Um amor improvável
32 Exame de DNA
No dia seguinte, Fabinho falou com Mel ao celular. Mel continuava trabalhando na Class Mídia. Ela estava contando que havia apresentado para o Natan um novo cliente, o dono da rede de motéis Volevu. Na opinião de Fabinho, era uma rede de motéis dos mais fuleiros. Pelo visto, a Class Mídia estava afundando cada vez mais. Estava baixando o nível.
— Propaganda de rede de motel é o fim da linha total, né? — disse Fabinho.
— Depende da pegada. Pensa aí. — disse Mel.
De repente, Natan entrou na linha:
— Escuta aqui. Você aceita propostas ou não tá precisando mais trabalhar?
Fabinho pensou que Natan devia estar desesperado para salvara agência. Por isso o chamou para trabalhar. Natan sabia que ele tinha talento (pelo menos, era o que o próprio Natan sempre dizia) e que se dependesse da equipe da Class Mídia, a agência não iria durar muito, porque Natan era tão vaidoso que só contratava gente medíocre para brilhar sozinho. Natan não podia mais contar com a ajuda da ex-esposa, nem do Érico, que era quem moldava as campanhas ao gosto do cliente.
— O quê que é? Você quer me pedir em casamento? — Fabinho zombou.
— Praticamente. — disse Natan. — Quando é que podemos conversar?
— Olha, eu vou tá no lounge hoje dez da noite. — disse Fabinho. — Ou, se você quiser, eu passo aí amanhã de manhã.
— Então, amanhã de manhã entre onze e meio dia. — disse Natan. — Tá bom. — disse Fabinho, desligando o celular.
— Não esquece que amanhã cedo nós temos o exame de DNA. — disse Plínio, que havia entrado na sala e ouvido a conversa.
— Tá bom. — disse Fabinho. — Você tá doido pra me ver pelas costas, né?
— Se você sabe a resposta, não precisa perguntar. — disse Plínio.
Fabinho sorriu. Estava na cara que Plínio o desprezava.
Mais tarde, quando já havia anoitecido, Fabinho foi ao lounge. Mel ainda não havia chegado. Fabinho foi para o bar, porém, quando chegou, Camilinha esbarrou e derramou bebida nele.
— Desculpa, desculpa! — disse Camilinha.
— Tudo bem, não tem problema, eu gosto. — disse Fabinho, sorrindo, e Camilinha riu. — Só vamos combinar o seguinte: da próxima vez vai ser champanhe, tá? — fez um carinho no rosto dela. Camilinha era uma gata.
— Hum! Gosta de tomar banho de champanhe, é? — perguntou Camilinha.
— Uhum. Principalmente se for bem acompanhado. — disse Fabinho.
— Vem cá, não é você que vai fazer uma festa no bufê infantil?
Mel chegou neste momento e ouviu parte da conversa. Ela não gostou nada de ver Fabinho jogando charme para Camilinha. E estava na cara que Camilinha estava correspondendo ao flerte. Mel aproximou-se. Não que morresse de amores por Fabinho, mas não deixaria ninguém mais tentar fisgar o bom partido. Ela é que ficaria com o filho do Plínio Campana.
— Exatamente, é ele mesmo. No bufê infantil do meu pai, né, amor? — disse Mel.
— Uhum. — disse Fabinho, e Mel tascou um selinho nele.
— E a supervisão do evento tá com a Bia Vidigal. — disse Mel.
— Hum! Muito bem assessorados. — disse Camilinha.
— Uhum. — disse Mel.
Fabinho estava abraçado à Mel, e disse:
— Eu espero que você tenha confirmado já.
Mel olhou feio para ele.
— Eu vou. Mas só se tiver cama elástica. — disse Camilinha, afastando-se.
— Só se tiver cama elástica! — imitou Mel, e deu um empurrãozinho em Fabinho.
Érico e Maurício chegaram neste momento, e atrás deles apareceu a Giane, acompanhada de um rapaz. Fabinho ficou impactado ao vê-la. Custou a acreditar que era mesmo aquela maloqueira. Ela estava mais feminina. Estava arrumada, maquiada, usava um conjunto de blusa e saia. Fabinho nunca pensou que um dia a veria de saia. Parecia outra, completamente diferente da garota moleca, sem vaidade, que ele conhecia. Ele sempre soube que ela tinha uma beleza meio escondida, disfarçada naquele visual de moleque. Ela era linda demais. Pelo visto, ela seguiu o conselho dele e mudou o visual. E com certeza, ela resolveu mudar o visual para o Bento ver o quanto ela era atraente. Até porque era só nisso que Giane pensava, em fazer Bento enxergá-la.
Fabinho se aproximou e olhou-a da cabeça aos pés. Era difícil de acreditar. Era a maloqueira mesmo, ou ele estava tendo uma ilusão de ótica?
— Ora, ora, se não é... — disse o rapaz, levando o indicador à boca. — Maria Machadão, tudo bem? — curvou os lábios num sorriso de deboche.
Para Fabinho, aquela não era Giane. Não existia nenhuma Giane. Era outra pessoa. Era Maria Machadão. Não tinha jeito mesmo. Bastava vê-la para ele voltar a ser aquele garotinho que ela humilhou anos atrás. Ele estava constantemente em conflito. Ao mesmo tempo em que não queria vê-la, desejando afastá-la, também tinha uma vontade louca de beijá-la.
Giane deu uma risada sarcástica.
— O quê que é, babaca? Vaza daqui! — disse a garota, furiosa.
— Hum! Tô vendo que tomou um banho de loja, né? — disse Fabinho, levantando a mão para tocar no brinco dela. Até brinco ela estava usando. Se ele pudesse, ele daria uma mordida no lóbulo daquela orelha. Ao mesmo tempo, ele não podia acreditar que estivesse pensando nisso.
Giane afastou o rosto imediatamente. Ele continuava olhando-a de cima a baixo. Ela estava bonita mesmo. Ainda mais quando ficava brava. Ele não podia deixar de provocá-la.
— Olha, vou te falar uma coisa. Não mudou nada, menina. Está exatamente o mesmo macho mal-acabado que você era. — disse Fabinho, rindo. — Não se fala em outra coisa.
