Um amor improvável
46 Oferta de trabalho na Crash Mídia
À noite, Margot veio jantar na casa de Giane e Silvério. Conversaram a respeito da mudança. Margot já havia se mudado para a casa que era da Charlene, e Fabinho também passaria a morar lá. Só que a casa ainda não estava completa. Faltavam vários móveis.
— Os móveis devem chegar amanhã. — disse Margot.
— Ah, pode deixar, Margot, eu vou ajudar você a descarregar, tá? — disse Silvério.
— Eu posso te ajudar também. — Giane ofereceu-se.
— Eu tenho que passar no fórum amanhã, por causa do processo, mas quando acabar, eu volto e ajudo. — disse Fabinho.
Ele estava respondendo a vários processos por roubo, suborno, destruição de patrimônio e tentativa de homicídio.
— Meu Deus, como eu fico feliz de te ver tão bem. — disse Margot.
Margot estava contente por ver o que o filho estava tomando juízo. Era tudo o que ela pediu a Deus. Rezou tanto! Suas preces foram atendidas. Deus havia colocado pessoas boas na vida de Fabinho.
— Hum, vai começar! — disse Fabinho, sem jeito.
— Gente, obrigada por terem ajudado o Fabinho a mudar pra melhor. — disse Margot.
Fabinho ficou morrendo de vergonha. A mãe não precisava fazer cena.
— Ela sempre cai na pieguice, estou falando sério! — disse Fabinho, olhando para Giane.
— Para! — disse Giane.
Neste momento, ouviram o som de um carro se aproximando.
— Quem será que está chegando? — perguntou Giane, levantando-se da mesa. — Deixa eu ver, peraí.
Giane foi olhar na janela e viu que havia um táxi parado na frente.
— Ué? — disse Giane.
Ela viu Bento e Amora descerem do táxi.
— O Bento e a Amora não iam chegar só semana que vem? — perguntou Giane.
— Ué, você está preocupada com alguma coisa? — perguntou Fabinho.
— Com o Bento! Mas seja o que Deus quiser. — disse Giane.
Fabinho sabia por que Giane estava tão preocupada com Bento. Ela, Malu e Madá haviam levado os sapatos da Amora para a casa dele. Bento iria descobrir toda a farsa. Ficaria decepcionado ao saber que Amora não vendeu nenhum sapato, que ela enganou todo mundo. De qualquer maneira, Fabinho não estava nem aí. Não era problema dele.
Um pouco mais tarde, Fabinho foi ver onde Giane estava. Imaginou que ela tivesse ido até a casa do Bento, só para ouvir a briga do casal. Foi até lá. E realmente encontrou Giane no quintal da casa do Bento. Bento e Amora estavam tendo uma briga feia, e dava para ouvir do lado de fora.
— Você foi criado de forma humilde. Mas isso não quer dizer que você tem que continuar assim pro resto da sua vida! — disse Amora.
— Coisa feia, hein? — disse Fabinho, atrás de Giane.
A garota assustou-se.
— Shiu. Feia tá a coisa aí dentro. — disse Giane.
— Com a sua ajuda, aposto, né? — disse Fabinho.
Para Fabinho era evidente que Bento e Amora estavam brigando por causa dos sapatos.
— Cedo ou tarde, a coisa ia feder mesmo. Eu e a Malu só demos uma ajudinha pra ferrar com a entojada. — disse Giane.
— Vem cá, tem nada que ficar aqui, né? Vambora! — disse Fabinho. — Vambora, vamos pra tua casa, vambora!
Como viu que Giane não saía do lugar, Fabinho puxou-a pelos ombros.
— Ai! — protestou Giane, dando uns tapas nele.
— Vambora, garota! — disse Fabinho.
Deram uma passada na casa dela. Depois foram para a casa de Fabinho. A casa ainda estava uma bagunça. Muitas coisas ainda estavam nas caixas. Estava tudo desarrumado.
— Aqui, olha, o antibiótico que você esqueceu. — disse Giane, entregando a cartela com o remédio a ele. — Tem que tomar de oito em oito horas, Fabinho. Não pode esquecer. Você tomou o de hoje?
— Como? Não tava aqui. — disse Fabinho.
— Fabinho, isso é coisa séria! Não pode esquecer! — disse Giane.
— Se você fosse minha amiga mesmo, tinha lembrado pra mim. — disse Fabinho, carente.
Giane sorriu.
— Mas você só quer saber do Bento. — disse Fabinho.
— Ah, para de falar besteira. — disse Giane, sorridente.
