Um amor improvável

18 Casamento da Karmita Lancaster


À noite, Fabinho resolveu ligar para Margot, para dar notícias.

— Ai, filho, até que enfim você ligou. — disse Margot, enquanto lavava a louça. — Tava tão aflita sem notícia sua. Como é que você tá?

— Eu acho que eu encontrei a minha mãe. — disse Fabinho. — É a Irene Fiori, sim. Não. A gente ainda não conversou cara a cara, mas acho que sei onde ela vai estar amanhã. Vou tirar essa história a limpo.

— Filho, toma cuidado. — pediu Margot.

Margot se preocupava, afinal, o filho iria se encontrar com uma estranha. Além do mais, ela morria de medo de que o filho fizesse alguma besteira. Porém, para Fabinho, não havia motivo para preocupação. No ponto de vista do rapaz, a mãe biológica jamais faria mal algum a ele. Além do mais, ele sabia muito bem se cuidar, se defender quando era preciso.

— Cuidado com o quê? Não tô correndo perigo. — disse Fabinho. — Eu vou encontrar a minha mãe de sangue. Isso é muito bom, dona Margot.

Margot morria de medo de o filho abandoná-la. Ainda mais agora que ele parecia ter encontrado a mãe biológica. Fabinho nunca a enxergou como mãe. Vivia dizendo que ela não era mãe dele. Fabinho agora só queria saber de ir atrás do Plínio Campana. Isso havia virado uma verdadeira obsessão para ele. Ela torcia para que o rapaz não quebrasse a cara.

— Mas promete, filho, que você não vai me esquecer?

— Meu Deus, não começa com chororô, por favor. — disse Fabinho. — Vou desligar, tá? Tá, tá, tá! Beijo, beijo, beijo, tchau. — desligou. — Que saco.

Na opinião de Fabinho, a mãe era sempre dramática e estava sempre pensando bobagens. Sempre aquela ladainha que o aborrecia. Como se fosse possível ele esquecê-la. Ela era uma boba mesmo. Será que a mãe não percebia que também teria a ganhar com esta história? Ele não prometeu que iria bancá-la, que ela voltaria a ter boa vida? Claro que ele estava pensando mais em si mesmo e em seus interesses do que na mãe. Afinal, sempre se colocava em primeiro lugar. Mas não seria ruim para Margot se ele ficasse rico. Ele não tinha nada contra a mãe. Só não queria que ela desse com a língua nos dentes.

Fabinho pegou a foto de Plínio e Irene e deu uma olhada.

— É, mamãe, amanhã vai ser o grande dia.

No dia seguinte, Fabinho foi de táxi à Toca do Saci. Usaria a desculpa de buscar a moto. Ao descer em frente à ONG, ele acabou ouvindo sem querer uma conversa entre Emília e Malu, que estavam perto da entrada:

— Eu lembro bem do seu jeitinho quando você tirou aquela foto, aquela primeira foto com o Bento! — disse Emília. — Eu sabia que ali tinha coisa!

— O que é isso? — disse Malu, lidando com a horta. — A gente só fez isso pra provocar a Amora. Tinha uma espiã dela lá no Cantaí. Por isso que a gente se beijou, entendeu?

— Provocar a Amora? — perguntou Emília. — A Amora não é noiva do Maurício?

— Mas ela quer o Bento ao seu dispor. — disse Malu. — E outra: ela falou que o Bento não gosta de mim, que eu jamais seria capaz de conquistar ele. Por isso, a gente inventou aquele namoro. Mas é brincadeira.

Malu nem gostava mais de Maurício. Não do jeito como gostava antes. Por muito tempo, ela foi apaixonada por ele, e ele jamais havia percebido. Maurício a via apenas como uma amiga. Malu não lutou por ele porque não se achava páreo para Amora, além do mais, seria uma luta desigual, porque Amora tinha Bárbara do lado dela. Malu demorou até finalmente criar coragem para se declarar para o Maurício, porém, levou um fora. Maurício foi delicado, mas para Malu doeu ser rejeitada. Ela resolveu esquecê-lo, pois ele era muito apaixonado pela Amora e não olharia para ela. Além do mais, Malu se decepcionou e se desencantou dele ao perceber o quanto Maurício era imaturo. Ele havia ficado um tempo sem falar com ela quando descobriu que ela sabia do caso de Bárbara com Natan e não havia falado nada para ele. Mas Malu continuava sendo amiga de Maurício. Apenas não o via mais de uma maneira romântica e idealizada.

Na verdade, a paixão que Malu sentia por Maurício estava ficando para trás. Malu estava se encantando cada vez mais por Bento. Afinal, desde o início, ela e Bento se davam muito bem. Tinham os mesmos ideais, os mesmos princípios e interesses, queriam as mesmas coisas. Pensavam de maneira muito parecida. Estavam trabalhando juntos em um projeto. A princípio, Malu procurou fazer de tudo para juntar Amora e Bento, para que Maurício ficasse livre para ela. Contudo, ela foi se desencantando de Maurício e se dando conta de que Bento tinha tudo o que ela procurava em um parceiro. Além do mais, Malu acreditava que Amora não iria abrir mão da vida de aparências, do noivado com Maurício, de tudo o que conquistou para ficar com Bento.

Malu admirava Bento cada vez mais. Ela cresceu em uma família que vivia de aparências e mentiras. Bento era a pessoa mais autêntica que ela conhecia, não usava máscaras nem fingia ser quem não era, como Bárbara e Amora, e isso serviu como inspiração para Malu. Bento disse umas boas verdades para Natan e Bárbara diante da mídia, no dia da festa da Camilinha Lancaster, e ainda salvou sua avó Madá, quando Bárbara tentou interná-la mais uma vez. Aos olhos de Malu, Bento era realmente uma pessoa maravilhosa: era carismático, alegre, amoroso e íntegro. Além de ser um homem lindo. Ela admirava a maneira otimista como ele via a vida. Também a encantava o fato de ele ser uma combinação rara de simplicidade e sofisticação: Bento era um florista que lidava com a terra, carregava vasos pesados, sujava as mãos e trabalhava no sol a sol, vivia de forma modesta e sem grandes ambições materiais, mas tocava piano e violão, cantava no Cantaí, gostava de ler, assistia documentários e era muito bem informado, fazia críticas à fama vazia e ao consumismo. Bento a enxergava como ela era de verdade, e a via como uma amiga, uma parceira nos projetos, nas lutas sociais, não como a filha de uma atriz e de um cineasta famoso, e ele não a comparava com Amora.