Ele não sentia nenhuma culpa em chamá-la de macho mal-acabado. Ela o chamava de Fraldinha. Ela vivia chamando-o por apelidos vexatórios. Era frutinha, mariquinha, bundão. Fabinho estava só estava dando o troco. Além disso, jamais deixaria Giane perceber o quanto mexia com ele. Ele a insultava também para mascarar a atração imensa que sentia.
— Ah, é? — disse Giane, rindo, irônica. — Vai ver o que o macho mal-acabado vai fazer com você, seu panaca!
Giane deu um soco no rosto dele. Fabinho admirou-se. Nossa, que mão forte ela tinha! Mas ele até gostou. Na mente dele, até um soco era melhor do que não ser tocado ou notado por ela. Ela o excitava e o fascinava.
Giane dirigiu-se à Caio, o rapaz que estava ao lado dela:
— Vambora, vambora que esse lugar tá muito mal frequentado.
— Quem tem que sair é ele, não a gente. — disse Caio, enfrentando-o.
Caio tentou expulsar Fabinho, porém o rapaz o empurrou.
— Sai daqui, cara! Tá maluco? — disse Fabinho, furioso.
— O quê que é, meu irmão? — disse Caio.
Fabinho o empurrou novamente.
— O quê que é? — disse Caio.
Mel apareceu neste momento e viu a briga.
— Fá, o quê que é isso, o que tá acontecendo? — perguntou Mel.
— Não é nada, não, Mel, vambora. — disse Fabinho, indo embora, levando Mel pela mão. — Ah, seu palhaço!
— Vai te catar! — disse Caio.
— Vá se ferrar, babaca, imbecil, ah! — gritou Giane.
— Vai te catar! — disse Caio.
Fabinho passou o resto da noite com Mel. No dia seguinte, Fabinho acordou cedo e ouviu vozes.
— Você ainda gosta de geleia de damasco? — perguntou Plínio.
— Eu lembro que você detestava. — disse Irene.
— Passei a gostar, porque lembrava de você. — disse Plínio.
— Bom dia, bom dia. — disse Fabinho, entrando na sala.
Fabinho surpreendeu-se ao ver Irene sentada à mesa de centro, ao lado de Plínio. Pelo visto, os dois se reconciliaram, se entenderam, finalmente. Plínio não estava mais magoado com Irene. Fabinho gostou de ver os pais juntos. Ficava feliz só de pensar na cara de Bárbara ao vê-los juntos. Bárbara se mordia de inveja de Irene, armou para separá-la de Plínio no passado, e acreditava que Irene era carta fora do baralho, mas agora Irene iria ser feliz ao lado do homem que amava. Talvez ela até voltasse a trabalhar como atriz. Na opinião de Fabinho, Irene sempre foi mais talentosa que Bárbara e ainda podia voltar a atuar. Já Bárbara Ellen sempre foi canastrona e depois dos escândalos, ela estava mais queimada que churrasco grego. Fabinho cuidaria pessoalmente para que Bárbara nunca mais conseguisse voltar para a mídia.
Fabinho sempre sonhou em ter uma família de verdade, com pai, mãe, irmã. Ele queria muito fazer parte da família Campana, mas infelizmente, ele acreditava que isso não seria possível.
— Que isso, gente? — disse Fabinho, rindo. — Mamãe, tá fazendo o quê aqui? — sentou-se à mesa. — Hum! Entendi tudo, casal 20 fez as pazes, né? — pegou meio pão francês e tirou o miolo. Estava bem-humorado. — Que bom, família de comercial de margarina, como eu sempre quis.
Plínio, porém, interpretou como ironia. Era impressionante como o rapaz era desagradável, conseguiu estragar o clima. Ele e Irene estavam tão bem, tão felizes! Ele havia se dado conta de que não tinha mais mágoa, nem raiva de Irene. O amor que sentia por ela foi mais forte. Nunca deixou de amá-la. Mesmo depois de tantos anos, seu amor por Irene continuava o mesmo, e ele sabia que o amor era recíproco. Nunca houve espaço para nenhuma outra mulher na vida dele. Ele e Irene não eram mais as mesmas pessoas de quando eram jovens, mas ainda se amavam. Porém, bastou Fabinho aparecer para estragar tudo. O garoto não podia ver ninguém feliz.
— Por favor, nos poupe da sua lamentável ironia e vai se arrumar, nós temos que fazer o exame de DNA. — disse Plínio. — Falta pouco pra você receber a sua herança, Fabinho. Você deve estar exultante, hein?
Para Plínio, o garoto só podia estar de bom humor por causa do exame. Porque o exame iria comprovar que ele era o herdeiro, e em breve ele iria receber a parte que lhe cabia da herança. No ponto de vista de Plínio, a única coisa que interessava para Fabinho era o dinheiro.
Fabinho perdeu a fome. Plínio conseguiu acabar com seu bom humor. Plínio sempre dava um jeito de interpretar mal tudo o que ele dizia. E continuava querendo vê-lo pelas costas. Com certeza, pretendia viver sozinho com Irene. O que Plínio queria era deletá-lo de sua vida. Fabinho tinha mágoa e muita raiva de Plínio, pois Plínio queria se ver livre dele.
— Tô, tô sim. Só de saber que não vou ter que te aguentar mais, eu tô feliz da vida. — disse Fabinho, furioso, atirando o pão e indo para o quarto.
Irene não se sentia nada feliz ao ver tamanha animosidade reinando entre pai e filho. Ela adorava Malu. Malu era uma garota doce, íntegra, e era ótimo ver que Plínio tinha uma relação maravilhosa com a filha. Era bonito de se ver. Mas Irene não podia deixar de pensar na ironia da vida: Plínio tinha uma boa relação com a filha da Bárbara, a mulher que armou para separá-los, e rejeitava o filho dela, Irene, por ser mau-caráter. Irene também não gostou de ver Fabinho falar com o pai daquela maneira, como se estivesse contando os dias para se ver livre do pai. Plínio disse:
— Esse pesadelo vai acabar. Falta pouco.
