Um Verão, Um Amor.
1 Unique
Notas iniciais
Eu ainda lembro-me dele, do verão, do sol, da brisa leve que acariciava meu rosto. Estava em Paris quando tudo começou. O conheci em uma pequena cafeteria, em férias de verão. Era quase provável que aquele ano, fosse o ultimo de minha vida. Meu neurologista pediu-me para que curtisse bastante, porque a cada dia que se passava, o tumor em meu cérebro aumentava.
Resolvi tirar umas férias aquele ano, nada de mais. Apenas um ou dois meses em Paris. Mas eu nunca pensei que a cidade fosse tão mágica quanto diziam, nunca imaginei que viveria algo igual aquilo que vivi.
Era tarde e o sol já estava se pondo, entrei naquela cafeteria, a qual tinha um ar bastante aconchegante e convidativo, e pedi um copo de café com leite e alguns pães de queijo para acompanhar. Foi quando ele entrou; alto, sorridente e cheio de alegrias para distribuir. Mas o que me chamou a atenção foram seus olhos, tinham um brilho nada comum. E também o modo como ele cumprimentava cada atendente, garçonete, recepcionista. Ele era um cara cheio de si.
– Boa tarde, a senhora está sendo bem servida? – Era o cara cheio de si, e mais uma vez, tinha um sorriso nos lábios de encantar a todos.
– Estou sim, obrigada por perguntar. – Dei de leve uma golada no café ainda quente e uma pequena mordida em um dos pequenos pães de queijo.
– Ichigo. Dono da cafeteria. – Sorriu e estendeu sua mão quente e macia para que eu pudesse aperta-la.
– Rukia. – disse – Você tem um ótimo estabelecimento senhor Ichigo. – sorri para ele, que logo se sentou a minha frente na mesa, pedindo a um dos garçons que lhe trouxessem um copo de café com creme e não muito carregado de açúcar.
– O que a traz na cidade dos amores? – Perguntou-me, e mais uma vez sorriu. Agora de perto notei as covinhas que se formavam em seu rosto, combinavam bastante com ele, sem falar no hálito de menta fresca que emanava.
Ah, vim passar alguns meses antes de morrer com um tumor no cérebro. Pensei, mas não lhe falaria isso, nem pensar. Não a um desconhecido.
– Apenas férias vencidas. – Sorri de volta.
– Veio acompanhada? – Para um desconhecido, ele perguntava de mais.
– Não. Nesse estagio que estou ninguém gostaria de me acompanhar. – Falei gentilmente, não queria mais responder perguntas, de qualquer tipo. Olhei de leve o relógio em meu braço e tentei parecer assustada. – Ai Deus! Olha a hora, eu preciso ir, foi um grande prazer conhece-lo Ichigo.
Deixe-o sentado na cadeira sem entender o motivo de minha pressa, na verdade, nem eu a entendia. Cheguei ao pequeno apartamento que avia alugado e tomei um banho às pressas.
Talvez a um teatro caísse bem àquela noite, ou então um daqueles filmes ao ar livre. A noite jazia quente, e as estrelas mais brilhantes que o comum. Tomei um, dos milhões de remédios e me vesti. Nada chamativo, apesar de está em Paris, a cidade da moda, eu não me sentia uma modelo da vida.
Cheguei pouco antes de o filme começar, um drama sobre um amor quase impossível. Forrei o lençol na grama e peguei o balde de pipocas com o copo de quase um litro de suco de morango, e logo após me sentei.
– Poderia me sentar ao seu lado? – Olhei de relance e vi olhos brilhantes, cabelos bagunçados e o cheiro de menta fresca que invadia o ar. Era ele.
– Porque não? – Sorri e apontei para o lugar ao meu lado do lençol. Ele sentou-se bem ali.
[...]
Já haviam se passado horas, e na tela, o terceiro filme, eu e o desconhecido, ou não tão conhecido assim, estávamos deitados vendo mais uma comédia romântica que agora dava na tela. Eu não tinha noção da hora, mas quando o céu, próximo ao horizonte começou a mudar de cor, tive certeza; o dia já clareava.