Contudo, Bento gostava era da Amora. Ainda não havia se desligado dela. Malu não se achava páreo para Amora, por isso nem tentava nada. Apenas procurava ser uma boa amiga para ele, estar ao lado dele para o que ele precisava. Mas apesar de estar noiva do Maurício, Amora não queria deixar Bento seguir com a vida dele. Amora advertiu Malu para não se apaixonar por Bento, para ela não quebrar a cara. Alegou que ela não fazia o tipo do Bento, que ele jamais se apaixonaria por uma mulher como ela. Por isso Malu e Bento inventaram a história do namoro.

Nem Malu, nem Emília haviam notado a presença de Fabinho. Fabinho já pensou em uma maneira de acabar com o Bento, com a reputação de bom moço dele. Diante da imprensa, Bento ficava pagando de santinho, de trabalhador, defensor das causas ambientais. Ficava dizendo a todo o Brasil que estava namorando a Malu Campana. Mas estava na verdade usando a Malu para provocar Amora.

Fabinho sabia que Malu estava de acordo com isso. Ela não estava sendo enganada. Pelo visto, Malu resolveu desafiar a irmã. Mas isso não tornava as coisas melhores, na opinião de Fabinho, porque não anulava o fato de Bento estar mentindo para o Brasil inteiro. O Brasil iria saber que de santinho, Bento não tinha nada. Todos saberiam que Bento era um babaca. Fabinho diria para a mídia que Bento estava dando um golpe em Malu. Ele distorceria um pouco a história, porque acreditava que dizer a verdade não seria suficiente para o Brasil inteiro ficar contra Bento.

O que Fabinho queria era destruir a imagem de Bento. Como se não bastasse Bento ser amado e admirado pela família de Malu, que era também a família de Fabinho (com exceção de Bárbara, que não escondia de ninguém que não simpatizava com Bento) e pelo pessoal da Casa Verde, Bento agora era adorado pelo país inteiro. Até porque muita gente certamente se identificava com Bento: ele era pobre, trabalhador, humilde, de bom coração, como a maioria do povo brasileiro.

Contudo, no ponto de vista de Fabinho, a fama de Bento não tinha mérito nenhum. Bento não passava de uma subcelebridade, que ganhou fama apenas por sua ligação com Malu e Plínio Campana, e não por ter algum talento especial, como cantor, ator ou jogador de futebol. Na opinião de Fabinho, Bento não passava de um hipócrita, que metia o pau nos famosos, criticava a fama vazia e se tornou aquilo que ele próprio criticava. Fabinho desejava acabar com a adoração que as pessoas tinham por Bento. A ideia de pessoas reconhecerem Bento nas ruas, pedirem autógrafos e fotos, jogarem confete nele, era insuportável para Fabinho. Bento estava sempre cercado de amor, de pessoas que o queriam bem, agora até desconhecidos o adoravam, enquanto Fabinho era sempre rejeitado.

Fabinho queria se vingar, queria que Bento sentisse na pele a rejeição. Fabinho imaginava que com o escândalo, Bento desistiria de ficar aparecendo na mídia ao lado de sua irmã, pagando de santinho. Fabinho esperava que Malu abrisse os olhos sobre Bento estar usando-a para depois descartá-la, Plínio também. Eles tinham de enxergar que Bento era um sonso, que pregava uma coisa e fazia outra. Na opinião de Fabinho, se Bento era capaz de usar Malu, ele não era tão admirável quanto Plínio e Malu pensavam, nem merecia ser colocado em um pedestal.

Fabinho sabia que Malu ficaria chateada ao ser exposta na mídia, mas acreditava que ela acabaria entendendo assim que a poeira baixasse. Além do mais, Bento não queria aparecer? Estava sempre aparecendo na mídia agora. Fabinho o ajudaria a ficar ainda mais famoso. Se Bento estava na chuva, era para se molhar. Na opinião de Fabinho, Bento tinha mais era que se afastar de Malu, de Plínio, de Amora e se colocar no lugar dele. Bento que ficasse no “buraco” onde vivia. Mas isso ficaria para depois. Primeiro, Fabinho tinha um assunto a resolver. Ele precisava falar com Irene. Abriu o portão e foi entrando, enquanto Emília dizia:

— O que eu vi ontem não era só brincadeira, não. — disse Emília. — Olha, filha, eu sei do que eu estou falando. Aquele ali está na tua mão!

Malu não concordava com Emília. Bento ainda pensava na Amora.

— Oi, Malu. — disse Fabinho, e Malu virou-se. — Então, eu vim pegar minha moto.

— O médico já te liberou pra andar de moto? — perguntou Emília, espantada. Afinal, fazia muito pouco tempo que o rapaz havia sofrido o acidente, e era para ele ficar com o braço imobilizado por pelo menos um mês, até onde ela sabia. Ela se perguntou se isso não atrapalhava para andar de moto.

Na verdade, o braço ainda não estava bom, mas Fabinho precisava de um pretexto para ir à Toca do Saci atrás da Rita. Uma boa desculpa era buscar a moto. Ele teria de levar a moto, do contrário, as pessoas iriam desconfiar. Fabinho acreditava que ainda não era hora de dizer que Rita era Irene, a mãe dele, que ele era filho do Plínio Campana. Agora, ele teria de sustentar a mentira até o fim. Não podia mais usar a tipoia. Mas era só não mexer muito o braço. Não mais do que o estritamente necessário. Fabinho cuidaria para não mexer o ombro.

— Já. Eu estou ótimo. Obrigado pela preocupação. — disse Fabinho. — A Rita veio hoje?

— Está lá dentro, fazendo teatro pras crianças. — disse Malu.

Fabinho foi entrando, e encontrou Madá com as crianças. Estavam assistindo a uma peça de teatro. Madá e a criançada gritavam e batiam palmas:

— De novo! De novo! De novo!

Madá disse:

— Puxa, gente! Legal, né?

— É! — disseram as crianças, em coro.

— Ah, também gostei. — disse Madá. Viu Fabinho chegando. — Olha quem está aí! Fabinho! A que devo a honra?

— Tudo bem, dona Madá? — cumprimentou Fabinho.

— Tudo. — disse Madá.

— Eu vim dar um beijo na Rita. Ela me ajudou muito no acidente. Eu queria falar com ela. — disse Fabinho.

