Um amor improvável

8 Conhecendo Plínio Campana


No dia seguinte, Fabinho se atrasou. Ele passou quase a noite inteira assistindo aos documentários do Plínio, e acabou adormecendo. Quando acordou, havia passado da hora. Teria de se apressar.

— Caramba, perdi a hora! — disse o rapaz, tratando de desligar o notebook. — Caramba! Pelo amor de Deus! Pior que aquela perua tinha razão. É cada filme chato. Meu Deus do céu! Não é à toa que eu dormi desse jeito.

Realmente, filmes daquele gênero não eram sua praia. Levantou-se.

— Tomara que o papai não seja chato que nem esses filmes.

Fabinho foi ao banheiro, lavou o rosto.

— Voar pra agência. — disse o moço, enxugando o rosto com a toalha.

Ele chegou na agência já cumprimentando e querendo mostrar serviço:

— Bom dia! Bom dia! Bom dia! Estão precisando de alguma coisa?

— Bom dia. — disse Júlia, sem um pingo de entusiasmo.

Ela não fez uma cara muito boa, o que para Fabinho era um mal sinal. Ele estava muito atrasado. Com certeza estava encrencado. Natan devia estar uma fera.

— Fabinho! — disse Natan. — Que bom que você chegou. Vem aqui um instante.

Fabinho achou que levaria uma bronca pelo atraso, então disse:

— Desculpa o atraso. Acabei estudando as coisas da campanha e perdi a hora.

— Queria agradecer pelo toque que você deu ontem. — murmurou Natan. — Sobre o lenço que a Bárbara botou no meu bolso.

Fabinho ficou aliviado. Então Natan não estava furioso com ele.

— Ah, era um lenço? Nem vi, imagina. — disse Fabinho, fingido.

— Mas foi uma besteira. — disse Natan. — Ela deixou cair por acaso. Eu queria te pedir pra não comentar nada com ninguém.

— Claro. — disse Fabinho.

— Não que isso tenha alguma importância, né? Mas você sabe como essa gente é fofoqueira. — disse Natan.

— Mesmo que estivesse acontecendo alguma coisa... Imagina, não está acontecendo, mas o que eu tenho a ver com a sua vida, né? Nada.

— É. É isso aí. Garoto esperto. — elogiou Natan. — Estou vendo que você vai fazer uma carreira linda aqui com a gente.

— Eu tô confiante. — disse Fabinho.

Fabinho sorriu, satisfeito por ver que sua estratégia funcionou. Ele conseguiu conquistar a confiança do chefe. Fabinho sabia que Natan ficaria muito agradecido por tê-lo livrado de um grande problema. Se a esposa dele, Verônica, encontrasse o lenço em seu bolso, faria um escândalo e exigiria o divórcio. Natan não pretendia se separar da esposa. Fabinho salvou seu casamento e consequentemente, sua imagem, porque um escândalo daquelas proporções não seria bom para a imagem de Natan. Fabinho podia imaginar o que aconteceria se saísse nas revistas que o pai de Maurício estava tendo um caso com a mãe da Amora. Isso seria um prato cheio para a mídia. Tanta exposição não seria boa para os noivos, nem para as famílias dos dois. Vendo que conseguiu o que queria, Fabinho aproveitou para pedir para sair durante o expediente. Ele precisava resolver um assunto pessoal. O que interessava a Fabinho era ir atrás de sua história, portanto, pouco importava o trabalho. Natan estava comendo na sua mão, logo, o deixaria sair. Fabinho daria uma desculpa qualquer:

— Natan, eu tô precisando dar uma saída. Questão de burocracia. Será que tudo bem? — disse o rapaz.

— Nenhum problema. — disse Natan, dando-lhe uns tapinhas no braço. — Pode tirar a tarde pra você.

— Obrigado. — disse Fabinho, colocando a mão no braço de Natan. — Você não vai se arrepender de apostar em mim.

— Tenho certeza que não. — disse Natan.

— Tchau, tchau! — disse Fabinho, despedindo-se.

