa por Maurício ter preferido ela à Malu. Na opinião dela, não era por ser adotada, que teria de deixar Maurício para Malu. Se Malu gostasse de Maurício de verdade, teria lutado por ele. Quando ela, Amora, começou a namorar Maurício, ele era livre e desimpedido. Mas Malu estava sempre disputando com ela. Malu não lutou por Maurício enquanto era tempo, e depois que conheceu Bento, e soube que ele era namorado de infância dela, Amora, esqueceu da existência de Maurício. Malu andou atrás de seu noivo, agora ficava se encontrando com seu amor de infância a toda hora. Amora pensava que Malu queria tudo que era dela. No ponto de vista dela, Bento era um homem maravilhoso, porém ingênuo. Ele não percebeu ainda quem Malu era. Mas depois ela se entenderia com Bento. Tinha um problema mais urgente a resolver. Amora queria voltar para o Luxury.

— Espera aí, vocês. — disse Natan a Fabinho e Júlia.

Fabinho ficou aliviado. Estava livre, pelo menos por enquanto.

Amora entrou com Natan na sala dele. Ficaram conversando por alguns minutos. Quando Amora saiu da sala, Érico resolveu cumprimentá-la:

— Amora? Tudo bom?

Amora parou.

— É... Você viu a entrevista do Bento? — perguntou Érico.

Ele acreditava que Amora iria adorar ver o Bento na televisão, se já não tivesse visto.

— Eu te conheço, por acaso? — disse Amora.

Na verdade, ela conhecia o Érico. Mas Érico tocou justamente em seu ponto fraco. Érico falou da entrevista que Bento dera para Lara Keller, ao lado de Malu, sua irmã invejosa. Além do mais, não suportava nem olhar para Érico. Era uma das pessoas que vivia naquele “buraco” de onde ela saiu. Érico lhe lembrava de coisas que lutava para esquecer. Por isso Amora resolveu fingir não reconhecer o Érico. Era uma maneira de se defender. Para ela, Érico não existia. Ela fazia de conta que era outra pessoa.

— Amora? — espantou-se Érico. Levantou-se de sua mesa. — Conhece, sim. Ou você esqueceu que, durante um ano, você comeu mingau que eu fazia, e era o único que você comia e que mais gostava?

— Érico? Ai, desculpa! É que eu não te reconheci. — disse Amora, sorridente. Jamais diria o verdadeiro motivo pelo qual fingiu não reconhecê-lo. Ele pensaria que ela estava louca. Ela não queria pena de ninguém. Além disso, não conseguiria falar sobre o que sentia, de qualquer maneira.

Érico ficou chateado. Toda vez que se cruzavam ali na agência, Amora nem se quer o cumprimentava, mal olhava na cara dele. Ele não aceitava que Amora o tratasse com desprezo. Ela morou um ano no lar adotivo de seus pais. Ou seja, na casa dele. Ele sempre a tratou bem, nunca fez mal algum a ela. Érico acreditava que não merecia tão cruel tratamento.

Érico não entendia o comportamento de Amora. Amora não tinha o direito de pisar nele, só porque ficou rica e famosa. Ele se questionava o que havia acontecido com Amora. Na infância, Amora era uma menina carinhosa. Ela não tratava as pessoas com desdém, nem tinha aquele ar superior. Ela não era exatamente uma das crianças mais apegadas a seus pais, mas também não tratava mal as pessoas. Pelo contrário, era gentil com todos. Ela e Bento eram unha e carne, não se desgrudavam. Os dois formavam um casalzinho de pombinhos, muito querido por todos. Amora havia feito amizades quando morava no lar, mas era mais apegada a Bento. No ponto de vista de Érico, a garota arrogante que estava em sua frente não lembrava em nada a garotinha que adorava o mingau que ele fazia. Amora ficou pouco tempo no lar, apenas um ano, mas na opinião de Érico, não havia justificativa para o comportamento dela. Para Érico, era triste ver que Amora se transformara em uma garota fútil, presunçosa, sem caráter, que tratava mal as pessoas que a acolheram e cuidaram dela, por serem pobres. Bárbara havia estragado Amora. Não era à toa que Gilson não deixou Bárbara adotar mais nenhuma criança do lar. Os outros filhos adotivos de Bárbara, ela havia tirado de outros lugares. Quando Amora foi adotada, Gilson e Salma não tinham ainda noção do mal que Bárbara era capaz de fazer. Acreditavam que Amora, ao ser adotada por uma família com excelente condição financeira, teria tudo o que nunca teve, e todas as chances para vencer na vida. Somente muitos anos depois é que se deram conta de que Bárbara havia ensinado valores equivocados à Amora, e a transformara em uma bonequinha de luxo, para se promover.

— Quer dizer, então, que se você não me conhecesse, você poderia me tratar mal e estava tudo bem? — disse Érico, deixando Amora na maior saia justa. — É, bem que me disseram. E isso só mostra a pessoa que você se tornou. O que, aliás, agora pra mim, não é mais surpresa nenhuma. Com licença?

Ele sabia que Amora não agia desta maneira somente com ele. Renata, sua noiva, havia comentado que Amora não a cumprimentava, mal olhava na cara dela. No ponto de vista de Érico, a atitude de Amora era deplorável, pois Renata a havia ensinado a ler e a escrever. Para Érico, era muito grave Amora fingir não conhecer as pessoas, como ele e Renata. Ele pensou que Amora havia mudado de comportamento, depois de ter ido visitar a rua onde foi criada. Mas pelo visto, ele havia se enganado.