— Besteira? Estava na porta da casa do cara agora ouvindo briga dele com a mulher. Isso é papel que se faça, Giane? Tá doida. — disse Fabinho.
Giane havia se levantado da mesa de centro, onde estava sentada. Ficou furiosa.
— Eu só queria ver a justiça sendo feita. — disse Giane, irritada. — E você? Não pode falar nada de mim, não, garoto! Tu não lembra, não? Invadiu a estufa do Bento só pra quebrar tudo. Hã, vem falar de mim...
— Você vai jogar isso na minha cara? — disse Fabinho, chateado.
— Olha só, Fabinho, você tem que procurar o Bento e pedir desculpas.
Para Fabinho era difícil pedir desculpas. Para ele, ainda era difícil olhar para o Bento, ainda mais depois de ser acusado de tentar matá-lo. E não estava preparado para enfrentar a fúria, a revolta do Bento, que com certeza o encheria de porrada, chamaria a polícia e o botaria na cadeia. Ele dissera que não fugiria de mais ninguém. Mas falar era fácil, difícil era fazer. Não suportaria ficar na cadeia. Se toda a vizinhança já olhava torto para ele, bem podia imaginar a reação do Bento. Seria a pior possível. Bento iria querer matá-lo. Por mais metido a paz e amor que o Bento fosse, certamente ele perderia as estribeiras e teria uma reação violenta. Qualquer um no lugar dele teria. Afinal, Bento podia ter morrido no incêndio e achava que ele, Fabinho, era o responsável. Mas apanhar seria o de menos. Pior seria ser preso. Seria mentira dizer que ele estava adorando a ideia de ir para a cadeia, ainda mais por um crime que não cometeu. Não, nem pensar em procurar o Bento nestas circunstâncias.
— Ah, ótimo! Aí, ele chama a polícia e me bota na cadeia. — disse Fabinho. — Você esqueceu que ele acha que eu taquei fogo na Toca?
— Mais um motivo para eu ouvir aquela conversa. — disse Giane. — O Bento tem que saber a boa bisca com quem ele casou.
— Isso é problema dele, Giane. — disse Fabinho.
Fabinho achava que Giane devia deixar para lá. Será que Giane agora iria viver em função de desmascarar Amora? Ela já havia alertado várias vezes, mas o Bento não deu ouvidos e casou com a víbora. Bento nunca ouvia as pessoas, ele sempre caía na conversa da Amora. Será que Giane não se cansava? Já era para ela ter desistido. Bento era um otário, não enxergava um palmo na frente do nariz. Por que não o deixavam descobrir por si mesmo? Não adiantava ficar batendo de frente com Amora. Ela sempre conseguia dar a volta em todo mundo. Amora usava em seu favor a raiva que a Malu tinha dela, a paixão da Giane pelo Bento e a fama dele,
Fabinho. Assim, cada vez que era acusada de algum crime, Amora distorcia tudo, se fazia de vítima para o Bento e a Malu e a Giane saíam de vilãs. Ele, Fabinho, também. Além disso, Bento escolheu em quem acreditar. Giane devia gostar muito do Bento ainda. Só mesmo estando muito apaixonada para insistir em querer abrir os olhos daquele otário.
— Não, Fabinho. Não é assim, não. — disse Giane. — Quando a gente gosta de uma pessoa e ela tá com problema, a gente tem o dever de alertar. Mas você não sabe, né? Porque você nunca gostou de ninguém. Você nunca amou ninguém, você não se importa com ninguém. Como é que você ia saber, né? Ah, fica me criticando! Palhaçada!
A rispidez de Giane deixou Fabinho chateado. Não era verdade que ele nunca amou nem se importou com ninguém. Além do mais, a questão não era essa. A questão era que ela já alertou várias vezes e Bento não deu ouvidos. Giane devia se tocar que ela não tinha controle sobre a vida do Bento, nem iria poder ficar protegendo-o para sempre. Não tinha como ela impedi-lo de sofrer. Por que ela não deixava o Bento se ferrar? Deixasse ele quebrar a cara. Assim quem sabe ele deixava de ser otário. Bento caía nas armações da Amora porque queria. Porque era dela que ele gostava, e porque era burro, um tonto manipulável.
— Você vai sair daqui assim falando comigo? Vai falar assim comigo? — disse Fabinho.
Margot entrou na sala neste momento.
— Ô Giane! — disse Fabinho, porém, Giane não deu ouvidos. Saiu batendo a porta. Foi embora.
— Ô Giane! — disse Fabinho.
