Um amor improvável

7 Jantar na casa de Amora


À noite, Fabinho resolveu procurar Bento, pois precisava convencê-lo a se afastar de Amora. Amora ficou mexida ao reencontrar o namoradinho de infância, a ponto de colocar seu trabalho em risco para ir visitá-lo. Fabinho percebeu que Bento ainda gostava muito dela. Isso era realmente um grande obstáculo para seus planos. Ele não achava que Amora ainda gostasse do Bento, depois de tanto tempo. Mas pelo visto, Amora ainda tinha sentimentos por ele. Fabinho sentia que precisava afastar Amora de Bento. Amora tinha de ficar era com ele. Por isso ele foi até a casa de Bento. Mas jamais diria suas verdadeiras intenções. Resolveu se fazer de amiguinho de Bento.

Ao chegar na casa de Bento, Fabinho bateu na porta, e Bento atendeu.

— E aí, Bento! — disse Fabinho, cumprimentando-o e entrando na casa.

— Tudo bem, cara? Posso entrar?

— Já entrou, né? — disse Bento. Ele estava estranhando o fato de Fabinho ir visitá-lo. O que Fabinho queria ali? Boa coisa não veio fazer. Depois da maneira como Fabinho o tratou no noivado de Amora, Bento não esperava nada de bom vindo dele.

Fabinho olhou em volta. Bento morava em uma edícula. Fabinho não conseguia entender como alguém podia gostar de viver naquele muquifo. Mas era claro que não ia dizer ao Bento o que estava pensando.

— Aqui que você mora, é? Legal. Tudo meio... Gostei. — disse Fabinho.

— Ô Fabinho, você não veio até aqui essa hora pra elogiar minha casa. — disse Bento. — O quê que está pegando?

— Sabe o quê que é Bento? É que com aquela confusão toda, na hora do almoço, a gente acabou mal se falando. — disse Fabinho. — Eu queria conversar sobre você sobre uma amiga nossa em comum. — pegou um porta-retrato, onde havia uma cópia da foto que ele havia tirado ao lado de Amora e Bento. Apontou para a foto de Amora quando era criança. — Amora.

— Você veio até aqui essa hora pra falar da Amora?

Bento não estava entendendo, e se questionava o que Fabinho tinha para falar da Amora.

— Não. Eu vim aqui em nome da nossa amizade. — disse Fabinho, olhando para a fotografia. — Afinal de contas, melhores amigos, né? Somos três nessa foto. É muito doido pensar, né Bento, que a gente chegou aqui bebezinho no mesmo dia. A gente cresceu junto. Isso é um laço muito forte. A gente só percebe isso depois que fica adulto.

No ponto de vista de Bento, a amiga dele sempre foi Amora. Fabinho sempre se considerou inimigo dele, apesar de suas tentativas infrutíferas de acabar com a inimizade na infância. Ele tentara várias vezes ter uma relação amigável com Fabinho, tentara se aproximar dele e falhara. Na infância, ele não via Fabinho como rival. Fabinho que implicava com ele. Quando eram crianças, Bento via Fabinho como alguém problemático, mas que precisava de atenção, ajuda e afeto, como qualquer criança. Ele não via maldade em Fabinho, até porque acreditava na bondade intrínseca das pessoas. Fabinho podia ser rejeitado pela maioria das crianças, mas não por ele, nem por Giane. Porém, Fabinho sempre se ressentiu dele, e Bento não entendia o porquê. Gilson só tirou aquela foto dos três: Bento, Amora e Fabinho, porque Amora e Fabinho estavam indo embora com as famílias adotivas. Gilson na época acreditava que não ficava bem dar uma lembrancinha para Amora e não dar nada para Fabinho, e Bento estava de acordo. Bento guardou uma cópia da foto porque era uma lembrança de Amora e Fabinho.

— E onde é que Amora entra nisso? — perguntou Bento.

— Deu pra ver hoje que você ainda gosta muito dela. — disse Fabinho.

— E daí? O que você tem a ver com isso? — perguntou Bento, impaciente, tomando o porta-retrato das mãos de Fabinho e indo juntar suas roupas espalhadas pela sala. — O que você tá querendo aqui, cara?

— Bento, você é meu melhor amigo. — disse Fabinho. — E é justamente por querer o seu bem que eu vim aqui te dar um conselho de irmão. Esquece Amora. Ela não é pra você.

Bento não caiu no papo de Fabinho. Fabinho, se preocupando com ele, querendo o bem dele? Jamais. Fabinho jamais se importou com seus sentimentos. Ele e Fabinho não eram o que se podia chamar de melhores amigos. A ele, Fabinho não enganava. No ponto de vista de Bento, ninguém mudava de um dia para o outro. No dia anterior, Fabinho o tratou com a maior arrogância, agora veio fingir preocupação com ele. Bento acreditava no ser humano, mas não era bobo.

— Você se abalou até aqui porque se preocupa comigo e pra me dizer pra esquecer Amora? — perguntou Bento.

Bento não conseguia entender qual era o interesse de Fabinho nisso. Ele se perguntou por que Fabinho estava pedindo para ele esquecer Amora, se Fabinho ainda o via como uma pedra no sapato. Bento pensou que, depois de tanto tempo, Fabinho podia ter mudado, ou pelo menos esquecido a obsessão pela Amora. Pelo visto, ele se enganou. Fabinho insistia em disputar Amora com ele, mesmo depois de tantos anos. Mas ele não tinha nada com Amora. Fazia pouco tempo que se reencontraram e Amora estava noiva de outro. Sendo assim, ele não entendia o que Fabinho veio fazer ali. O que pretendia? Mesmo que estivesse rolando algo entre ele e Amora, Fabinho não tinha nada com isso e não tinha nada que se meter na vida dele. Por que Fabinho não deixava a ele e Amora em paz?

— Amora é noiva do Maurício. — disse Fabinho.

— Não me diga! — disse Bento, irônico.

— Bento, tudo bem, ela veio aqui, vocês curtiram um tempinho juntos. Legal, mas... Mas ela ama o Maurício. Está na cara. — disse Fabinho.

Bento achou que Fabinho só podia ter vindo até ali para defender Maurício. Do contrário, não ficaria lembrando-o de que Amora era noiva de Maurício. Na certa, Maurício ficou com ciúmes da Amora e devia ter comentado alguma coisa com Fabinho. Nenhum homem iria gostar de ver a noiva se reaproximar de um namoradinho de infância. Na verdade, Bento e Amora nunca rotularam a relação deles. Nunca haviam se beijado. Eram duas crianças que se adoravam, andavam juntas para cima e para baixo. Mas no fundo sabiam que o que os unia era um sentimento muito forte. Era mais do que uma simples amizade. Bento acreditava que Fabinho resolveu defender Maurício porque certamente esperava conseguir alguma coisa do playboy. Fabinho era um interesseiro.

— E você como o mais novo chapa do mauricinho, veio até aqui pra defender o amiguinho? — perguntou Bento.

— Não, você está de brincadeira. — disse Fabinho. — Eu não tô nem aí pra esse cara. Eu gosto de você. Você é meu irmão.

