Um amor improvável
1 Demitido de Novo
Fabinho estava frustrado com aquela porcaria de emprego. Tão cedo, e já tinha de estar no comando de uma escavadeira. Ele não estava nem um pouco com vontade de ficar derrubando paredes. Não aguentava mais trabalhar naquela obra, aquilo não era para ele. Não queria trabalhar, aguentar desaforo de chefe. Era todo dia aguentando a petulância daquele babaca. Além do mais, ele não suportava mais ficar ali. Não suportava todo aquele barulho no ouvido o dia todo, muito menos toda aquela sujeira.
Estava cansado da vida de pobreza que levava. Não se conformava com a falência de sua família adotiva. Ele acreditava que se fosse rico, não teria de pegar no pesado, ralar igual a um condenado. Fabinho se considerava uma pessoa inteligente e esperta o suficiente para saber como se dar bem na vida sem trabalhar arduamente, e não queria mais perder tempo naquele emprego que pagava tão pouco. O que ele queria mesmo era não ter mais de trabalhar, ter sombra e água fresca todo dia.
— Fabinho, a gente quer terminar isso hoje. — disse o chefe, exaltado. — Agiliza, garoto! Aqui não tem moleza não, hein? Anda, vai!
Ficou possesso. O que aquele homem pensava que era, para falar com ele daquele jeito? Não suportava mais aquele panaca, não aguentava mais ficar naquele ambiente. Tinha nojo daquilo tudo. Não pensou duas vezes. Virou a escavadeira em direção ao carro do homem. O chefe disse:
— O que você tá fazendo? Desliga esse trator rápido! Para com isso! O que você pensa que está fazendo? Tá louco? Enlouqueceu?
Ignorando os protestos do chefe, Fabinho avançou com a escavadeira e destruiu completamente o carro dele. Enfiou com tudo a escavadeira naquele carro medíocre. O homem ficou até assustado, pensando que o garoto havia enlouquecido. De fato, Fabinho descarregou toda a raiva que sentia do mundo naquele carro. Estava revoltado com a situação em que vivia.
E como se não bastasse tudo o que havia acontecido, ainda teve de aguentar as reclamações da Margot, a mãe adotiva.
— Demitido de novo, Fabinho? — disse Margot, assim que ele chegou em casa e contou o que havia acontecido. Ele atirou a blusa sobre o sofá.
Margot não gostou nada disso. O garoto nunca parava em nenhum emprego, era impressionante! Quando aprenderia a ser responsável? O rapaz era instável, impulsivo. Tinha dificuldade em cumprir rotinas e receber ordens, e sempre entrava em conflitos com chefes ou colegas. Nunca estava satisfeito com nada. Se sentia humilhado em empregos que considerava abaixo de suas expectativas. Odiava trabalhar na obra. Tinha uma personalidade explosiva e dificuldade em lidar com frustrações. Mas Margot achava que havia passado da hora de Fabinho parar de agir como playboy mimado. Ele tinha de se conformar e se adaptar à realidade. Ele tinha de trabalhar para ajudar na casa. Margot se preocupava, porque ela não viveria para sempre. Ela não estaria sempre ali para arcar com todas as despesas sozinha. Um dia Fabinho teria de se virar sozinho. No ponto de vista dela, Fabinho devia dar valor a um emprego digno. Podia não ser o emprego dos sonhos dele, mas ele ganhava salário fixo, todo mês.
— O que você queria? Que eu tivesse abaixado a cabeça para aquele sacana? — disse Fabinho, olhando para mãe, irritadíssimo.
Agora a mãe iria encher o saco, e ele não estava com bom humor para aturar. No fundo, até gostava dela, mas ela andava muito chata, sempre fazendo drama, sempre reclamando de tudo. Nos últimos tempos, desde que ficaram pobres, ela só sabia reclamar, cobrar as coisas dele. Chegava a ser insuportável. Ela queria que ele trouxesse dinheiro para casa. Mas ele estava cansado, de saco cheio desta vida de pobreza, de privações, de arrumar empregos medíocres, ganhar merreca. E o revoltava pensar que ele e a mãe estavam naquela situação por incompetência do falecido marido dela. O pai adotivo não era má pessoa, e o tratava bem, mas infelizmente deixou ele e Margot na miséria quando morreu.
Se ele soubesse que era isso que o esperava, viver na pobreza, não teria saído do lar adotivo, na Casa Verde, em São Paulo. Se bem que o pessoal de lá estava louco para vê-lo pelas costas. Ele era o garoto problemático, o encrenqueiro, que só dava trabalho e desgosto. Não se sentia bem lá. Ninguém gostava dele mesmo. Além do mais, ele não suportava mais ficar lá. Não suportava olhar nas fuças daquelas pessoas. Não se sentia bem naquele lugar. Por isso deu um jeito de dar o fora na primeira oportunidade. Nem quis saber de dar notícias, muito menos visitá-los. Afinal, não devia mais satisfações a eles. Não eram parentes, nem nada. E ninguém iria querer notícias dele. A vida no lar adotivo havia ficado para trás. Para ele, aquele lar não existia, aquelas pessoas também não.
No ponto de vista de Fabinho, já havia passado da hora de deixar o emprego na obra. Não suportava estar naquele ambiente. Na opinião dele, era um ambiente insalubre. Se tinha coisa que ele odiava, era trabalho braçal. Estava de saco cheio daquele emprego. Além do mais, não era de ficar ouvindo desaforos e aguentar humilhações de cabeça baixa.
— Como é que a gente vai pagar o conserto do carro dele? — perguntou Margot. O filho largou o emprego e ainda ficou devendo para o chefe, e não eles tinham dinheiro sobrando para o conserto do carro.
— Que pagar o conserto, você está louca, me deixe em paz! — disse Fabinho, indo até a geladeira e pegando uma garrafa de água.
— Ai filho, era um emprego tão bom, pagava direitinho, tudo em dia! — protestou Margot.
Não foi nada fácil para Fabinho conseguir esse emprego. O rapaz era conhecido como encrenqueiro, vivia aprontando. Só conseguiu esse emprego porque o chefe era um velho conhecido dela. Afinal, ela e o marido já foram ricos, foram uma família importante da região. E a cidade era pequena. Fabinho devia ter valorizado a chance, no ponto de vista de Margot. Ela não estava falando para aborrecê-lo, estava falando para o bem dele. Porém, Fabinho via isso como uma crítica.
— Tá bom, então da próxima vez trabalha lá você. — rebateu o rapaz, bebendo um gole da garrafa.
— Filho, eu só quero que você tome um rumo. Eu quero o seu bem.
Tudo o que ela queria era que Fabinho tomasse as rédeas de sua vida, em vez de culpá-la por tudo ou ser levado pelas circunstâncias.
— É, se quisesse não tinha me adotado. — disse ele, juntando a blusa e sentando-se no sofá. Fabinho se perguntava para que ela fora adotá-lo, se era para viverem na pobreza.
— Filho, você sabe, por mim eu teria te dado tudo, do melhor. Eu não tenho culpa se quando teu pai morreu a empresa já estava falida. — disse Margot.
— Aquele imbecil do seu marido não era meu pai. E você não é minha mãe — rebateu o rapaz. Afinal, para ele, pais eram os de sangue. Desprezava o fato de não ser filho biológico de Margot. A adoção era para ele um lembrete de que foi abandonado no lar do Gilson.
Foi direto para o quarto.
— Tenho nojo dessa casa... — gritou, e atirou a blusa sobre a cama. — Tenho nojo dessa vida! — pegou um vaso de flor da mesa de cabeceira e atirou na parede, entre o armário e a janela.
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