— O quê que foi? Vocês brigaram? — perguntou Margot, entrando na sala.
— Essa menina, cara. Não sabe conversar. Ataca as pessoas. Ignorante, cara. — disse Fabinho.
No dia seguinte, Fabinho foi ajudar Giane com as flores.
— Vambora, Fabinho. Vamos trabalhar. Essa aqui é a última. — disse Giane, entregando uma caixa com flores a ele. Dirigiu-se a Gilson. — Oi, tio Gilson! Tudo bem?
Gilson assentiu.
— Tio, tá tudo bem com o Bento? — perguntou Giane. — Soube que rolou o maior quebra-pau ontem.
— Do que você tá falando, Giane? — perguntou Gilson.
Ele sabia que Bento e Amora haviam chegado da lua-de-mel, e que tinham brigado. Socorro havia contado. Ela também contou que viu os sapatos da Amora espalhados pela casa. Gilson e Salma concluíram que Bento e Amora brigaram por causa dos sapatos. E que Amora enganou todo mundo, não vendeu nenhum sapato. Gilson ainda não tinha falando com Bento, nem o viu. Mas pelo visto, Giane já estava sabendo que Bento havia voltado. De que quebra-pau Giane estava falando? Como Giane ficou sabendo da briga? Será que ela viu ou ouviu Bento e Amora brigando? Ou alguém contou para ela? Será que ela tinha alguma coisa a ver com a briga de Bento e Amora, como Socorro suspeitava? Será que foram mesmo ela e a Malu que trouxeram os sapatos da Amora e deixaram na casa do Bento?
Socorro estava por perto, e estava furiosa com Giane. Giane e Malu aprontaram para Amora, e por conta disto, Amora e Bento brigaram. Ela havia passado na casa do Bento no dia anterior. Notou o clima péssimo e viu que os sapatos da Amora estavam espalhados pela casa. Chegou à conclusão de que Malu e Giane trouxeram os sapatos e deixaram na casa do Bento. Ela viu Madá, Malu e Giane tirando um monte de caixas da van e colocando dentro da casa do Bento. Socorro acreditava que Malu havia comprado os sapatos de volta, e ela, Giane e Madá levaram para a casa do Bento só para prejudicar Amora. Na opinião de Socorro, Malu e Giane eram umas invejosas que faziam de tudo para destruir Amora.
— Da inveja que essa aí e a Malu têm da Amora. — disse Socorro, apontando para Giane. — Olha aqui, se vocês estão pensando que vocês vão conseguir destruir a Amora, vocês se preparem, porque ela continua poderosa... — bateu no peito. — E eu tô aqui pra ajudar!
— Ai! — disse Giane, irônica, colocando a mão no peito.
— Por que você defende tanto a Amora, hein, garota? O quê que ela te deu? — perguntou Fabinho.
Na opinião de Fabinho, Socorro era digna de pena. Era uma puxa-saco que lambia o chão onde Amora pisava, mas Amora não estava nem aí para ela.
— Olha aqui, eu não falo com marginal, não. — disse Socorro.
— E a gente não fala com capacho. — disse Giane. — Vambora, Fabinho. Vambora trabalhar. Estamos atrasados.
Giane fechou as portas traseiras da van, e Fabinho a ajudou.
— Tchau, tio! Valeu! — disse Giane, despedindo-se.
— Tchau! — disse Gilson.
Foram direto para a loja e começaram a trabalhar. Porém, a harmonia não durou muito tempo. Porque logo Bento chegou na loja. Fabinho estava procurando por um material, e foi falar com Giane.
— Giane, onde é que fica o... — disse Fabinho, porém, acabou se deparando com Bento, que fechou a cara imediatamente.
Bento não conseguia entender o que o canalha do Fabinho veio fazer em sua loja. Ele não entendia como aquele assassino teve coragem de botar os pés em sua loja, depois do que fez.
— O quê que esse cara tá fazendo aqui? — perguntou Bento, furioso. — Dê o fora daqui, Fabinho, antes que eu quebre essa tua cara!
— Eu estou trabalhando aqui, cara. — disse Fabinho, calmo. — Na boa, eu tô ajudando a Giane.
— Bento, é verdade. Fui eu que trouxe ele pra cá, pra me ajudar. — disse Giane.
Bento não conseguia entender como Giane teve coragem de botar aquele marginal, aquele incendiário na loja. Acreditava que Fabinho havia tentado matá-lo. Giane não estava batendo bem da cabeça. Se Fabinho botou fogo na Toca, era bem capaz de incendiar a loja também.