Bento não acreditou. Fabinho nunca se importou com ele. Fabinho não se considerava amigo dele, tampouco irmão. Quando crianças, Fabinho sempre deixava bem claro que não gostava dele. Vivia perseguindo-o, azucrinando-o, agredindo-o, fazendo de sua vida um pesadelo. Fabinho continuava não gostando dele. Prova disso era que nem o cumprimentou no noivado da Amora. Fabinho o ignorou completamente, e quando resolveu falar com ele, foi apenas para esnobá-lo. Fabinho passou a festa inteira bajulando o noivo da Amora e toda a galerinha de Bárbara Ellen. Fabinho só se interessava em se aproximar de pessoas ricas e famosas.

— Olha, Fabinho, você pensa que eu não vi você babando ovo pro playboyzinho lá na festa? Te conheço, cara. — disse Bento. — Você tá querendo é ficar bem na foto, já pensando nas portas que ele pode te abrir depois.

— Bento, você está me chamando de interesseiro? — Fabinho se fez de ofendido. Ele nunca se importou com o que Bento pensava dele.

— Não. Mas vamos combinar o seguinte, eu não me meto na sua vida e você não se mete na minha. Beleza? — disse Bento.

— Beleza. — disse Fabinho.

— Agora se manda, por favor. — disse Bento, e foi abrir a porta.

— Não tô entendendo sua reação. Mas tudo bem, eu fiz minha parte. — disse Fabinho, andando. — Se você quer ficar que nem cachorrinho atrás da patricinha, tudo bem. Quando você quebrar a cara, você vai dar valor pro que eu falei. — aproximou-se da porta, onde Bento estava. — Sou teu irmão. — colocou a mão no ombro dele. — Sou teu amigo, gato. Boa noite.

Fabinho saiu da casa e foi em direção à moto, quando ouviu uma voz conhecida:

— Olha, a pensão ali abriu vaga pra rapazes, hein?

— Não entendi. — disse Fabinho, próximo à sua moto.

Ele pensou que era só o que faltava, aquela garota vir ali para atormentá-lo. Fabinho não suportava olhar para Giane, pois sofria cada vez que a via. Ela fazia parte de um passado que ele lutava para esquecer. Fabinho tinha horror, cada vez que ela se aproximava. Morria de medo que ela o provocasse e o humilhasse novamente.

— Ué. — disse Giane, aproximando-se, fazendo umas embaixadinhas com a bola. — Você não sai mais daqui. Achei que você estava procurando um lugar.

Pelo modo como Giane falou, Fabinho achou que a presença dele ali não era bem-vinda. O que para ele não era nenhuma surpresa, pois ninguém da rua gostava dele. Mas Giane não tinha com o que se preocupar. No que depender dele, nunca mais botaria os pés naquela rua. Ele não queria olhar nas fuças daquelas pessoas. Muito menos nas dela, porque ela lhe lembrava de tudo o que haviam vivido juntos. Momentos que ele se esforçava para não lembrar, pois doía demais. Ele era tão feliz por ter uma amiga, até o dia em que ela destruiu sua bola e o humilhou. Ela o fez sentir como se ele não merecesse o afeto de ninguém.

— Tá louco. — disse Fabinho, subindo na moto. Pegou o capacete. — Fica tranquilo que eu não volto mais aqui, não.

— Poxa, mas que pena! — disse Giane. — Pensei que eu ia ter alguém pra treinar meus dribles.

Fabinho se perguntou por que ela tinha de lembrar que jogavam bola juntos. Para ele era muito doloroso lembrar das vezes em que brincavam juntos, só os dois, sem ninguém para atrapalhar. Ele queria esquecer tudo. Esquecer que existia bola no mundo, e também esquecer especialmente dela. Tinha vontade de sair correndo dali, mas disfarçou.

— E eu tenho cara de quem bate bola com moleque de rua? — disse Fabinho, descendo da moto e aproximando-se. — Se liga!

— Sabia que o mariquinha ia amarelar. Aliás, como sempre, né?

Além de torturá-lo com lembranças indesejáveis, ela ainda o ofendia. Ele reconhecia que a ofendeu primeiro. Mas a presença dela o perturbava. Além do mais, ele não estava disposto a deixar Giane humilhá-lo de novo.

— Mariquinha? — ele disse, indignado. Apontou para a moto. — Você já olhou essa moto aqui? Você tem noção de quanto custa esta máquina, o marginal?

Giane achava que ele era medroso por não conseguir chutar uma bola. Fabinho pensou que, se ele fosse mariquinha, se fosse tão medroso como ela dissera, não teria coragem de andar em uma moto como aquela no trânsito de São Paulo. Além do mais, se tratava de uma moto cara e havia o risco de arranhar, estragar.

— Tô nem aí pra tua máquina, cara. — disse Giane, jogando a bola pra cima. — Quero saber se já virou homem, isso que eu quero saber. Porque da última vez que eu vi, né, você não sabia nem chutar uma bola. Não é, não? Fraldinha!

Ainda por cima, ela o chamava pelo apelido de infância. Quando ele era pequeno, a molecada da rua o chamava de Fraldinha, pois era péssimo no futebol e não era bom de briga. Mas Fabinho odiava esse apelido. A criançada o chamava assim para irritá-lo, humilhá-lo, para jogar na cara dele que ele não tinha bravura suficiente, nem era macho o suficiente. Ou seja, que ele era um fraco. Agora Giane estava atacando novamente a falta de coragem e habilidade dele, fazendo-o reviver a infância.

Então ela achava que ele não era homem o suficiente. Ela ia ver só uma coisa. Fabinho estava disposto a mostrar que conseguia chutar a bola. Iria mostrar para Giane que o garoto que ela humilhou não existia mais.

Giane começou a chutar a bola. Fabinho tentava tomar a bola dela, mas não conseguia. Ela driblava de todas as maneiras possíveis.

— Vamo lá, Fraldinha, não era assim que te chamavam aqui no bairro? Quero ver se você virou macho. É isso que eu quero saber. Vamo lá, vamo lá, Fraldinha! — dizia a garota.

Fabinho se desequilibrou e caiu em uma poça d’água. Giane riu.

— O Fraldinha se molhou todo, é?

— Você me derrubou. — ele disse. Sentiu-se humilhado. Ela riu dele.

— Ih, nem encostei em você, vacilão! — disse Giane, e estendeu a mão para ele. — Vem, mané.

Era verdade, ela não encostou nele, mas ele se desequilibrou por culpa dela. Ela fez de propósito para humilhá-lo. Ela o fez se sentir inferior, como se ele não fosse homem. Ela atingiu em cheio o seu orgulho. Ao expor suas fraquezas, ela o fez reviver aquele dia em que ela chutara sua bola e o carro passara por cima. Fabinho ficou com ódio de Giane.

— Não toque em mim, seu maloqueiro sujo! — disse Fabinho, tinindo de raiva, levantando-se e indo em direção à motocicleta. Não queria nem mesmo que Giane encostasse nele. Ele tinha horror do que ela representava: sua infância de pobreza e orfandade.

