Um Toque Feminino

8 Capítulo - 8 - Os Dois


Notas iniciais
Neste capítulo a natureza se revela. Um par de seios que mudam a vida.

Capítulo Oito

Os Dois

Brasília, minha terra, cheia de sonhos, é também cheia de grades e muros, por isso nem tirei os olhos do meu videogame, quando meu amigo e vizinho Gerald, entrou correndo no meu quarto gritando: o muro, o muro, o muro. Só quando ele completou, “o de Berlim!”, foi que levantei os olhos para ele. Não que o muro de Berlim obstruísse qualquer coisa na minha vida. O que me fez ser brindado com um sonoro “game-over” foi a excitação da voz dele. Enquanto ele se repetia, eu pude ver o brilho de alegria que seus olhos azuis emprestavam às palavras.

– Meu pai vai dar uma festa, estão detonando o muro de Berlim, ligue a TV...

Naquele dez de novembro de 1989, ainda faltava um mês para eu completar seis anos, e o que menos me preocupava era o tal muro ou qualquer outro. Mas o Fritz, é claro que este era o apelido, pois como já disse ele se chamava Gerald, era um alemão da minha idade, tinha os cabelos mais louros que os da Xuxa, era mais alto e forte que eu, mas no futebol eu sempre dava umas “canetas” nele e de vez em quando um “banho de cuia”, um “chapéu”, como dizia meu avô. Estou dizendo alemão, mas não é só por que ele era assim todo galego não, ele era alemão mesmo, pai alemão, mãe alemã e passaporte alemão. Tinha se mudado para a casa ao lado da minha há dois anos e nos conhecemos no “Jardim II” de uma escola que ficava em frente à casa dele. Por motivos óbvios, ele passou a primeira aula mudo. Não falava com a “Tia” e nem com os colegas. Eu também tinha ficado bem ressabiado na minha primeira aula e achava normal o comportamento dele. Quando terminou a aula, a “Tia” pediu para que eu o acompanhasse até que ele atravessasse a rua. Eu já fazia isto sozinho desde o ano anterior, mas para ele era a primeira vez. Mesmo a rua não oferecendo perigo, a maioria das mães vinha buscar os meninos. Para mim e para ele era só atravessar a rua e entrar em casa. A princípio achei que a “Tia” estava exagerando e ia retrucar, mas alguma coisa no rosto dela me dizia que era importante. Acho que fui usado para integrar o alemão ao nosso meio. Saí, meio que acompanhando ele e “vazamos” pelo meio dos carros e “ganhamos” o outro lado da rua sem problemas. Quando ele tocou o interfone da casa dele, eu disse.

– Hasta la vista! – e continuei andando.

– Hasta la vista. Gracias.

Voltei. Então o meu vizinho alemão não era mudo. Só não entendia nada de português, mas falava espanhol. Convidei-o para almoçar comigo. Ficou indeciso e alguém atendeu o interfone. Gritei um “help” antes que ele atendesse e antes que a cara de espanto dele se fosse, um moreno alto com cara de segurança abriu o portão.

– O que é que está acontecendo aí?

– Estamos precisando de ajuda. Eu moro aqui ao lado e convidei-o para almoçar, ele respondeu em alemão. O senhor poderia dizer se ele aceitou ou não? Ou perguntar à mãe dele? Por favor.

– Quem é seu pai?

– Meu avô, é o João Alves Souto-Maior de Almeida Gonçalves aqui do lado.

– Entre e pergunte você mesmo, mas não tenha muitas esperanças, essa gente é esquisita.

Entrei. A casa era igual à nossa, mais uma casa do Lago Sul, o mesmo quintal, uma piscina, um campo de futebol society, uma quadra cimentada, algumas árvores e uma mãe com cara de preocupada. Repeti o convite em espanhol.

– Você é espanhol?

– Não senhora, brasileiro, mas não sei falar alemão, só...

– Você fala mais de uma língua?

– Meu avô fala umas dez e vou aprendendo...

– O Gerald precisa aprender português...

– É fácil. Então, ele pode ir?

– Sem falar com sua mãe? Nem pensar.

– A senhora pode ligar para meu avô. Ele nunca sai de casa e ficará feliz com uma visita da senhora.

Ligou e poucos minutos depois estava lá em casa, “travada” em um papo alemão com meu avô e eu e o Gerald no vídeo game, esperando minha mãe chegar para o almoço. Quando ela chegou, corri para apresentar meu novo amigo. Senti os olhos de ambos, correrem da minha mãe para mim e depois para meu avô. Minha mãe é quase tão branca quanto eles, só o cabelo é que é um pouco mais escuro. Os do meu avô já estão grisalhos, mas eram castanhos e ele não é tão escuro quanto eu, que sou mais puxado para o lado índio, mas estou muito longe de ser da cor da minha mãe.