— Claro! Rita! — Madá chamou.

Rita não apareceu. Madá estranhou. Ela achava que não era possível que Rita não tivesse ouvido ela chamar. O que será que havia acontecido?

— Ô Rita! Ué? Rita! — disse Madá, caminhando atrás do pequeno cenário onde estava sendo apresentado o teatro. — Ué! Ela estava aqui! Peraí.

Madá foi procurar por Rita. Pouco tempo depois, Madá retornou dizendo que Rita já havia ido embora. Fabinho ficou frustrado.

— Como assim, foi embora? Ela estava fazendo teatrinho agora!

— Uma criança disse pra mim que viu a Rita pegando as coisas dela e se mandando pelos fundos. — disse Madá. — Vai ver, ela estava atrasada!

— Não faz o menor sentido isso! Que droga! Como é que ela foi embora assim? — explodiu Fabinho. Estava difícil encontrar a mãe.

Madá estranhou a reação do rapaz. Malu apareceu e disse:

— Ei! Baixa a bola, cara! Não está vendo que está cheio de criança aqui, não? Vai, pega a moto e vaza!

Malu ouviu o rapaz gritar e ficou furiosa por Fabinho estar dando um escândalo na frente das crianças. Elas podiam ficar assustadas.

— Ô Malu, você também! Você também, tá? Não se ilude, não, com o Bento! Está com o Bento? Fique sabendo que ele está te iludindo! Ele está querendo fazer ciúme na Amora! — disse Fabinho.

— Como é que é, meu filho? Sai daqui! — disse Malu.

Na opinião de Malu, Fabinho era um sem noção. Garoto desagradável. Ela e Bento sabiam o que estavam fazendo. Era de comum acordo. Bento não estava iludindo-a, nunca dissera que gostava dela. De qualquer maneira, Fabinho não tinha nada com isso e não tinha que se meter. Para Malu era impressionante como Fabinho estava sempre fazendo intriga.

Mas Fabinho não perderia a chance de colocar Malu contra Bento. Do ponto de vista de Fabinho, Malu estava se comportando como uma boba. Ela aparecia na mídia ao lado do Bento para irritar a irmã, mas estava gostando dele. Para Fabinho, era evidente que Malu estava toda encantada com Bento. Malu iria acabar quebrando a cara, pois Bento estava somente usando-a para provocar Amora. Malu sabia que Bento estava usando-a, mas na opinião de Fabinho, isso não melhorava em nada a situação. Malu iria criar ilusões, expectativas, falsas esperanças. Bento sempre gostou da Amora, e queria mesmo era ficar com Amora e não com Malu.

A última coisa que Fabinho queria era ver a irmã sofrer. Ele podia ter conhecido Malu outro dia, mas já se importava com ela o suficiente para querer evitar que ela quebrasse a cara. Malu era a irmã que ele nunca teve. Malu fazia parte de sua família, era seu sangue. Para Fabinho, esta era uma razão suficiente para gostar dela, ou pelo menos para se importar minimamente com ela, e era mais um motivo para afastar Malu de Bento. Malu tinha de se tocar que Bento não valia grande coisa, como ela pensava.

Fabinho acreditava que não teria chance de se aproximar de Malu e conquistar o afeto e a confiança dela com Bento por perto. Bento andou fazendo a caveira dele. Bento estava atrapalhando seus planos de ser aceito por sua família biológica e receber sua parte na herança.

— Vou mostrar pra todo mundo que esse otário não vale nada. — disse Fabinho, retirando-se. Ele subiu na moto e foi embora.

Fabinho sabia exatamente o que fazer. Foi direto até o escritório da Sueli Pedrosa. Sabia onde era a emissora onde ela trabalhava, até porque procurava se informar sobre tudo de que precisava. Sueli era bem chegada em um sensacionalismo. Fabinho tinha certeza de que Sueli acreditaria nele, pois ele conhecia Bento desde a infância. Sueli estava na frente do computador, quando ele chegou.

— Sueli Pedrosa? — disse Fabinho. — Eu tenho uma informação quente pra você.

— Lindinho, fala ali com a minha produtora que eu estou saindo pra fazer uma reportagem. — disse Sueli.

— O namoro do Bento com a Malu é fake. — disse Fabinho. — Ele está usando a filha da Bárbara Ellen pra dar um golpe.

— Namoro e casamento arranjado é o que mais tem nesse meio. — disse Sueli. — Eu não vejo razão pro Bento e a Malu fazerem isso. Eles são tão low profile.

— O Bento tá usando a Malu pra fazer ciúme na Amora. — disse Fabinho. — E a Malu é uma coitada. Uma complexada que entrou nessa história pra irritar a irmã.

No ponto de vista de Fabinho, ele estava apenas dizendo a verdade, sem intenção de ofender a irmã. Malu era complexada. Era carente e insegura, talvez por conta da relação conflituosa com a víbora da mãe dela. Malu também tinha um sentimento de inferioridade em relação à Amora, não se sentia páreo para ela. Do contrário, teria lutado por Maurício. Ele sabia dos complexos, das inseguranças da Malu porque sempre procurava saber mais sobre ela. Sempre conversava com as pessoas da família, além de observar a irmã. Gente como ele sempre procura saber de tudo. Além do mais, tudo o que dizia respeito à Malu o interessava. Era a irmã dele.

— É. Sempre senti uma tensão entre as duas. — disse Sueli. — E deve ter mesmo alguma coisa errada com esse Bento. Porque hoje em dia, ninguém é mais tão impoluto assim, né? Mas e a Amora, será que ela gosta mesmo do florista?

— Não. A Amora despreza o Bento. — disse Fabinho. — E ela não aguenta mais a marcação dele também. Você lembra do que ela falou no seu programa?

Fabinho já sabia o que Amora havia falado sobre Bento. Amora chamou-o de falso, de coitado, de sujeito desesperado para aparecer, o acusou de usar Malu e apelar. Amora não andava nada contente com o envolvimento de Bento e Malu. Em geral, Fabinho não se interessava pela vida das celebridades, mas tudo o que dizia respeito a Amora o interessava, inclusive para usar em seu favor sempre que achar necessário.

— Aham. — disse Sueli.

— Então, é por isso que o Bento tá fazendo isso. — disse Fabinho. — Ele inventou essa história de namoro com a Malu pra se vingar da Amora.

Sueli cruzou os braços.