Amora não estava nem aí. O Érico que pensasse o que quisesse. Ela não diria a ninguém qual era o seu problema, pois não devia explicações nem a Érico, nem a ninguém. Ela pediu desculpas, mas Érico não aceitou. No ponto de vista dela, Érico que se danasse.

Fabinho observava tudo. Estava adorando ver o Érico dar bronca na Amora. Quando Amora foi embora, Fabinho resolveu falar com Érico:

— Maravilhoso, Érico! Essa aí está muito mascarada mesmo. Está precisando de umas verdades.

— Ah, e você não, né? — disse Érico. — Só ela, né, Fabinho?

Desta vez, foi Fabinho que se viu em uma situação constrangedora.

— Vem cá, desde que você chegou aqui, quantas vezes você dirigiu a palavra a mim? — perguntou Érico. — Está sofrendo de amnésia ou será que você também esqueceu que morou no lar dos meus pais e me conhece? Hein, moleque?

Érico achava um absurdo Fabinho agir como se não o conhecesse ali na agência. Parecia até que tinha vergonha dele. Para Érico, o fato de nunca terem sido próximos nem muito amigos não dava o direito de Fabinho tratá-lo tão mal. Ele nunca fez mal algum ao garoto. Nunca deu motivos para ser tratado com tanto desprezo. Fabinho nem mesmo o cumprimentava. Era como se ele não existisse. Érico não entendia como Fabinho podia ser tão ingrato, tratar tão mal as pessoas que cuidaram dele no lar. Fabinho apareceu na Casa Verde uma ou duas vezes e nunca mais. Pelo visto, o dinheiro subiu à cabeça do garoto e ele fazia de conta que não conhecia as pessoas que cuidaram dele, que o criaram. Fabinho agora só queria saber de andar com gente rica ou influente, e ignorava as pessoas que o acolheram na infância, por serem pobres.

Na infância, Fabinho já era um garoto problemático. Érico constatou que Fabinho piorou com o tempo. Érico esperava que Fabinho tivesse aprendido alguma coisa ao ser adotado. Até porque os pais adotivos dele pareciam ser boas pessoas. Mas pelo visto, não havia adiantado nada. Fabinho não aprendeu nada que prestasse. Fabinho teve bem mais chances que qualquer criança que passou pelo lar do Gilson, mais chances que o Bento, e em vez de fazer algo positivo com isso, se tornou um sujeito desprezível, capaz de pisar nas pessoas que considerava inferiores. Para Érico, isso era uma confirmação da falta de caráter de Fabinho.

Na opinião de Érico, Fabinho devia ter alguma consideração, ao menos demonstrar um pouco de gratidão por seus pais. Gilson e Salma sempre cuidaram muito bem dos órfãos, com amor e carinho. Tratavam todos da mesma maneira, como se fossem filhos. Sentiam-se responsáveis por cada criança que passava pelo lar, e se preocupavam com o destino das crianças. Eles sempre esperavam notícias das crianças depois que eram adotadas, pois queriam saber se estavam sendo bem tratadas pelas famílias, se eram bem cuidadas.

Na visão de Érico, Fabinho podia não ser o favorito de Salma e Gilson, mas isso não significava que não quisessem saber dele. Ao longo de todos aqueles anos, Gilson e Salma ficaram esperando por notícias do garoto. Até porque seria complicado para eles visitarem cada órfão que passara pelo lar. Eram muitas crianças, e muitas iam morar longe. Mas sempre esperavam que os órfãos pelo menos dessem notícias de vez em quando. Não era obrigatório nem visitar. E muitos ainda mantinham contato com seus pais. De vez em quando telefonavam, enviavam e-mail, e às vezes apareciam em datas especiais, como o aniversário de seus pais.

Porém, Fabinho foi para o interior e nunca mais deu notícias. Não ligou nem escreveu, nem lembrou que Gilson e Salma existiam. Érico até entenderia se Fabinho tivesse passado a infância em vários abrigos diferentes, ficando pouco tempo em cada lugar. Mas Fabinho viveu na casa de seus pais por anos, a infância inteira, até ser adotado. O garoto chegou na casa de seus pais quando era recém-nascido. Érico se questionava como Fabinho podia não ter consideração por quem o criou, educou, alimentou, abrigou durante anos. Para Érico, isso era inadmissível.

Na opinião de Érico, a ingratidão era uma falha grave de caráter. Para ele, não havia nada mais abominável do que esquecer, desmerecer quem ajudou. Não se podia negar que Fabinho foi muito bem cuidado, bem tratado. Érico achava que o que seus pais fizeram por Fabinho não foi pouco. Eles até tiveram paciência. Se fossem outras pessoas, já teriam mandado Fabinho para outro lugar. Até porque lidar com Fabinho era um desafio constante, ele testava a paciência de qualquer um. Amora também não tinha gratidão por seus pais, que a acolheram no momento mais difícil da vida dela. Eles a tiraram da rua. E o curioso é que ela não queria saber de visitar o lugar onde ela conheceu o Bento, que ela dizia amar.