Irene também não gostava de ouvir Plínio falar assim. Partia-lhe o coração saber que Fabinho iria embora assim que recebesse sua parte na herança. Para ela, esta era a prova de que Fabinho não se importava com ela, nem com Plínio, nem com ninguém, apenas com o dinheiro. Plínio já havia contado para ela que pretendia adiantar, doar parte da herança para o filho em vida. Fabinho conseguiu o que queria, que era arrancar dinheiro do pai. Certamente, Plínio achou que se não desse o dinheiro, Fabinho iria encher o saco, fazer um monte de loucuras. Então acabou cedendo. Irene sabia que Fabinho não valia nada, era mau-caráter. Mas era seu filho. Ele era a criança que ela amou à distância por tanto tempo, e queria continuar amando, apesar de tudo o que ele fez. Afinal, ele nasceu dela. No ponto de vista de Irene, mãe que era mãe amava o filho, mesmo se fosse um assassino. Não conseguiria simplesmente esquecer dele. Madá já disse mais de uma vez para ela cuidar de si e esquecer o Fabinho, mas para Irene não era assim tão simples. Ela não conseguiria se desligar dele.
Para Plínio, o fato de Fabinho ter aceitado as condições para herdar sua parte na herança era a prova de que ele não se importava com ninguém, nem tinha sentimentos por ninguém. Fabinho não se importava com ele, Plínio, nem com Irene, nem com Margot, com ninguém. Só pensava em ficar rico. Irene ficou sabendo que ele doaria parte de seus bens para Fabinho. Amora contou para ela. Porém, Plínio não falou nada para Irene sobre a condição que impôs ao rapaz. Nunca foi claro quanto a isso. Sabia que Irene jamais concordaria com isso. Ela se sentia culpada em relação ao Fabinho. Achava que se o rapaz havia se tornado um canalha, ela era a maior culpada, afinal, ela o abandonou.
Mas Plínio achava que o abandono não justificava as mentiras, as intrigas e os crimes do rapaz. Além do mais, Plínio queria proteger Irene. Irene não era emocionalmente forte, já sofreu demais e Fabinho só a faria sofrer ainda mais. No ponto de vista de Plínio, era melhor que o garoto desaparecesse da vida de todo mundo. Plínio deixaria que todos pensassem que ele estava apenas dando a Fabinho o que era de direito. Não contaria a ninguém que subornou Fabinho para que ele desaparecesse, pois não podia deixar que isso chegasse aos ouvidos de Irene. Não queria brigar com Irene por causa de Fabinho, não permitiria que o garoto os atrapalhasse, ainda mais agora que se entenderam. Além do mais, as pessoas o condenariam. Mesmo Fabinho não valendo nada, muita gente não iria concordar com a atitude dele. E Plínio tinha certeza de que Fabinho não diria uma palavra a ninguém sobre o acordo que fizeram. Até porque Fabinho sabia muito bem que se ele contasse para alguém sobre o suborno, não veria a cor do dinheiro. Fabinho sabia que ele, Plínio, não iria querer ver a família ser ainda mais exposta, e se Fabinho espalhasse por aí que estava recebendo uma fortuna para sumir da vida da família, seria um escândalo. Na opinião de Plínio, só o que importava para Fabinho era a herança. A herança e a imagem, ele queria sustentar a pose de herdeiro milionário e para isso ele teria de manter a aparência de um filho aceito pela família. Para Fabinho não importava o ser e sim o ter ou o parecer. Com certeza, Fabinho iria deixar todo mundo pensar que o pai estava premiando-o com uma fortuna.
Plínio percebia que Irene sofria com esta história, com a rejeição do filho. Mas acreditava que ela iria superar. Ele estaria sempre ao lado dela, e a ajudaria a esquecer Fabinho, até porque não havia remédio. Para Plínio, eles só conseguiriam viver em paz se Fabinho saísse do convívio deles.
Na opinião de Plínio, se Fabinho tivesse um pouco de dignidade, ele recusaria o dinheiro e iria embora por conta própria, mantendo a cabeça erguida. A dignidade não tem preço, e Fabinho se apequenou ao aceitar ser pago para sumir. Aos olhos de Plínio, o fato de Fabinho ter aceitado o dinheiro era maior prova de que ele não valia nada.
Plínio e Irene esperaram Fabinho se arrumar, e foram para o laboratório. Ao chegarem ao laboratório, dirigiram-se à recepção, onde estava Socorro.
— Bom dia. — disse Plínio. — Por favor, nós marcamos um horário pra fazer o exame de DNA.
— Eu também vou colher material? — perguntou Irene.
— Bom. — disse Socorro, levantando-se da cadeira. — Não é necessário, senhora. Eu mesma vou realizar o procedimento. — apontou para a sala. — Por favor.
Fabinho não queria fazer exame com Socorro. Ele se sentia mal só de olhar para ela. Não queria que ela chegasse perto dele, não queria que ela encostasse nele. Ele tinha vontade de sair correndo dali aos berros. Não queria ver ninguém da Casa Verde, pois isso lhe despertava lembranças de coisas que ele queria esquecer. Estava apavorado, mas disfarçou. Preferia que fosse com outra pessoa. Fabinho resolveu dar uma desculpa.
— Não, não, não, não, não. Negativo. — disse Fabinho, abanando a cabeça. — Negativo. Você é capacho da Amora, não vou com a tua cara. Você chama outra enfermeira, senão eu não faço.
— Bom, no momento eu sou a única enfermeira com autorização pra realizar o procedimento, mas... — disse Socorro.
— Então... — disse Fabinho, levantando os braços em um gesto de que não sabia.
— Se vocês quiserem, eu posso remarcar. — disse Socorro.
— Não, não, não, não, por favor, isso vai ser feito agora, tá? — disse Plínio. Dirigiu-se a Fabinho. — E você deixa de ser ridículo e peça desculpas à moça.
No ponto de vista de Plínio, não ir com a cara não era motivo para Fabinho não querer ser atendido pela moça. Isso não dava o direito de Fabinho ser grosseiro. Além disso, Plínio queria que o exame fosse feito o quanto antes. Fabinho que não atrapalhasse, não dificultasse as coisas.
— Você tá maluco, não, não, assim eu não faço, não. — disse Fabinho, afastando-se, porém Plínio o pegou pelo braço.
— Não, não, você não vai a lugar nenhum, você vai fazer exatamente o que eu mandar, entendeu, moleque? — disse Plínio, segurando o braço do garoto.
— Então larga, então larga que tá machucando, por favor. — disse Fabinho.
— Vamos lá? — disse Plínio a Socorro.
— Só um minutinho. — disse Socorro. — Eu já venho chamar.
