Um amor de carnaval
1 Capítulo Um - Aquele carnaval
Eu nunca fui muito de pular carnaval. Patrícia quem me convenceu a ir naquele bloco novo perto da nossa quadra. Fui vestida de homem. Coloquei terno, bigode falso e passei gel nos meus cabelos curtos, penteando-os para trás. Não passaria por homem nem se me esforçasse muito, mas dava para enganar como fantasia de carnaval. Então segui a minha amiga vestida de odalisca atrás do bloco “Bota A Mãe Para Passear”. Não entendi direito qual era a mensagem que o nome do bloco queria passar nem que tipo de bloco era aquele, mas fui lá para me divertir, não para questionar.
Patrícia arrasou naquelas roupas árabes minúsculas. Deve ter ficado com pelo menos uma dúzia de caras. Já eu, fiquei completamente deslocada naquele mundaréu de gente, como eu imaginara previamente.
Bem no meio do dia, uma mulher esbarrou em mim com um copo de cerveja e derramou todo o seu conteúdo em meu terno alugado. Me desesperei imediatamente. Corri em um vendedor ambulante e comprei água com gás. Não sei onde ouvi falar que isso era bom para tirar manchas de roupas. Sabedoria popular, talvez. Acho que não adiantou muito. Estava perdida.
— Você deveria tentar esfregar um pouco de álcool na mancha. Funciona sempre.
Me virei para a voz masculina atrás de mim. Me deparei com um homem alto, cabelos estupidamente pretos e olhos profundos. Estava vestido como o Aladdin da Disney e, devo admitir, a semelhança era notável, embora a discrepância no porte físico.
— Me parece que você fala por experiência própria. – Falei no meu tom mais amigável.
— Sim. E seriam experiências. Já me aconteceu várias vezes.
— Onde eu arranjaria álcool por aqui?
— Minha casa fica do outro lado da rua. Eu poderia lhe fornecer um pouco.
— Seria ótimo. – Exultei quase sem fôlego devido a exaltação dos ânimos.
Acompanhei o Aladdin até sua casa, bem próxima de onde estávamos. Era um dos apartamentos funcionais que aquela quadra abrigava. Imaginei o que ele deveria fazer da vida para merecer um apartamento como aquele. Nós subimos as escadas, pois, segundo ele, o elevador estava quebrado. Após um breve momento de esforço físico, chegamos à sua residência.
— Não repare na bagunça. No carnaval as coisas ficam meio descontroladas por aqui.
Me peguei pensando nele dando festas naquele lugar. Um pensamento inoportuno, mas que foi inevitável. Acabou que o apartamento não estava de todo bagunçado. Estava até bem limpinho. Motivo pelo qual aceitei o convite para entrar sem nenhum problema. Era um lugar bem atraente e aconchegante, daqueles que a gente fica horas e horas tranquilamente.
— Eu vou buscar o álcool – Disse-me ele. – Você aceita algo para beber, também?
— Não, obrigada. Só o álcool será uma gentileza e tanto.
Ele sumiu através de um cômodo que eu julguei ser a cozinha. “Uma gentileza e tanto”, pensei quase que em voz alta. Que coisa ridícula de se dizer. Quando ele voltou, deve ter notado minha divagação, já que me perguntou se havia algo errado. Eu disse que estava tudo bem e recebi a garrafa de álcool e um pano que ele trouxera junto de bom grado.
— Normalmente, é bom que se lave a peça logo em seguida. Não sei se vai funcionar tão bem apenas com o álcool.
— Não custa nada tentar. – Exclamei, já passando o pano embebido em álcool no terno.
— A propósito, é um belo terno.
— Obrigada. Ele é alugado, mas acho que me caiu bem.
— Eu também penso assim.
Seguiu-se um momento de silêncio. Nossos olhares se encontraram por um instante. Eu quebrei o silêncio imposto por nós:
— É um belo apartamento que você tem aqui.
— Obrigado. Ele não é meu de verdade. Sou militar, e não sou daqui. Quando me remanejaram, tinha o direito a um lugar para morar e me deram esse aqui.
Novo silêncio. Terminei o serviço com o álcool e devolvi o pano e a garrafa a ele. Ele foi até o cômodo novamente, para devolver tudo ao seu devido lugar. Eu fiquei encarando um quadro que estava pendurado ali perto. Se tratava de uma paisagem belíssima. Uma praia com um barquinho navegando ao pôr-do-sol. Ele voltou e iniciou nova conversa:
— Gostou da pintura?
— Sim. É muito bonita.
— Fui eu quem pintei.
— Sério? Você é um artista e tanto.
— Obrigado. Pintei esse em uma viagem que fiz certa vez. Essa era uma praia paradisíaca, quase deserta. E tinha esse homem em um barquinho ao fim da tarde. Corri para meu quarto de hotel e pintei. Eu o chamo de “Tarde Ao Mar”.
— Eu acho a pintura uma forma artística fascinante. – Exprimi. – Uma maneira de se expressar como poucas.
— Que bom que pensa assim.
Ficamos mais um tempo ali admirando a pintura em silêncio.
— Acho que devemos voltar para o bloco agora. – Sugeriu ele.
— Sim. Vamos.
De volta à fanfarra, eu não sabia ao certo onde estaria Patrícia. Ao me separar dela, nos perdemos uma da outra completamente. Me virei para meu salvador e perguntei:
— Se importa em me fazer companhia até eu encontrar minha amiga?
— Sem problemas.
— É que eu não me sinto bem com multidões. Desacompanhada é pior ainda.
— O que te trouxe então a pular carnaval neste bloco?
— Essa minha amiga, Patrícia, quem me arrastou para cá.
— É seu primeiro carnaval este ano?
— Praticamente, sim. Não me recordo de sair de casa para uma festa ou algo como isto aqui.