Bem que Fabinho queria esquecer que havia morado no lar do Gilson. Se ele pudesse, apagaria seu passado, que tanto o fazia sofrer. Era o que tentava fazer o tempo todo. Evitava conversar com Érico, até mesmo cumprimentá-lo porque não suportava olhar para ele. Evitava até mesmo chegar perto dele. Só de olhar para o Érico, tinha de vontade de gritar e sair correndo. Só que tinha de disfarçar, senão achariam que ele estava louco. Érico o lembrava o tempo inteiro da pior época de sua vida, a época em que viveu no lar. Fabinho queria esquecer o passado, para sempre. Lutava dia e noite para esquecer. Por isso nunca mais voltara àquele lugar, nem dera notícias. E por ele, não teria nenhum contato com Érico. Infelizmente, era obrigado a conviver com Érico todos os dias.

Além do mais, no ponto de vista de Fabinho, não dava para agir como se ele e Érico não tivessem ficado vários anos sem se verem, como se não tivessem perdido o contato. Todos os anos de separação haviam criado uma distância entre eles. Aliás, esta distância já existia quando ele morava no lar, e com o tempo só aumentou. Fabinho conheceu Érico na infância, mas nunca foram próximos. Érico nunca foi com a cara dele. Ninguém no lar gostava dele, apenas o suportava. Érico não gostava dele, logo, não iria querer conversa com ele. Mas é claro que Fabinho não iria discutir isso, muito menos ali, na agência, e não falaria de seu trauma para ninguém. Não era para ninguém ali saber que ele estava maluco. Fabinho não queria ninguém olhando para ele com pena, e não queria ninguém fazendo chacota dele também. Nem conseguia falar sobre o que sentia, porque falar tornaria sua dor ainda mais real.

— Mas você é o Érico, o filho do tio Gilson? — disse Fabinho, fazendo de conta que acabou de reconhecê-lo. — Érico! Érico!

Para Fabinho, era outro Érico que estava ali. Fazia de conta que não o Érico filho do Gilson e da Salma, que era outra pessoa. Ele se recusava a chamar a maioria dos moradores da Casa Verde pelo nome como uma forma de despersonalização e uma tentativa de apagar o passado. Para ele a Casa Verde e tudo o que ela representava era um passado doloroso de rejeição. Por ele, não teria contato com ninguém de lá.

— Quem não conhece que te compre, hein, Fabinho? — disse Érico. — Você não mudou nada, garoto.

Na opinião de Érico, Fabinho nunca prestou e não tinha conserto.

— Caramba, Érico! — disse Fabinho, constrangido.

Érico saiu andando. Virou-se.

— Aliás, você viu a entrevista do Bento? — Érico provocou. — Você admirava tanto o seu amigo. Eu aposto que você vai adorar. Pode usar o meu computador. É só apertar o play.

Érico conhecia bem Fabinho e sabia que ele se mordia de inveja do Bento, desde pequeno. Fabinho iria odiar ver Bento dar entrevista.

— O Bento deu entrevista? — Fabinho achou estranho. Até onde sabia, Bento não tinha interesse em aparecer na televisão. E por que alguém iria querer entrevistar o Bento? Bento não era famoso, ninguém o conhecia, estava longe de ser uma figura importante.

Fabinho foi assistir à entrevista pelo computador do Érico. Ele não gostou nada de ver Bento ao lado de Malu e Plínio. Pelo visto, Bento havia conseguido, em pouco tempo, o que ele, Fabinho, não conseguiu desde que chegou a São Paulo: conquistar a confiança de Plínio e Malu. Fabinho se questionou o que Bento queria ao se aproximar de Malu e Plínio, se Bento esperava conseguir alguma coisa deles. Bento e Malu pareciam bem amiguinhos. Fabinho odiou ver Bento todo cheio de intimidade com sua irmã. Lara até falara deles como um possível casal se formando. No ponto de vista de Fabinho, era incrível como Bento estava sempre se metendo no caminho dele, sempre competindo com ele pelo afeto das pessoas. Fabinho não queria Bento perto dele, da família dele. Ele não suportava olhar para o Bento, nem chegar perto dele, porque Bento fazia parte de um passado que ele queria esquecer, apagar. Para Fabinho, já bastara ter um rival no lar de adoção. Ele não queria um rival na nova vida que queria construir. Fabinho não permitiria que Bento entrasse em um mundo do qual queria fazer parte. Não deixaria Bento invadir seu espaço, entrar em um território que considerava seu. O lugar de Bento era na Casa Verde. Para Fabinho, não havia lugar para ele e Bento no mesmo mundo. Os dois pertenciam a mundos diferentes e era assim que deveria ser.

— O que esse otário está fazendo do lado do meu pai e da minha irmã? — disse Fabinho, com raiva. — Que sujeito abusado! Mas pode esperar, Bento, eu vou tirar você do meu caminho.

Fabinho passou o resto da tarde trabalhando na agência. No dia seguinte, resolveu ir até à Acácia Amarela falar com Bento. Precisava falar com ele, pedir, ou melhor, exigir que ele fique bem longe de Malu e do Plínio. Fabinho não engolia Bento, e não queria ele perto de sua família. Também não queria Bento perto dele. Como ele estava se aproximando da família, não queria Bento por perto. Fabinho não acreditava que teria alguma chance de conquistar o afeto de Plínio e Malu com Bento por perto, pois as pessoas sempre preferiam Bento a ele. Ele se sentia mal só de olhar para o Bento. Mas, ao chegar à loja, só encontrou Giane. Giane estava em frente ao balcão, meio de costas para ele.