— Obrigado. — disse Plínio, dando um tapa no ombro do rapaz.
Plínio e Fabinho foram para a sala onde seria realizado o exame. Estavam sentados nas cadeiras, esperando por Socorro.
— Essa mocréia tá demorando, né? — disse Fabinho. — É inacreditável. Isso é de propósito, hein? Só pode ser, aposto.
Fabinho se recusava até mesmo a pronunciar o nome de Socorro. Ele fazia de conta o tempo todo que não conhecia nem a Socorro, nem ninguém daquele “buraco” de onde ele saiu, que ele não viveu lá.
Plínio não gostou nada de ouvir Fabinho ofender a moça. O rapaz não tinha mesmo respeito por ninguém. Plínio não suportava o jeito do garoto.
Socorro entrou na sala neste momento.
— Aí, ó. — disse Fabinho.
— Desculpem. — disse Socorro, fechando a porta. — Eu procurei outra enfermeira que pudesse realizar o exame, mas infelizmente...
Na verdade, ela havia telefonado para Amora, contado que Fabinho havia dado um chilique, que não queria que ela fizesse o exame. Amora a mandou fazer o exame mesmo assim, pois não tinha como Fabinho des-confiar de nada.
— Por favor, não precisava se dar ao trabalho. — disse Plínio.
Socorro começou a reunir os materiais.
— Bom, aqui estão o registro da coleta. — disse Socorro, entregando o papel para Plínio assinar.
Socorro retirou do envelope dois cartões.
— Os cartões impressos com os nomes dos senhores. — ela disse, entregando para Fabinho, que deu uma olhada.
Em seguida, Socorro mostrou outro material:
— O lacre de segurança. — disse ela. — O envelope vai lacrado pro laboratório. Além de duas lancetas. — mostrou o envelope plástico trans-parente com as duas lancetas.
— Certo. — disse Plínio.
Plínio entregou para Fabinho o papel do registro da coleta e ele assinou.
— Pronto. Assinado. Acho que já podemos começar. — disse Plínio.
Fabinho entregou os envelopes e o papel do registro da coleta para Socorro. Socorro colocou luvas nas mãos. Depois foi fazer a assepsia. Ela colocou álcool no algodão e passou no dedo de Plínio. Fabinho levantou-se e afastou-se. Ele não suportava ficar perto de Socorro.
— Fábio, eu... Eu preciso que você presencie a coleta. — disse Socorro.
— Ai, meu Deus! — resmungou Fabinho, e foi olhar Socorro furar o dedo de Plínio com a lanceta. — Dói?
Plínio fez que não. Socorro pressionou o dedo de Plínio no papel filtro do cartão. Em seguida, foi a vez de Fabinho. Primeiro, Socorro colocou álcool no algodão e passou no dedo do rapaz. Em seguida, furou o dedo de Fabinho.
— Ai, ai, ai, ai, ai! — gemeu Fabinho.
Socorro arrastou a lanceta no dedo do rapaz, fazendo um corte por onde pingava mais sangue. Fez de propósito, pois precisava de uma gotinha a mais do sangue de Fabinho para colocar em outro cartão com o nome do Bento. Deixou o sangue derramar no dedo dela, e fez com que pingasse sangue no banco. Fabinho não percebeu nada.
— Ai, desculpa! — disse Socorro. — Você se mexeu.
— Brincadeira, cara! Olha lá! — resmungou Fabinho, furioso. Olhou para Plínio. — Não doía, cara? Isso pô!
Socorro pressionou o dedo de Fabinho no papel filtro de outro cartão.
— Tsc, tsc, tsc. Porra. — murmurou Fabinho, pois estava doendo.
— Ai, acabaram as gazes! — disse Socorro. — Só um momento, que eu vou pegar mais.
— Que estrutura, hein? — queixou-se Fabinho.
Socorro se virou e foi em direção ao gaveteiro. Levou consigo o cartão com o nome de Fabinho. Abriu a gaveta, onde estava outro cartão impres-so, idêntico ao de Fabinho, no nome dele, com uma gota do sangue de outro cliente. Pegou o outro cartão. Porém, na hora em que ia trocar os cartões, Fabinho jogou a caixa de luvas em suas costas. Fabinho achou que Socorro estava demorando, e não aguentou esperar. O dedo estava sangrando e doendo. Além do mais, ele não suportava ficar no mesmo am-biente que ela. Socorro virou-se, assustada:
— Ai, o quê que é isso?
— Sangue, minha querida! Quê que é isso? — disse Fabinho.
— Que comportamento infantil é esse, Fábio? — disse Plínio.
Socorro voltou a olhar a gaveta e percebeu, apavorada, que os cartões se misturaram. Plínio e Fabinho não perceberam nada.
— Não, é do dedo. — resmungou Fabinho.
Fabinho irritou-se ainda mais ao ver que Socorro estava enrolando. Não suportava ficar olhando para ela. Queria ir embora o mais rápido possível.
— Vamos, vamos, vamos, querida, aqui, hemorragia aqui, ó! — gritou.
Plínio não conseguia entender qual o problema do rapaz. Ele não podia esperar? O dedo nem estava sangrando tanto. Para Plínio, o comporta-mento de Fabinho era de um garoto mimado e infantil. Era evidente que Fabinho queria ser atendido na hora.
— Seja o que Deus quiser! — murmurou Socorro, escolhendo aleatoriamente um dos cartões. Pegou a gaze, fechou a gaveta e virou-se.
— Caramba, cara! — reclamou Fabinho.
Socorro colocou a gaze sobre a ferida no dedo dele.
— Daqui a pouco para de sangrar. — disse Socorro.
— É, vai, quero ver. — disse Fabinho.
Plínio estava morrendo de vergonha. Não suportava a grosseria do rapaz.
— Olha, você me desculpe o papelão desse moleque, tá? — disse Plínio.
— Vá. Podemos ir embora?
— Sim. Quer dizer, não. — disse Socorro. — Eu preciso que o Fábio assine o cartão. — entregou o cartão para Fabinho assinar.
Fabinho assinou o cartão e entregou para ela.
— Viu o que eu falei, né? — reclamou Fabinho, apontando para ela.
— E eu preciso que os dois assinem o lacre de segurança também. — disse Socorro, guardando todo o material no envelope e lacrando-o.