Na verdade, ele a desejava e repelia ao mesmo tempo. Ele tinha atração e repulsa por ela, pelo toque dela. Desde o noivado de Amora, não conseguiu mais tirá-la da cabeça. Ele evitava olhar para ela para não dar bandeira do quanto ela o afetava e mexia com ele.

Giane riu.

— Já vai, frutinha? — disse a garota. — Ih, amarelou mesmo!

Fabinho subiu na motocicleta.

— Vai te catar, seu favelado, morador de rua! — xingou, e foi embora. Não suportava nem mesmo olhar para aquela garota.

Ele não conseguia entender por que Giane resolveu encher o saco dele. Ele não estava fazendo nada demais, estava até indo embora. Fabinho chegou à conclusão de que ela fez isso porque o viu sair da casa do Bento. Certamente, Giane achou que ele tinha vindo esnobar o Bento e resolveu defendê-lo. Por isso ela o humilhou daquele jeito. Giane sempre tomava partido do Bento. Fabinho tinha ódio de Bento e de Giane.

No dia seguinte, cedo, Fabinho foi à Class Mídia. A primeira coisa que Maurício fez foi apresentar o novo funcionário à equipe:

— Pessoal, rapidinho! Esse aqui é o Fabinho, nosso novo estagiário.

— Tudo bem? — disse Fabinho, cumprimentando a todos.

— Fabinho começa hoje com a gente. — disse Maurício. — E se eu tiver certo, vai ser contratado logo, logo, né?

Fabinho deu um tapinha no ombro de Maurício.

— Fabinho, seguinte, essas que são as nossas musas. — disse Maurício, referindo-se a Cléo, Karol e Júlia.

— Tudo bem? — cumprimentou Fabinho.

— Cléo, Karol, Júlia. — disse Maurício, apontando para cada uma.

— Tudo bom? — disse Fabinho.

— Vê se se comporta, hein, rapaz? — disse Maurício.

Fabinho riu e deu uns tapinhas no ombro de Maurício.

— Prazer. — disse Fabinho, apertando a mão de Júlia. — Precisando de qualquer coisa, só chamar.

— Jura? — disse Júlia, sorrindo. — Olha que eu vou chamar mesmo, hein?

— Prazer. — Fabinho apertou a mão de Karol.

— O prazer é todo meu. — disse Karol.

— E aí, tudo bom? — disse Cléo, apertando a mão de Fabinho.

— Tudo bem? — disse Fabinho.

— Tudo bom. — disse Cléo.

— Bacana. Prazer. — disse Fabinho.

— Vamos lá, que tem mais coisa pra ver. — chamou Maurício.

— Vamos. — disse Fabinho, acompanhando-o.

— Eu acho isso criativo. — disse Maurício, apontando para uma das mesas. — Vou te apresentar uma pessoa que você precisa conhecer, tá? Érico!

Fabinho reconheceu Érico na hora. Era o filho da Salma e do Gilson. Ele não gostou nada de saber que Érico trabalhava ali. Érico o fazia lembrar de sua infância, de seu passado de órfão abandonado e maltratado pelas crianças da rua e do lar. Tinha vontade de gritar e sair correndo, mas disfarçou. E o pior era que teria de conviver com Érico todos os dias.

— Oi? Opa! — disse Érico.

— Esse aqui é o Érico, essa aqui a Amanda. — disse Maurício, apresentando uma moça que estava ao lado de Érico. — O Érico está com a gente desde que a gente começou a agência. Érico, o Fabinho está começando hoje com a gente. Estagiário, amigo meu pessoal, então, ó... Pode abusar dele à vontade.

— Eu conheço o Fabinho! — disse Érico.

— Tudo bem, Érico? — disse Fabinho, apertando a mão de Érico.

— Tudo bom, cara? — Érico cumprimentou.

— Não sabia que você trabalhava aqui, não. Bacana! — disse Fabinho.

— Bem-vindo! — disse Érico, sorrindo.

O celular de Maurício começou a tocar. Maurício disse:

— Olha só, Fabinho, essa aqui eu vou ter que atender, tá? Érico, você continua mostrando a agência pro Fabinho?

— Claro, claro! — disse Érico. — Amanda, você termina aqui pra mim, por favor?

A moça fez que sim com a cabeça.

— Obrigado, viu? — disse Érico, e se aproximou de Fabinho. — Vamos dar uma rodada aqui pra eu apresentar como é que é a nossa rotina.

— Bacana! — disse Fabinho. — Eu tô feliz por fazer parte desse time.

— Que legal! — disse Érico.

Érico mostrou toda a agência para Fabinho. Logo começaram a trabalhar.

Natan apresentou a um cliente, Pascoal, uma outra pessoa para fazer a propaganda. Pelo visto, o cliente não quis mais Amora como representante de seu produto. O cliente não gostou de saber que Amora mentiu, dizendo que havia se atrasado para o ensaio por ter passado mal, quando na verdade esteve na Casa Verde. Pascoal não queria trabalhar com uma mentirosa irresponsável, achava que isso não era bom para a marca, e não gostou de ter sido feito de bobo publicamente. Socorro, que era presidente do fã-clube de Amora, havia tirado uma foto com ela e postado no blog, contando da visita de Amora à Casa Verde. Logo a mídia ficou sabendo, pois Sueli Pedrosa fez questão de espalhar. Sueli foi até à Casa Verde e entrevistou as pessoas, para tirar a limpo esta história. Nestor e Socorro confirmaram que Amora esteve na Casa Verde de manhã. Assim, por conta de uma fofoca da Sueli Pedrosa, a patricinha perdeu a campanha da Scarpe Dolcetto. E parecia que Amora seria trocada pela Lara Keller, sua rival. Amora não iria gostar nada disso.

— A boa notícia é que Lara, mesmo dentro desse prazo apertadíssimo, topou fazer as fotos da campanha. — disse Natan a Pascoal.

— É verdade. — disse Lara. — Eu estava com a agenda cheia, mas o Natan insistiu tanto, que eu resolvi dar um jeitinho.

— A Lara é famosíssima no mundo inteiro por causa do Manolo. — disse Natan. — Olha, foi uma tremenda sorte conseguir contar com a presença...

Neste momento, todos ouviram um funk da Mulher Mangaba, a música Solteirinha da Pompéia. Vinha do celular da Karol, que estava chamando. Natan não gostou, pois estava atrapalhando a reunião com o cliente. Ficou esperando Karol desligar. Karol procurou o celular na bolsa até encontrar. Desligou o celular.

— Desculpa. — ela disse.

— Quem canta isso? — perguntou Pascoal.

— Ah, essa é a Mulher Mangaba, né? — disse Fabinho. Ele não perdia a chance de mostrar serviço, procurando sempre fingir ser eficiente.

— Me mostre uma foto dessa moça. — pediu Pascoal.

Fabinho mostrou, pelo celular, uma foto da Mulher Mangaba a Pascoal.

— É essa! — disse Pascoal. — É essa a moça que eu quero pra campanha dos meus sapatos.

— Como é que é? — disse Lara, sem querer acreditar.

— Ele tá brincando! — disse Natan, rindo. — Né, Pascoal?

