Um amor de carnaval

2 Capítulo Dois - Reencontro


Estacionei o carro na vaga em frente ao supermercado próximo de minha casa. Pulei do banco do motorista e abri a porta de correr do meu furgão. Dei de encontro com meu filho, Miguel, adormecido em sua cadeirinha própria para ele andar de carro. Tive que acordá-lo de seu sono profundo, pois ele deveria estar acordado para almoçarmos no restaurante que havia dentro do supermercado. Ele, ainda meio sonolento, caminhou de mãos dadas comigo até o local em que iriamos comer. Sentamos em uma das mesas e, enquanto eu olhava o menu, Miguel me questionou sobre seu pai novamente:

— Mamãe, porque o meu pai não vem para o dia dos pais na escola?

Eu sempre contei a verdade para Miguel. Eu não queria que ele crescesse com raiva do pai nem que, caso ele me pegasse contando uma mentira, acabasse com raiva de mim.

— Você sabe por que, meu filho. Ele está longe daqui, em uma base militar, trabalhando para o exército.

— Mas os pais de todos os alunos aparecem. E todos eles trabalham também.

— É diferente, meu filho. Quando você crescer vai entender.

— Eu odeio quando você fala que eu vou entender quando crescer. Você só está sendo evasiva.

— Onde você aprendeu essa palavra, mocinho?

— Na escola.

— Duvido que tenha sido sua professora quem lhe ensinou.

A conversa acabou por ali. O garçom chegou e pegou nosso pedido. Almoçamos quando nossos pedidos chegaram e partimos logo em seguida. Quando estávamos na porta do supermercado, esbarrei em um homem alto que estava entrando, pois estava distraída. Quando fui me desculpar, eu quase caí para trás com o susto. Era Antônio!

— Melissa? Eu não acredito que é você! – Expressou Antônio, vindo até mim para me abraçar. Eu o detive com um gesto.

— Você não pode simplesmente me abraçar após tudo o que passamos. Você some, o que, por uns seis anos?

— Bem... – E após uma pausa prosseguiu. – É praticamente isso.

— E agora quer agir como se nada tivesse acontecido.

— Não foi minha intenção. Foi um ato espontâneo. Poxa, fico seis anos sem ver uma pessoa, a primeira coisa que quero ao reencontrá-la é lhe dar um abraço.

— Tudo bem. Entendo sua reação. Agora me dê licença que eu preciso ir.

— Espere. Se houver alguma coisa que eu ainda possa fazer para me redimir, por favor, ligue para mim. Eu voltei à cidade. Aqui está meu telefone.

Ele então estendeu um cartão para mim com seu nome completo e um telefone impressos nele. Achei estranho que um militar tivesse um cartão de visitas, mas não pensei muito a respeito. Peguei o cartão e me encaminhei para o carro sem nem mesmo dizer tchau.

Aquele homem partiu meu coração. Achou que eu poderia ser sua conquista por uma noite. Ele sabia que tinha de partir no dia seguinte, então por que me conquistar e fazer com que me afeiçoasse a ele? Ele só queria uma última mulher em sua cama antes de partir para sua missão militar. Ele não tinha o direito de fazer o que fez: entrar em minha vida, devasta-la daquele jeito e sair como se não tivesse feito nada. Agora, estava de novo ali, provavelmente disposto a fazer tudo de novo. Sem chance!

Ajeitei Miguel em sua cadeirinha e entrei em meu carro, furiosa. A meio caminho do estacionamento, já rumando para casa, meu filho me veio com a pergunta que eu não queria responder:

— Quem era aquele, mamãe?

— Não era ninguém, meu filho. Era um estranho.

Claro que eu tinha que dizer algo assim. Não iria falar algo como “filho, aquele é seu pai. Gostou de conhecer ele?”. Então, o momento de minha vida que teria que mentir para meu filho chegara. Era isso, ou deixar o pobrezinho todo confuso e questionador para cima de mim, sem falar em sentimentos que aflorariam nele, sentimento esses que eu não consigo nem prever.

Voltamos para casa e nos preparamos para o restante do dia. Miguel teria escola pela tarde, e eu tinha trabalho a fazer. Eu trabalhava em casa, com vendas em um site de produtos relacionados a esportistas. Tinha de tudo um pouco: suplementos, moda fitness, acessórios para práticas esportivas, etc.

Trabalhei durante a tarde inteira, falando com fornecedores e atualizando o site. Quando meu filho chegou, fui brincar com ele na sala de estar. Ele me parecia triste e distraído. Então questionei a ele o que se passava.

— Os garotos da escola estão sendo maus comigo de novo por eu não ter um pai. – Declarou Miguel.

— Não fique chateado com isso, meu filho.

— Mas é que eles não param de caçoar de mim. Mãe, por que eu não posso conhecer o meu pai?

— Você sabe o porquê, Miguel. Ele está em um lugar distante, em uma missão pelo exército. Nem eu mesmo posso encontra-lo.

— Eu falo para eles isto. Eu falo que tenho pai. Mas eles não acreditam. Se eu tivesse pelo menos uma prova. Uma foto com ele ou algo assim.

Surgiu um aperto em meu peito e uma vontade de contar a Miguel sobre seu pai começou a martelar em minha cabeça. Afastei este pensamento e tentei consolar o meu filho, puxando-o para perto de mim em um abraço apertado. Não pareceu surtir muito efeito, pois logo em seguida, ele questionou:

— Como é que ele é, mamãe? Eu sou parecido com ele?

Essa pergunta me desnorteou. Miguel sempre me lembrava Antônio fisicamente. Eu até pensei uma vez que ele seria uma perfeita versão mini do Aladdin. Era difícil olhar para meu filho e lembrar do meu súbito amor que perdi. Mas o amor por ele era infinitamente menor do que o que sentia por Miguel.

— Sim, meu filho. Você se parece muito com ele.

Após alguns momentos de silêncio, voltamos a brincar e Miguel parecia um pouco mais alegre.

— Hoje eu briguei com um menino que falou que você era uma cobaia em uma experiência malsucedida que deu origem a mim. – Mencionou ele em certa altura da brincadeira. – Dei um soco na cara dele e ele ficou quieto.

— Miguel! O que eu já lhe falei sobre brigas na escola?

— Nada, que eu me lembre.

— Engraçadinho. Só por que isso é verdade não quer dizer que deva sair por aí distribuindo socos.

— Quando eu crescer, eu vou lutar no exército, igual a meu pai.

Essa declaração dele fez minha espinha gelar. Claro que era só uma coisa de criança, querer ser igual ao pai, e que até lá ele mudaria de ideia diversas vezes. Mas só o simples fato de pensar nele indo para o exército mexia comigo.

Na hora de ir para cama, Miguel teve tempo de me fazer mais uma pergunta:

— Mamãe. Algum dia o meu pai vai voltar?

Pensei por um momento em como responder àquilo. Minha cabeça girou em um turbilhão de desculpas e respostas sinceras que eu poderia lhe dar. Então simplesmente, respondi:

— Vai, meu filho. Ele vai voltar sim.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.