— Por quê, Giane? Você ficou louca? — disse Bento. — Pra ele botar fogo aqui, igual ele botou na Toca?
— Eu não taquei fogo na Toca do Saci! — protestou Fabinho.
— Como não? Você tentou me matar! — gritou Bento, dando-lhe um soco no queixo e derrubando-o no chão.
— Bento, para com isso, cara! — disse Giane, puxando-o. — Não foi o Fabinho. Foi a Amora.
Bento não podia acreditar que Giane continuava acusando Amora. A raiva que Giane tinha da Amora estava passando dos limites. Amora seria incapaz de tacar fogo na Toca do Saci. Ela não teria por que fazer isso. Não havia motivo. Ela não teria por que bancar a heroína. Ele tinha certeza do amor dela por ele. Amora não precisava dar provas de amor. No ponto de vista de Bento, isso era coisa do Fabinho. Fabinho que era o bandido desta história. Fabinho tacou fogo na Toca para se vingar dele, Bento, e da Malu. Porque antes do incêndio, ele e Fabinho brigaram. E Malu chamou a atenção de Fabinho na frente de todo mundo. Ele viu Fabinho com o fósforo aceso na mão. Giane só podia estar maluca.
No dia anterior, ele e Amora haviam brigado porque ele descobriu que Amora não havia vendido nenhum sapato. Haviam acabado de chegar da lua-de-mel, quando viram um monte de sapatos espalhados pela sala. Ele reconheceu os sapatos da Amora, e ela não teve outra saída, a não ser confessar.
E ela finalmente disse tudo o que realmente pensava, o que sentia, o que queria. Amora não mudou nada. Aquele papo de que ela era outra pessoa, de que iria dar um novo rumo para a vida dela, abrir mão da fama, da riqueza, era tudo mentira, tudo da boca para fora. Amora jogou na cara dele que fez muitos sacrifícios por ele, que abriu mão de tudo o que gostava, do trabalho dela, dos amigos dela para ficar com ele, para se tornar a Amora que ele desejava que ela fosse. Ela fez tudo para agradá-lo, para impressioná-lo, forçá-lo a se casar com ela. Amora reclamou que a única que estava abrindo mão das coisas era ela. E deixou claro que esperava que ele botasse a mão na sua parte da herança.
Ou seja, Amora não havia se casado com ele para levar vida simples. Bento havia se dado conta de que o casamento havia começado de um jeito errado e não tinha como dar certo. Amora o enganou, mentiu para ele, e ele pretendia se separar. Mas daí a achar que ela seria capaz de colocar a vida dele em risco só para impressioná-lo, para posar de heroína, já era demais. Uma coisa era Amora inventar um monte de mentiras para agradá-lo, para não contrariá-lo. Outra coisa completamente diferente era botar fogo na Toca com ele dentro.
Ele não sabia mais o que sentia por Amora depois de tudo o que descobriu, mas tinha certeza do amor de Amora por ele. Ela ficou desesperada quando ele falou em separação. Implorou para ele não deixá-la. Se Amora o amava, não arriscaria a vida dele. Quando eram crianças, ela sempre cuidava dos machucados dele. Além do mais, ele viu Fabinho com o fósforo aceso na mão, prestes a atear fogo na Toca.
— Quem foi que te disse isso, foi ele? — perguntou Bento, apontando na direção de Fabinho.
— Sou eu que tô dizendo. Quem botou fogo na Toca do Saci, foi a Amora. — disse Giane.
— Bento, se você não acredita em mim, ouve a tua sócia. — disse Fabinho, saindo de trás do balcão. — Fala pra ele, Giane, quem tacou fogo lá, foi a Amora.
— Cala a boca, seu moleque! Eu sei que foi você, eu vi! — gritou Bento.
— Viu como, estava desacordado? — perguntou Fabinho.
— Por tua culpa! Você botou fogo na Toca, comigo dentro. — disse Bento.
— Não botei, eu ia botar fogo. Porque aquele dia, eu me senti humilhado, eu tava com raiva de tudo. Mas aí, eu te vi lá desacordado e desisti. E mandei uma mensagem pra Malu, pra ela ir lá te ajudar e fui embora. — disse Fabinho.
Bento não acreditou. Em seu ponto de vista, Fabinho estava inventando história para se safar. Fabinho era incapaz de se arrepender. Incapaz de fazer algo bom. Se ele estivesse arrependido, confessaria. Mas ele continuava negando e botando a culpa na Amora.
