Um amor improvável

58 O novo milionário


Mais tarde, Giane e Silvério foram para a casa de Fabinho. Silvério acabou falando sobre seus receios para Margot:

— Sabe do que eu tenho medo, mesmo? Que o dinheiro suba à cabeça do Fabinho e ele faça minha filhota aí sofrer.

Silvério acreditava na mudança de Fabinho. Ele realmente estava se esforçando para melhorar. Mas Silvério morria de medo de que, agora que ficou rico, Fabinho voltasse a ser aquele rapaz esnobe de antes.

— Isso não vai acontecer. O Fabinho é louco pela Giane. — disse Margot. Acreditava que o amor do filho pela namorada era sincero.

— Gente, vocês estão pensando o quê? Que eu virei mulherzinha, só porque eu tô namorando? É ruim, hein! — disse Giane. — Deixa o Fabinho pisar na bola, pra vocês verem a rasteira e o chute que eu dou nele.

Ela amava Fabinho, mas tinha a sua dignidade. Não deixaria Fabinho tratá-la feito lixo só porque ficou rico. Para ela permanecer ao lado dele, ele teria de continuar tratando-a muito bem, como ela merecia.

Fabinho entrou na sala, falando ao celular:

— Tá bom. Então, tá. Até mais. — disse Fabinho, e desligou. — Olha só, pessoal, por favor, todo mundo já vai tomando banho, se arrumando, ficando bem cheirosinho, que hoje a gente vai jantar na casa do papai Plínio. — abraçou Giane.

— Tá ficando metidinho, só porque tá rico, é? — brincou Giane, e Fabinho deu um beijo no rosto dela.

— Metidinho. — disse Fabinho, rindo.

— Agora, quero só ver! — disse Giane.

— Escuta, alguém sabe do Bento, hein? — perguntou Silvério. — Na verdade, eu tô preocupado com ele, viu?

— Espero que ele dê uma surra na Amora e bote ela pra fora. — disse Fabinho. — O Plínio falou que a gravidez dela era falsa, mesmo.

Giane também torcia para Bento dizer poucas e boas para a cobra e expulsá-la de casa.

— O que te livra da acusação de ter provocado o aborto, né? — disse Margot.

— É. Agora, só falta a gente provar que foi ela que provocou o incêndio da Toca. — disse Giane, e passou a mão no rosto de Fabinho. — Aí, você se livra de vez.

Fabinho deu um beijo nos lábios dela.

— A gente vai enquadrar essa bandida. — disse Fabinho.

— Vamos, sim. — disse Giane.

Algum tempo depois, Silvério, Margot, Fabinho e Giane foram para o apartamento de Plínio. Malu também foi. Ela já havia ganhado alta. Margot ficou sentada no sofá, mostrando fotos de Fabinho para Irene e Plínio.

— Aqui, nessa aqui ele tem 12 anos, ó. — disse Margot, mostrando uma das fotos.

— Ai, que lindo! — disse Irene.

— Ai, que bonitinho! — disse Margot, rindo, ao mesmo tempo em que Irene.

— É em Ribeirão Bonito? — perguntou Irene.

— Ribeirão. — disse Margot, assentindo.

— Ai, o mesmo sorriso! — disse Irene, apontando para a foto.

Fabinho ficou completamente sem jeito.

— Vai começar a pieguice daqui a pouco. — disse o rapaz, apontando para Margot e Irene, abanando a cabeça, envergonhado.

— E o Bento, Giane? Você tem alguma novidade? — perguntou Malu. Estava preocupada com Bento. Certamente, ele estava sofrendo. Quebrou a cara com Amora, se decepcionou e acabou de descobrir que era filho do Wilson, homem que ele sempre detestou e que o detestava também. Bento contou para ela, Malu, como descobriu que era filho do Wilson. Ele e Wilson tiveram uma briga feia. Foi o conflito mais intenso que já houve entre os dois. Bento ficou possesso ao acreditar que Wilson empurrou-a da escadaria para incriminar Amora. Wilson havia ameaçado tirar tudo que Bento mais amava, até jogou pedras na Acácia Amarela. Bento foi até o apartamento onde Wilson morava com Charlene e encontrou Perácio e Nancy, ex-secretária de Wilson. Ele soube, por Perácio, que Wilson tinha ido para a casa da Glória. Glória tinha acabado de ligar para Perácio. Bento foi até à casa da Glória, e encontrou Wilson lá no jardim. Os dois trocaram acusações mútuas. Bento partiu para cima de Wilson. Wilson revidou com socos. Os dois, Wilson e Bento, estavam descontrolados. Wilson estava fora de si porque acreditava que Bento havia sabotado o bufê para levá-lo à falência. Os dois lutaram. Bento teria acabado com a raça de Wilson se Gilson e Salma não tivessem chegado na hora exata e contado que eram pai e filho. Charlene havia ligado para eles, informando que Bento foi atrás de Wilson na casa da Glória. Charlene ficou sabendo por Nancy, que telefonou para ela. Gilson e Salma correram para a casa da Glória para impedir que pai e filho se matassem. Sabiam que Bento estava transtornado, Wilson também.