— E aí? — cumprimentou Fabinho, ao entrar na loja.

Ele olhou em volta, para os vasos de flores, sem olhar para a garota. Fabinho não suportava olhar para Giane. Ele não conseguia evitar sentir-se mal e estava se esforçando para não sair correndo dali. Acreditava que ela iria sempre humilhá-lo, por isso evitava encontrá-la. Para Fabinho, Giane nunca foi sua amiga. Era sua arqui-inimiga, uma extensão de Bento.

— Ah, não! O que você quer dessa vez, hein? — perguntou Giane, impaciente, virando-se e ficando frente a frente com ele.

Fabinho percebeu que a garota não gostou nada de vê-lo e nem disfarçava. Ela era realmente de uma sinceridade brutal. Além de ser grossa, na opinião dele. Ele se questionou se era assim que ela recebia os clientes, ou o tratamento não especial dela foi especialmente para ele. Ele se perguntava como ela podia ter coragem de falar assim com as pessoas, sem medir as consequências e sem se preocupar com que as pessoas podiam pensar.

— O Bento está aí? — perguntou Fabinho, coçando o pescoço, ainda sem olhar para ela.

Ele se sentia muito nervoso, ansioso e desconfortável na presença dela. O estranho era que, ao mesmo tempo em que queria distância dela, por ela lhe trazer lembranças ruins, se sentia muito atraído por ela. Isso o incomodava, porque ele não queria sentir nada pela maloqueira, o que só aumentava a raiva que tinha dela, e principalmente de si mesmo. Ele não aceitava sentir atração por uma garota suburbana, e que ainda era sua inimiga. Ele e Giane não tinham nada em comum, eram pessoas diferentes. Ela fazia parte de um mundo que ele havia decidido deixar para trás. No ponto de vista de Fabinho, ele não conseguia entender como, com tantas mulheres atraentes no planeta, ele podia se sentir atraído logo pela Giane, que o humilhou no passado e causou um trauma profundo nele. Além disso, ela era grosseira, de nível inferior. Ela nem fazia o tipo dele. Ele geralmente costumava se interessar por mulheres mais femininas, mais bem-arrumadas, sofisticadas, não por mulheres de aparência masculinizada e desleixada. Mas apesar do aspecto desleixado, a desgraçada era muito bonita, e ele era humano, mesmo que as pessoas pensassem o contrário. E ele no fundo gostava da marra dela. Isso a tornava mais interessante do que muitas patricinhas com aquela postura blasé.

— Não. É só isso? — perguntou Giane.

— Vem cá, é verdade que ele tá namorando a filha do Plínio Campana? — perguntou Fabinho, finalmente olhando para ela, continuando a coçar o pescoço. Fazia de conta que ela era outra pessoa, para poder olhar na cara dela. Do contrário, não iria conseguir.

— Hum! Eu sabia, mas é claro! — disse Giane. — Você veio aqui só soltar o seu veneninho ou fazer intriga, né?

— Não, engano seu! — disse Fabinho, coçando o pescoço e em seguida o queixo. — Eu vim aqui, na verdade, pra comprar uma flor pra uma menina que eu tô saindo aí. Perguntei por curiosidade.

— Ahã. — disse Giane, rindo. Ela não caiu na conversa dele...

Ele no fundo até a admirava por ela não se deixar manipular e não cair no papo dele, até porque ele não tinha muito respeito por gente otária que acreditava facilmente em qualquer um. O mundo era dos espertos. Mas ao mesmo tempo tinha raiva, pois ela sempre o provocava e o atrapalhava.

— É que eu achei estranho. O Bento namorando a irmã da Amora, né? — perguntou Fabinho, cutucando o queixo.

— Sabe o quê que você tem? — perguntou Giane.

— Hã?

— Eu vou te dizer o que você tem. — disse Giane. — O que você tem é dor de corno! É isso que você tem! — virou-se para o balcão. — Sempre teve!

Fabinho ficou irritado. Lá vinha Giane com esse papo de que ele tinha inveja do Bento. Mas ela não sabia quem ele era. Ele era filho do Plínio Campana, portanto, ele não tinha mais nenhum motivo para ter inveja de um reles florista sem eira nem beira. Ele conseguiria o afeto e a herança de Plínio, logo, não se sentiria mais inferior a ninguém. Ele seria conhecido, respeitado e admirado no país inteiro por ser herdeiro do grande cineasta, logo, não precisaria mais da aprovação da Casa Verde. Bento podia ser amado e admirado na Zona Norte, mas não no Brasil inteiro, até porque Fabinho não deixaria. Ele mostraria para todos, faria questão de falar para a mídia inteira que Bento não era grande coisa nem valia nada.

No ponto de vista de Fabinho, Bento podia ter estudado mais, ter progredido, aprendido línguas, viajado, saído dali, conseguido coisa melhor. Mas não, Bento escolhera continuar ali, vivendo na mediocridade, o que confirmava a visão de Fabinho de que ele era um otário. Fabinho não entendia como alguém como Bento podia ter algum valor no mundo dos famosos. Era apenas um florista que só ficou conhecido por conta da ligação com Malu, mais nada. Mas Fabinho não deixaria Bento usar Malu como passaporte para entrar no mundo da fama e provocar Amora. Fabinho chegou à conclusão de que só poderia ser esta a razão para Bento ficar aparecendo na mídia ao lado de Malu.