– Ora não estranhem, este moleque pega sol de mais, aí o sangue “cucaratcha” da mãe genética dele aflora.

– Adotado?

– Não. Ele tem duas mães. Eu, que troquei as fraldas dele, e uma peruana de nome Maria Soledad Benítez que deu os seios a ele durante quarenta dias e depois permitiu que ele fizesse minha felicidade. Registrei-o com o nome de Carlos Souto-Maior Benitez e Gonçalves, e se algum dia ela voltar, nós dois temos a missão de não deixá-la partir novamente. Se acaso fracassarmos, meu pai vai perder uma das poucas razões que tem para viver. Afora a leitura, tudo que faz é curtir o neto.

– Mas se você o registrou em seu nome, a justiça deste país não te...

– Não é uma questão de justiça, é uma questão de amor. Ela o ama tanto quanto eu ou meu pai. Separou-se dele por amor e por amor voltará, se não for impedida. Só os percalços da vida e os termos da lei separam uma mãe de seu filho.

– Mas e o amor que ele tem por vocês, os sentimentos...

– Em qualquer lugar em que vá, esta força estará nos unindo.

– E o pai?

– Até o momento não apareceu ninguém que mereça esta honraria. Alguém por aí está no prejuízo.

– Ele deve sentir falta!

– Talvez, mas meu pai representa uma figura masculina sem igual.

E assim era. Meu avô representava tudo para mim, depois daquele dia passei a me dividir entre ele e meu novo amigo. Nossas casas eram comuns de dois, “minha casa, sua casa”. Os “rachas” depois da escola ou eram na dele ou na minha, e o meu avô não perdia um. Naqueles dois anos de convivência havíamos derrubado as barreiras, mas mesmo assim quando ele entrou gritando, “o muro, o muro”, eu nem me liguei no significado do evento. Mais importante para mim era que os pais dele tinham deixado a Escola das Nações em segundo plano, o que raramente acontecia com diplomatas estrangeiros, para não nos separar. Ele já estava matriculado e eu estava na pendência. Meu avô argumentava ao telefone com a Diretora e desligou ao ouvir os gritos dele.

– Do que é que você está falando, Fritz?

Meu avô já incorporara o apelido que ele ganhara no futebol.

– O muro, Vô! Estão derrubando o muro!

Enquanto a TV mostrou, ficamos assistindo o povo festejar a desmonte do muro, como se fossem crianças destruindo um castelo de areia na praia.

– É isso aí, Fritz! Parabéns para você! Parabéns para seu povo e parabéns ao mundo! Felizmente, mãos alegres substituíram a pólvora da guerra nessa empreitada. Agora deixem que eu volte ao nosso muro.

– Que muro, vô?

– O muro da burocracia que esta sua diretora de cabeça dura não quer deixar a gente desmanchar.

– A minha dependência?

– Pendência, é o termo correto. Ela alega que não pode aceitar sua matrícula para frequentar a primeira série porque você ainda não completou seis anos.

– Mas não é só para o ano que vem? Aí eu faço sete.

– É. Mas ela está alegando que sua cabeça ainda não está pronta.

– Mas o Fritz já se matriculou...

– Eu sei, filhote. Ele já completou os seis e já está vivendo o sétimo ano, então teoricamente ele é um ano mais velho que você. Estabeleceram um padrão até junho, quem faz aniversário no primeiro semestre pode, os outros tem que esperar mais um ano.

– Não quero esperar. Se o Fritz pode, eu também posso. Eu faço tudo que ele faz!

– Este é um bom argumento, mas não se preocupe, o vô aqui, vai dar um jeito nisso.

Chegou meu aniversário e ele não tinha resolvido, só tinha conseguido se irritar com a diretora que ficava alegando umas tais diretrizes. E cada vez que ela falava em diretriz ele pulava na cadeira de rodas.

– Vô. Agora que eu já tenho sete, será que ela deixa?

– Não se preocupe meu filho – me chamava mais de filho que de neto – você estará naquele colégio. Existem muitas formas de entrar nele, e nós vamos entrar da forma mais digna possível.

– O senhor vai ligar para o Presidente?

– Isto não seria uma forma digna. É preciso fazer com que nos respeitem. Se estamos dispostos a quebrar conceitos antiquados e provar que ideias válidas nos tempos que seu avô tinha a sua idade, não valem para o seu tempo, eles têm que nos ouvir.

– Mas, vô! Ela não quer ouvir!