Giane ainda não sabia de nenhuma novidade sobre o Bento.

— Não, nenhuma. Mas olha, eu acho que a coisa vai feder. — disse Giane.

— Fabinho, eu posso conversar com você um minuto? — perguntou Plínio.

— Claro. — disse Fabinho, levantando-se do sofá. — Eu tava esperando por isso mesmo.

— Por favor. — disse Plínio, apontando para o escritório.

Fabinho passou a mão no ombro de Giane, antes de entrar no escritório com Plínio. Plínio fechou a porta. Sentaram-se à mesa. Plínio pretendia testar o rapaz. Queria ver se Fabinho realmente havia mudado.

— Mais uma vez, aqui estamos nós. — disse Plínio.

— É. Plínio, se você quiser fazer outro exame, por mim tudo bem. — disse Fabinho. — Eu só não quero que seja naquele laboratório. Eu fiquei com um pouco de bode daquele lugar.

— A gente vai ter que refazer o exame se você retomar aquele papo da parte que te cabe. — disse Plínio. — Você vai querer mesmo um adiantamento da sua herança?

Fabinho ficou por alguns segundos em silêncio. Percebeu que Plínio estava querendo testá-lo.

— E então? Vai querer o seu dinheiro adiantado ou não? — perguntou Plínio.

Fabinho sorriu. Resolveu ser franco. Nunca mais ele fingiria ser quem não era para agradar ninguém, nem mesmo seu próprio pai. Então, nunca mais na vida viria com discurso de que não ligava para dinheiro, que dinheiro não trazia felicidade, aquelas bobagens todas que o Bento vivia dizendo. Bento não ligava para dinheiro porque nunca teve. Foi criado a vida toda na pobreza e nunca teve acesso a tudo de bom que o dinheiro podia proporcionar. Certamente se acostumou com a vida humilde, achava que nunca iria enriquecer e por isso se contentou com o que tinha. Mas quando teve a chance de ficar rico, não soube aproveitar. Ficou com vergonha de ser rico, de herdar uma fortuna de mão beijada. Era um otário mesmo. Se bem que Fabinho até agradecia por Bento ser otário, porque assim, ele não botou a mão em uma grana que não era dele e a víbora da Amora se deu mal. Plínio sempre foi rico. Talvez por isso não desse muito valor ao dinheiro, porque nunca perdeu e sempre teve tudo de mão beijada. Não sabia o que era ser pobre, ter de trabalhar para receber merreca. Ao contrário dele, Fabinho. Ele sabia o que era bom e queria o melhor para ele, para Giane, até para Margot, que merecia voltar a ter vida boa.

— Entendi, Plínio, você tá me testando. E pra eu passar nessa prova, eu tenho que dizer que eu não estou nem aí pro dinheiro, que eu me importo em ficar com o papaizinho, mamãezinha e etc, etc, né? Só que acontece, Plínio, que esse discurso não é meu. Esse discurso é do Bento. E eu não sou otário como ele. E eu também não mudei tanto assim como as pessoas pensam.

— Você tá me dizendo que... — disse Plínio.

— Que eu vou querer o meu dinheiro, sim. E o quanto antes possível.

— Certo. Tá bom. Se é isso que você quer. — disse Plínio. Pensou que, desta vez, Fabinho pelo menos estava sendo franco. Não estava fingindo não ter interesse na herança, como antes. Não deixava de ser uma mudança.

— Eu quero, mas eu não quero tudo, não. Eu quero só o suficiente pra uma história aí. — disse Fabinho.

Plínio surpreendeu-se. Antes, Fabinho queria até o último centavo.

— É? E eu posso saber que história é essa? — perguntou Plínio.