— Não, eu tô falando é muito sério. — disse Pascoal. — Eu faço sapato pro povão, Natan, e o povão gosta é disso aqui, não de Amora Campana e essa tal de Lara famosa não sei do que por causa de não sei de quem. Quem compra os meus sapatos, Natan, quer ser essa mulher aqui. — apontou para o celular. — Não essas tripas secas que você fica me empurrando.

— Olha só! Pra mim chega, tá? — disse Lara. — Eu nunca fui tão insultada. — dirigiu-se a Natan. — Você me deve uma. E não esquece, que eu vou cobrar!

Lara foi embora. Natan pegou o telefone, e ligou para sua secretária:

— Karol, me consegue o contato da Mulher Mangaba pra ontem.

A Mulher Mangaba foi chamada para estrelar a campanha.

À noite, Fabinho foi à casa de Bárbara. A perua o havia convidado para um jantar, e é claro que ele não deixaria passar essa oportunidade. Natan, a esposa e Maurício estariam lá. Fabinho até comprou flores para Bárbara. Faria tudo para agradá-la, pois fazia parte do plano de ganhar a simpatia e a confiança dela. Foi Emília, a governanta, quem atendeu a porta.

— Boa noite. — Fabinho cumprimentou.

— Boa noite. — disse Emília.

— Boa noite. — Fabinho disse a todos que estavam presentes.

— Boa noite, Fábio. Fábio Queiroz. — disse Bárbara.

— Já chegou todo mundo? — perguntou Fabinho. — Espero não ter me atrasado.

Amora fez uma cara de quem comeu e não gostou. Ela se perguntou que Fabinho estava fazendo ali, e qual o interesse dele em se aproximar dela e da mãe dela. Não estava gostando nada da marcação de Fabinho.

— Uma pequena amostra da minha gratidão por me acolher em sua casa. — disse Fabinho, entregando as flores à Bárbara.

Bárbara ficou encantada.

— Meu Deus! — disse Bárbara, sorrindo, feliz. — Mas é um encanto. Nossa, eu é que fico feliz em receber um rapaz tão elegante e gentil na minha casa.

— Maurício. Tudo bem? — Fabinho cumprimentou-o com um aperto de mão e uns tapinhas nas costas.

— Tudo bem. — disse Maurício, dando-lhe uns tapinhas na barriga.

— Seu Natan. Dona Verônica. — Fabinho cumprimentou os pais de Maurício.

— Olha aqui, garoto, não tem nada de seu Natan. — disse Natan.

Fabinho se assustou com o tom de voz de Natan.

— É Natan, rapaz. Dentro e fora da agência. — disse Natan.

Bárbara riu. Fabinho ficou aliviado.

— Que susto! — disse o moço, sorrindo.

— Te peguei! — brincou Natan.

— Bom, eu não tomaria essa liberdade, mas já que liberou... — disse Fabinho. Ele não tratou Natan com intimidade antes porque achou que pegaria mal. Afinal, havia acabado de conhecê-lo.

— E minha amiga? — disse Fabinho, aproximando-se de Amora e lhe dando um beijo na cabeça. — Como é que tá minha amiga? Tudo bem?

Amora estava com a cara amarrada. Ela não entendia por que Fabinho ficava se fazendo de amiguinho dela. Alguma coisa ele devia estar tramando. Ela não tinha como saber o que era. Mas alguma coisa não estava cheirando bem. Amora achava estranho Fabinho querer ficar tão amigo da família. Ela se perguntava qual o interesse de Fabinho na família.

— Hipocrisia: dez. — murmurou Amora. — Você não dorme em serviço, né, cara?

Neste momento, Malu desceu as escadas. Bárbara apresentou:

— Ah, essa é Maria Luísa, minha outra filha.

— Boa noite! — disse Malu.

— Você conhece o Fabinho? — disse Bárbara. — Fábio Queiroz, amigo de infância da Amora.

— Tudo bem? — disse Fabinho. Malu assentiu.

— Mau! — disse Amora, chamando o noivo.

Maurício cumprimentou Malu e foi atrás de Amora.

— Fique à vontade. — disse Bárbara para Fabinho.

— Obrigado. — disse Fabinho, aproximando-se de Malu.

Fabinho ficou feliz. Então aquela era sua irmãzinha caçula! Ele não perderia a chance de se aproximar dela, para que ela fizesse a ponte entre ele e o pai. Era a primeira vez que a via. Aliás, a segunda. Agora lembrava-se de tê-la visto na festa de noivado da Amora, mas naquela ocasião não haviam sido apresentados e ele não tivera a oportunidade de falar com ela. Apesar de ser filha de um cineasta famoso e de uma atriz de novelas, Malu não costumava aparecer nas revistas, muito menos na televisão, por isso, Fabinho ainda não havia conhecido o rosto da irmã. Sabia que Plínio tinha uma filha, sabia até o nome da garota, mas Malu procurava sempre manter-se longe dos holofotes. Nunca concedia entrevistas. Malu disse:

— Então você é a terceira pessoa daquela famosa foto?

Gilson e Salma haviam falado brevemente de Fabinho para ela. Malu não sabia muita coisa sobre Fabinho, apenas que ele havia sido adotado por uma família importante de Ribeirão Bonito.

Fabinho chegou à conclusão de que Malu já estava sabendo quem ele era, de onde vinha. Ela sabia que ele cresceu em um lar de adoção com Bento e Amora, até tinha visto a famosa fotografia. Fabinho ficou desconfortável quando Malu mencionou a foto. Tudo o que se referia à sua infância, dava gatilho. Mas seria um assunto para conversar com ela.

— Pois é. — disse Fabinho. — Aliás, hoje é aniversário do Bento.

Era uma data que Fabinho detestava, pois marcava sua chegada ao lar do Gilson, no mesmo dia que Bento. Para ele, a data era apenas o aniversário de Bento e não o seu. Sempre preferiu não dividir a comemoração com Bento, para não ficar à sombra dele. Preferindo esquecer o passado, ele havia resolvido apagar a memória de ter sido abandonado e vivido a infância toda naquele lar, e considerava o dia de sua adoção por Margot e o falecido marido como seu verdadeiro aniversário. Fabinho nunca comemorou a data, nem quando morava no lar e procurava evitar contato com seu passado. Ele sabia que ninguém da Casa Verde o convidaria, pois todos conheciam seu desgosto pela data, além do mais, todos o julgavam um mau-caráter. Quando ele morava no lar, não costumavam fazer uma festa de aniversário para ele, porque ninguém compareceria à sua festa. Ele era muito rejeitado pelas crianças do lar e da rua, até pelos adultos. Mas ele quis garantir que ninguém o procuraria, por isso não deu o número de seu celular para o pessoal, nem o endereço de onde estava hospedado. Só forneceu seu número para Érico, porque era seu colega de trabalho. Ele era o estagiário, estava sob as ordens do Érico, que era gerente de planejamento, então não teve outra saída. Fabinho não participaria da festa de Bento, mesmo se convidado, pois não suportava o ambiente nem as pessoas daquele lugar. Gilson, Salma e Bento já o conheciam o bastante para não convidarem. Malu certamente não sabia ainda que ele e Bento haviam chegado ao lar no mesmo dia, senão teria lhe dado os parabéns.