– Mas vai ouvir, eu quero que ela ouça!

– Mas e se ela não ouvir?

– Vamos descer um degrau na nossa dignidade e recorrer aos juízes.

– O juiz vai resolver?

– Não é a solução que queremos, o que queremos é que ela reflita e te aceite como aceitou o Fritz e não porque o juiz mandou. Ou o presidente – acrescentou.

Voltou ao telefone.

– É o avô do Carlos Benitez Gonçalves... isso mesmo... o assunto de sempre... eu aguardo.

–...

– Como vai a senhora?

–...

– A senhora sabe que do lado de cá não haverá desistência... Não senhora... de forma alguma... não vou fazer isso... alfabetizar!? A senhora está maluca? Se a senhora acompanhasse seus alunos mais de perto saberia que ele não precisa ser alfabetizado... Já disse que não vou escrever carta a ninguém, mesmo porque ele poderia fazer de próprio punho... Estou... É sim senhora! Em três ou quatro línguas diferentes... Em absoluto, não quero meu neto submetido a um espetáculo circense... Neste caso consulte a última professora dele, é bem possível que ela tenha condições de emitir um parecer sem ter que estressar o garoto... Nada de teste, quero que ele seja tratado igual aos demais... Haverá teste para os demais? Então nada feito... Todos têm chances até o final do ano, queremos o mesmo tratamento... Faça com ele o mesmo que fizer aos outros que não atingirem os padrões... Ele suporta a carga, injusto é ser reprovado antes de começar... Fico muito grato. Bom dia para a senhora.

– Pronto meu filho, ela cedeu, mas está preocupada com a sua cabecinha. Eu não tenho a menor dúvida que vai ser moleza para você, mas não confie só nas observações do seu avô. Você tem que analisar suas próprias dificuldades e conversar com quem possa te ajudar.

Não tive qualquer dificuldade, a turma era praticamente a mesma, e os poucos que entraram, logo pegaram o ritmo e o caminho das nossas casas. No terceiro ano as coisas mudaram bastante. O pai do Fritz voltou para a Alemanha e eu perdi meu parceiro. O futebol foi incrementado, pelos repetentes e transferidos que a nossa turma ia incorporando. O Fritz foi substituído pelo Túlio e sua irmã Cristina. A Cristina era da turma de cima, do quarto ano, era quase dois anos mais velha que eu e nos ajudava nos deveres de casa. Pelos mesmos erros, dava mais bronca no Túlio que em mim. Ele começou a reclamar.

– Porque você não dá bronca nele também, só em mim?

O tempo foi passando e ele foi encurtando a frase.

– Por que não dá bronca nele também?

– Por que não dá nele?

– Dê pra ele!

Ficou vermelha e saiu correndo.

– Pô Túlio! Viajou na maionese, foi? Olha o que você fez?

– Ah, qual é cara? Ela é igual a estas meninas aí, ó. Vêm para cá só para ficar olhando o volume da sua sunga?

– Que volume?

– Que volume! Eu sou quase um ano mais velho que você e olha – arriou as calças – meu pau não é nem a metade do seu. Até para o “cerol” tenho que fazer malabarismo. Fico com vergonha de tomar banho perto de você, e não é só eu, pode ver que metade do time só entra no banheiro depois que você sai. E alguém já espalhou que você é o campeão e ela veio me perguntar se é verdade.

– E o que você disse?

Ficou me olhando por uns instantes.

– Ela pergunta e você pergunta, porque vocês não se respondem?

– Deixa para lá. – respondi.

Juntou os cadernos e os livros, enfiou tudo dentro da mochila de qualquer jeito, jogou nas costas e foi procurar a irmã. Saí atrás dele. Ela estava sentada embaixo do pé de lichia.

– Vá juntar suas coisas que estou indo embora.

Ela se levantou sem olhar para ninguém e correu para dentro de casa. Quando chegamos a mochila dela estava quase pronta. O Túlio foi até onde ela estava, pegou a mochila e virou tudo sobre a mesa, tirou a própria das costas e jogou por cima.

– Pensando bem, é melhor vocês conversarem a sós. Estou indo ao Gilberto Salomão – é o centro comercial mais próximo da nossa casa – e volto lá pelas cinco para irmos embora juntos.

Saiu, trancou a porta do escritório e enfiou a chave por baixo da porta. Respirei fundo tentando controlar meu nervosismo e o constrangimento.

– Cristina eu..., o seu irmão..., eu..., – não fazia a menor ideia do que dizer.

– Ele é um filho da puta. Tudo que pergunta, respondo. Agora me “tira” deste jeito e ainda por cima me deixa no maior “vácuo”.