— Então, seja bem-vinda ao nosso mundo carnavalesco.
Dei uma risada um pouco exagerada. Mas ele sorriu comigo. Deixei passar a vergonha de um pequeno vexame e passei a procurar por Patrícia.
Passamos próximo do trio elétrico, lugar que estava mais lotado de gente, e não a encontramos. Uma chuva de confetes desceu do carro que puxava a multidão, sinal de que iam convidar um casal para subir no trio elétrico. Tamanha foi minha surpresa quando apontaram o dedo para mim e para o Aladdin. Eu fiquei perplexa a princípio, mas aceitei a ideia depois que Aladdin me incentivou a ir até lá. Subimos no carro e fomos até a parte principal dele. O DJ principal falou para dançarmos a próxima música. Eu posso até ser um horror em lugares públicos, mas me sinto bem dançando em frente aos outros. Concordei e ele colocou o som para tocar.
Dançamos juntos e nos divertimos muito. Pelo menos eu me diverti fazendo aquilo. Ao final, o DJ nos parabenizou e nos deu uma faixa estilo miss Universo com os dizeres “Eu botei minha mãe para passear”. Achei aquilo engraçado e recebi o presente.
Quando descemos, Patrícia veio correndo até nós toda esbaforida, provavelmente por presenciar a minha cena com o Aladdin.
— Amiga, sua louca! Te procurei por todo lado.
— Eu também te procurei. Me separei de você por que derramaram cerveja no meu terno e eu tive que arranjar um jeito de limpar. Consegui ajuda deste cavalheiro vestido de Ladrão de Agrabah e ele ainda me fez companhia até que eu te encontrasse.
— Muito prazer, Aladdin.
— O prazer é todo meu.
— Eu vi a performance de vocês lá em cima. Dançam bem os dois.
— Obrigado. A propósito, acabei de me lembrar. Não fomos apresentados ainda. Me chamo Antônio.
— E eu Melissa. – Expressei.
Após um silêncio rodeado pela confusão do bloco carnavalesco, Patrícia chamou a atenção:
— Que bom que vocês se apresentaram. A quem possa interessar eu sou Patrícia. Estou de vela, mas não me importo.
Antônio riu com a insinuação de minha amiga e eu ruborizei instantaneamente. Sem ter o que falar, apenas encarei Patrícia com meu rosto em chamas. Ela deu de ombros e começou a tagarelar feito uma matraca:
— Descobri que aqui perto tem um barzinho, que na época do carnaval tem uma promoção de cerveja mais barata para consumidor que estiver fantasiado. A gente poderia ir lá para beber um pouco, sair um pouco dessa confusão de gente que está virando esse bloco...
Eu parei de ouvir nessa parte. Comecei a divagar, nada específico, mas minha mente viajou bastante até que pousou em Antônio. Pensei em seu rosto belo, em seu porte altivo, seus olhos profundos. Alguma coisa acendeu uma chama dentro de mim, enquanto eu pensava e, sem perceber, encarava aquele homem. Quando dei por mim, estavam os dois me olhando com expressões confusas, como que esperando algo.
— E então, Melissa? Está a fim? – Perguntou Patrícia.
— A fim de quê?
— De ir para o barzinho!
— Sim... Claro. Vocês quem sabem.
— Ótimo. Vamos nessa!
Foi uma tarde ótima. Bebemos e nos divertimos muito. Conversei com Antônio sobre tudo. Não parava de admirar aquele cara. Acho que rolou até um flerte da parte dele. No final da tarde, Patrícia nos deixou, pois tinha que trabalhar. Ser médica não devia ser nada fácil. Então ficamos a sós. Novamente.
— Bem para frente essa sua amiga, não é?
— Nem me fale. Eu que tenho que aturar as maluquices dela. Mas se não fosse por ela, não estaria aqui hoje nem teria conhecido você.
— Que bom por isso. Um brinde à Patrícia.
Rimos e tocamos os copos com cerveja. Bebemos mais um pouco, conversamos mais e definitivamente ele estava flertando comigo. Eu me senti lisonjeada por ter um rapaz tão bonito me cantando vez ou outra.
Não sei se foi o álcool que nos desinibiu ou se havia rolado mesmo uma química entre nós dois, por que pouco depois estávamos de volta ao apartamento dele. Estávamos aos beijos quando caímos no sofá dele. Fizemos amor ali mesmo e caímos em sono profundo enroscados um ao outro.
No dia seguinte, quarta-feira de cinzas, era o final oficial do carnaval. E também o final do que eu pensei ser o começo de uma grande história de amor. Eu sei que é besteira pensar que poderia ter um relacionamento duradouro com um cara que conheci a poucas horas em um bloco de carnaval. Mas eu tenho dessas coisas.
Quando acordei ele estava completamente arrumado, vestido à caráter para uma guerra e com as malas prontas ao seu lado. Me contou que o prazo do remanejamento dele havia acabado e que teria que voltar para sua base anterior. Precisavam dele lá, já que ele era indispensável para o serviço. Foi o que ele me explicou e eu fiquei meio sem entender o que ele queria dizer. Ele esperou eu me arrumar e tomar o café-da-manhã que ele preparara. Fomos até a porta e, no momento da despedida pedi para que não dissesse nada, que apenas fosse embora. Ele assim o fez e, quando desapareceu de minha vista, segui caminho para casa.
Como amores de verão que vão e vêm, esse foi mais um destes. Só que eu pensava que isso só acontecia em filmes. E, para piorar, meu restante de verão foi enlouquecedor. Além do fato de passar dias pensando em Antônio, em meados de março eu descobri que eu não ficaria sozinha neste mundo como eu pensara de uns tempos para cá. Eu estava grávida de Antônio. E esse é só o começo da história.
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