— Dor de corno do quê? — disse Fabinho, irritado. — Dessa banquinha de flor que vocês têm? Ou tenho dor de corno da... Da casinha que ele tem nos fundos? Ou tenho dor de corno da amizade que ele tem com os molequinhos de rua, que nem você?

Giane riu, virando-se para ele.

— Cara, você sempre teve inveja do Bento! Olha só, eu não sei se você lembra, mas eu vou te lembrar.

— Hã.

— Quando aquela mulher que te adotou foi lá no lar do tio Gilson, não era você que ela queria não, lembra? Era o Bento! — disse Giane. — Mas você fez charminho, se fez de coitadinho, aí ela te levou, né, cara?

Fabinho ficou furioso por Giane jogar novamente a história da adoção na cara dele. Era impressionante como a garota fazia de tudo para agredi-lo, metendo o dedo na ferida, atacando-o em um ponto fraco. Giane estava sempre lembrando-o da pior época da sua vida. Ela fazia questão de lembrá-lo da época do lar, e de que ele havia sido a segunda opção dos pais adotivos. Para Fabinho, ela era mesmo uma garota insuportável. Ele tinha ódio de Giane, pois ela não se importava de ofender e ferir os outros para defender o Bento. Ela sempre dava um jeito de diminuí-lo. Giane o destruiu por dentro quando ele era criança, mas para ela isso parecia não ser o suficiente. Ela sempre arranjava novas formas de atingi-lo. Fabinho via cada provocação de Giane como uma agressão pessoal.

— Você tá viajando, tá falando besteira. — disse Fabinho.

Giane falava a verdade. Ele havia feito de tudo para ser adotado pela Margot e pelo marido. Eles a princípio queriam adotar o Bento. Como Bento não quis ser adotado, Fabinho se aproveitou da situação, porque queria cair fora daquele lugar onde não se sentia querido. Fabinho não suportava mais viver no lar de adoção e queria ficar longe daquele ambiente, daquela gente que o tratava feito cão sarnento. Durante anos ele esperou a mãe de sangue vir buscá-lo, mas ela nunca vinha. Então ele fez de tudo para ser adotado. E é claro que adorou saber que os pais adotivos eram ricos. Ele gostava de grana. Quem não gostava? Na opinião de Fabinho, todo mundo gostava de dinheiro. A diferença era que ele não era hipócrita, e assumia que era ambicioso. Ele não iria sair do lar para viver em dificuldades. Fabinho quis ficar rico, e não sentia a menor culpa em lutar por aquilo que queria, usando as armas que conhecia.

A adoção foi para ele uma tentativa de ser aceito e amado, e de levar a vida que merecia, mesmo que não tenha dado muito certo, na visão dele. Ao mesmo tempo em que a adoção foi uma tentativa desesperada de encontrar afeto, também era um lembrete doloroso de sua orfandade. E a família acabou perdendo a fortuna, logo, ele não teve muita sorte.

— Não tô viajando, não. Não tô viajando não. — disse Giane.

— Tá sim. — disse o rapaz.

— Ó, eu me lembro muito bem, cara! A tua sorte é que o Bento não queria ser adotado. Senão era ele quem tinha ido lá com a tal da Margot.

— Aham. — disse Fabinho, sacudindo a cabeça, irônico.

— E agora, o que você quer? — provocou Giane. — É a namorada dele? É por isso que você quer saber se ele tá com a Malu, é isso?

No ponto de vista de Fabinho, Giane era uma mala sem alça. Fabinho jamais iria admitir, mas na infância ele tinha mesmo muita inveja de Bento. Ele se mordia de inveja do amor e da admiração que Bento despertava nas pessoas. Bento era o líder, o popular, o queridinho de todos. Ele era sempre o problemático, o rejeitado, o invisível. Ele não existia para as outras crianças. Nem para os adultos, a menos que ele resolvesse importunar o xodó de todo mundo. Era só assim que as pessoas notavam a existência dele, através do conflito. Todo mundo achava ou que ele não prestava, ou que era um poço de problemas. As crianças não queriam brincar com ele e só o toleravam por causa do Bento, que o chamava para participar das brincadeiras só para posar de bonzinho, e isso só fazia Fabinho se sentir ainda mais humilhado. Ele não queria depender de Bento para ser incluído nas brincadeiras. Isso para ele era uma forma de rejeição, porque quando Bento não estava presente, as crianças o deixavam de lado. Estava muito na cara que ele era apenas tolerado. Bento tinha muitos amigos, que o defendiam com unhas e dentes, enquanto ele não tinha nenhum amigo. Bento tinha a Amora e a Giane. Fabinho não tinha ninguém. Sempre foi sozinho. Giane não contava, porque ela nunca gostou dele.