Fabinho despediu-se também do restante da equipe:

— Até mais!

— Até mais! — disse uma moça.

Fabinho foi atrás de Plínio. Ele já se havia se informado sobre o local onde Plínio iria trabalhar e foi até lá. Estacionou a moto na frente do prédio e ficou esperando. Viu quando o manobrista estacionou o carro de Plínio. Em seguida, viu o pai sair e caminhar em direção ao carro. Fabinho resol-veu ir atrás. Ele aproximou-se quando Plínio já tinha entrado no carro.

— Plínio Campana? — disse Fabinho, tirando os óculos escuros que usava. — Eu gostaria muito de falar com o senhor. Desculpa te abordar assim, mas é que eu sou um grande admirador da sua obra. Licença, Fábio Queiroz. — estendeu a mão.

— Como vai, Fábio? — disse Plínio, apertando-lhe a mão.

— Bem. — disse Fabinho. — Eu sei que o senhor deve ser uma pessoa muito ocupada, mas será que a gente pode conversar um pouquinho? Se não der agora, tudo bem. A gente marca outra data.

— Tenho uma reunião agora no MIS, Museu da Imagem e do Som, mas a gente pode tomar um cafezinho. — disse Plínio.

— Não sei nem como agradecer. — disse Fabinho.

Plínio e Fabinho foram tomar um café em uma cafeteria.

— Quer dizer então que você gosta dos meus filmes? — perguntou Plínio.

— “Sob o Céu Pálido na Metrópole” é brilhante. — disse Fabinho. — Nunca vi um filme de favela tão duro e ao mesmo tempo tão poético. Eu gostei demais. Amei.

Plínio estranhou o jeito do rapaz. No ponto de vista dele, o garoto podia até admirar seu trabalho, mas estava exagerando na dose. Além do mais, ele se perguntou se o garoto havia entendido sua intenção ao fazer o filme, a mensagem que ele quis passar. Plínio não entendia o porquê de tanto entusiasmo. Era para Fabinho estar incomodado, não entusiasmado.

— Curioso você se referir a esse filme com tanto entusiasmo, porque eu não o fiz para as pessoas gostarem. — disse Plínio. — Mas pra ficarem incomodadas. A intenção foi fazer uma denúncia social.

Na verdade, Fabinho não gostou dos filmes. Ele nem conseguiu assistir aos filmes até o final. Mas achava que, se fosse sincero, Plínio não iria gostar. E ele queria muito a aprovação do pai.

— Denúncia social não pode ser uma obra de arte? — disse o garoto. — Outro filme seu que eu adoro é aquele que você faz uma crítica sobre a vida das celebridades. Eu acho incrível você ter feito isso depois de ter sido casado com a Bárbara Ellen. Aliás, na casa de quem fui jantar ontem.

Fabinho tomou um gole do café. Estava gostando de conhecer o pai e queria muito ser amigo dele. Plínio era um homem bem-sucedido em sua profissão, respeitado, bem relacionado. Parecia ser uma grande pessoa, um homem inteligente, apesar de fazer filmes chatos. No ponto de vista de Fabinho, se o homem não fosse genial, a crítica não elogiaria tanto os trabalhos dele. Fabinho realmente admirava a trajetória e o trabalho de Plínio como cineasta, mais por conta do prestígio do que pelo conteúdo das obras dele. Plínio era para ele uma pessoa especial, e não era apenas por ser rico e famoso. Plínio era uma parte importante de sua história, de sua vida. Mesmo ausente, mesmo que Plínio não soubesse de sua existência até pouco tempo atrás, Fabinho sentia como se já o conhecesse. Fabinho queria que o pai gostasse dele. Por isso tentou impressioná-lo, mostrando interesse e admiração pelo trabalho dele. Fabinho não podia deixar passar a oportunidade de saber um pouco mais sobre Bárbara Ellen, se ela foi realmente a responsável pela separação de seus pais. Ele também tinha interesse em saber tudo sobre Irene, conhecê-la, afinal, ela era sua mãe e era também parte de sua história, de sua origem, de sua identidade. Fabinho imaginava que Irene também devia ser uma pessoa especial. Ela devia ser uma pessoa inteligente, e até onde ele sabia, era uma atriz talentosa. Para Plínio ter se apaixonado por ela, deviam ter afinidades.