— Eu quero comprar uma parte da Crash Mídia. Eu voltei a trabalhar lá e, modéstia parte, eu sou muito bom no que eu faço. — disse Fabinho. — Eu acho que se eu entrar de sócio e essa injeção de capital, vai dar um “Boom” na empresa. A gente pode crescer e se firmar no mercado.

Plínio pensou que desta vez Fabinho conseguiu realmente surpreendê-lo. Antes o rapaz nem falava em trabalhar, montar um negócio, construir uma carreira. Só queria dinheiro, para usar como bem entendesse. Não ligava para nada e só queria vida boa. Sem sombra de dúvida, era uma mudança e tanto. Aliás, pensando bem, só o fato de Fabinho tê-lo perdoado já era uma mudança. O garoto podia muito bem ter se deixado levar pelo rancor e não querer vê-lo nem pintado de ouro. Fabinho também podia querer se vingar dele e contar para Irene sobre o suborno, mas não o fez, certamente por não querer ver a mãe sofrer.

— Só isso? — perguntou Plínio.

— Não. Eu quero também uma casa. Uma casa dessas, assim, bem grande. — o rapaz mostrou o tamanho com as mãos. — Não quero apartamento porque eu não gosto. Eu quero uma casa que dê pra ter um campinho de futebol. — disse Fabinho, e abriu um sorriso.

— Campinho de futebol? Pra quê? — perguntou Plínio.

— É porque a Giane adora jogar bola. Eu não gosto muito, mas ela gosta. E também, daqui a pouco, vai chegar filho, né? Tudo isso. Eu acho que vai ser legal ter uma casa grande. — disse Fabinho. — A gente tá junto há muito pouco tempo, mas... Mas a Giane já é a pessoa mais importante na minha vida. Eu quero dar pra essa... — bateu as mãos unidas na mesa. — Pra essa maloqueira, sei lá, tudo que eu posso dar, uma vida de rainha!

No ponto de vista de Fabinho, Giane merecia tudo.

Plínio percebeu que o amor de Fabinho pela namorada era sincero. O rapaz não estava pensando apenas em si mesmo. E ele, que até pouco tempo atrás, pensava que o rapaz não tinha afeto por ninguém, que não gostava de ninguém além de si mesmo. Pelo visto, se enganou. As pessoas eram surpreendentes mesmo. Fabinho agora enxergava o outro. Não contou sobre o suborno para não entristecer Irene, queria comprar casa com campinho de futebol para fazer a mulher amada feliz.

— Mas peraí! Me corrija se eu estiver errado. — disse Plínio. — A Giane não é o tipo de mulher que se importe com luxo.

Fabinho sorriu.

— Não, você tá certo. Mas eu me importo. Eu quero que ela e os meus filhos tenham tudo que eu nunca tive. — disse Fabinho. — É isso, Plínio. É isso que eu quero. E se você acha que eu sou interesseiro por isso, paciência. É assim que eu penso e é assim que eu sou. Essa é a real.

Plínio estava orgulhoso. Pelo visto, Fabinho estava virando gente. Ele até percebeu que Fabinho estava mais carinhoso com Margot. As pessoas diziam que ele havia parado de passar a perna nos outros para se dar bem. Plínio estava aliviado, apesar de lamentar que Fabinho continuasse dando tanto valor ao dinheiro. Mas ainda assim, dava para ver que Fabinho havia mudado muito. O rapaz estava sendo honesto, transparente, exatamente como ele, Plínio, havia pedido há tempos atrás. E isso já era um grande progresso. E o garoto nem percebia que havia mudado, pois dizia que não havia mudado nada.

Fabinho e Plínio conversaram um pouco mais. Plínio disse que pretendia mesmo fazer um novo exame de DNA, apenas para confirmar o que todos já sabiam. O exame também iria servir como prova de que Socorro havia mesmo adulterado os exames anteriores. Plínio também pretendia notificar o laboratório da má-fé da Socorro. Com isso, Socorro perderia o emprego e responderia a processo. Amora também. Depois, todos foram jantar. Depois do jantar, ficaram um pouco na sala.

— Bom, gente, a comida tava muito boa. — disse Fabinho, levantando-se do sofá e abraçando Margot. — A lasanha da dona Margot continua imbatível.

— Então, o próximo jantar é lá em casa. — disse Margot.

— A gente vai com certeza. — disse Irene. — E vocês, por favor, venham sempre. A casa é de vocês.

— A gente vai voltar. Eu vou voltar, porque eu sou folgado. Vê se não desconvida. — disse Fabinho, bem-humorado.