Em seguida, entregou o envelope para Plínio assinar. Depois foi a vez de Fabinho, que assinou e entregou o envelope para ela.
— Tchau. — disse Fabinho. Dirigiu-se a Plínio. — Vamos? — levantou-se da cadeira.
Fabinho andou em direção à saída. Plínio levantou-se da cadeira e disse para Socorro:
— Bom dia. Desculpe mais uma vez.
— Bom dia. — disse Socorro.
Plínio e Fabinho saíram. Foram até a recepção, onde Irene os esperava, sentada no sofá. Assim que os viu, Irene levantou-se.
— Então, tudo certo? — perguntou Irene.
— Tudo certo. Tudo errado, né? — reclamou Fabinho, olhando o dedo machucado enrolado em gaze. — Depois de todos os perrengues que passo na vida, ainda tenho que passar por exame.
O celular tocou. Ele tirou o celular do bolso e atendeu. Era Mel.
— Oi, Melzinha. — disse Fabinho. — Ah não, fala pro Natan que eu tô indo praí já. Tá, beijo, tchau.
— Filho, você não quer almoçar com a gente? — perguntou Irene.
Fabinho não quis aceitar o convite. Em seu ponto de vista, era um convite para não ser aceito. Plínio não iria querer a presença dele. No ponto de vista de Fabinho, Irene também não ligava a mínima para ele, só fez o convite para se fazer de boazinha, educada. Ele não estava nem um pouco a fim de ir almoçar com os pais e fingir que eram uma família feliz. Ninguém iria se sentir à vontade, ficaria um clima estranho e ruim. Além do mais, ele já tinha uma reunião marcada com Natan.
Para Plínio, entretanto, era mais uma prova de que Fabinho não estava nem aí para ele e nem para Irene. Não que ele gostasse de Fabinho. Ele não fazia questão da presença de Fabinho no almoço, mas por Irene, estava disposto a aturar o garoto. No ponto de vista de Plínio, se Fabinho realmente se importasse com ele e com Irene, faria esforço para se entender com os pais. Mas o garoto não se esforçava. Para Plínio foi um alívio ver que Fabinho não aceitou se juntar a eles.
— Tchau, tchau, tchau. — disse Fabinho, indo embora, sem perceber que Irene havia ficado triste ao vê-lo recusar o convite.
Fabinho foi para a Class Mídia, e reuniu-se com Natan e Mel, na sala de Natan.
— Sabe o que é isso aqui? — disse Fabinho, fazendo de conta que estava coçando o ouvido. — Eu acho que eu esqueci de lavar meu ouvidinho hoje. Natan, você tá me chamando para trabalhar aqui? Você não falou que eu não tinha consideração, você não me esculhambou?
Fabinho não esperava que Natan o chamasse para trabalhar depois de tudo o que houve. Quando Natan o flagrou na cama com a Bárbara, jurou que acabaria com ele, que faria o possível para ele não conseguir emprego decente.
— Você é temperamental, Fabinho. — disse Natan, levantando-se da cadeira. — Exatamente como eu era na sua idade.
O rapaz sorriu.
— Por isso eu resolvi te dar mais uma chance. — disse Natan. — E ficar remoendo o passado é coisa de gente sem imaginação, garoto.
— É, se liga, Fá, Natan tá te chamando pra ser parceiro dele. — disse Mel.
— Eu estou precisando de um jovem talentoso, criativo e ousado. — disse Natan.
Porém, Fabinho não estava a fim de trabalhar com Natan. Estava na cara que o que Natan queria era explorá-lo, se aproveitar de suas ideias. Além do mais, em breve seria rico. Não teria por que trabalhar na Class Mídia, ainda se tratando de uma empresa que iria falir. Fabinho achava uma perda de tempo. Não gostava de trabalhar. Queria era vida boa.
— Natan, você tá com medo da Crash Mídia, né? — disse Fabinho, e apontou para Mel. — A Mel me falou da agência do Érico.
Fabinho já estava sabendo que Érico abriu uma agência em sociedade com Sílvia.
— Eu não tenho medo de bunda mole. — disse Natan. — Você é muito melhor que o bananão do Érico.
Fabinho assentiu.
— Fabinho, eu estou há muito tempo nessa área. — disse Natan, sentando-se na cadeira em frente à sua mesa, ficando mais próximo do rapaz. — Então, eu sei avaliar muito bem quem tem ou quem não tem talento. Você é bom, garoto. Muito bom. Só precisa de foco e disciplina. Aí, o céu vai ser o limite pra você.
— Então, Natan, deixa eu te explicar também, pra você também não ficar confuso. — disse Fabinho. — Seguinte, querido: eu vou... — fez um gesto de que iria pegar algo. — Daqui a pouquinho eu vou meter a mão na herança do meu pai. É muito dinheiro, eu vou ficar bem rico, então queria entender por quê que eu vou ficar batendo cartão aqui?
— Fá, esse negócio de viver de férias é total out, gente. — disse Mel. — Hoje em dia pega até mal não trabalhar, pelo menos alguns meses por ano, né?
— Se você vai ficar tão rico, então quem sabe não nos tornaremos sócios. — disse Natan, e Fabinho ficou surpreso, pois não esperava que Natan fosse propor sociedade. — Eu serei majoritário, claro, mas pra você não teria melhor porta pra entrar no mercado. Que tal? Parceiros? — estendeu a mão para o rapaz.
Contudo, Fabinho não se moveu. Também não emitiu um som.
— E aí, topa ou não topa? — perguntou Natan. — Vai ficar fazendo esse suspense pra me provocar?
— Vai, Fá, faz cara de parede! — disse Mel. — Natan tá te chamando pra ser sócio de uma das maiores agências do Brasil.
Fabinho riu, irônico. A Class Mídia podia até ser uma das maiores agências do país, porém, estava indo à falência. Natan estava desesperado para salvar a agência, do contrário, não estaria propondo uma sociedade a ele.
— Bonitinho. O Titanic também era um dos maiores navios do mundo. — disse Fabinho, rindo, irônico.
— O quê que você está insinuando? — perguntou Natan.
Fabinho bateu a mão no joelho.
— Nada, Natan, brincadeira. — disse o rapaz, levantando-se da cadeira. — Vai ser uma honra ser teu sócio. — estendeu a mão para Natan.
Mel ficou exultante.