— Sério? — disse Malu, surpresa. Não estava sabendo que era o aniversário do Bento.

— Sério. — disse Fabinho.

— Nossa, vou ligar pra ele. — disse Malu. — Eu gosto muito do Bento, sabia?

Malu conheceu Bento quando foi à casa do Gilson entrevistá-lo. Ela estava fazendo uma pesquisa sobre lares adotivos. Era um trabalho para a sua pós-graduação. Malu se interessava por esse tema, pois ela mesma tinha irmãos adotivos. Malu adorou conhecer o Bento. Fazia muito pouco tempo que o conhecia, mas já havia percebido que ele era um cara bacana. Uma pessoa realmente incrível. E agora estava conhecendo Fabinho pessoalmente e estava considerando a possibilidade de entrevistá-lo também.

Fabinho pensou que Malu ia gostar ainda mais dele, quando soubesse que ele era seu irmão. Ele ainda iria conquistar o afeto dela.

— É. Vai gostar muito de mim também. — disse Fabinho. — A Amora fala sempre de você.

Ainda não podia revelar para Malu que era irmão dela.

— Impossível. Ela só fala de quem interessa. — disse Malu.

Amora e ela eram irmãs, mas não eram próximas nem nunca se deram bem. Amora não se interessava por ninguém daquela casa, além de si própria. Amora só se dava com Bárbara. A relação de Malu com Amora sempre foi distante e marcada pela diferença de personalidades e de princípios. Bárbara tinha uma preferência clara por Amora, a quem idolatrava e tratava como sua filha favorita, porque Amora era mais maleável aos seus caprichos e ao mundo das celebridades que ela tanto prezava. Malu, porém, estava em constante conflito com o estilo de vida superficial da mãe e da irmã de consideração.

Fabinho percebeu que a abordagem não deu certo. Pelo visto, Malu e Amora não se davam bem.

— Então vou começar de novo. — disse Fabinho.

— Por favor. — disse Malu.

— Eu sou um grande admirador do seu pai. — disse Fabinho.

Malu não caiu na conversa dele. Por aí estava cheio de pessoas que diziam admirar o pai dela. Ela queria ver se Fabinho admirava mesmo.

— Ah, é? E qual dos filmes dele que você mais gosta?

Fabinho não sabia nada a respeito dos filmes de Plínio. Ele não vira nenhum e não sabia direito o que responder. Fabinho não era o sujeito mais culto do universo. Ele se deu conta de que havia se preocupado apenas em saber quem era seu pai, e que não procurou conhecer as obras dele.

— O último. — disse Fabinho. — O último pra mim é sempre o melhor, é incrível.

— O último? Sei. — disse Malu. — Olha, eu vou pra lá. Esse papo tá meio esquisito. Eu tenho mais o que fazer. Dá licença, Fábio.

A garota começou a se afastar, mas Fabinho a chamou:

— Calma, calma aí... Vamos conversar.

Fabinho queria se aproximar da irmã e se tornar amigo dela. Afinal, Malu era sua parente e, além disso, poderia ser uma fonte valiosa de informações sobre o pai. Ele desejava conhecer tudo a respeito do pai, mas também tinha curiosidade em saber mais sobre a própria irmã. Fabinho sentia que gostaria dela e estava ansioso para conhecê-la melhor.

— Eu... Eu admiro o seu pai mesmo. — disse Fabinho. — Eu tenho um sonho: conhecê-lo pessoalmente.

— E você vai conversar o que com meu pai? Hein? — perguntou Malu. — Sobre o último filme dele que você não sabe nem o nome?

— Você acha que eu não posso conversar com o seu pai? — disse Fabinho. — Porque eu não sei tudo sobre ele, que pode rolar uma conversa bacana entre a gente?

— Olha, eu acho que você pode tentar, mas o Plínio Campana, ele é muito ocupado pra perder tempo com um playboy como você. — disse Malu. — Dá licença.

Malu achou Fabinho um bobo. Deslumbrado. Pelo visto, ele queria ficar perto de gente rica e famosa. Mas Plínio não daria a menor atenção a ele.

Malu afastou-se. Fabinho ficou furioso. Aquela garota não podia falar com ele daquele jeito. E se ela pensava que ele iria desistir de se aproximar do Plínio, estava muito enganada.

— Isso é o que você pensa. Irmãzinha. — disse Fabinho para si mesmo. Percebeu que Malu era muito esperta e que não cairia facilmente na conversa dele. Ela logo ficou desconfiada. Mas ele não desistiria de tentar se aproximar dela. A esperteza dela era uma ameaça aos seus planos. Porém, ao mesmo tempo, no fundo, ele até admirava a inteligência dela. No fundo, ele até gostava de ver que de boba, Malu não tinha nada.

Todos se reuniram na sala para conversar: Malu, Amora, Maurício, os pais de Maurício, Bárbara e os outros três filhos adotivos dela: Luz, Kevin e Dorothy.

— ... E aí eu falei: “Olha aqui, seu quadrúpede, eu não gravo mais nenhum capítulo dessa sua novelinha chinfrim”. — disse Bárbara, e Fabinho riu. — Aí o personagem fez uma viagem pra Paris e eu saí da história. Foi isso.

— Inclusive, o autor fez o avião explodir em pleno ar. — disse Kevin.

— Kevin! — disse Bárbara, séria.

— E durante uma semana todos os personagens da trama festejaram a sua morte. — completou Luz.

— E o elenco também, né? — disse Dorothy, sentada ao lado de Bárbara.

Todos riram. Foi uma gargalhada geral. Fabinho achou os irmãos adotivos de Malu e Amora divertidos, principalmente porque eles pareciam gostar de irritar Bárbara. Bárbara disse:

— Olha, aí eu já não sei porque eu não quis mais acompanhar nenhum capítulo dessa historinha infame.

— Já volto. — disse Natan, rindo.

Natan levantou-se, bebendo o seu champanhe. Bárbara perguntou:

— Ah Natan, você não quer me ajudar a escolher um vinho?

Fabinho observava atentamente cada movimento dos dois. Natan pegou um canapé que o mordomo, Bolívar, estava servindo.

— Ah... Sim, claro. — concordou Natan.

Natan e Bárbara dirigiram-se à adega. Fabinho viu Bárbara beliscar a bunda de Natan.

Verônica aproximou-se de Malu e conversou um pouco com ela. Logo Malu deu um abraço em Verônica e, em seguida, despediu-se de todos:

— Tchau, gente! Boa noite. — disse Malu, e acenou.

Ela resolveu ir à festa do Bento. Seria uma boa oportunidade para conversar com ele, se desculpar por ter omitido dele que Amora era sua irmã. Ela queria desfazer o mal-entendido. Bento ficou chateado. Mas Malu só quis protegê-lo. Se ele se aproximasse de Amora, logo a mídia apareceria na Casa Verde, para explorar a relação dele com Amora. A mídia iria querer saber tudo da amizade de Amora Campana com um florista pobre da zona norte de São Paulo, para vender capa de revista. Era capaz até de os jornalistas insinuarem que Amora estaria tendo um caso com Bento.