Levantei-me e joguei as sujeiras da noite em uma lata de lixo próxima a uma arvore, peguei o carro e fui em direção ao horizonte, parei em uma praia ou algo semelhante a isso e contemplei o dia que nascia perante a mim, o sol que de leve tocava minha pele e aquecia cada parte de meu corpo.
[...]
Três semanas já haviam se passado, e cada dia mais eu aproveitava. Já estava adapta ao ritmo de Paris, não me vestia como essas modelos famosas, mas me sentia bem ali. Nem um sinal de desconhecidos. Naquela manhã eu lembro que acordei com uma leve tontura e muita dor de cabeça. Algo que não me permitiu sair para nada. Liguei para a Cafeteria do Desconhecido, mesmo sabendo seu nome nunca pararia de chama-lo assim, e pedi algumas torradas com café e creme.
Tomei um banho e botei uma roupa bem leve, apenas uma bermuda e uma regata, e andei descalça pela casa. Tirei a manhã para ligar para meus pais e dizer que eu estava muito bem, as coisas aqui eram muito bonitas. Mamãe pediu para que eu levasse uma bolsa para ela, e meu pai apenas disse que era para eu tomar meus remédios corretamente. Esse era seu modo de dizer para tomar cuidado.
Quando levantei do sofá para abrir a porta tive de novo à tontura e mais uma vez a fisgada na cabeça. Que droga, isso não iria passar? Claro que não, a massa em minha cabeça crescia cada vez mais. Apertei os olhos e abri a porta. E quando olho o entregador com aquele sorriso, aqueles olhos brilhantes e as covinhas aparecendo, sinto minhas pernas bambearem. Porque eu fiquei assim? Era apenas o dono de uma cafeteria, a melhor que eu já tinha ido, admito. Ele sorriu ainda mais quando de leve eu dei passagem para que ele entrasse, pedi para que ele sentasse no sofá e fui até a cozinha.
Quando voltei à sala, ele ainda estava lá e continuava sorrindo. Eu não entendo o motivo dele estar sempre assim, sorrindo, olhos brilhantes. Parecia que nunca havia acontecido nada com ele. E talvez, só talvez, a vida dele estivesse desmoronando, e ele continuava a sorrir, acho que eu posso entender isso; não é só por está sofrendo, que os outros precisam saber disso. Liguei a televisão em um canal qualquer e nós, eu e o desconhecido, ficamos conversando um bom tempo. Ele contou-me sobre a irmã estar grávida de trigêmeos e falou que logo nasceriam ele seria o padrinho dos três. Disse também que a mãe tinha uma doença de perda de memória. E que estava prestes a esquecer dos filhos, ele ia todos os dias visita-la no hospital e me chamou para acompanha-lo.
Não sei porque, mas eu havia aceitado ir junto. Lembro-me que ele tinha falado que lá era um hospital de pessoas em estado terminal. Eu poderia ver crianças e idosos prestes a morrer.
[...]
E assim foi feito, eu vi. Crianças com o mesmo problema que eu, porém foram abandonadas pela família, não tinham ninguém no mundo eu menosprezava minha doença, dizia que gostaria de morrer a dar trabalho para os outros, mas depois que visitei aquele hospital, eu percebi que era melhor dar trabalho aos outros e ter alguém que se importasse comigo do que não dar trabalho a ninguém e permanecer assim, igual aquelas crianças ali. Sem nada no mundo.
[...]
Ichigo, depois daquilo, presenciou um de meus desmaios e então eu precisei contar, na verdade o medico lhe contou o que eu tinha. Depois daquilo, todos os dias durante a noite, ele ia até meu apartamento carregando duas xicaras de leite com café. Conversávamos bastante. E a cada dia que passava eu esquecia o verdadeiro motivo de ter ido aquela viagem, eu se esquecia do tumor em meu cérebro, esquecia que ele crescia a cada instante. O que realmente importava era que eu estava sempre ao lado dele.
Ele levou-me para lugares desconhecidos por mim, mostrou-me quadros de artistas desconhecidos. Voltas durante a noite pela Torre Eiffel. E quando eu menos o esperava, me surpreendeu mais uma vez, me dando a noite mais especial de minha vida.