— Ah, garoto esperto! — disse Natan, satisfeito, apertando a mão de Fabinho. — Você é explosivo, mas tem visão.
Porém, Fabinho fingiu ter aceitado a proposta.
— Hum. Visão. — disse Fabinho, dando um beijo no rosto de Mel. — Aliás, eu tenho muita visão, inclusive.... Negócio, vamos falar de negócio logo, seguinte... — tirou a carteira do bolso e retirou uma nota. — Eu vou te dar já em dinheiro a minha parte na sociedade, tá aqui, ó. — enfiou a carteira no bolso. — Guardando a minha carteirinha aqui. — atirou o di-nheiro em Natan. — Pronto, Natan, tá aí. Metade dessa joça agora é minha, não quero troco, fica tranquilo. — deu uns tapinhas no peito de Natan.
— Que é isso, Fabinho, você tá maluco? — perguntou Mel.
— O que é que você andou tomando, garoto? — perguntou Natan, furioso.
— Eu não tomei nada, Natan, você é que tinha que tomar vergonha na cara, né? — disse Fabinho. — Você não é homem, não, rapaz? Eu peguei a tua mulher, você me pegou com a tua mulher na cama, e vem me oferecer sociedade, que é isso?
— Ele nem tá mais com a Bárbara, Fabinho, qual que é o problema? — perguntou Mel.
— Problema é que a Class Mídia tá afundando, daqui a pouco não vai ter estagiário aqui, neguinho vai ficar com medo de se queimar no mercado. — disse Fabinho. Dirigiu-se a Natan. — Natan, qual é? Você tá puxando meu saco porque agora eu vou ficar milionário? É, babacão? Você tá achando que o meu dinheiro vai botar essa ruína de pé? Aqui, ó... — pisou na nota que havia caído no chão. — Esse aqui, ó, é meu dinheiro e não esnoba não porque daqui a pouco você vai estar precisando e muito.
— Dinheiro eu tenho, garoto. — disse Natan. — Muito. Se eu te chamei pra ser sócio, é porque eu não vi talento em você. Apesar de você não valer nada.
— Concordo. — disse Fabinho, balançando a cabeça positivamente. — Concordo, também acho que eu sou talentoso, mas se eu sou talentoso, é mais um motivo pra eu não ficar nessa porcaria. Natan, eu prefiro ficar desocupado, do que ficar sugando os outros que nem você. Porque eu não sei se...
— Fabinho, para, pelo amor de Deus, por que você tá fazendo isso? — disse Mel, interrompendo-o. Ela não entendia o comportamento dele. No ponto de vista de Mel, não havia necessidade nenhuma de Fabinho ser grosseiro com Natan. Fabinho não precisava humilhar Natan. Se ele não queria ser sócio, era só dizer não.
— Só um minutinho. Só um minutinho, Mel. — disse Fabinho, beijando-a rapidamente nos lábios. — Só um minutinho. — dirigiu-se a Natan. — Eu não sei se você sabe, Natan, mas ninguém mais acredita em você. O teu papinho não engana mais ninguém, você tá desesperado, atirando pra tudo que é lado, eu sei muito bem disso. Acabou. — deu uns tapinhas no peito de Natan. — Natan, acabou, ó... — abanou a cabeça, pegou carteira. — Esse coração aqui fala mais alto sempre, então... — retirou de dentro da carteira uma nota de cinco reais. — Vamos lá, pra você não falar também que eu não sou generoso. Fabinho generosidade, tinha que ser meu nome. — atirou a nota em Natan. — Tá aqui, ó. Cincão. — saiu da sala, e gritou. — Abraço, querido!
Fabinho desceu as escadas e encontrou Cléo, Edu e Júlia. Fabinho não sentiria a menor culpa em tratar a cambada de fracassados com desprezo. Afinal, sempre o desprezaram, riram dele, o ridicularizaram. Agora ele daria o troco. Ele podia ser um folgado, puxa-saco do chefe, mas ali ninguém prestava também. Era um querendo puxar o tapete do outro, sempre. Na opinião de Fabinho, era um bando de gente falsa, que usava das mesmas armas que ele. Afinal, eles também puxavam o saco do Natan. Além do mais, a Class Mídia iria afundar e em breve eles precisariam de emprego. Fabinho ofereceria emprego a eles.
— Ih, meu Deus do céu! — disse Fabinho, rindo. — Vocês estão aí ainda, gente? Que é isso, hein, losers? Seguinte, pessoal: vou me mudar pro Jardim Europa, vou precisar de funcionários e queria contar com vocês. Vou escalar o time, hein? Pode ser? — apontou para Edu. — Eduzão, Eduzão vai cortar grama. Sabe cortar grama? Júlia, Júlia... Júlia deve ter mãozinha de ouro, né, Júlia? Vai lavar minha cueca. Lavar com amor. — dirigiu-se a Cléo. — E você, que é toda ajeitadinha, vai ser minha massa-gista pessoal.
— Vem cá. Quem você pensa que é pra falar assim com a gente? — disse Júlia, furiosa. — Você tá doente, garoto?
Realmente, Fabinho estava doente, mas não diria a ninguém. Fabinho não conseguia nem falar sobre isso. Aquele ambiente, com todo mundo ridicularizando-o, tratando-o mal, o fazia se sentir ainda pior. O pessoal ali o chamava de Fraldinha, fazendo com que ele se lembrasse de sua infância. Fabinho não estava suportando mais. Era mais um motivo para não ter aceitado entrar em sociedade com Natan.
Ele era um folgado. Não gostava de trabalhar. Mas não era só isso. Ele não suportava ficar no mesmo ambiente de gente fracassada que ficava chamando-o pelo apelido de infância. Só de ouvir o apelido, dava gatilho.
— É, cara, aproveita a tua grana e vai se tratar que teu caso é grave. — disse Edu.
— Não sou doente, não, vocês que são medíocres. — disse Fabinho.
Mel desceu as escadas neste momento.
— Você tinha que ser tão grosso assim com Natan? — perguntou Mel. — Você não disse pra mim no telefone que estava interessado?
— Mel, você acreditou que eu queria trabalhar aqui pra esse falido? — disse Fabinho. — Até a conta do teu pai ele perdeu.
— É, mas a culpa é dessa anta aí... — disse Júlia, apontando para Mel. — Que fez uma campanha patética e garantiu que o Wilson ia gostar.