— Faz sentido. Mas pra eu botar no ar um babado cabeludo desses, eu vou precisar confirmar com, pelo menos, mais uma fonte.

— Eu juro que é verdade. — disse Fabinho. — Eu conheço o Bento. Eu cresci no mesmo lar que ele. O Bento é um golpista e esse namoro é uma armação. Você pode falar isso no seu programa sem medo de errar.

Da emissora, Fabinho foi direto para a agência, que estava naquele mesmo clima de sempre. Um enchendo o saco do outro, querendo puxar o tapete do outro. Mel, a nova estagiária, estava mexendo no computador.

— Gente, tá com vírus aqui. — disse Mel.

— Ai, não, Mel! — disse Júlia. — Olha, quantas vezes eu já te expliquei que não é pra baixar imagem no computador da agência?

— Júlia, menos! — murmurou Cléo. — Ela é filha do cliente, esqueceu?

— Eu não aguento. Eu não aguento isso. — disse Júlia.

— Pessoal, pessoal, pessoal! — disse Natan, chegando.

Todos pararam o que estavam fazendo e olharam para Natan.

— O material da campanha da Cosy Bed ficou um arraso!

Todos gritaram e bateram palmas.

— Parabéns! — disse Natan. — E por isso, eu resolvi distribuir dois convites para o casamento da Karmita Lancaster. Um para o meu braço direito, Fabinho.

Fabinho juntou as mãos e em seguida pegou o convite que Natan lhe estendia. Para ele seria ótimo ir à festa de Karmita, avó de Camilinha.

— E outro para a estagiária mais competente e linda da agência, a Melzinha. — disse Natan, entregando o convite a Mel.

— Ah, que tudo! Obrigada, Natan. — disse Mel, lhe dando um beijo no rosto e abraçando-o.

— De nada. — disse Natan.

Todo o restante da equipe ficou de cara amarrada por não ter ganho convite. Na opinião da equipe, Mel e Fabinho estavam longe de serem os mais competentes e só ganharam convite por puxarem o saco de Natan.

— Obrigado, Natan. — disse Fabinho, indo para sua mesa. — É sempre uma honra, hein?

Assim que Fabinho se afastou, Edu disse:

— Lá vai ele abanando o rabinho. De bobo, só tem a cara.

— É. Esse aí vai longe, só comendo pelas bordas. — disse Júlia.

— Pode crer. — disse Karol. — Acabou de ganhar um aumento de 500 reais. Tá bom?

— Só? Ué, o Fabinho tá se vendendo por tão pouco? — estranhou Cléo.

— Ô Natan! Natan! É bom mesmo que você esteja assim, de tão bom humor hoje, porque a gente tem uma péssima notícia. Sabe a campanha da Petrolat, pro dia do frentista? — perguntou Júlia.

— Então, saiu ontem, na dada errada. — disse Edu.

— Ah, não! A mídia babou de novo e vocês nem pra me avisarem, é isso mesmo? — reclamou Natan.

— Natan, eu tentei. — disse Cléo. — Mas a assistente da Sílvia não ajuda.

— Ok. Já entendi. — disse Natan. — Karol, liga pra floricultura e encomenda o buquê mais caro que eles tiverem. Quando chegar, me avisa.

— Tá. — disse Karol.

Fabinho, que tinha ouvido a equipe falar com Natan, aproximou-se.

— Vem cá, vocês acham que ele vai comprar flor pra quem?

— Ué, qual o funcionário da Class Mídia que ganha presentes toda vez que pede demissão? — disse Edu. — A Sílvia, pô.

— E posso falar? — disse Júlia. — Tomara que ela volte mesmo. Pronto, falei.

Horas depois, Fabinho surpreendeu-se ao ver Madá na agência, procurando por ele.

— Oi, Fabinho! — disse Madá.

— Oi, dona Madá. Tudo certo?

Fabinho não estava entendendo. Ele se questionou o que a Madá veio fazer ali, e o que queria com ele. Ele já percebeu que Madá não ia com a cara dele. Logo, qual o interesse dela em vir até ali, atrás dele?

Madá havia descoberto que Fabinho era filho de Irene e de Plínio. Madá havia reconhecido Irene quando ela foi na Toca do Saci, e se apresentou como Rita. Irene a princípio não a reconheceu. Até porque Madá estava mudada, havia feito plásticas no rosto.

Malu não dissera à “Rita” que Madá era sua avó. Quem a apresentou para Irene foi Emília, e Irene devia ter achado que ela era outra Madá, não a mãe de Bárbara Ellen. Irene contou para Madá toda a história. Contou tudo sobre como se separou de Plínio, sobre a gravidez, os anos em que passou na ala psiquiátrica do Hospital das Clínicas.

Irene descobriu que Fabinho era seu filho no dia em que o socorreu. No hospital, Malu lhe falou o nome do rapaz, e contou que ele havia morado no lar do Gilson. Irene sabia o nome do filho, ela mesma escolheu. Ela sabia onde o filho havia morado até ser adotado. Irene também ficou sabendo que Malu era filha de Plínio.

Irene ficou no hospital, ao lado de Fabinho, porém, foi embora antes de ele acordar. A princípio Irene estava evitando se encontrar com Malu. Morria de medo de ir na Toca do Saci e encontrar Plínio por lá. Mas acabou concordando em prestar serviços na Toca do Saci. Afinal, não podia fugir para sempre. Contudo, Irene andava fugindo de Fabinho. Quando Fabinho foi à Toca do Saci, Irene pediu à Madá para dizer ao rapaz que ela havia ido embora. Irene ainda não se sentia preparada para encontrar o filho. Achava que o rapaz ficaria revoltado com ela. Irene pediu para Madá fazer a ponte entre eles.

Madá suspeitava que o rapaz já sabia quem eram seus pais, pois Fabinho andou atrás de Rita, e deu o maior escândalo quando ela, Madá, disse que Rita tinha ido embora. Aliás, desde o início, quando o conheceu, Madá achava estranho o comportamento de Fabinho. Ele estava sempre rondando a Bárbara e toda a família, sondando, fazendo perguntas. Agora ele ficava atrás da Rita.

— Desculpa eu ter te julgado mal. — disse Madá. — Eu acho que eu fiz um juízo apressado demais, quando eu te conheci lá na casa da minha filha, Bárbara. Olha, mas leva um papo comigo, depois?

— Claro. — disse Fabinho.