– Você me explica uma coisa? Eu não me importo de responder...

– O que você quer saber? – me interrompeu, gentilmente.

– O que ele quis dizer com cerol?

Ficou me olhando por um tempo e eu comecei a ficar encabulado novamente.

– O que você sabe sobre sexo, masturbação?

– Algumas coisas no computador, algumas que minha mãe fala e as da escola.

– Se você quiser, eu posso te ensinar. – disse com ar de professora.

– Eu quero.

Foi até a porta, conferiu se estava trancada. Pegou a chave que estava no chão e colocou na fechadura.

– Tire a roupa que eu te ensino.

– Você vai tirar também?

– Você primeiro.

Virei de costas para ela e me despi. Estava tão eletrizado que senti os braços dela em volta da minha cintura, antes que eles me tocassem. Senti o abraço e a saia dela tocando minha bunda. Depois as mãos descendo até o meu pênis.

– Assim não vale, você não tirou a roupa.

– Acho que preciso de ajuda.

Virei e soltei os botões da blusa, enquanto ela se livrava da saia. Olhei por uns minutos os seios que começavam a aparecer e depois nos abraçamos. Quando eu consegui respirar direito, perguntei.

– É só isso?

– Claro que não, mas um abraço nu é muito bom, não é?

– É! Mas e o cerol?

Abraçou-me pelas costas novamente, colou todo seu corpo ao meu e desceu as mãos pela minha barriga, envolveu meu pênis com a mão direita e começou um suave movimento de vai-e-vem.

– Está sentindo?

– Claro!

– Então agora e só você imaginar ele dentro de mim e continuar até ele voltar ao normal.

– Então continue...

– Nem pensar, isto é para você fazer quando eu não estiver por perto. Deite no sofá que vou te mostrar o resto.

Deitei e ela me mostrou o resto e tudo mais que eu queria ver, saber e sentir.

– Como é que você aprendeu tudo isso?

– Minha mãe e um namorado que eu tenho.

– E foi bom para você?

– Foi, mas minha mãe acha que um homem não deve perguntar isso.

– Não? Eu só queria saber se...

– Se você ficar ligado, vai sentir se foi bom...

– Ficar ligado? – pô, eu estava a mil!

Tive muitas outras aulas daquela, sempre contando com a conivência do Túlio. Nas férias de fim de ano os seios dela tinham aumentado uma barbaridade e já tinham muitos pelos no púbis e nossas aulas estavam cada vez melhores. Aí veio a notícia triste, para mim, é claro! Ela mudou de série e de colégio. Ficou difícil arrumar motivos para ir lá para casa, a mãe dela acabou desconfiando e cortou nosso barato.

Quando reiniciou a ano letivo, os colegas que sabiam que ela ficava comigo começaram a “pegar no meu pé”: “aí cara! Perdeu o filé”, “perdeu as bocadas”, “ficou só com o cunhado”, “vai ter que pagar pensão”. Aquilo foi me aborrecendo e fui diminuindo os convites para jogarem lá em casa. Até o Túlio andou meio na “encolha”.

– Qual é, “cara”? Manda esses babacas irem se foder! – sugeri.

– Pô, não dá né! Quanto mais a gente apela, mais eles “encarnam”.

– Finge que não escuta...

– Se liga né! Ontem o Maneco passou a mão na minha bunda e disse que também queria. Enfiei uma porrada nele. Já estão dizendo que você largou minha irmã porque eu sou mais gostoso que ela. Até a “porra” da Nanda me largou, dizendo que não ia namorar com “veado”.

– Quer que eu fale com ela?

– Qual é? Quer piorar as coisas?

– Então deixa para lá, é só este ano mesmo. O ano que vem mudaremos para o colégio da Cristina. – procurei uma saída.

– Muitos destes babacas vão para lá também e aí vão dizer que você come a família toda.

– Você quer se afastar de mim? Tudo bem, mas eu estou me “lixando” para eles.

Passou uns tempos afastado de mim. As piadinhas mudaram, mas não pararam. “e aí, quando sai o divórcio?”, “vai pagar duas pensões?”, “e os filhos?”.

Chegaram as férias de julho e ele apareceu lá em casa.

– Eaê, “cara”? Beleza?

– Blezzz...

– E a Cris?

– Esqueça, “cara”. Minha mãe foi legal até descobrir que ela estava agindo como adulta. Virou maior “zagueirão”. Despachou o namorado dela e tudo mais. Carnaval em casa e semana santa na igreja. Se não ficar “mansa”, não vai namorar nem com quinze anos.

– Ferrou! Tô na maior saudade.