Pela primeira vez eu me desliguei de todos os meus problemas, de tudo que me prendia. Eu quis viver o meu momento. O nosso momento. Já estava perto de eu ir embora, já haviam se passado mais de um mês e meio, e depois de uma ligação do hospital onde eu me tratava, tive a certeza; havia chegado minha hora.
Escrevi uma pequena carta para ele e contei-lhe o que estava acontecendo, falei sobre a cirurgia que eu faria e que tinha 20% de chances de sair bem, sem sequelas. E outras 20% de sair com sequelas. E os outros 60% que me restaram, eu não sairia bem, nem com sequelas. Eu morreria.
Eu não tinha medo, nem um pouco. Já havia desafiado a morte várias vezes, essa seria apenas mais uma delas. Voltei para casa no outono, até eu fazer o tratamento para a cirurgia, seria inverno.
– Então querida... – Era minha mãe, eu já tinha perdido a conta de quantas vezes ela tinha ido até meu quarto dizer a mesma coisa.
– Sim mãe. Eu tenho certeza, quero muito fazer a cirurgia, e se por acaso eu não suportar, doe cada um de meus órgãos bons. E entregue a correntinha de pomba a minha sobrinha quando nascer.
– Sua sobrinha? Mas você não tem irmãos. – Ela surpreendeu-se.
– Sim mãe. Ela é filha da irmã de Ichigo, o desconhecido que conheci em Paris. Ela será a única menina, já que os dois irmãos que nasceram junto dela, são meninos. – sorri para minha mãe e fechei a pequena bolsa.
Hoje seria um grande dia, o dia em que eu me internaria. O tempo não estava tão quente, na verdade nevava. Se eu sobrevivesse, viveria mais um verão daqueles em Paris. Senti falta das tardes ensolaradas daquela cidadezinha, as minhas idas a Cafeteria só para ver o cara desconhecido. O verão me fez bem, Paris me fez bem.
[...]
Eu não sabia como tinha sido a cirurgia, não sabia mesmo, mas eu podia ouvir pessoas aos sussurros, médicos dizendo que eu ficaria bem, que eu estava estável, que eu sobrevivi. Mas eu não me sentia viva, eu sentia uma tremenda dor de cabeça, e também senti que se eu ao menos tentasse abrir os olhos, eles pulariam para fora. Talvez eu estivesse mesmo morta, algo me forçava a abrir meus olhos, algo fora do normal, algo sobre-humano.
– Ei! Volte, volte para mim. – Ouvia alguém dizer. – Por favor, volte!
Então eu abri os olhos para a pessoa que tanto me suplicava para voltar. Então desejei ter aberto eles antes. Agora eu podia ver. Olhos brilhantes, mas sem nenhum sorriso, os olhos descreviam dor, e eu sentia dor por ele. Queria acordar e ver o sorriso em seus lábios.
Eu não havia morrido, ou havia? Ele não me seguiria até o céu, ou então até o inferno não é?
– Você voltou! – Dizia baixo, e então eu pude vê-lo conter um sorriso, almejei para que ele o deixasse escapar, queria ver as covinhas em seu rosto. – Vou chamar o médico, não saia daí.
Como eu sairia, quis dizer a ele, queria pedir também para ficar ali, ao meu lado.
[...]
– Como você sobreviveu tia? – a menina de cabelos encaracolados me perguntava.
– É mamãe, como a senhora teve forças ara voltar? – uma leve brisa passou pela praia onde estávamos todos reunidos.
– Paris, seu pai, o verão, as ondas, sua avó, vocês. Tudo me deu forças para voltar. – Sorri e contemplei mais uma vez aquele sol.
Podia sentir a vida dentro de mim de novo, podia sentir a pequena criança que se mexia dentro de meu ventre e podia ver também, o verão de Paris, o desconhecido que virou conhecido e que também virou pai de duas crianças maravilhosas.
Eu hoje acredito que Paris mudou minha vida, o sol de Paris derreteu o tumor que tinha em meu cérebro.
Não aconselho a você ir a Paris para tentar se curar, aconselho a ir a qualquer lugar onde você se sinta bem. Em um lugar que te traga coisas boas, em um lugar onde você pode chamar de lar. E agora, Paris era o meu lar, não só meu como também o lar de minha família. Eu pude ver o céu se abrir, e a chuva deu lugar ao sol, deu lugar ao verão de Paris.
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