A princípio, ele sentia que Giane tratava a ele e Bento de maneira desigual. Colocava Bento sempre à frente e ele em segundo plano. Bento era sempre a prioridade dela. Mas para Fabinho, a atenção de Giane era melhor do que nada, mesmo que ela não o colocasse em primeiro lugar. Além do mais, ele tinha esperanças de que com o tempo Giane gostasse mais dele. Fabinho acreditava que ela gostava um pouco dele, que ela era a única pessoa no lar de adoção a lhe dar afeto genuíno. Ele achava que ela o desafiar no futebol era uma forma de afeto. Como ele se sentia sempre sozinho, e era sempre rejeitado pelas outras crianças, a amizade de Giane era tudo para ele. Ele acreditava que tinha alguma importância para ela, até porque Giane lhe dava uma atenção que ninguém mais dava, e parecia gostar de sua companhia. Do contrário, ela não daria atenção alguma a ele. Giane parecia tratá-lo melhor do que as outras crianças. As outras crianças o ignoravam ou o aturavam por causa do Bento, Giane não. Ela brincava com ele sozinha, sem a necessidade de ter o Bento por perto. Tudo o que ele queria e precisava era que alguém se importasse com ele, se interessasse por ele. Fabinho acreditava que Giane era a única que talvez o entendesse, que falasse a mesma língua do desafio e das provocações. Acreditava que ela o via como alguém digno de afeto. Até Giane resolver ser cruel com ele. Ela destruiu a bola dele e não pediu desculpas, não se importando em magoá-lo e ainda o chamou de fresco. A partir daquele dia, Fabinho não se contentou mais com o segundo lugar.

Ao destruir sua bola de propósito, Giane mostrou o desprezo que tinha por ele. Ela gostava mesmo era do Bento e não escondia a preferência. Giane tinha uma devoção inabalável por aquele idiota. Ela era leal ao Bento de um jeito que nunca foi com ele. Giane vivia grudada naquele otário que nem carrapato, e estava sempre pronta para defendê-lo.

Fabinho morria de inveja da admiração e do amor que Giane por Bento. Ele sentia que nunca foi importante para Giane. Ele não significava nada para ela. O desprezo e a hostilidade com que ela o tratava só reforçava essa crença. Se ele a tratava mal, era porque acreditava que ela nunca o tratou bem. Por isso ele procurava se vingar dela, ser tão cruel com ela quanto ela foi com ele. Por causa dela, ele se fechou para o afeto e sempre desconfiava de pessoas que pareciam gostar dele. No raciocínio de Fabinho, se Giane o enganou, o traiu, por que outras pessoas não fariam o mesmo? Se nem Giane, que era a única pessoa que parecia se interessar por ele naquele lar de adoção, foi capaz de amá-lo de verdade, quem seria? Ele não deveria ter se apegado a ela. Deveria ter aprendido a lição quando foi abandonado pela mãe biológica: ele não era digno de amor e pronto. O episódio ocorrido com Giane na infância só confirmava essa crença.

Nem do amor de Margot ele tinha certeza, sempre teve dúvidas, morria de medo de que Margot não gostasse dele de verdade. Muitas vezes, ele acreditava que até mesmo o amor de Margot podia ser falso. Ele morria de medo de se apegar a uma pessoa e ser rejeitado. Ele não tinha nem certeza de que conseguiria conquistar o afeto de Plínio, pois estava difícil. Plínio não foi com a cara dele, desconfiava dele. Mas ele não iria desistir. Acreditava que havia uma chance, ainda que pequena, de fazer Plínio gostar dele. Assim que Plínio ficasse sabendo quem ele era e tudo o que ele passou, iria se compadecer dele, e lhe daria a vida que merecia. Ele provaria para Plínio que era uma vítima. Tudo o que ele precisava fazer era tirar Bento do caminho dele, pois Bento logo conquistou o carinho de Plínio e Malu, roubando todo o afeto que era para ser dele. E ele ainda encontraria Irene e conquistaria o afeto dela, nem que fosse através da culpa. Ela devia morrer de remorso e querer compensar o tempo perdido.

Contudo, Fabinho acreditava que agora que ele descobriu que era filho do Plínio, não teria mais razão alguma para ter inveja de Bento. Ele teria o afeto de sua família biológica. Ele ficaria rico e esqueceria que Giane existia, ela e toda aquela gentalha da Casa Verde, que nunca se importou com ele. Há muito tempo, desde quando foi adotado, ele decidiu esquecer, para sempre, o afeto que um dia sentiu por ela. Ele agora a desprezava. Para ele, Giane era pior do que todas as outras crianças do lar de adoção, porque elas pelo menos nunca fingiram gostar dele. Giane era uma falsa.

No entanto, o erro foi dele. Era tão carente que acabou se apegando a ela, e depositando nela todas as esperanças de ser amado e aceito. Ele viu nela a única chance de ter uma amiga de verdade e provar a si mesmo que era digno de afeto. Para ele, Giane era a salvação de sua solidão. Acabou dando a ela maior importância do que devia, só por ela ter dado uma migalha de atenção. Em um ambiente onde ele era amplamente rejeitado, muitas vezes ignorado, a atenção de Giane era como oásis num deserto. Mas ela acabou sendo a maior decepção de sua infância. Por isso agora ele pensava duas vezes antes de se apegar a alguém.

— Hum! Errou feio! — disse Fabinho, com um olhar de escárnio.

— Errei feio, é? Hã? — disse Giane, olhando para ele.

— Errou feio! Mas olha só, você é meu amigo de infância, né?

Giane riu. Certamente, porque não se considerava amiga dele.

— Então, eu vou te dar uma dica. — disse o rapaz.

— Hum.