— Não, mas o Natan não apresentou a campanha da Mel, né? — perguntou Fabinho.
— Apresentou. — disse Júlia, balançado a cabeça afirmativamente.
Fabinho riu. O Natan só podia estar muito desesperado para apresentar a campanha da Mel. Mel não era muito inteligente.
— Não, aí é fundo do poço, Mel. — disse Fabinho. — Mel, você é bonitinha, você é gostosinha, mas... Mas pensar não é o teu forte, né?
— Não entendi, você está... Está me chamando de burra? — perguntou Mel, ofendida.
— Não, tô querendo dizer que você pode curtir a vida, mas não pagar de inteligente. Mel! — disse Fabinho. Dirigiu-se à equipe. — Mas olha, valeu ter me chamado, eu tava pra baixo, agora eu tô bem, tô feliz, autoestima, astralizado. — deu dois beijos nos lábios de Mel. — A gente se fala, tá? — despediu-se de todos. — Pessoal, um abraço, até mais, ó, cortar grama — deu uns tapinhas no ombro de Edu e aproximou-se de Júlia — Vamos lavar cueca. — chacoalhou a garota. — Vamos lavar cueca. — aproximou-se de Cléo e colocou as mãos sobre os ombros dela. — Massagem. — foi embora. — Tchau, gente!
Fabinho já sabia exatamente onde iria depois de almoçar. Iria até a Acácia Amarela tirar onda com a cara do otário do Bento e da maloqueira da Giane. Queria esfregar na cara deles a fortuna que herdaria. Eles que morressem de inveja. Mas não era só isso. Fabinho resolveu comprar a loja e fazer Bento ir embora. Ele teria que sumir. Ele e a Giane, a sócia puxa-saco. Que fossem para bem longe das vistas dele, Fabinho. Quando Fabi-nho chegou à loja, Bento e Giane estavam conversando. Fabinho acabou ouvindo parte da conversa:
— Ai, Bento, não acredito que você caiu nessa! Que Amora desejou felicidade. A Amora! — disse Giane.
— E aí, Dione? Falando na nossa cocotinha? — perguntou Fabinho.
Deu para ver que Giane e Bento não gostaram de vê-lo ali.
— O que você está fazendo aqui, Fabinho? — perguntou Bento.
— Eu vim dividir a minha alegria com os meus amigos de infância. — disse Fabinho. — Amanhã eu vou herdar a minha parte na fortuna dos Campana.
O tempo para se obter o resultado do exame variava. Plínio havia pedido urgência, até havia pagado mais caro para isso, então o laboratório disponibilizaria a entrega do resultado no dia seguinte. Para Fabinho, era mais uma prova de que Plínio queria vê-lo pelas costas o mais rápido possível. Plínio não queria ficar sob o mesmo teto que ele por duas semanas ou um mês, por isso escolheu fazer o teste mais rápido.
— Nossa! Que maravilha! — disse Giane, irônica.
— É... — disse Bento, também irônico, balançando a cabeça positivamente.
— Pô, parabéns, cara! — ironizou Giane. — Agora, vaza.
Fabinho pensou que estava para nascer pessoa mais grossa que Giane.
— Tá vendo? Por isso que isso aqui não vai pra frente. Aquilo que a gente conversa sempre, né, Bento? — disse Fabinho. — Não dá, isso é jeito de tratar cliente, minha querida?
— Ô, ô garoto, fala logo! — disse Giane. — Fala! Qual é a tua? Qual é a tua, mané?
— Eu vim comprar a Acácia Amarela. — disse Fabinho. — A loja, a cooperativa, a plantação, tudo mais. Pode fazer o preço que eu pago.
Giane riu, sem conseguir acreditar, e olhou para Bento, também per-plexo. Fabinho bateu palmas.
— Vamos, cambadinha, vamos que eu não tenho muito tempo não. Pode escolher, pode cobrar o quanto quiser, eu tô disposto a pagar o dobro, o triplo, tudo que vocês quiserem.
Ele queria resolver logo. Não suportava olhar para Bento e Giane. Tinha vontade de sair correndo dali. Fabinho tinha vontade de berrar, mas disfarçava. Estar frente a frente com seu passado o angustiava.
Bento e Giane não conseguiam acreditar que Fabinho queria mesmo comprar a loja por um valor maior do que valia. Bento perguntou:
— Ô Fabinho, por quê que você faria um negócio tão desvantajoso?
Claro que Fabinho não diria o verdadeiro motivo. Ele não queria que soubessem o quão perturbado ele era. Resolveu dar uma desculpa.
— Para ajudar um camarada, um amigo, um irmão que nasceu, se bobear, no mesmo dia que eu, que cresceu comigo. — disse Fabinho.
Giane e Bento riram. No ponto de vista de Bento e Giane, era evidente que Fabinho não estava querendo ser bonzinho, generoso. Fabinho não passava de um garoto mimado, egocêntrico, mau-caráter. Um babaca, infantil. Com certeza, ele veio ali para dar uma esnobada, humilhar, esfregar na cara deles a fortuna que herdaria. Giane e Bento não acreditavam que Fabinho quisesse realmente comprar a loja.
— Tá legal, Fabinho, a gente... — disse Bento, irônico. — Já entendi, você veio aqui pra esnobar, não é? A gente tá na pior, a gente tá mal pra caramba, não é, Giane? A gente não vai nem dormir essa noite.
— Nossa! Ó, ó! — disse Giane, levantando o cotovelo. — Mordendo o cotovelo de tanta inveja!
Fabinho ficou irritado ao ver que não o levaram a sério. Ele realmente queria comprar a loja para mandar Bento e Giane irem embora dali. Ele não veio apenas esnobá-los, humilhá-los.
— Não, vocês não estão entendendo, dois idiotas, o negócio é seguinte: eu quero comprar essa loja. Pode fazer o preço. — insistiu Fabinho.
— Ô Fabinho, você não tem noção de nada mesmo, né? — disse Bento. — Me explica, como é que se pode comprar uma cooperativa?
No ponto de vista de Bento, Fabinho não tinha a menor ideia de como funcionava o sistema de cooperativa. Ele e Giane não eram os únicos donos. A cooperativa era de propriedade coletiva.
— Com dinheiro? Já ouviu falar em dinheiro? — disse Fabinho.