Fabinho concordou em falar com Madá. Ele queria notícias de Irene e mais informações sobre Bárbara. No intervalo, Fabinho e Madá foram almoçar. Claro que Fabinho aproveitou para falar mal de Bento. Afinal, precisava afastá-lo de Malu, de Amora, dele mesmo, de toda a sua família. Além do mais, Fabinho não engolia Bento, e queria derrubá-lo do pedestal em que todo mundo o colocava sempre. Fabinho não suportava Bento, porque Bento o lembrava constantemente de tudo o que ele não tinha: amor, carinho, respeito, admiração, de ninguém. Bento o lembrava sempre de que as pessoas não o amavam por não o considerarem bom o suficiente. As pessoas achavam que ele não era nada comparado à grandeza que projetavam em Bento. Ele queria se vingar, destruindo a reputação de Bento. Por isso Fabinho dizia a todos que Bento não prestava. Além disso, na opinião dele, Bento não tinha nada de especial. Era apenas um homem comum e falho como qualquer outro, e Fabinho não entendia por que as pessoas em geral tinham tanta adoração por ele. Na opinião de Fabinho, Bento nem era artista de cinema ou novela, era apenas um florista.

— E é isso, dona Madá, o Bento nunca prestou. A gente cresceu junto nesse lar, que eu falei pra senhora. Eu conheço ele desde criança.

Para Madá, era óbvio que Fabinho se mordia de inveja de Bento, por isso tentava sempre colocar todo mundo contra o Bento. No ponto de vista de Madá, não podia ser diferente, pois Bento era tudo o que Fabinho não era: uma pessoa bacana, de coração bom, cheio de valores, carismático, alto astral. Bento buscava a justiça e ser feliz, levar uma vida digna, enquanto Fabinho só buscava os próprios interesses, só pensava em subir na vida e usava de meios sórdidos para isso. Fabinho não hesitava em mentir, manipular, passar por cima dos outros. Madá acreditava que Fabinho odiava Bento, e tinha inveja dele porque no fundo sabia que Bento era tudo o que ele jamais iria conseguir ser.

No ponto de vista de Madá, Fabinho não prestava. Era um mau-caráter, pilantra. Ela já sacou que Fabinho era da mesma laia de Bárbara e Amora. Ela via em Fabinho as mesmas características que desprezava na filha e na neta adotiva: falsidade, oportunismo e manipulação. Fabinho nem parecia filho de uma pessoa tão doce como Irene, e de um homem como Plínio, que sempre foi um bom sujeito, íntegro, um gentleman. Fabinho não se parecia em nada com os pais. Para Madá, estava na cara que o rapaz resolveu ir atrás de Plínio por ele ser rico e famoso. Malu disse a ela que Fabinho sempre foi problemático e interesseiro, desde criança. Bento, que cresceu com Fabinho, era da mesma opinião. Fabinho podia ter sido adotado por uma família rica, mas sempre queria mais. Nada nunca era o suficiente para gente como ele. Madá morria de pena de Irene, pois ela sofria tanto e sofreria ainda mais com um filho desses. Foi por Irene que ela aceitou fazer a ponte, não por Fabinho. Madá não simpatizava com ele. Madá decidiu que estaria sempre atenta, que sempre alertaria Irene a respeito das intenções de Fabinho. Ela não queria que Irene sofresse nada parecido com o que ela sofreu a vida inteira com Bárbara.

Madá formava opinião sobre as pessoas com base em sua experiência de vida e valores. Ela havia sido humilhada e subjugada por sua filha a vida inteira, tornando-a sensível a pessoas ambiciosas e manipuladoras. Madá amava Malu incondicionalmente e queria o melhor para ela. Por isso, quando Bento apareceu e demonstrou carinho e respeito por Malu, sem se impressionar por Malu ser filha do grande cineasta Plínio Campana, Madá o acolheu e admirou, vendo-o como uma boa influência para a neta. Madá via Bento como uma pessoa generosa, honesta e íntegra, a prova de que ainda existia bondade no mundo. Madá admirava o bom caráter e a simplicidade de Bento, e via nele a pessoa certa para Malu. Já Fabinho, para Madá, não era boa influência nem boa companhia para ninguém.

— E os seus pais verdadeiros, você chegou a conhecê-los? — perguntou Madá para Fabinho.

— Não. Mas algo me diz que eu estou perto de encontrar os dois. — disse Fabinho.

— Por quê? Você tem notícia deles? — perguntou Madá.

— Não. Só intuição. — disse Fabinho.

Madá balançou a cabeça positivamente. Para ela, estava na cara que o rapaz já sabia quem eram seus pais. Fabinho perguntou:

— A Rita deu alguma notícia?

— Aliás, foi bom você tocar no nome da Rita. — disse Madá. — Quer me dizer, por causa de que, aquele piti todo depois que ela se mandou lá da Toca?

Fabinho achava que ainda era cedo para ele revelar a todos que era filho do Plínio e da Irene, e que Rita era Irene Fiori.

— A Rita me ajudou muito no acidente. — disse Fabinho. — Eu queria agradecer. Só isso. Aliás, se ela aparecer na Toca do Saci, a senhora pode me ligar?

— Tá bom. Combinado. — disse Madá. — Bacana você agradecer quem te ajudou.

— E a Bárbara? Tá tudo bem com ela? Nunca mais vi.

— Não sei. Não moro mais naquela casa. — disse Madá. — Briguei feio com ela e não quero ver mais a cara daquela bruaca que eu pari.

Fabinho percebeu que Madá estava com muita raiva da filha. Para Fabinho isso não era surpresa, pois Bárbara havia tentado internar a mãe novamente. Qualquer pessoa no lugar de Madá teria raiva da filha.

— Caramba. A senhora quer desabafar sobre isso? Tudo bem.

Ele queria que Madá lhe contasse alguns podres da Bárbara.

— Você está doido pra eu te contar um podre dela, não está?

Fabinho riu. Madá era mesmo muito esperta. De boba não tinha nada.

— Imagina, dona Madá. — Fabinho fez o sonso. — Só acho a Bárbara uma figura fascinante. Não sei. Talvez porque ela tenha adotado tantas crianças. Eu sou órfão, né? Bom, foi um prazer almoçar com a senhora. Eu tenho que ir embora, porque eu vou sair mais cedo do trabalho hoje. Eu vou no casamento da Karmita Lancaster no Para Sempre.

— Karmita Lancaster? — perguntou Madá.