— É. E sem noção. Com esse aí, é melhor você ficar com um pé atrás. — brincou Giane.

— Se liga, hein, pivete! Que eu te troco por uma modelete, assim, ó. — brincou Fabinho, estalando os dedos. Margot riu.

— Ah, é? Já vai tarde, amor. — disse Giane.

Margot e Silvério riram. Sabiam que nem Giane, nem Fabinho falavam sério. Era apenas o jeito deles de se amarem.

— Isso é um cavalo, cara. Isso é. — disse Fabinho, aproximando-se de Irene e lhe dando um beijo no rosto.

— Vai com Deus. — disse Irene. Estava aliviada e feliz, depois de ter ouvido a conversa de Plínio com Fabinho. O filho não pensava mais em usar o dinheiro apenas para gastar ou para humilhar os outros.

— Tchau, mãe! — disse Fabinho, e passou a mão na barriga da mãe. — Tchau, irmãozinho!

Fabinho foi apertar a mão de Plínio.

— Tchau, Fabinho! — disse Plínio.

— Tchau! Até mais. — disse Fabinho, dando um tapa no ombro de Plínio.

— A gente se fala, hein! — disse Plínio.

— Tá bom. — disse Fabinho, e foi despedir-se de Malu. — Tchau, irmãzinha! — deu um abraço e um beijo nela, e recuou. — Não vai machucar.

Malu ainda estava se recuperando, continuava dolorida.

— Tchau! — disse Malu.

— Tchau, gente! Tchau, Malu! — disse Giane.

— Boa noite a todos! Boa noite! — disse Plínio.

— Vão com cuidado, hein? — recomendou Irene.

— Tchau, Malu! — disse Silvério.

— Ai, ai, tchau! — disse Malu.

Silvério, Margot, Fabinho e Giane foram embora, depois de ouvirem as recomendações de Irene. No dia seguinte, Fabinho acordou cedo e encontrou Giane na praça, podando as flores.

— Não para de trabalhar nunca não, hein? Coisa de pobre. — brincou Fabinho, descendo as escadas.

— Ih, lá vem ele empinar o nariz só porque o papaizinho liberou a grana. — disse Giane.

A garota estendeu a mão:

— Cadê o meu cartão de crédito sem limite? Porque eu preciso comprar sapato. — disse Giane, imitando Amora.

— Mas, Amora... — disse Fabinho, batendo na palma da mão dela. — Pra comprar sapato? — agachou e olhou para as flores. — Você não percebe que o importante é a beleza das flores?

Giane percebeu que Fabinho estava imitando Bento, e riu.

— A força da liberdade, da fraternidade, da igualdade... — disse Fabinho.

— Você tem toda a razão, Bento. — disse Giane, levantando-se e pendurando-se no corrimão da escada. — Eu acho até que eu vou lá no shopping comprar um monte de fraternidade salto 15 e vou propor isso como uma pauta pro Luxury. O que você acha?

— Amora, tenebroso, Amora, você não aprende... — disse Fabinho.

Margot chegou neste momento e disse:

— Eu achei muito feio vocês dois imitando a Amora e o Bento num momento tão difícil como esses, viu?

Ela estava por perto e ouviu o que Fabinho e Giane disseram.

— Ai, eu sinto muito pelo Bento. — disse Giane. — Mas eu quero assistir de camarote a Amora sendo expulsa daquela casa. — sentou-se no chão.

— E eu quero um lugar nesse camarote. — disse Fabinho, e dirigiu-se à Margot. — Agora, olha, falando sério, eu quero que você pare de fazer salgadinho. — dirigiu-se à Giane. — Eu quero que você pare de ficar plantando flor, tá? Porque vai sair a minha herança e eu quero dar um vidão pra vocês.

No ponto de vista de Fabinho, Margot e Giane não precisariam mais trabalhar, só se quisessem. Ainda assim, não queria mais ver Giane colhendo flores na praça, nem Margot fazendo quitutes para o Cantaí. Giane podia ser fotógrafa, já que ela amava fotografar. Margot, se quisesse, podia montar um negócio e contratar pessoal para trabalhar para ela.

— Tá louco! Eu que não vou ficar sem fazer nada. — disse Giane. Achava que não tinha a menor vocação para madame.

— E eu vou botar limite nesse seu cartão de crédito. — brincou Fabinho. — Não, falando sério, agora. Por favor, gente. Vai sair esse dinheiro... — sentou-se ao lado de Giane. — E eu quero consertar umas burradas aí que eu fiz.