— O dia que você ficar sabendo por quê que eu voltei pra São Paulo, você vai cair pra trás! — disse Fabinho.

— Hã! — disse Giane, ainda olhando para ele.

— Aí você vai saber quem tem que ter inveja de quem!

— Aham! — disse Giane, sem tirar os olhos dele.

— Tá bom? Um abraço. — disse Fabinho, despedindo-se.

— Ué, você não ia comprar flor pra tua mina? — perguntou Giane.

— Eu ia comprar flor pra minha mina, mas eu dei uma olhada aqui e achei tudo meia-boca! Mulher minha merece coisa fina! Tchau, Dione!

Fabinho dizia para si mesmo, em pensamento, que aquela garota que estava ali não era Giane, e sim outra pessoa e até a chamava por outro nome. Giane não existia para ele. O passado não existia para ele. Assim, ele fazia questão de deixar bem claro para Giane que ela não era impor-tante, que ela não significava absolutamente nada para ele. Ele não sentia a menor culpa em rejeitá-la. Ela nunca gostou dele mesmo.

— Palhaço! — disse Giane, rindo, vendo o rapaz ir embora.

Fabinho sabia que tinha de ir trabalhar, mas também sabia que estava encrencado. No dia anterior chegara muito atrasado, agora sumiu durante horas. Por isso tratou logo de arrumar uma boa desculpa para suas ausên-cias do trabalho. Assim que chegou na agência, foi direto para a sala de Natan, trazendo uma pasta, com uma pesquisa que fez. Natan chamou sua atenção:

— Dois dias seguidos sumindo no horário do expediente! Aí, já é demais, né, Fabinho? Infelizmente, eu vou ter que...

— Natan! — disse Fabinho, interrompendo-o. — Na verdade eu estava na rua fazendo uma pesquisa em relação ao retorno das campanhas. — entregou uma pasta para o chefe. — Dá uma olhada. Você vai gostar. A campanha da Scarpe Dolcetto está o maior sucesso popular.

— É? — disse Natan, pegando a pasta.

— É. — disse Fabinho.

— Hum, muito bem. — disse Natan, olhando para o conteúdo da pasta e largando-a sobre a mesa. — Mas, que não se repita mais. Até porque, pra fazer pesquisa, tem gente especializada.

Fabinho assentiu.

— Eu entendo você, Fabinho. — disse Natan. — Você tem fome. Mas vai com calma. Você ainda tem muito chão pela frente.

— É. Eu me adiantei. Eu sei. Peço perdão. — disse Fabinho.

— Tá bem. — disse Natan.

— Natan, e a história do filme? Vai rolar? É verdade? — disse Fabinho.

— Não sei. Eu tenho umas ideias aí, mas vamos ver. — disse Natan, sentando-se diante do computador.

— É muito interessante, né? — disse Fabinho. — Um comentário que eu fiz com a Bárbara Ellen acabou gerando tudo isso. Se rolar o filme, eu quero meu nome no agradecimento, hein?

Natan fechou a cara. O garoto era mesmo cara-de-pau. Ele nem havia começado a fazer o filme, e o garoto já pedia que colocasse o nome dele no agradecimento.

— Você está indo com muita sede ao pote. — disse Natan.

— É brincadeira, Natan. — disse Fabinho, constrangido.

— Melhor assim. Agora, pode ir. Aproveita e me chama o Érico.

— O Edu comentou que o Érico foi embora um tempo, já. — disse Fabinho.

— Olha, realmente, essa agência — disse Natan, virando-se e alte-rando a voz. — Está virando a casa da mãe Joana!

À noite, Fabinho foi visitar Bárbara Ellen, a convite dela. Era impor-tante se fazer de amiguinho, para assim conquistar a confiança da bruxa. Bárbara e Fabinho ficaram conversando no sofá da sala. Bárbara per-guntou:

— Quer dizer que o Natan resolveu mesmo se tornar cineasta?

— É. — disse Fabinho.

— E qual é o tema do filme? Ele já tem algum ator em mente?

— Não. Eu acho que, por enquanto, não tem nada decidido.

— Ah. E se eu estrelasse o filme? — perguntou Bárbara.

— Eu acho incrível. Seus fãs iam adorar te ver no cinema. — disse Fabinho.

Bárbara sorriu.

— Mas Bárbara, também talvez não seja... — disse Fabinho.

— Talvez não seja o quê? — disse Bárbara, interrompendo-o. — Pois saiba que eu fotografo lindamente! Na tela, eu aparento ter no máximo... 27 anos.

Fabinho riu.

— Não tenho dúvida, mas é que... É que você é uma atriz com calibre muito grande. Fazendo filmes de estreante?

Bárbara sorriu. Ela realmente se achava uma grande atriz, uma diva, e adorava elogios. Adorava que as pessoas puxassem o saco dela.

— Não sei, Bárbara, eu acho que o seu lugar é em Nova Iorque, filmando com Woody Allen, sabe? — disse Fabinho.

— Ah, eu me contentaria com Pedro Almodóvar. — disse Bárbara, rindo. — Sabe o que cabe a nós, atrizes de primeira grandeza? Apostar nos novos diretores, sabe? Porque, o que move o nosso ofício, mais do que tudo, é o exercício da generosidade.

Fabinho abriu as mãos e fechou-as em seguida.

— Não é à toa, né? Não é à toa que você chegou onde chegou. Generosidade com talento é uma combinação muito rara por aí.

