Notas iniciais
As cinzas do incêndio permaneciam na minha pele.
Ainda sinto a fuligem presa na minha garganta.
Apesar disso ter ocorrido há quatro anos atrás, minhas cicatrizes ainda me causam dores agudas.
Me olho no espelho da clínica. Estou ali há horas após a terceira consulta com o psiquiatra.
Puxo meus cabelos cinzentos enquanto me encaro no reflexo. Meus olhos escuros desconhecem uma noite de sono há muito tempo...
Minhas costas frágeis sentem as dores do peso das mortes que carrego.
Por que eu não me juntei a elas?
Seria justo eu não ter sobrevivido...
Eu deveria estar com todos agora...
...
— É seu último ano. Você irá se formar e viver uma nova vida!
Minha mãe repetiu seu mantra enquanto me passava o pacote de sertralina no balcão da cozinha. Ela sempre repetia aquilo para me animar.
Eu havia começado a estudar horas após a escola fechar. Fazia minhas lições sozinha numa sala vazia com auxílio de uma coordenadora.
Conviver com os outros em sala desencadearia uma onda de crises e surtos.
Escrevendo com a mão trêmula eu tentava me concentrar, fingindo não ouvir os sussurros da minha cabeça.
A minha visão ficava turva.
As letras pareciam escorrer da folha.
A caneta escorreu de minha mão e ao apanhá-la vi que estava com sangue.
Me ergui com um salto empurrando todo o material da mesa.
Não... Isso não pode se repetir...
Sua voz começou a ressoar nos meus ouvidos.
Eu ainda podia ver seus olhos púrpura me encarando na sala.
Ainda posso ouvir as risadas.
Ainda posso sentir seu abraço...
— SAIA DA MINHA CABEÇA! SAIA DA MINHA CABEÇA!
Gritava enquanto puxava os meus fios de cabelo.
Comecei a me debater chutando as carteiras à volta e derrubando livros.
Sentia repulsa ao ouvir seus sussurros,
ouvir seu choro, seus ossos sendo esmagados lentamente no animatronic enquanto queimávamos naquela noite.
Eu me revirava na cama diversas vezes, mas a insônia era inevitável.
Me sinto suja pelo afeto que sentia, e muito mais podre ao ter derramado lágrimas dos pais no dia em que contei a verdade.
Pode ter sido há quatro anos, mas sinto como se tudo tivesse ocorrido na noite anterior.
Amanhece e ainda me pergunto como consigo me olhar no espelho.
Encarar a carcaça podre em um corpo morto de olhos abertos.
É o dia da formatura e minha mãe invade o quarto me entupido de perfume e presilhas.
Ela sorri apesar do peso que sentia no peito e me empurra para a penteadeira.
Dizia o quanto eu era linda enquanto escovava meus cachos escuros e dava nós nas faixas para esconder minhas cicatrizes.
O que aliviou a tensão naquela manhã.
O que me fez desabar em lágrimas.
O que me alegrou.
O que me destruiu.
— ...Vai ficar tudo bem... Vai ficar tudo bem...
Minha mãe me abraçava. Pude sentia suas lágrimas escorrerem no meu ombro e não consegui mais me conter em soluços.
Nossa imagem se desmanchava em prantos no reflexo do espelho.
— Essa será sua nova vida. Essa será sua nova vida. Essa será sua nova vida... — Sussurrava ela com os olhos fechados. Suas palavras eram carregadas de força.
Eu vou ser uma nova pessoa.
Assim que me formar, sairei desse país.
Queimarei minhas coisas.
Você não existe mais.
Nenhum de vocês...
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