— Olha, se você quiser consertar todas, vai precisar de umas 10 heranças. — implicou Giane.

— Hum, engraçadinha. Mas você tá certa. O pior é que você tá certa. A pior delas, por exemplo, não tem como reparar, que é ter me envolvido com um pivete, maloqueira. Aí, realmente, não tem como. — implicou Fabinho.

— É muito cretino, não é não? — disse Giane, beijando-o.

Mais tarde, quando foi à Crash Mídia, Fabinho tratou logo de propor se tornar sócio de Érico.

— Sócios? Você mal voltou e já quer botar essa banca? — perguntou Érico.

— Érico, eu fico muito feliz que você tenha me chamado de volta, e percebido seu erro. Mas eu espero que você não erre de novo recusando minha oferta. — disse Fabinho.

— Calma, Fabinho. Sem devaneios, por favor. — disse Sílvia.

— Não, Sílvia, na boa, não é devaneio, não. — disse Fabinho, en-quanto Érico bebia um gole de café. — É uma proposta bem sensata. Eu conversei com o Plínio, vulgo papai, e falei com ele que eu queria investir parte da minha herança aqui. Eu acho que tá na hora de a gente virar a maior agência do país. E eu tenho certeza que a gente vai arrebentar juntos. Você não?

— Ok, Fabinho. A gente vai pensar na sua proposta. — disse Sílvia.

— Não, por mim, já tá pensado. — disse Érico. — O Fabinho tem capi-tal, é o melhor criativo aqui da agência. Nada mais justo e lógico. — esten-deu a mão para Fabinho, que apertou-a. — A gente aceita.

— Valeu, cara! — disse Fabinho, feliz, abraçando-o.

— Bem-vindo, viu? — disse Érico, dando uns tapinhas amigáveis no braço de Fabinho.

Fabinho aproximou-se de Sílvia e perguntou:

— Sílvia, e esse receio, hein? Por quê? Não foi você que quis me dar outra chance? Que me botou aqui, de novo?

Sílvia tinha receio de que Fabinho deixasse o dinheiro e o poder subir à cabeça. Nunca se sabia o que podia acontecer.

— É, mas agora que você ficou rico, quem me garante que você não vai voltar a ser grosseiro, folgado, violento? — perguntou Sílvia.

Mas no pensamento de Fabinho, boa parte das loucuras que ele fez, em parte foi por conta dos traumas, e porque se deixou dominar pela mágoa e pelo rancor. Não foi apenas por ter ficado rico, por ter se deslum-brado. Meses atrás, ele usaria o dinheiro para ter boa vida, sem trabalhar, e para apagar o passado, fazer as pessoas do seu passado irem embora, sumirem das vistas dele. Agora, era diferente. Ele havia superado os trau-mas, ou estava pelo menos tentando. Não guardava mais rancor. Não iria surtar e não seria violento só por ter ficado rico. Não iria comprar a rua de novo. Ele realmente mudou. Faria bom uso do dinheiro. Assim pensou Fabinho. Mas Sílvia não sabia dos traumas dele, de tudo o que ele sofreu e era natural que ela tivesse receio. Ele realmente deixou o fato de ser um herdeiro rico subir à cabeça e havia aprontado demais. Mas ele não teria por que ficar se explicando. O importante é que havia mudado.

— E quando é que eu parei de ser grosseiro e folgado? Violento eu não sou, porque agora eu aprendi a ser um cara mais calmo. — disse Fabinho. — Eu tô até amando. Esse aí, ó... — apontou para Érico. — Esse sócio é que tinha que esfriar um pouquinho a cabeça.

O celular de Érico começou a tocar.

— Eu confesso que eu andei com a cabeça meio bagunçada nos últimos tempos, mas já tá clareando. — disse Érico.

De fato, aos poucos, Érico estava voltando a ser o que era. Érico atendeu ao celular.

— Oi, Rê. Conversar agora? — disse Érico, assentindo. — Tá.

Mais tarde, toda a vizinhança ficou observando Amora ir embora junto com Simone e as crianças. Todos ficaram observando Amora colocar as malas dentro do táxi. Era o dia do rodízio dela, portanto, não podia circular com seu carro naquele horário, por isso chamou um táxi.

— Vai, safada. Vai. — disse Odila, revoltada. — E olha aqui, ó! Nunca mais você bota os pés na Casa Verde, viu? Ordinária!