Além do mais, Malu não queria ficar ali, vendo Maurício e Amora no maior romance, e vendo sua mãe dar em cima de Natan. Bárbara havia cismado que Natan iria ser o novo marido dela. Ela decidira roubá-lo de Verônica. Mal enviuvou, Bárbara já queria casar de novo. Malu viu Natan sair do quarto de Bárbara dias atrás, e teve uma discussão feia com a mãe. Ela não se sentia bem com a situação. Morria de vergonha. Tinha acabado de dizer à Verônica que ela não merecia que lhe fizessem nenhum mal. Malu não contou nada nem para Verônica, nem para Maurício, porque mesmo não prestando, Bárbara era sua mãe. Malu acreditava que não cabia a ela contar, e tinha receio de falar e piorar as coisas. Verônica iria sofrer. Maurício iria se revoltar, chutaria o balde, brigaria com o pai. Malu resolveu ir ao aniversário de Bento para espairecer, tirar as preocupações e as aflições da cabeça, e achava que a festa de Bento estaria bem mais animada que aquele jantar.

— Boa noite. — disse Fabinho.

— Tchau, Malu. — disse Maurício.

— Boa noite. — disse Dorothy.

— Tchau. — disse Luz, e Kevin acenou para Malu.

Algum tempo depois, Fabinho foi atrás de Amora, que havia deixado uma taça sobre a mesa e ficou ali parada, pensativa. Fabinho sabia em quem ela estava pensando. Com certeza pensava no Bento. Fabinho aproximou-se por trás da moça e quase beijou o ombro dela. Amora afastou-se.

— E aí, cocotinha? — disse Fabinho. — Já mandou mensagem pro Bento? É aniversário dele, né? Ele está te esperando. Você não vai deixar a família rica do seu noivo pra ir pra zona mais pobre da Casa Verde, né? Até porque errar uma vez é humano, duas é burrice. E a gente sabe muito bem que de burra você não tem nada, né?

No dia anterior, pouco antes de ir embora da Casa Verde, Fabinho viu Bento se despedir de Amora e convidá-la para seu aniversário. Amora respondeu para ele que não mandou nenhuma mensagem para o Bento, que depois mandaria, e que ficaria para o jantar com a família do noivo.

Amora não conseguia entender por que Fabinho havia cismado com ela e qual era o interesse dele em afastá-la de Bento. Ela havia ficado com a impressão de que Fabinho estava tentando impedi-la de ir à festa de Bento. Se bem que Fabinho já era obcecado por ela quando era criança. Contudo, ela achava que Fabinho já tinha deixado esta obsessão para trás. Afinal, tantos anos haviam se passado. Pelo visto, ela estava enganada.

Fabinho e Amora voltaram para a sala. Amora sentou-se ao lado de Maurício. Natan e Bárbara continuavam na adega. Fabinho bem podia imaginar o que faziam. Verônica resolveu puxar conversa com Amora.

— Sabe que seu gesto me surpreendeu? Não comenta nada com o Natan, mas eu realmente achei lindo você ter ido visitar os seus amigos de infância, as pessoas que te criaram, Amora. Eu achei realmente admirável.

Amora não recebeu muito bem o elogio da sogra.

— Você me acha assim tão fútil a ponto de valorizar tanto o simples ato de eu visitar alguém? O que você sabe sobre mim? — disse Amora. Verônica nem escondia o ranço que tinha dela. Vivia criticando-a. Verônica tratou o fato de ela ter visitado os amigos de infância, o bairro onde morou por um ano como coisa de outro mundo. Na opinião de Amora, Verônica não devia se surpreender tanto com o gesto dela.

— A gente só sabe das pessoas aquilo que elas nos dão a conhecer, Amora. Desculpa. — disse Verônica.

Fabinho, que estava por perto, percebeu que Amora e Verônica não se davam bem. Natan e Bárbara voltaram para a sala.

— Com licença. — disse Verônica, levantando-se do sofá e saindo de perto de Amora. Foi atrás de Natan.

— Sua mãe é fogo, hein? — disse Amora a Maurício.

— Amora, a minha mãe, ela só quis ser gentil. — defendeu Maurício. — Ela falou pra você que você é admirável.

— Essa é a sua leitura. — rebateu Amora. — Pra mim foi mais uma forma polida da sua mãe deixar bem claro que ela não vai com a minha cara.

— Dinned is served! — disse Bárbara, batendo as mãos. — O jantar está servido.

— O jantar está servido. — disseram os filhos adotivos de Bárbara, imitando-a, e fizeram o mesmíssimo gesto com as mãos.

Durante o jantar, Fabinho elogiou o vinho:

— Esse vinho é incrível, né?

Fabinho sabia que foi Natan quem escolheu. Ouviu Bárbara pedir a Natan para ajudá-la a escolher um vinho. Além do mais, Bárbara não levava jeito de quem tinha conhecimento sobre vinhos. E Fabinho não perdia uma oportunidade de puxar o saco do chefe.

— Natan que escolheu, porque eu infelizmente não entendo nada de vinho. — disse Bárbara. — O meu penúltimo marido, sim. Ele entendia tudo de vinhos. Ainda bem que ele teve a gentileza de deixar a adega cheia antes de se converter ao islamismo, não é?

Riram. Bárbara perguntou:

— E você, Fabinho, está gostando da Class Mídia?

— Eu gostei muitíssimo. — disse Fabinho. — Só espero corresponder à oportunidade que o Maurício e o Natan estão me dando.

Maurício levantou a taça.

— Obrigado. — disse Fabinho.

Bolívar ia servir vinho à Amora, porém ela recusou:

— Não, Bolívar. Obrigada. Eu tô com dor de cabeça.

Amora não teve um bom dia. Ela foi trocada pela Mulher Mangaba na campanha da Scarpe Dolcetto. Para ela era muita humilhação. Sueli Pedrosa entregou a história do atraso para se vingar dela, pois foi expulsa da festa de noivado. A imprensa inteira caiu de pau em cima dela, e Pascoal, o dono da marca, resolveu tirá-la da campanha. Amora não podia esperar outra atitude de Pascoal Gambini. Na visão dela, Pascoal era um sujeito rude e ignorante, e tinha um péssimo gosto, pois vendia sapatos bregas. Claro que o Pascoal iria preferir uma funkeira a ela. Mas o pior foi que Sueli manchou a imagem dela, dando a entender que ela era rebelde e volúvel, ou que tinha vergonha do seu passado de órfã abandonada. Ela realmente tinha horror da Casa Verde e não se orgulhava de ter sido menina de rua, mas a mídia não precisava saber disso, porque não era bom para sua imagem. O problema era que, no mundo das celebridades, qualquer tropeço banal adquiria proporções gigantescas. Ela apenas havia se atrasado para um compromisso de trabalho, mas a mídia tratava como se fosse um crime. Se ela mentiu, era porque não queria mais a mídia explorando o passado dela, e além do mais, como ela previu, Pascoal não entendeu.

— Não admira. — disse Natan. — Seu dia deve ter sido muito pesado hoje, não é, Amora? Mas é assim mesmo. Quando se é jovem, a gente dá muitas cabeçadas. O importante é aprender com elas pra não repetir.