— Você acha que eu vou acreditar nessa tua historinha, depois de tudo o que você aprontou, moleque? — perguntou Bento.
— Eu não vou discutir com você, não. — disse Fabinho, afastando-se, andando em direção à saída.
— Volta aqui, Fabinho, pra eu poder te matar, cara! — gritou Bento.
— Bento, para! É sério, foi a Amora, cara! — disse Giane, impedindo-o de ir atrás de Fabinho. — Ela te viu lá, desmaiado e botou fogo pra sair de santa heroína, você não percebe?
— Eu não tô acreditando que você caiu no papo desse cara. — disse Bento.
— Eu não caí, nada. Ele só me disse que não foi ele que botou fogo na Toca. Ele nem viu a Amora lá. Eu e a Malu, que deduzimos. — disse Giane.
— Então, vocês estão loucas, as duas. — disse Bento. Dirigiu-se a Fabinho, foi logo empurrando-o, pegando-o pelo colarinho. — Dê o fora daqui, Fabinho! Dê o fora daqui, antes que eu acabe com a tua raça.
— Bento, o Fabinho não é santo, mas você está sendo injusto. — disse Giane.
— Bem, ele vai perceber que tá errado. — disse Fabinho, empurrando Bento.
— Perceber é o escambau! — gritou Bento. — Some daqui, Fabinho! Você vai apodrecer na cadeia, seu assassino!
Fabinho foi embora. Estava chateado, mas sabia que não duraria muito nesse emprego. De qualquer forma, ele estava lá só para ajudar Giane. Era de se esperar que Bento o botasse na rua. Ficou preocupado, pois Bento ameaçou botá-lo na cadeia. Não suportaria ficar na cadeia. Se bem que Malu e Giane não permitiriam que Bento o denunciasse. Irene também não. Além do mais, Bento não tinha provas suficientes contra ele. Bento não podia dizer que o viu tacar fogo na Toca, pois estava desmaiado. A ONG era da Malu e ela não prestou queixa até então. Justamente porque não queria que ele fosse acusado. Malu achava que era Amora, mas também não tinha prova alguma contra ela. Além disso, Bento não iria querer prejudicar Giane e Silvério, que o haviam escondido. Silvério e Giane haviam agido contra a lei, escondendo um criminoso.
Fabinho foi andando pela rua, pela praça, com a cabeça cheia de pensamentos, quando uma confusão chamou sua atenção. Serjão, ou Mulher Pau de Jacu, carregava Tina no colo, impedindo-a de avançar em direção à Bárbara Ellen.
Bárbara e Tina tinham uma rivalidade antiga. No passado, Bárbara havia abandonado Vitinho no altar, e ele ficou tão traumatizado que abandonou várias noivas, incluindo Tina. Tina também havia sido fã de Bárbara no passado, e havia sido destratada por ela. Tina até foi trabalhar na casa de Bárbara para se vingar. Depois de armar bastante contra Bárbara, demitiu-se e agora trabalhava na Crash Mídia como secretária. E Tina estava morando na Casa Verde. Mas pelo visto, Tina ainda tinha raiva de Bárbara.
— Me salva, Serjão! Me salva dessa louca! — gritou Bárbara.
— Ô Tina, você já foi à forra, para com isso! — disse Serjão.
— Não! — disse Tina, debatendo-se. — A minha... A minha vingança é inextinguível! Conhece essa palavra, canastrona? Inextinguível? Vem cá, vem cá!
Fabinho resolveu apartar a briga. Continuava desprezando Bárbara, mas achava que se vingar dela era perda de tempo. Ela que se ferrasse sozinha. Tina devia era cuidar da própria vida em vez de perder tempo e energia com a bruxa. Até porque Bárbara não valia o esforço.
— Vem cá, vamos parar com essa bagunça, desce, desce, desce, desce. — disse Fabinho, fazendo com que Serjão botasse Tina no chão. Segurou-a.
— Meu Deus! Fabinho! Você?! Ah, não acredito! — disse Bárbara. — Quanto eu mais rezo, mais... Mais fantasma me aparece! Não!
Serjão foi para o lado de Bárbara.
— Não, não é verdade não, Bárbara, eu moro aqui. Você que cruzou o Tietê pra vir assombrar a gente. Vambora, Tina! — disse Fabinho.
— Coitada da minha filha! Cercada de marginais e de maníacos! — disse Bárbara.
Fabinho juntou a bolsa da Tina e tentou tirá-la dali, porém, Tina continuava avançando para Bárbara:
— Pega a sua filha, a sua it-vácara e tira daqui! Eu vou unhar a cara dessa...