Não apenas Odila, como toda a vizinhança estava revoltada por conta dos crimes que Amora cometeu. No ponto de vista das pessoas ali da rua, o que Amora fez com Bento, Malu, todo mundo, não tinha perdão, até porque Amora não estava nem um pouco arrependida.

— Calma, Odila, o que é isso? Olha as crianças. — disse Nestor.

— Gente, por favor, tenha um pouquinho de piedade, a menina tá indo embora. — disse Simone, apontando para Amora.

— Simone, Simone, cuidado, viu, meu bem? Você pode... Você pode ser a próxima vítima. — disse Lili.

Fabinho estava por perto e observou tudo. Não podia deixar de assistir a partida da Amora. Amora tinha acabado de fechar o porta-malas do táxi, quando Fabinho se aproximou.

— Cocotinha, já vai? Que pena. Essa rua vai ficar tão sem graça sem você. — disse Fabinho, irônico.

Amora tentou se afastar, porém, Fabinho não deixou.

— Não! — disse Fabinho.

Fabinho queria era tripudiar em cima dela, exatamente como ela havia feito com ele aquela vez, na delegacia. Podia ter melhorado, mas não se tornou nenhum santo imaculado, e trazia Amora atravessada na garganta.

— Você me passa seu endereço novo? Eu posso te mandar umas cestas básicas. Porque, tadinha, vai ficar tudo tão difícil pra você agora, né? Sem marido, sem trabalho, fichada na polícia...

Amora não respondeu. Entrou no táxi. Simone e as crianças também.

— Tchau, crianças. — disse Fabinho, acenando para as crianças.

Todos observaram o táxi ir embora. Fabinho percebeu que os vizinhos pareciam não aprovar o modo como ele tratou Amora.

— O que foi? Que cara essa? Vocês queriam o que, que eu desejasse boa sorte pra ela? Não dá, né? — disse Fabinho. Afinal, ele não era hipócrita.

Ele podia ter aprontado. Sabia que não era nenhum santo, que fez mal à muita gente. Mas no caso da Amora, o que pesava era o que ela fez contra ele. Ele realmente caluniou Amora, chantageou para que se casas-se com ele, mas para se vingar, ela quase acabou com a vida dele. Amora manipulou a vida dele e de muita gente, só para se dar bem. Ela o separou dos pais, da irmã, enfim, de sua família de sangue, só para botar a mão na grana do Plínio. Por causa dela, ele comeu o pão que o diabo amassou. Chegou a morar na rua. Ele reconhecia que tudo o que ele sofreu, em parte, foi ele mesmo que causou. Mas se ele tivesse recebido a herança, não teria ido parar nas ruas. Além do mais, Amora o acusou de crimes que ele não cometeu. Fez dele bode expiatório. Ela também o fez perder o emprego, e colocou toda a vizinhança contra ele. Por causa dela, ele quase foi linchado. Ele errou sim, mas o que ele fez contra Amora não tinha nem comparação com tudo o que ela havia feito contra ele. Amora fez coisas horríveis, pesadas demais. O que esperavam, que ele tivesse pena dela, depois de tudo? Ele não conseguia ter pena dela. E Amora não se arrependia de nada, não tinha um pingo de remorso, só lamentava ter sido pega.

Fabinho encostou-se em uma placa.

— Fabinho, a Amora sempre foi uma pilantrinha, mas no seu caso, pelo menos, serviu pra alguma coisa. Sabe por quê? — disse Lili. — Porque pelo menos você se tornou gente graças a ela. — passou as mãos no rosto dele.

— Podia ter pegado leve na frente das crianças, né, Fabinho? — disse Salma.

Fabinho reconhecia que Salma tinha razão. Ele podia ter pegado leve na frente das crianças. Mas ele estava revoltado demais para ficar pisando em ovos. Agora já era.

— Deixa pra lá, gente. Deixa pra lá. — disse Silvério. — Tá tudo resolvido. Pronto. A Amora agora é passado.

— Será? — perguntou Odila. Não estava convencida disso. E se, depois de tudo, o Bento perdoasse Amora e voltasse para ela? Ela já havia aprontado e mentido antes, e Bento sempre dava uma nova chance para ela.

Fabinho voltou para a Crash Mídia. Ele e Érico continuaram conversando sobre a sociedade.

— Bom, eu quero continuar sendo o sócio majoritário. E você, Sílvia, você vai ser... Peraí, só um instantinho. — disse Érico, atendendo ao seu celular, que estava tocando. — Fala, Joninha! Ao vivo, sério? Tá, a gente vai colocar aqui. Mas vem trabalhar, moleque, tem muito serviço, tá? Tchau.