— Antes que você continue com a sua lição de vida, vamos deixar bem claro que eu jamais quis fazer essa campanha. — disse Amora. — Os sapatos Scarpe Dolcetto pra mim é a coisa mais brega...

— A sua opinião não interessa. — interrompeu Natan. — No momento em que você aceitou fazer essa campanha, era sua obrigação ser profissional.

— Eu só aceitei porque você me pediu. — disse Amora. — Aliás, você implorou pra fazer bonito com seu cliente novo, que desde o começo deixou muito claro que não me queria na campanha, mas eu deixei tudo isso de lado, eu fui profissional, eu fui...

— Ah, foi, foi! — interrompeu Natan. — A mídia mostrou muito bem o seu profissionalismo.

— Eu me atrasei sim. — disse Amora, mostrando-se alterada.

— Amora... — Maurício tentou acalmá-la.

— Peraí, Maurício. — disse Amora. — Eu me atrasei sim, mas eu fui lá e eu fiz o ensaio!

— Ela fez, Natan. — defendeu Bárbara.

— E eu ainda aturei quieta todas as grosserias daquele sujeitinho ignorante. — disse Amora. — E pra quê? Pra no final disso tudo, em cima da hora e por puro capricho, o seu cliente me trocar por uma funkeira cheia de banha e celulite!

— Eu não me incomodo com a celulite da Mulher Mangaba. — disse Kevin.

— Kevin! — disse Bárbara, irritada. — Pelo amor de Deus, você não repita nessa mesa essas palavras: celulite e Mulher Mangaba.

Amora levantou-se da mesa:

— Olha só, eu já engoli sapo demais por hoje. Bom jantar pra vocês.

— Amora... — disse Maurício.

— Obrigada. — disse Amora, retirando-se.

— Você também, hein, pai? Tinha que falar sobre esse assunto na mesa? — reclamou Maurício.

— Quem ia imaginar que ela ia explodir desse jeito? — disse Natan, atirando um guardanapo na mesa.

— Amora pode não estar conseguindo se controlar, mas ela está mostrando aquilo que ela realmente pensa. — disse Verônica.

Após o jantar, Fabinho foi ao quarto de Amora e bateu na porta, que estava aberta. Viu que ela estava com o celular na mão.

— Já ligou pro Bento? — perguntou ele.

Fabinho faria de tudo para impedi-la a ir à festa de Bento.

— O que você está fazendo aqui, Fabinho? — perguntou Amora. Ele tinha de aparecer bem na hora em que ela iria ligar para o Bento? O que ele veio fazer ali, o que queria com ela? Será possível que ela não podia ter um minuto de sossego? Por que Fabinho não a deixava em paz?

— Uau! — disse Fabinho, olhando ao redor. — É aqui que Amora Campana dorme e sonha, é?

Realmente, o quarto dela era muito bonito, para uma moça.

— Fabinho, sai daqui! — disse Amora, tentando empurrá-lo. Não admitia que Fabinho invadisse a privacidade dela.

— Calma aí. Que lindo isso, parece quarto de princesa. — disse Fabinho, sentando-se na cama. — Você sempre quis um desses, né? — cheirou um lenço que estava sobre a cama.

— Agora dá pra você sair do meu quarto? Sai daqui agora. — disse Amora.

— Amora, eu tô preocupado com você. — disse Fabinho. — Lá embaixo, ficou todo mundo assustado com seu piti. Mas eu sei.

— Sai, sai, sai, sai, sai! — disse Amora, expulsando-o.

— Você tá assim porque você queria ir na festa do Bento. Eu sei. — disse Fabinho, pegando um porta-retrato.

Realmente, Amora queria muito ir ao aniversário do Bento. Havia prometido para ele que iria. Ela podia não suportar a Casa Verde, a rua, aqueles vizinhos, porque lhe lembravam da pior época de sua vida. Mas Bento era importante para ela. Ela não queria magoá-lo. Não a agradava ir a um bar de pagode, mas ela podia fazer o sacrifício, por amor ao Bento. Mas Bárbara resolveu dar um jantar para a família do Maurício. Amora achava que não iria pegar bem se ela saísse no meio do jantar com a família do noivo para ir à festa do Bento. Bárbara tampouco aprovaria. Além do mais, Amora não queria que ninguém tirasse uma foto dela naque-le lugar e postasse na internet. Ela não queria falar para a mídia daquele lugar, da infância descalça. Ela não queria a mídia explorando sua infância, de jeito nenhum. Já bastava o que Sueli Pedrosa havia feito. Esse era o lado ruim de ser uma celebridade: ela não tinha privacidade, não podia sair para qualquer lugar que corria o risco de ser fotografada. Além disso, ela tinha uma imagem a zelar. Seu público não iria gostar de ver nas revistas ou na TV uma foto sua no Cantaí. Ela atendia a um público acostumado a vê-la em lugares elegantes, e o Cantaí não era nada glamouroso. Seus fãs ficariam horrorizados se a vissem em um pé-sujo na zona norte.

— Não mexe aí. — disse Amora. Ela achou que Fabinho era muito intrometido, abusado, espaçoso.

— Calma aí. — disse Fabinho, dando uma olhada na foto.

Fabinho colocou o porta-retrato de volta no lugar.

— Eu acho que eu posso te ajudar, sabia? Você gosta de andar de moto? — ofereceu Fabinho, pegando uma pulseira. — Tenho uma bem legal.

— Chega, sai daqui! — disse Amora, tomando a pulseira da mão dele e colocando-a de volta onde estava.

— Maurício adora minha moto. — disse Fabinho.

— Sai do meu quarto agora! — disse Amora.

— Que isso aqui? — disse Fabinho, indo até o closet. — Que isso, Amora?

— Fabinho, não entra aí! — disse Amora.

Amora não gostava de que ninguém visse a sua coleção de sapatos. Ela não queria que ninguém achasse que era maluca. Era algo que ela nunca havia mostrado ao público, a ninguém.

Fabinho abriu a porta dupla do closet. Ficou chocado. Amora tinha centenas de sapatos repetidos. Que loucura!

— Meu Deus do céu! — disse Fabinho, pegando um par de sapatos. — Isso aqui não é um closet, é um shopping, né? E essa quantidade de sapato repetido, Amora? Que isso? Tá louca?

No ponto de vista de Amora, se ela era louca ou não, não era da conta dele. Nem dele, nem de ninguém. Ela comprava centenas de sapatos repetidos para se sentir segura, para garantir que não ficaria mais descalça.

— Não te interessa. — disse Amora. — Se você não sair daqui agora vou chamar o segurança.

— Amora! — disse Fabinho, colocando o par de sapatos de volta no lugar. — Você é muito mais louca do que eu pensava. Isso aqui é caso de terapia.

Fabinho percebeu que Amora era tão maluca quanto ele. Ela não superou o fato de ter passado a infância descalça. E ele não superou ter vivido anos naquele lar, com aquelas crianças que o excluíam, o isolavam, não o chamavam para brincar, chamavam de Fraldinha. Uma delas havia até destruído seu brinquedo favorito, o único que ele ganhara de Natal.

— Um, dois... — Amora começou a contar.