— Não, não vai unhar nada! — disse Bárbara, apavorada.
— Não, não, não, não, não, vambora, vambora! — disse Fabinho, pegando no braço de Tina e dirigindo-se a Bárbara. — Vai embora, vai embora, vai embora!
— Vem cá, vem! Vem, vou te matar! — disse Tina para Bárbara.
— Vambora, pelo amor de Deus! — disse Fabinho.
Acabou levando Tina até a Crash Mídia.
— Você é louca? Aqui, ó. — disse Fabinho, entregando um copo d’água para ela. — Vai atacar a Bárbara no meio da rua? — apoiou-se na mesa.
Tina bebeu um copo d’água e colocou sobre a mesa. Levantou-se da cadeira. Estava surpresa. Nunca pensou que veria Fabinho impedi-la de se vingar da Bárbara, atacando-a no meio da rua. Fabinho tinha ódio de Bárbara, fez de tudo para destruí-la, acabar com a vida dela.
— O que aconteceu? Virou santinho agora, você? Armou mil e umas pra Bárbara e pra Amora. — disse Tina, cruzando os braços.
Ele não virou santo, apenas não queria mais gastar seu tempo com Bárbara e Amora. Elas não mereciam a raiva, nem o amor dele, nada.
— Eu era burro. Essas aí vão acabar se fritando sozinhas. — disse Fabinho. — Não tem que se desgastar com esse tipo de gente, não.
— O que aconteceu com você, hein? — disse Tina. — Tomou chá cantonês? Virou zen? O quê que foi?
— Não, eu cresci. — disse Fabinho. — Você tem quantos anos? Dez?
— Quinze. — disse Tina.
— Quinze? — disse Fabinho.
— Quinze, se você quiser. Você gosta de ninfeta? Quinze. — disse Tina, rindo, apontando para ele. Fabinho riu também. — Você tá tão diferente! Nossa, tá com uma energia mais madura, assim mais homem, mais legal. — abriu os braços. — Troca essa energia comigo, me dá um abraço.
Júlia, que acabou de chegar junto com Sílvia, disse:
— Ô Fabinho, ó, não cai nessa daí, não, viu? Porque você abraça... — uniu as mãos. — Essa maluca aí gruda e você nunca mais se livra.
Pelo visto, Júlia não estava mais trabalhando na Class Mídia.
— Maluca é tua mãe! — disse Tina, furiosa. — Sai daqui, urubu amarelo! Vaza, vodu!
— Bom, gente, eu tô indo embora. — disse Fabinho.
— Peraí, Fabinho! — disse Sílvia. — Sabia que você é muito bom?
Ela e Érico sabiam do histórico de Fabinho. Mas ainda assim, haviam decidido dar uma chance a ele. O garoto era um babaca, um mau-caráter, porém era talentoso, havia criado um slogan excelente, e parecia que pretendia se esforçar para se tornar uma pessoa melhor. Havia parado de aprontar. Quanto ao incêndio da Toca do Saci, Fabinho dizia ser inocente e Malu acreditava na inocência dele, pois nem deu queixa, nem envolveu a polícia na história. E não havia provas contra ele. Se Malu acreditava nele, então Érico e Sílvia estavam dispostos a dar um crédito ao rapaz.
— Ah, é? — disse Fabinho.
— O Érico adorou seu slogan. — disse Sílvia.
— Que bom, legal. Até mais. — disse Fabinho.
— Espera! Deixa eu falar com você. — disse Sílvia. — Você tá trabalhando aonde?
— Em lugar nenhum. Perdi meu emprego meia hora atrás. — disse Fabinho.
— Não quer trabalhar com a gente? Pensa nisso. Pensa! — disse Sílvia.
Fabinho acabou não aceitando. Achou que não tinha como trabalhar com Érico, depois do que fez com ele. Ele, Fabinho, havia feito a cabeça de Natan para demitir o Érico. Além disso, não queria que pensassem que ele havia sugerido o slogan por interesse. Acabou passando no fórum. Mais tarde, na hora do almoço, encontrou-se com Giane na casa dela, e contou que Sílvia ofereceu emprego, mas que ele recusou.
— Como assim, não aceitou? — perguntou Giane.
— Eu trabalhando na agência do Érico, você tá louca? — perguntou Fabinho.
— Mas se a Sílvia te convidou, é porque ela sabe que você é bom.
— Sim, mas o Érico volta e me bota na rua. — disse Fabinho.