— É por isso que eu quero ajudar o Natan nessa travessia. — disse Bárbara. — A minha presença no projeto vai atrair muitos patrocinadores.

Fabinho colocou a mão sobre a de Bárbara.

— Bárbara, eu tô torcendo muito pra essa união de vocês.

— Ah. — disse Bárbara, segurando as mãos do rapaz. — Então por quê que ao invés de só torcer, você não entra pro meu time nesse jogo?

— É sério isso? — perguntou Fabinho, sorrindo.

— Ahã. — disse Bárbara.

— Jogar no mesmo time de Bárbara Ellen é um prazer. — disse Fabi-nho.

O celular de Bárbara começou a tocar.

— Peraí. — disse Bárbara, antes de atender. — Alô? — Era Mari, secretária de Verônica, que lhe prestara um serviço e estava querendo saber do teste de novela que ela havia prometido. — Ah, é que o meu mordomo, ele está na Bolívia, mas assim que ele voltar, eu marco pra você, tá? Muito obrigada!

Bárbara desligou o celular.

— Ah! Desculpa! Onde é que nós estávamos mesmo?

— Você eu não sei. — disse Fabinho, pegando nas mãos de Bárbara. — Mas eu estava aos seus pés.

— Ah! — disse Bárbara, sorrindo, encantada.

Fabinho ficou um bom tempo conversando com Bárbara, até resolver ir embora.

— Tem certeza que você não quer ficar mesmo pro jantar? — perguntou Bárbara, com o braço entrelaçado ao dele.

— Não, eu adoraria, mas fica pra uma próxima. — disse Fabinho.

— Ah... — lamentou Bárbara.

— Olha, Bárbara, fica tranquila, que eu vou seguir atentamente as suas instruções. — disse Fabinho.

Bárbara havia pedido para ele conversar com Natan, inventar uma história, dizer que ela havia sido convidada para estrelar um filme de outro diretor. Bárbara pretendia fazer Natan morder a isca. Certamente, Natan morreria de inveja, confiaria no trabalho dela, uma vez que foi chamada por um diretor famoso, e a convidaria para estrelar o filme dele. Bárbara queria estimular a vaidade de Natan e ajudá-lo na carreira de cineasta.

— Ai, que ótimo! — disse Bárbara.

Neste momento, Madá apareceu na sala, levando um prato com sanduíche.

— Gente, esse sanduíche está maravilhoso! — disse Madá, olhando para Fabinho e achando-o atraente. Dirigiu-se à Bárbara. — Quem é? Cacho novo, né? Tu é rápida no gatilho, Conceição! Mal enterrou um garotão, tu já está com outro?

Madá achou o garoto muito bonito e charmoso. Fabinho, por sua vez, achou divertido Madá chamar a filha pelo nome de batismo. Bárbara de-testava ser chamada de Conceição, pois não era glamouroso.

— Fabinho, desculpa. — disse Bárbara, envergonhada. Apresentou-o à senhora. — Essa é a tia Madá.

— Mentira, Fabinho! Eu não sou tia dela, não, eu sou mãe dela. — disse Madá.

Fabinho achou que Madá estava inteira ainda, melhor do que muita mulher na idade dela. Ele não era chegado em mulheres com idade para serem avó dele, mas deu para ver que a velha cuidava da aparência. Na certa, fizera um monte de plásticas. Nem parecia mãe da Bárbara, e sim irmã dela. E pelo visto, Madá não tinha mesmo papas na língua.

— Não! Mãe de criação! De criação! — disse Bárbara.

— Mãe! Mãe! — disse Madá.

— É que é uma longa, triste história. — disse Bárbara. — Outra hora, com calma, eu te conto.

— Fabinho, você é um pãozinho quente, hein! — elogiou Madá.

Fabinho ficou constrangido.

— Se eu tivesse uns 10 anos a menos, ah, não escapava! — disse Madá. — Eu ia passar uma manteiguinha, uma geleinha e ia te comer no café da manhã! Pena que eu sou diabética e não ando com o colesterol muito bom, não.

Fabinho ficou morrendo de vergonha. Bárbara, furiosa, disse:

— Escuta aqui, você está querendo constranger o rapaz? Ele é um amigo da família!

— E um admirador devoto também da Bárbara. — disse Fabinho.

— Então, é um trouxa. É trouxa. — disse Madá. — Você é gostoso, bonito que nem pão quente, mas é trouxa, meu filho. Desculpa. É um trouxinha. Se eu abrir a boca pra falar da vida dessa aí...

Então a mãe da perua sabia dos podres dela? Fabinho achou que seria interessante conversar com Madá sobre isso.

— Chega! — disse Bárbara. — Chega. Chega.

Bárbara dirigiu-se a Fabinho.

— Agora, Fabinho, por favor, acho que é melhor você ir embora que, como deu pra perceber, é uma situação realmente, muito delicada, de família. Hã? Volta outra hora, está bem?

— Tá bom. — disse Fabinho, beijando a mão de Bárbara. Dirigiu-se à Madá. — Olha, foi um grande prazer, tá?

— Foi, é? Tu não ouviu ainda, da missa, a metade. — disse Madá.

Fabinho riu, acenou e andou em direção à saída. Ao abrir a porta, olhou para trás e percebeu que Madá estava olhando para a bunda dele.