— Vou sair. — disse Fabinho. — Amora, você sabe que esse closet é maior do que a casa do Bento, né? Eu acho que você tinha que pensar duas vezes antes de voltar pra Casa Verde.

— Fabinho, por quê que você tenta me afastar tanto do Bento, hein? — perguntou Amora. Desde criança Fabinho tentava afastá-la de Bento. Ele não se cansava de azucriná-la. Por que essa cisma com ela? Seria inveja do Bento? No ponto de vista de Amora, só podia ser essa a explicação.

Fabinho achava que Bento não era o homem certo para Amora. Ele, sim, era homem para ela, porque iria ficar rico. Mostraria para Amora que ele podia ser muito melhor que o Bento, mais bem-sucedido.

— Já te falei, Amora. — disse Fabinho. — Quero seu bem. Quero te ver no caminho certo. Por isso trata de tirar o Bento da sua cabeça.

— E por quê que ela tem que tirar o Bento da cabeça, Fabinho? — perguntou Maurício, que havia acabado de entrar no closet e ouviu parte da conversa.

É claro que o clima ficou tenso. No entanto, Fabinho nem se abalou.

— Sabe o quê que é, Maurício? — disse Fabinho. — É que hoje é aniversário do Bento e Amora prometeu que ia, só que a festa é num barzinho de pagode. Tô falando pra ela. Imagina se alguém tira uma foto, bota na internet.

— Amora, isso não seria bom. — disse Maurício.

Para Maurício era evidente que uma foto de Amora Campana em um bar de pagode daria o que falar, e não seria bom para a imagem dela. O público não estava acostumado a ver Amora em um ambiente desses.

— É. — disse Fabinho.

— Meu amor, por quê que você não faz uma coisa? — disse Maurício à Amora. — Dá um tempo, preserva sua imagem. Deixa a mídia esquecer essa história toda, senão eles vão continuar inventando fofoca atrás de fofoca.

— É, manda uma mensagem pro Bento. Ele vai entender. — disse Fabinho.

Amora ainda pensava em ir para a Casa Verde ver o Bento. Maurício logo iria embora, os pais dele também. Ela não podia deixar de ver o Bento, ainda mais em uma data tão importante. Porém, ao mesmo tempo, morria de medo de que alguém tirasse uma foto sua e postasse na internet. Além do mais, tinha horror daquele lugar. Amora morria de vontade de ver o Bento, queria estar ao lado dele, comemorando com ele. Mas ela não iria suportar ficar naquele lugar, naquela rua por muito tempo. Até pensou em ligar para o Bento, dar uma desculpa qualquer para não ir. Mas não sabia se Bento iria entender, e ela não queria magoá-lo.

— Eu sei muito bem o que eu faço, tá? — disse Amora. — Obrigada, Fabinho. Você pode voltar lá pra sala. Dá licença pra gente, por favor?

— Tá bom. Vou deixar o casal. — disse Fabinho, colocando a mão nos ombros de Amora e Maurício.

— Tchau, Fabinho. — disse Maurício.

— Tranquilo. Um abraço. — disse Fabinho, despedindo-se.

Mais tarde, Fabinho acabou pedindo emprestado uns DVDs do Plínio Campana para uma das filhas adotivas da Bárbara. Afinal, ele precisava se aproximar do pai, e esse seria um assunto para conversar. E é claro que queria impressionar o pai com seus conhecimentos sobre os filmes dele.

— Aqui os filmes do Plínio Campana. — disse Luz, trazendo os DVDs.

— Obrigado. — disse Fabinho. — Adorei. Você não sabe o favor que está me fazendo. Eu vejo e depois devolvo, tá?

— Ah, nem precisa. — disse Luz. — Pode demorar mais tempo se quiser. Acho muito legal você ser fã do Plínio.

Fabinho pensou que ele seria o maior fã de Plínio, afinal, era seu pai.

— Eu acho ele o maior cineasta vivo do país. — disse Fabinho.

— Ah, pena que vocês já estão indo. — disse Bárbara, descendo as escadas. — Tão cedo. De qualquer forma, muito obrigada pela noite tão saborosa.

— Agridoce, eu diria. — disse Natan.

— Bom, esse é o preço que pagamos por sermos tão singulares, não é? Tanto gênio, tanto espírito, também cobra o seu pedágio. — disse Bárbara.

— Muito obrigado pelo jantar, Bárbara. — disse Natan, despedindo-se.

— Claro. — disse Bárbara, enfiando um lenço no bolso do Natan sem que ele perceba. Fabinho observou tudo e decidiu tirar algum proveito disso. Ele daria um jeito de conquistar a confiança de Natan.

— Nos vemos. — disse Natan.

Bárbara murmurou algo no ouvido de Natan.

— Até mais! — disse Natan.

— Ah, Verônica! Maurício, por favor, perdoem a Amora, porque a culpa é toda minha. — disse Bárbara. — Eu sempre fiz todas as vontades dessa menina, mas eu sou assim mesmo. Eu mimo demais as minhas crias.

— E aí, quando eles crescem, acabam virando uma bomba-relógio. — disse Verônica, fazendo um carinho no ombro do filho.

— Ah, vai me dizer que você também não mima o Maurício? — perguntou Bárbara.

— Eu mimei, sim. — disse Verônica, sorrindo. — Mas eu não fiz todas as vontades dele, não.

— É, mas o papai fez, né? — rebateu Maurício. — Vambora. Tchau, Kevin. Tchau, crianças.

— Tchau, meninos! — disse Verônica, despedindo-se.

Fabinho acenou, em despedida.

— Bárbara, obrigada pelo jantar, tá? — disse Maurício, despedindo-se de Bárbara com um beijo no rosto.

— Bárbara. — disse Verônica, dando um beijo no rosto de despedida.

— Tchau. — disse Bárbara.

Maurício e Verônica foram andando na frente de Natan.

— Boa noite. — disse Natan, saindo.

— Boa noite. — disse Bárbara.

— Bárbara, obrigado pela noite adorável. — Fabinho despediu-se.

— Ah, imagine! — disse Bárbara, dando-lhe um beijo no rosto.

Ela viu que Fabinho estava levando uns DVDs.

— Que isso? — Bárbara tomou os DVDs das mãos dele, olhou-os e riu. — Você sofre de insônia.

— Eu sou um grande admirador do Plínio. — disse Fabinho.

— Ah, eu também sou uma grande admiradora do Plínio, mas aí assistir os filmes dele vai um certo exagero, não vai? — ela disse, devolvendo os DVDs.

— Boa noite. — disse Fabinho.

— Boa sorte. — disse Bárbara.

— Obrigado. Tchau. Tchau. — disse Fabinho, indo embora.

— Tchau. — disse Luz.

Na saída, Fabinho chamou Natan.

— Natan. — disse ele.

— Oi. — disse Natan, virando-se.

— Acho que a Bárbara deixou cair alguma coisa no bolso da sua jaqueta.

— É?

— É. Boa noite. — disse Fabinho, despedindo-se.

— Boa noite. — disse Natan.

Fabinho, montado na moto, viu Natan tirar o lenço do bolso e atirar no chão.

— Mas que pistoleira. — disse Natan, indo embora.