— Então você conhece a Bárbara? — perguntou Plínio.

— Eu trabalho na Class Mídia. — disse Fabinho, tentando impressionar o pai. — Acabei ficando muito amigo do Natan, do Maurício. Amora me apresentou a eles.

Plínio percebeu que o rapaz estava rondando sua família. Ele estava se perguntando qual era o interesse de Fabinho em sua família.

— E você também conhece a Amora? — perguntou Plínio.

— Amora. Amora é minha amiga de infância, a gente se conheceu no lar do tio Gilson, só que Amora chegou lá com nove anos e eu cheguei com cinco dias de vida. A mulher que me deixou lá era minha mãe. — disse Fabinho.

Pelo menos foi o que lhe disseram, que ele devia ter quatro ou cinco dias de vida quando chegou ao lar. E é claro que Fabinho tentaria comover o pai com sua história triste.

— Tua história é praticamente uma telenovela. — disse Plínio. Ele se perguntou se era impressão ou o rapaz estava tentando comovê-lo.

Fabinho riu.

— Preferia que fosse um filme de Plínio Campana, só que com final feliz. — disse o rapaz. — Afinal, fui adotado por uma família rica de Ribeirão Bonito e a Amora pela Bárbara.

O rapaz bebeu mais um gole de café.

— Finais felizes são muito discutíveis, sabe? — disse Plínio.

Fabinho não entendeu nada. Ele se perguntou se Plínio achava que ser adotado por uma família rica não era final feliz. Nem todo órfão tem esta sorte. Será que Plínio estava falando aquilo por causa da Amora e dos irmãos dela? Para Fabinho, só podia ser esta a razão. Fabinho concluiu que Plínio achava que não era uma sorte ser adotado por Bárbara Ellen. Para Fabinho, era mais uma confirmação de que Plínio não gostava da Bárbara, e de que Bárbara só podia ter armado para se casar com ele. Fabinho não conseguia imaginar Plínio se casando com uma mulher de quem ele não gostasse, a menos que ela tivesse aplicado um golpe.

— Você diz isso por mim ou por causa da Amora? — perguntou Fabinho. — Eu te pergunto porque muita gente pensa que Amora é uma marionete da Bárbara. Mas desde criança ela sabe muito bem o que quer.

Fabinho conhecia Amora muito bem. Não que fosse tão íntimo dela, mas sabia o suficiente. Desde a infância, Amora já era ambiciosa. Ela dizia que queria ser adotada por uma família de posses e fizera de tudo para conseguir. A princípio Amora esperava encontrar a irmã. Vivia falando na irmã. Esperava que a irmã voltasse para buscá-la. Mas o tempo passava e nada de a irmã dela, uma tal de Simone, aparecer. Amora então quis ser adotada por uma família rica.

— E você? Também sabe o que quer? — perguntou Plínio.

Fabinho sabia muito bem o que queria, que era encontrar sua família biológica e ficar milionário. Ele estava disposto a tudo para conseguir o que queria, que era seu por direito e não suportava viver mais um dia na pobreza. Estava feliz por estar com Plínio. Fabinho não tinha certeza se Plínio era mesmo seu pai, mas sentia que era. Já se sentia filho de Plínio e de Irene. Ele se sentia bem ao lado do pai. Só de pensar que em breve ele ficaria rico, se sentia bem melhor. Por isso foi embora e deixou a mãe para trás, porque estava na cara que ela não o apoiaria em sua busca. Se a mãe preferia continuar vivendo na pobreza, problema dela. Mas ele não suportava mais. Para ele, viver na pobreza era voltar para sua infância.

— Quero ser seu amigo. — disse Fabinho. — Aprender mais com você e conversar mais com você. Não é só porque você é o grande Plínio Campana, mas é porque eu tenho impressão de que conheço de uma vida inteira.