— Mas é claro que não. A Sílvia não ia te convidar se o Érico não tivesse a favor. — disse Giane.
O rapaz abanou a cabeça. Giane tentava convencê-lo:
— Larga de orgulho besta, Fabinho. Sua frase é ótima. Vai ser o slogan da campanha.
— E daí? Essa frase não ficou nada demais. Pode falar pra eles que eu dou o direito autoral. — disse Fabinho.
— Fabinho. — disse Giane, levantando-se do sofá. — Você vai aceitar essa parada. Ou então vou...
— Ou então o quê, Giane? — perguntou Fabinho, levantando-se do sofá.
— Ou então, eu furo a sua bola, e deixo de ser sua amiga!
Fabinho não queria perder a amizade de Giane. Era a única amiga que ele tinha. Ela salvou sua vida, cuidou dele e estendeu a mão quando todos viraram as costas para ele. Era uma das poucas pessoas que acreditavam nele. Resolveu ir à Crash Mídia. Acabou pensando melhor e achando que Giane tinha razão. Não custava nada aceitar a oferta de Sílvia. Até porque não estava nada fácil conseguir um emprego. Decidiu que desta vez iria agir de maneira diferente. Não mentiria, não armaria, não iria bajular ninguém, nem compraria diploma falso. À essa altura, não tinha mais diploma nenhum para apresentar, fosse falso ou verdadeiro. Ele havia jogado fora aquele diploma falsificado, pois na época nem pensava em continuar trabalhando na publicidade. Tudo o que queria era viver do dinheiro de Plínio, nada mais o interessava. Mesmo se ainda tivesse aquele diploma, não usaria. Mas não havia problema. Se Érico perguntasse, ele diria a verdade, que não tinha diploma. Érico não exigiria diploma algum. Na publicidade, ter um diploma é recomendável, mas não é obrigatório. E se Érico estava disposto a dar uma chance a ele, não o mandaria para a cadeia, até porque não teria como provar que ele tinha diploma falso. Fabinho estava disposto a melhorar, e se esforçaria para levar o trabalho a sério. Não iria brincar em serviço. Quando Fabinho chegou à Crash Mídia, Sílvia e toda a equipe estava lá, com exceção de Érico.
— Oi. — Fabinho cumprimentou, assim que entrou.
Sílvia e Júlia tiraram os olhos da pasta e olharam para ele. Júlia havia saído da Class Mídia e agora trabalhava na agência do Érico.
— Ainda está de pé, o convite pra trabalhar aqui? — perguntou Fabinho.
— Como é que é? — perguntou Maurício, espantado. Sílvia estendeu a mão para Fabinho, apertando-a.
— Seja bem-vindo à nossa equipe, Fabinho! — disse Sílvia.
— E bota bem-vindo nisso. — disse Tina, passando a mão no rosto e no peito de Fabinho.
— Ô Sílvia, você tá maluca, pirou? — disse Maurício, indignado.
— Ao contrário, Maurício, eu já tinha reparado no talento do Fabinho, lá na Class Mídia. — disse Sílvia. Ela havia notado que o garoto era inteligente, esperto, criativo, apesar de folgado. E mesmo quando saiu da Class Mídia, não perdeu o contato com Natan, que vivia pedindo a ela para voltar a trabalhar lá. Ela sempre se recusou. Natan vivia elogiando Fabinho.
— Ah! — disse Maurício, irônico.
Fabinho percebeu que Maurício ainda guardava rancor. Achou que era uma boa hora para pedir desculpas por ter difamado ele e a Amora. Arrependia-se de ter feito isso. Amora não valia nada, mas Fabinho agora achava que não devia ter perdido tempo se vingando dela, escrevendo um blog para detoná-la, instruindo a Mel a caluniá-la ainda mais. E tudo porque ela o havia rejeitado. Foi melhor ela não ter aceitado seu pedido de casamento. Seria um erro casar com ela, ainda mais usando de chantagem. Até porque ele estava cansado de saber que nem gostava de Amora de verdade, e foi apenas por orgulho ferido que ele espalhou calúnias contra ela. E achava que Amora não servia para homem nenhum. E o pior é que acabou atingindo Maurício.
— Maurício, vamos zerar essa história e começar uma parceria, hein? — disse Fabinho, aproximando-se e estendendo a mão para Maurício.
— Eu não aperto a mão de marginal, não. — disse Maurício.
Maurício não confiava no caráter de Fabinho, e não acreditava na mudança dele. Fabinho não o enganava. Só podia estar aprontando alguma.