Bento riu. Deu para ver que Fabinho não sabia nada.
— Dinheiro, você não tem, você não tem dinheiro. — esbravejou Fabinho.
Ele estava disposto a oferecer uma fortuna por aquela lojinha chinfrim, e achava Bento um idiota por desprezar. Não era todo dia que alguém recebia uma fortuna. Ele estava disposto a pagar o quanto Bento quisesse, mas Bento teria que sumir e a Giane tinha de desaparecer junto. Fabinho queria deletá-los de sua vida. Comprar aquela loja fazia parte de um plano para deletar o passado, e também era um plano de vingança contra Bento e Giane. Nem tanto contra Giane, mas principalmente contra Bento. Fabinho queria destruir Bento, tirando dele o que ele mais amava: a Acácia Amarela, e por tabela, ele queria atingir Giane, se vingar dela, tirando o ganha pão dela, pois era sócia de Bento. Por ele, Giane podia procurar outro emprego, assim teria vida própria, deixando de cuidar da vida do Bento. No raciocínio de Fabinho, seria bom para Giane deixar de ser a som-bra do Bento, e por ele, Bento que se danasse. Aqueles dois não existiam para ele e iriam pagar pelo o que fizeram a ele na infância. Mas não dava para esperar outra coisa de Bento mesmo. Na opinião de Fabinho, Bento era um otário que vivia na mediocridade por escolha própria.
— Ô Fabinho, é melhor você ir embora daqui enquanto a gente tá com inveja, porque você tá começando a dar pena. — disse Bento.
— Por favor! Por favor! — disse Giane.
Fabinho sentiu o baque. Estava ficando desesperado. Se não queriam desaparecer por bem, iriam desaparecer por mal. Ele iria quebrar a loja toda. Mas Bento e Giane teriam de ir embora dali. Fabinho não suportava vê-los. Ele não sossegaria enquanto não os expulsasse dali. Que fossem morar em outro lugar, bem longe dele. Aquele lugar, aquela rua, aquela vizinhança, lhe trazia lembranças indesejáveis. Fabinho queria apagar, esquecer o passado e criar uma nova história, uma nova identidade.
— Tá certo, tá certo. — disse Fabinho. — Ainda bem que você abriu os meus olhos porque vou gastar meu dinheiro nesta loja podre? Bando aqui... — apontou com as mãos para os vasos de flores. — Que bando de flor murcha, ó... — derrubou um vaso. — Flor murcha! — derrubou outro vaso. — Flor murcha!
— Você tá maluco, cara? Tá louco? — disse Giane, chocada.
Fabinho sabia que estava bem maluco mesmo.
— Tô maluco o quê? Tô maluco o quê? Já pensou em vender flor de plástico? — zombou Fabinho, e cantarolou, fazendo um gesto de quem tocava violão. — “As flores de plástico não morrem”. Eu vou comprar isso aqui.
— Não vai comprar nada, dá o fora daqui, Fabinho. — disse Bento, expulsando-o. Sua paciência se esgotou. Fabinho já estava passando dos limites. Fabinho tinha de entender que ele não queria vender a loja, e ponto final.
— Eu vou comprar sim porque dinheiro compra tudo, meu querido. — gritou Fabinho, batendo as mãos. — Quando... Quando eu comprar essa loja, essa loja aqui vai faturar dez vezes.
Fabinho ainda mostraria que seria capaz de administrar a loja bem melhor que o Bento. Ele ampliaria a loja e contrataria bastante gente para tocar o negócio. A loja faturaria bem mais. Na opinião de Fabinho, Bento era um otário, um acomodado.
— Cara! — disse Giane, furiosa, partindo para cima de Fabinho e empurrando-o para fora. — Já deu, já deu! Chega! Vai embora!
— Tá me empurrando? — disse Fabinho, possesso. Giane sempre tomava partido do Bento. Estava sempre contra ele. Era mais um motivo para ter raiva dela. Ela escolhia sempre o lado errado. Era uma puxa-saco do Bento. Fabinho não a suportava. Tinha horror a ela. Não suportava olhar na cara dela, nem ouvir a voz dela. O curioso era que, ao mesmo tempo em que a odiava, tinha atração por ela. Atração misturada com aversão.
— Tô. — disse Giane.
— Tá me empurrando, macho da loja? — disse Fabinho.
Fabinho se recusava a dizer o nome da garota. Não a suportava, e fazia de conta o tempo todo que ela não existia, por isso não dizia o nome dela.
— Tô.
— Me tira uma dúvida: por quê que toda sapatão tem cara de mocréia, hein?
Fabinho não sentia nenhuma culpa em insultá-la. Ela não pensava duas vezes antes de zombar dele, de fazer gozação, humilhá-lo. Desde criança, ela vivia chamando-o de Fraldinha, de bundão, de fresco. Giane contou para todo mundo na Class Mídia que o apelido dele era Fraldinha. Por isso ele não sentia nenhuma culpa em esculachá-la, chamá-la de macho mal-acabado, de Maria Machadão, de maloqueira. Ele estava apenas dando o troco na mesma moeda. Ela o humilhou e o esculhambou não uma, mas várias vezes.
Giane deu um soco no rosto dele. Fabinho gemeu.
— Esse é pelo sapatão. — disse Giane, e deu uma joelhada em suas partes íntimas, fazendo-o gritar. — E esse é pelo mocréia.
Bento levantou-o pelo colarinho e arrastou-o até a saída:
— Não cansa de apanhar de mulher não, Fraldinha? Dá o fora daqui senão é de homem que você vai tomar uma surra.
Não opinião de Bento, se Fabinho achava que ele era menos homem que Giane, estava redondamente enganado. Ele era muito mais homem que o babaca do Fabinho, porque ele sabia respeitar as mulheres. Fabinho era muito escroto.
Fabinho ficou furioso. Bento estava sempre lembrando-o do quanto ele era fraco e inferior, por apanhar de mulher e não ser bom de briga, porque cada vez que saía no braço com Bento, ele perdia.
— Eu vou fechar essa loja! — ameaçou Fabinho, aos berros.
— E não volta, hein? Senão apanha mais, palhaço! — gritou Giane. Fabinho chutou uma das flores que estavam na frente da loja, antes de ir embora. Andava curvado, cheio de dor.
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