— É. — disse Fabinho.

Madá riu. Ela sabia que Karmita Lancaster era bem chegada em um garotão, ainda mais em rapazes atraentes como Fabinho.

— Cuidado, hein? — disse Madá. — Porque se aquela bisca te ver, ela vai querer casar é contigo.

Fabinho riu, pois reconhecia que Madá era muito divertida. Ele não ia muito com a cara dela, porque era outra puxa-saco do Bento. Madá conheceu Bento outro dia e já morria de amores por ele. Era outra que escolheu o lado errado, na opinião de Fabinho. Fabinho podia apostar que Madá estava torcendo para Malu namorar Bento. No entanto, no que no que dependesse de Fabinho, Bento não ficaria com Malu. Mas Fabinho tinha de admitir que Madá tinha senso de humor. O fato de antipatizar com Madá não o impedia de reconhecer isso.

— Até mais. — disse o rapaz, levantando-se.

— Até mais. — disse Madá.

— Obrigado. Tchau, tchau. — disse Fabinho.

— Tchau, tchau. — disse Madá.

À noite, Fabinho se arrumou para a festa de Karmita. Vestiu o melhor terno. Não que ele tivesse muitos ternos. Ainda não, e nem gostava muito de roupas formais. Mas ele precisava estar bem apresentável. A festa estaria cheia de gente rica e famosa, e toda a imprensa estaria lá.

— Fabinho, Fabinho... — falou o rapaz, ajeitando a gravata. — Essa é a vida que você nasceu pra ter e, logo, logo, vai ser sua.

Fabinho foi à festa com a Mel, que também havia recebido convite. Mel era a nova estagiária, filha de um cliente importante da agência, o Wilson Rabelo, dono do Kim Park. Fabinho agora se lembrava de tê-la visto pela primeira vez na festa de noivado da Amora. Mel lhe dissera que era amiga de Amora e que estivera no noivado dela. Fabinho achou que seria interessante, e útil, sair com alguém como a Mel. Afinal, era uma garota rica, da alta sociedade paulistana. Além de bonita. Não que precisasse do dinheiro dela. Logo conseguiria o que era dele por direito. Mas tinha de se cercar das pessoas certas. E como logo percebeu que se tratava de uma garota deslumbrada com dinheiro e fama, Fabinho tratou logo de impressioná-la, dizendo que sua família era rica, dona de fazendas. Fabinho queria ser admirado, ser respeitado, ter algum reconhecimento, por isso sempre contava vantagens para as pessoas, sobretudo pessoas ricas e influentes.

— Fazendas, tipo no plural? — perguntou Mel.

— São três, só na região de São Carlos. — disse Fabinho. — Você quer ir pra Ribeirão Bonito comigo? — passou a mão no rosto dela. — A gente vai de jatinho, eu te mostro a fazenda maior.

— Jatinho? Por quê, seu pai tem um? — perguntou Mel.

— Tem dois. — disse Fabinho. — Você quer? Mas não conta pra ninguém da agência não, tá? — mexeu no cabelo dela. — A gente tem medo de sequestro.

A imprensa estava em peso na festa. Entrevistaram Bárbara Ellen, e quando Filipinho apareceu, chamou a atenção de todos, inclusive de Mel, que foi lá cumprimentá-lo, embora não tenha conseguido chegar perto, pois Filipinho estava cercado por fotógrafos e jornalistas, que foram entrevistá-lo. Fabinho sabia quem era Filipinho. Era aquele garoto que havia ficado conhecido no Brasil inteiro depois de ter feito aquele vídeo ridículo, que viralizou na internet. Filipinho pagou o maior mico fazendo vários papéis, inclusive cantando uma espécie de paródia da Solteirinha da Pompéia, da Mulher Mangaba, e dançando de maneira ridícula. Ele foi alvo de chacota no país inteiro. Agora estava fazendo sucesso, embora Fabinho achasse duvidoso o gosto das pessoas. Fabinho achava o fim da picada o cara ter ficado famoso apenas por conta de um viral, por ter feito papel de palhaço. Amora pelo menos entrevistava pessoas importantes, mas o Filipinho só sabia fazer aquela dancinha ridícula, pelo visto.

Fabinho foi cumprimentar Bárbara:

— Bárbara!

Bárbara virou-se:

— Hã?!

— Tudo bem? Quanto tempo? — perguntou Fabinho.

— Quem é aquele lá, hein? — perguntou Bárbara, referindo-se a Filipinho. — O novo sertanejo?

— Não, é um cara que ficou famoso com um vídeo na internet, ridículo! — disse Fabinho, bebendo um gole de champanhe.

— Um vídeo na internet causa esse tumulto? Meu Deus, eu tenho de me adaptar aos novos tempos! — disse Bárbara.

Fabinho chegou à conclusão de que Bárbara já estava querendo se aproveitar da fama de Filipinho. Ela fazia tudo para aparecer, se manter na mídia.

Amora caminhou em direção a Bárbara e Fabinho. Parecia estar furiosa.

— Ah, filha querida, que bom que você chegou! — disse Bárbara.

— Amorinha! — disse Fabinho, sorrindo.

— Seu vermezinho, por que você foi fofocar pra Sueli Pedrosa, hein? — disse Amora, possessa.

Fabinho chegou à conclusão de que Sueli Pedrosa já andara falando de Bento em seu programa.

— O que você tá falando? — Fabinho se fez de desentendido.

— Eu vi o videozinho, e quando a Sueli disse que a fonte dela era uma pessoa que conhecia o Bento desde pequeno, logo saquei que era você! — disse Amora.

Amora não achava justo ver Bento envolvido em um escândalo. Ela estava acostumada, estava vacinada contra toda a sujeira e podridão do mundo dos famosos. Mas Bento não estava acostumado. Ele era inocente, ingênuo, e ela não queria que ele perdesse a inocência, que era o que ela mais amava nele. Ela via em Bento uma pureza e uma inocência que ela havia perdido há muito tempo. Amora estava furiosa com Fabinho por ter manchado a imagem do Bento. Bento não era um golpista. Fabinho era mesmo um sujeitinho sórdido. Amora odiava Fabinho, com todas as forças.

— Fui eu mesmo! — disse Fabinho, cinicamente. — Eu não aguento mais esse cara enganando todo mundo, é isso!