Ninguém mudava de um dia para o outro. Maurício não conseguia entender como Malu ainda protegia e defendia Fabinho.
Ele achava que Fabinho era pior que Amora. Fabinho quase matou uma pessoa e botou a própria mãe na cadeia, Amora não. Maurício já estava sabendo da história do bazar, que era tudo uma farsa. Malu estava furiosa, revoltada com Amora, que havia enganado todo mundo. Já Maurício morria de pena da Amora. No ponto de vista dele, Amora era uma garota traumatizada. A maior prova disso era que ela fez de tudo para proteger os sapatos, não quis vendê-los de jeito nenhum. Ele sabia que ela usou um meio sórdido para proteger os sapatos. Mas ela havia feito isso por causa do trauma. Maurício achava Amora uma coitada, pois ela havia morado na rua, passado fome, frio, sofrido todo tipo de violência. Já Malu não tinha pena da Amora, pois achava que nada justificava as canalhices dela, ela ter feito todo mundo de idiota. No ponto de vista de Malu, trauma se resolvia na terapia, não armando um bazar fake para posar de boazinha, enganando as pessoas. E Malu continuava acusando Amora de ter botado fogo na Toca. Só que Malu não tinha provas contra Amora, e Maurício achava que Amora não seria capaz disso. Amora não colocaria a vida do Bento em risco. Maurício achava que Malu estava misturando as coisas, que transformou a rivalidade com Amora num cavalo de batalha. Maurício tinha dúvidas se Malu tinha raiva da Amora por causa do que ela aprontou, do bazar fake, ou por Amora ter casado com Bento.
— Maurício, olha, pega leve com o Fabinho, vai. — disse Júlia. — Apesar de tudo que ele fez lá na Class Mídia, nos últimos tempos, ele dava as melhores ideias.
— Ah. — disse Maurício, irônico.
— Pô, Júlia, obrigado pela defesa. Sílvia, obrigado pelo convite. — disse Fabinho. — Mas vocês viram a reação do Maurício. E o Érico vai ter a mesma reação. Eu fiz a cabeça do Natan pra demitir ele, então obrigado.
— E olha só o bem que você fez pra gente. — disse Érico, entrando. Havia ouvido parte da conversa. — Se não fosse por isso, ainda estaríamos trabalhando pra aquele déspota, não é mesmo?
Pelo visto, Érico já havia recebido alta do hospital. Fabinho ficou surpreso com a reação de Érico. Achava que Érico ainda tivesse raiva dele.
— Bom, já que eu sou a voz dissonante aqui ó, peço licença. — disse Maurício, pegando o casaco e retirando-se. Para ele seria difícil conviver com Fabinho, trabalhar olhando para a cara dele todos os dias.
— Peraí, peraí. — disse Sílvia, fazendo um movimento para ir atrás de Maurício, porém, Érico tentou detê-la.
— Sílvia, Sílvia, ele precisa de tempo pra se acostumar, Sílvia. — disse Érico, porém, Sílvia foi atrás de Maurício. Precisava fazer Maurício entender que nem sempre ele trabalharia com quem ele gostava.
— Você começa hoje, tá, gato? — disse Tina, aproximando-se de Fabinho. — Queria só te dar um toque, assim, como quem não quer nada. Eu adoro calça justa de couro. Você não era motoqueiro? Hein?
— Era. — disse Fabinho, envergonhado.
— Então, compra outra moto e me coloca na garupa. — disse Tina.
Fabinho nada disse, mas sabia que não iria poder ter outra moto por um bom tempo. Depois que ele foi pego em uma blitz com uma moto roubada, a carteira dele havia sido cassada. Ele já havia sido suspenso de dirigir por conta da história do racha, e foi pego conduzindo um veículo. Agora ele teria de ficar dois anos sem dirigir e após esse período, para recuperar o documento, ele teria de passar por todo o processo de habilitação novamente. Até lá, ele não poderia dirigir. Além do mais, para comprar outra moto ele precisaria de dinheiro, e ele não tinha.
— Ah, não, gente! — disse Júlia, rindo, nervosa. — Eu não acredito que eu vou ter que aturar isso o dia inteiro!
— Que ótimo! Eu tô vendo que a confusão já tá armada. — disse Érico, em frente ao computador. — Isso é maravilhoso! Porque é esse caldo que vai alimentar a nossa criatividade. Vamos trabalhar?
— Érico, eu só tenho que sair daqui a pouco porque eu tenho que ajudar minha mãe na mudança dela, tá? — disse Fabinho.
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