Plínio achou o papo muito esquisito. Ele continuava se perguntando o que que aquele rapaz queria com ele, por que queria tanto se aproximar dele, ser seu amigo. Não entendia por que o garoto fazia tanta questão de se aproximar de sua família. Plínio se perguntou qual seria o interesse dele.

— Eu tenho que ir. — disse Plínio, colocando os óculos escuros.

— Será que eu posso ir com você? — perguntou Fabinho. — Sempre tive vontade de conhecer o Museu da Imagem e do Som.

Fabinho queria a atenção do pai, passar mais tempo com ele. Ansiava, desesperadamente, se conectar com o pai. Plínio concordou, e acabaram indo ao museu. No museu, Fabinho continuou sondando o pai, tentando extrair dele mais informações sobre Bárbara.

— Será que eles têm aquele filme com a Bárbara Ellen que acabou não sendo terminado porque ela deu piti? — perguntou o garoto.

— Se não foi finalizado, que interesse pode ter esse filme?

— Eu já vi que você não gosta muito de falar sobre a Bárbara Ellen. — comentou Fabinho. Concluiu que se Plínio gostasse de Bárbara, falaria mais sobre ela.

— Na verdade, eu pouco tenho a dizer sobre a Bárbara, além do fato de ela ser a mãe da minha única filha. — disse Plínio.

— Eu conheci a Malu. — disse Fabinho. — Ela tem muita personalidade, né?

Ele resolveu elogiar Malu para Plínio, por acreditar que todo pai gosta de ver alguém fazendo elogios aos filhos. Assim, Fabinho esperava agradar a Plínio. Ao mesmo tempo, estava sendo sincero. Realmente achou que Malu tinha muita personalidade.

— E beleza, inteligência e generosidade. — disse Plínio.

Deu para ver o quanto Plínio amava a filha. Plínio realmente admirava Malu. Fabinho esperava que Plínio também gostasse dele.

— É. Eu li que além disso tudo, a Irene Fiori também tinha muito talento.

Plínio achou ainda mais estranho o rapaz falar de Irene. Que interesse tinha ele no seu passado? O que tinha ele a ver com isso?

— Por que razão você citou Irene Fiori?

Fabinho achou que não era o momento de falar a verdadeira razão pela qual foi procurá-lo. Ele queria que Plínio o conhecesse e gostasse dele sem saber que era seu filho, e também que Plínio lhe desse informações sobre Irene. Será que ele sabia alguma coisa a respeito do sumiço de sua mãe?

— Eu li que você foi noivo dela antes de se casar com a Bárbara. — disse o moço. — Minha mãe adotiva era muito fã da Irene Fiori, até foi numa peça dela em São José do Rio Preto. Fico me perguntando por que é que uma atriz tão bonita, tão talentosa desistiu da carreira e desapareceu daquele jeito?

— De fato, a Irene era uma ótima atriz, uma excelente pessoa e foi pena ela ter deixado a carreira. — disse Plínio.

Fabinho percebeu que Plínio ainda gostava de Irene. E pelo visto, Plínio não sabia nada de Irene, nem por que ela havia sumido.

— Agora eu preciso ir. — disse Plínio.

Fabinho queria ter mais tempo com o pai. Queria que o pai lhe desse mais atenção. Se pudesse, passaria o dia todo com o pai.

— Mas passou tão rápido. Eu queria conversar mais com você. Será que a gente pode marcar outro encontro?

— Por que? Tem alguma coisa que você queira me dizer? — perguntou Plínio, desconfiado. O que aquele rapaz queria com ele, afinal? Seria algum fã maluco?

— Muitas, na verdade. Eu...

— Me manda um e-mail. — disse Plínio, entregando um cartão.

— Você não sabe o prazer que foi pra mim. — disse o rapaz, estendendo-lhe a mão. Plínio apertou a mão do garoto.

— Obrigado. — disse Fabinho, dando-lhe uns tapas nos ombros.

Fabinho ficou observando Plínio ir embora.

— Pai. — disse o garoto, emocionado.