No ponto de vista de Amora, Fabinho estava era com inveja do Bento. Só porque o Bento ficou famoso e passou a ser amado e admirado no país inteiro. Para Amora era impressionante como o tempo passava e Fabinho insistia em perseguir o Bento, azucriná-lo. Amora se perguntava quem era Fabinho para falar de Bento.

— Nossa! Você é muito baixo! — disse Amora, indignada. — Sai da minha frente, sai da minha frente, antes que eu enfie esse celular goela abaixo! — apontou o celular para ele.

— Você está muito nervosa. — disse Fabinho. — Depois a gente conversa.

Fabinho afastou-se. Ele não imaginou que Amora fosse reagir desta maneira. Por que ela estava tão furiosa? Só porque ele jogou a sujeira no ventilador? Ela também não gostava de ver o Bento andar para cima e para baixo com a Malu, aparecendo na mídia o tempo todo como genro do Plínio Campana. Além do mais, Amora não foi prejudicada. Muito pelo contrário. Ela saiu desta história como musa cobiçada. Para Fabinho, era evidente que Amora continua tendo sentimentos fortes por Bento.

Fabinho sabia que havia distorcido um pouco a história. Ele disse que Bento estava tentando dar um golpe na Malu e na Amora. Ou seja, Bento saiu como golpista, e a Malu como uma coitada que estava sendo iludida. Mas ninguém mandou o Bento mentir, dizendo que estava namorando a Malu. Ninguém mandou Bento usar Malu para provocar Amora. Ele que se colocou nesta situação. Fabinho procurou circular entre as pessoas, puxar conversa com elas. Estava conversando com uma moça, até que sentiu alguém puxar seu braço. Era Plínio. Fabinho ficou surpreso.

— Vem comigo! — disse Plínio.

Fabinho não estava entendendo o que Plínio fazia ali. Até onde ele sabia, Plínio não iria à festa da Karmita, e sempre procurava manter-se longe dos holofotes, sempre que possível. E o que será que Plínio queria com ele? Como Plínio sabia que ele estava ali? O pai não estava com uma cara boa, certamente lhe daria sermão. Fabinho se perguntou se Plínio havia assistido ao programa da Sueli Pedrosa. Será que Plínio achava que ele, Fabinho, era a fonte da Sueli? Não podia ser. Plínio não tinha como saber que foi ele que espalhou a fofoca. Sueli não tocou no nome dele, e ele não era a única pessoa a conhecer o Bento desde pequeno.

Plínio arrastou-o para um lugar vazio, onde poderiam estar a sós. Plínio estava com muita raiva de Fabinho. O rapaz havia manchado a imagem de Malu e do Bento. Envolveu sua família em um escândalo. Plínio acreditava que só podia ser Fabinho quem estava por trás da fofoca. Madá, que havia visto o programa da Sueli com ele, logo suspeitou de Fabinho. Plínio deu razão a ela. Fabinho tinha inveja do Bento, logo, seria o maior interessado em caluniar o Bento. A vontade que ele tinha era de processar Sueli, mas isso só daria mais dor de cabeça. E não tinha prova alguma contra Fabinho. Mas, de qualquer maneira, Plínio resolveu tomar satisfações com o rapaz. Ele soube, por Madá, que Fabinho estaria no casamento de Karmita Lancaster. Plínio não aceitava que Fabinho perseguisse Bento, que era um rapaz íntegro, honesto, e amigo de sua filha. Na opinião dele, Fabinho era um sujeitinho baixo e sórdido. Por isso Plínio resolveu dar um ultimato, antes que o rapaz aprontasse mais alguma coisa para Malu e Bento.

— Presta atenção. — disse Plínio. — Essa foi a última vez que você se intrometeu na vida da minha família.

Fabinho entendeu que Plínio realmente estava sabendo do programa da Sueli Pedrosa. Ele até podia negar estar por trás da fofoca, mas Plínio não acreditaria. Mas ainda assim, Fabinho achava que Plínio tinha de acreditar nas suas boas intenções.

— Perdão, Plínio. Eu só queria ajudar. — disse Fabinho.

No raciocínio do rapaz, ele estava tentando proteger Malu, evitar que ela quebrasse a cara. A intenção não foi apenas mostrar ao país inteiro que Bento não prestava. Fabinho podia até ter distorcido um pouco a história, mas ele realmente acreditava que Bento não valia grande coisa e não era o santinho que todo mundo achava que era.

— Ajudar? Ajudar como? — perguntou Plínio. — Instruindo uma jornalista de quinta a denegrir a imagem da minha filha e do Bento?

Fabinho entendeu por que o pai estava tão furioso. A intenção dele foi atingir Bento, mas acabou atingindo também a Malu. Certamente ela sofreria com a exposição. Malu ficou com a imagem de boba. Mas infeliz-mente, Fabinho achou necessário prejudicar um pouco a Malu para dar porrada no otário do Bento. Além disso, foi a Malu quem se colocou nesta situação, ao concordar em mentir para o país inteiro. Ninguém mandou Malu assumir um namoro fake. Contudo, do ponto de vista de Fabinho, foi até bom, porque somente assim para Malu abrir os olhos, deixar de ser boba e desencantar do Bento, porque ele não era tão legal quanto ela pensava. Com ou sem o consentimento dela, Bento estava só usando-a.

— A partir de agora, você vai manter distância da gente. — disse Plínio. — E se voltar a nos atingir, eu vou tomar medidas drásticas. Entendeu?

Plínio afastou-se. Fabinho pensou que estava difícil se aproximar do pai. Plínio não gostava dele, não queria vê-lo nem pintado de ouro. Mas acreditava que tudo ia mudar logo que Plínio soubesse quem ele era. O jeito era primeiro procurar Irene, saber de toda a história, e aí sim, procurar o Plínio. Plínio saberia que ele, Fabinho, era seu filho, e que ele era a maior vítima desta história. Só assim o pai iria querer conhecê-lo, quem sabe até gostaria dele. Somente assim Fabinho teria a família de volta, e teria a vida que merecia. Ninguém iria mais humilhá-lo.

Fabinho ficou com raiva. Pensou que era impressionante como ele era sempre o errado da história. As pessoas fechavam os olhos para os erros do Bento. Os erros do Bento são sempre minimizados, ignorados ou facilmente perdoados, mas quando se tratava dele, Fabinho, as pessoas sempre se apressavam em julgá-lo e condená-lo. As pessoas viam as atitudes dele como falhas graves de caráter. Ele era sempre o vilão, o bandido da história, e Bento o mocinho injustiçado. Bento também havia errado ao enganar o país inteiro, assumindo namoro fake com a Malu. Mas Fabinho era o único a ser criticado, a levar bronca e até ameaças.