— O que aconteceu? — perguntou Sílvia.

— Não sei, a gente vai descobrir agora. — disse Érico, pegando o controle e ligando a televisão. Imaginava que estivesse acontecendo algum barraco no programa da Sueli Pedrosa, como sempre.

Viram que Amora e Giane estavam discutindo no programa da Sueli. Pelo visto, as duas estavam na Para Sempre, mais especificamente, na agência Karmita.

— Vocês não sabem o que eu passei, tendo essa aqui como vizinha. — disse Amora. — Se insinuando pro meu marido. Meu marido!

— Deixa de ser ridícula! Eu tô muito feliz com o Fabinho. — disse Giane.

— Então você é a eleita do verdadeiro herdeiro de Plínio Campana? — perguntou Sueli Pedrosa, surpresa.

Érico olhou para Fabinho, e em seguida, voltou a olhar a televisão. Érico, Sílvia e Fabinho entenderam que Giane estava desmascarando Amora publicamente, contando todos os podres dela para a mídia. Agora o Brasil inteiro sabia que os exames foram trocados e que Fabinho era o verdadeiro herdeiro de Plínio. Mas Fabinho já nem ligava para isso. Ele não sentia mais necessidade de que o Brasil inteiro o reconhecesse como herdeiro rico para se sentir importante e valorizado. Ele não precisava mais mostrar para a Casa Verde que era um vencedor. Há algum tempo ele não sentia raiva, rancor, nem necessidade de provar nada para ninguém.

— É como diz a tia Salma, né? “O homem põe e Deus dispõe”. — disse Giane. — A Amora ralou tanto pra fisgar a herança do Plínio, mas ela acabou voltando pro Fabinho. — olhou para a câmera. — Meu amor, meu noivo, com muito orgulho.

— Desgraçada, ordinária! — disse Amora, furiosa, puxando o cabelo de Giane. Giane tirou a mão de Amora de seu cabelo e virou-se.

— Não toca em mim, que eu te quebro em duas. — Giane ameaçou.

Fabinho estava orgulhoso. Se tinha uma coisa que ele admirava era a coragem de Giane. Era corajosa o suficiente para enfrentar Amora, contar todos os podres dela para o Brasil inteiro, correndo o risco de ser quei-mada no mercado publicitário, e no mundo da moda também. De boba e medrosa, Giane não tinha nada.

— Essa é a minha garota. — disse Fabinho.

— Ai, me desculpa, mas eu acho tudo isso deplorável. — disse Sílvia, saindo. Se tinha coisa que ela detestava, era baixaria.

Assistiram até o fim o barraco no programa da Sueli Pedrosa. Até Simone se meteu no meio da discussão, e acabou passando mal. Teve de ser internada no hospital. Horas depois, Júlia apareceu na agência. Estava chorando, pois acabou de descobrir que estava grávida de um filho de Edu. Érico e Sílvia pensaram em demitir Júlia, por ela ter entregado a campanha da Tratore para o Natan. Tiveram uma conversa séria com Júlia. Sílvia até ficou com pena da Júlia e pediu para Érico dar mais uma chance para ela, pois a garota estava arrependida. Porém, Érico se recusava. Não tinha mais confiança nela. Júlia jurou que havia aprendido a lição e que não repetiria o erro. Érico exigiu que fossem à Class Mídia para encarar o Natan e o Edu, para tirar tudo a limpo. Érico exigiu que Natan assumisse a culpa e ligasse para o cliente. Natan ainda tentou se safar e transferir toda a culpa para o Edu, mas Verônica, que estava na Class Mídia, o obrigou a ligar para o cliente e confessar que roubou o slogan da Crash Mídia. Érico não sabia se demitia Júlia com todos os direitos, ou por justa causa. Porém, ele e Sílvia começaram a suspeitar de que Júlia estava grávida. E tiveram receio de demitir, porque se o fizessem, Júlia poderia querer processá-los por ser mandada embora estando grávida. Ela podia alegar que estava sendo mandada embora por causa da gravidez. E a gravidez de Júlia foi confirmada. Ela havia acabado de fazer o teste e deu positivo.

— Gente, é isso mesmo! É isso mesmo! Eu tô grávida e pelas minhas contas, só pode ser do Edu. — disse Júlia, chorando.

— Não falei, gente? Eu tenho a boca santa. — disse Tina.