Fabinho permaneceu na festa. Aconteceu de tudo na festa. Amora sumiu, foi embora no meio da festa, desistiu de apresentar o programa e Bárbara apresentou o Luxury em seu lugar. Bárbara entrevistou Natan e acabou agarrando-o, o que deixou Maurício furioso, pois achava que os dois haviam terminado. Foi por isso que Maurício aceitou fazer a campanha da Cosy Bed ao lado de Amora. Natan alegou que ele e Bárbara haviam acabado de fazer as pazes, porém, Maurício não acreditou. Estava na cara que Natan e Bárbara haviam armado. Eles fingiram que tinham terminado para Maurício aceitar fazer a campanha da Cosy Bed. Maurício ficou revol-tado e foi embora. Vitinho Barata deu uma de doido e assediou a Bárbara. Agarrou-a na frente de todo mundo. Foi o maior escândalo. Natan teve de separar Vitinho de Bárbara. E apareceu outra doida, Damáris, fazendo discurso religioso, querendo impor uma religião que ela havia inventado. Fabinho perguntou para Mel:

— Quem é essa louca?

Ele achava que conhecia Damáris de algum lugar, porém, não se lembrava de onde. Damáris não lhe era estranha. Será que era alguma conhecida da Bárbara? Ela estivera na festa de noivado da Amora?

— Nunca vi mais gorda! — disse Mel, envergonhada. Jamais diria a Fabinho que Damáris era sua mãe.

Foi o maior escândalo. Charlene até chamou os seguranças. A única pessoa que conseguiu acalmar os ânimos foi um tal de Barrabás. Barrabás levou Damáris e o motorista dela, Lucindo, dali. Karmita disse:

— Para com esse negócio e vamos continuar logo com esse casamento! Eu tô cansada de ficar em pé aqui, em cima desse salto! — Karmita pegou no braço do noivo e andou em direção ao altar. — Meu bem, me segura.

Karmita e o noivo foram subindo no altar. O noivo perguntou:

— Quer uma ajuda pra subir?

— Não, eu não preciso de ajuda, pomba! — disse Karmita. Dirigiu-se ao juiz. — Olha aqui, ele aceita, eu aceito. Assina aí, meu filho! Assina aí, pra adiantar tudo!

O noivo assinou o livro.

— Agora, sou eu. — disse Karmita, assinando o livro.

Karmita olhou para o noivo.

— E agora, aquele beijo tórrido e nervoso, que só você me dá!

— Ah, meu amor! — disse o noivo, puxando-a para um beijo.

— E no final, o amor sempre triunfante! — disse Bárbara, na frente das câmeras. Outros jornalistas, entre eles Sueli Pedrosa, abordaram Karmita, querendo entrevistá-la, enquanto ela beijava o noivo.

Fabinho ficou o resto da festa ao lado de Mel. Estava dançando com a Mel, quando Camilinha foi embora da festa e deixou o noivo, um surfista, para trás. Os dois haviam acabado de discutir, e deu para Fabinho ouvir, pois estava por perto. O cara estava interessado demais em ficar amigo do primo banqueiro dela, que tinha um iate e uma ilha em Angra. E isso aborrecia Camilinha, que achava o primo um idiota. Mel comentou:

— Nossa, a Camilinha foi embora sem o Pepper?

— Você é amiga dela? — perguntou Fabinho.

— Super! — disse Mel.

— Então, fala pra ela que esse cara aí não presta. — disse Fabinho.

Para Fabinho, era evidente que o tal do Pepper, além de ser um sujeitinho medíocre, estava com Camilinha mais pelo dinheiro e pelo status do que por qualquer outra razão. Era outro deslumbrado com dinheiro, fama e poder. Obviamente, o tal Pepper gostava mais do fato de Camilinha ser uma herdeira de uma fortuna do que da pessoa dela. Fabinho farejava esse tipo de gente de longe. E Camilinha certamente havia percebido que o cara era um interesseiro, pois não estava nada contente. No ponto de vista de Fabinho, esse noivado estava com os dias contados. Camilinha não era boba e logo daria um pé na bunda do noivo. Também, se o sujeito fosse mais esperto, não ficaria dando bandeira, não deixaria Camilinha perceber que ele estava de olho era na grana dela.

Karmita e o noivo deram uma entrevista para o Luxury. Fabinho e Mel andaram pelo salão, até que encontraram Damáris, que estava conversando com Barrabás junto à mesa de doces e a chamou:

— Mel! Melzinha!

— Ela tá te chamando? — perguntou Fabinho para Mel.

— Não, imagina! Nem conheço, nunca vi antes. — disse Mel, morrendo de vergonha da mãe. — Vamos? — pegou no braço dele e levou-o para longe dali.

A festa durou até tarde. Colocaram a música do Filipinho, e todos começaram a dançar. Até Bárbara Ellen dançou com o Famosinho da Casa Verde. Uma hora, Bárbara se aproximou de Karmita, que estava deitada sobre o sofá, e disse:

— Karmita, que tal um último brinde?

— Ah, brinde! Eu adoro brinde! — disse Karmita, e Bárbara pegou em sua mão para ajudá-la a se levantar. — É uma ótima ideia! Peraí! Peraí! Não empurra, que é pior!

— Tá bom. Vamos. — disse Bárbara.

Karmita levantou-se, porém, caiu novamente no sofá.

— Ai!

Bárbara riu, e Karmita também. Bárbara ajudou Karmita a se levantar.

— Pronto. — disse Karmita. — Desliga essa porcaria por gentileza, que eu quero fazer um brinde.

Desligaram imediatamente a música.

— Peraí, senão eu caio. — disse Karmita, para Bárbara ir devagar. — Olha, pessoal!

O noivo aproximou-se, e Bárbara entregou o microfone para ele.

— Obrigada, meu bem. — disse Karmita. — Eu adoraria fazer um brinde a todas as pessoas que, como eu, morreram por amor, e por amor, ressuscitaram. Viva o amor!

— Viva! — gritaram todos, e bateram palmas.

O garçom serviu taças de champanhe aos noivos. Karmita e o noivo pegaram as taças.

— Ah, faz assim, que eu acho tão bonito. — disse Karmita, e ela e o noivo brindaram com os braços entrelaçados.