— Vem cá, você tá grávida mesmo ou isso é caô só pra não ser demitida, hein? — perguntou Jonas, desconfiado.

— Gente, ela tá completamente grávida. — disse Tina, apontando para Júlia. — Palavra de Tina, acredita em mim!

No ponto de vista de Fabinho, Júlia não tinha capacidade para fingir que estava grávida. Não era ardilosa, malandra como Amora, nem era tão inteligente. Júlia era uma tonta. Só entregou a campanha para o Edu porque caiu na conversa dele, achava que ele estava realmente gostando dela. Edu devia ter dito que Natan já havia perdido a concorrência, pois só teve ideias fracas. Certamente, Júlia quis impressionar o idiota do Edu e acabou deixando escapar o slogan da campanha sem se dar conta. Júlia deixou ele, Fabinho, levar a culpa para não perder o emprego. Só quis se safar. Ela não planejou prejudicá-lo, embora o tenha prejudicado. Fabinho teve pena da Júlia, que caiu na conversa do canalha do Edu e agora ficou sozinha, com um filho na barriga. E ainda corria o risco de ser demitida. Se ela fosse mandada embora, não teria como sustentar a criança.

— Ela tá grávida, precisa de emprego, deixa ela aí, vai. — disse Fabinho.

— Ô Fabinho, muito bem! Quem te viu e quem te vê, hein? — disse Sílvia. Nunca pensou que Fabinho perdoaria Júlia. Ele sempre foi muito rancoroso e vingativo. Fez Érico ser demitido para se vingar. Sílvia achou que Fabinho iria querer ver Júlia sendo demitida. Desta vez, Fabinho a surpreendeu.

— É, Sílvia, você me perdoou, por quê que eu não posso perdoar tam-bém, né? — disse Fabinho, e dirigiu-se a Júlia. — Mas, ó, juízo, hein? Por favor!

— Ai, Fabinho, obrigada, viu? — disse Júlia, emocionada, aproximando-se de Fabinho e abraçando-o. — Eu não esperava isso de você, obrigada!

— Tá bom! Senta aí, senta aí! — disse Fabinho, sem jeito.

Júlia sentou-se na cadeira.

— Ai, gente... — disse Tina, emocionada. — Vai dar vontade de chorar! É muita emoção! Eu tô puro amor! Quer dizer, não sei se é puro amor ou pura TPM! Desculpa! — aproximou-se de Júlia e abraçou-a. — Ô, voduzinha loura, desculpa! Muita saúde pra você! Muita saúde pro teu bebê! Gente, ai, ai, ai! Vamos comemorar? Vamos tomar um sorvete? A vida é bela! A vida é bela! A vida é bela! Vamos?

— Eu quero! Eu quero! Eu, assim, eu preciso de um sorvete, eu preciso botar alguma coisa doce na boca. — disse Júlia, chorando.

— Eu não quero nada, mas vou com vocês. Vambora! — disse Sílvia.

Sílvia deu um tapinha no ombro de Fabinho, antes de sair com Júlia e Tina. Fabinho, Érico e Jonas ficaram a sós na agência.

— É, mas você fez a coisa certa, viu, Fabinho? — disse Érico.

— É isso aí, né, cara? — disse Fabinho, que havia se sentado em frente ao computador. — Só podia mudar o pai do filho dela, né? Escolha errada.

— Vem cá, sabe que você está me lembrando alguém? — disse Jonas para Érico. — É, um filho legal da tia Salma e do tio Gilson!

Érico sorriu e abraçou Jonas.

— Irmãozinho, aquele cara, ele não existe mais. — disse Érico. — É, o mundo evolui, Jonas, e a gente com ele. Tá aí o meu sócio pra provar que eu não tô mentindo.

— Pois é, quem me fez mudar foi a Giane. O Érico, foi a Renata. — disse Fabinho.

— Não, não, não. Quem fez o Érico mudar foi a Verônica. — disse Jonas. Dirigiu-se a Érico. — Falando nisso, já viu o clipe dela?

Logo foram assistir ao clipe da Verônica, no computador. Verônica havia vendido a Para Sempre para Karmita Lancaster. Assim, Karmita se tornou sócia de Charlene na empresa. Karmita entrava com o dinheiro e Charlene entrava com o trabalho. Verônica estava iniciando a carreira de cantora, com o nome artístico de Palmira Valente.

— É, a Verônica, ela tem uma voz linda mesmo. — comentou Érico.