– Bem-vindo ao mundo do cerol.

– Não é isso, é saudade mesmo, dela de você...

– Êh, nem vem! Já chega o que falam...

– Não vou deixar de gostar de vocês por causa de falatório.

– É? E se fosse ao contrário? Passassem a mão na sua bunda.

– Ia ter “porrada” também, mas vocês moram no meu coração de todo jeito.

– É melhor você voltar para o cerol...

– Por falar nisso como é que andam as coisas?

– Legal! Está melhorando. Ontem eu medi. Quase dez centímetros! Um dia eu te alcanço.

– Eu não ligo para o tamanho do meu.

– Não liga porque o seu tem tamanho, se você visse a cara da Nanda quando pegou no meu, ou a risada da Cris quando fui conversar com ela...

– Mas a Cris disse-me que o tamanho não importa!

– O mesmo que falam da beleza, mas ninguém vê mulher bonita sozinha.

Passamos mais alguns dias das férias juntos, mas a Cris nunca mais voltou ao seu posto de professora. Aguentamos as provocações do segundo semestre, mas já não ficamos tão afastados. Meu avô reclamava da falta do futebol e eu o levava para ver os jogos no colégio, mas turma lá em casa eu não levei mais.

– Começamos a quinta-série, no colégio da Cris. Era um colégio com mais de mil alunos e muitos lugares para nos enfurnar. As piadinhas passaram a fazer parte do passado. Os esportes eram mais concorridos. Todas as séries se preparavam para o interescolar e eu batalhava o meu espaço. Saía-me bem nas modalidades que exigiam menos dos braços, tipo futebol, corridas e saltos. Comecei a observar, durante os banhos, que mesmo eu tendo um pênis bem desenvolvido, no restante eu estava mais atrasado que os outros garotos. Meus testículos e os pelos não seguiam o mesmo padrão. Procurei meu avô.

– Tudo bem moleque. Lembre-se que você é um ano mais novo que eles, no ano que vem, você vai estar na sexta, aí é só comparar com os da quinta. Aposto que você vai ser o saco mais cabeludo da turma.

Quando entrei na sexta série, que seria o ano do meu décimo segundo aniversário, não deixei de observar os meninos da quinta, mas eu via progressos neles e não em mim. Nas férias de julho o Túlio estava lá em casa novamente.

– Pô, meu! Se liga! Corta esse cabelo. Está cheio de peão te confundindo com menina!

– Qual é, Túlio? Vai dar uma de meu avô? Tô nem aí! Se eles quiserem pegar no “grelo” podem vir.

– Mas tá demais! Olha aí! Chegando aos ombros e tá atrapalhando o futebol.

– Vou parar com o futebol...

– O time não vai deixar.

– Problema deles, eu já decidi. Como está a Cris? Não tenho visto ela por lá.

– Está bem, ganhou a guerra com minha mãe. Está de namorado firme. Pode voltar ao seu cerol.

– Sem problemas, e o seu como está?

– Evoluindo, na hora do banho te mostro.

– Beleza. Também tenho uma coisa para te mostrar.

– O que?

– Na hora do banho.

Jantamos. Jornal..., novela..., mais jornal e minha mãe e meu avô foram dormir. Fomos para o banho. Ele entrou no chuveiro e eu fiquei sentado no vaso, de camiseta e cueca, observando ele se ensaboar.

– Entra aí cara, cabe nós dois, e já perdi o medo de você. – disse rindo e balançando o pau na minha direção.

– Tô vendo, só que agora eu tenho medo de mim.

– Deixe de “piração” e entre na água.

– Você se lembra quando me disse que a meninada esperava eu sair do chuveiro?

– Não vai me dizer que seu pau encolheu?

– Não, não encolheu, mas eu tenho sido o último a tomar banho depois do futebol.

– Caralho, meu! Cresceu tanto assim que você está com vergonha dele?

– Cresceu, está maior que...

– Tira a roupa e deixa eu ver esta porra!

– ... os da Cris, quando você me disse aquilo e me trancou no escritório com ela.

– Os que, da Cris? De que é que você está falando?

– Meus peitos, cara! Estou virando mulher! – tirei a camiseta e ele ficou mudo, a ereção dele se foi na hora.

– Merda! Você está tomando aqueles remédios, pílulas, para virar veado, gay? Meu amigo quer ser gay?

– Que gay, cara? Vê se te liga! Eu disse que estou virando mulher, não disse que estava tomando remédio para me transformar. Você é meu amigo, vê se me escuta. Olha pro meu corpo, cada dia está mais liso, quanto mais faço exercícios, mais minha cintura vai afinando e minha bunda vai crescendo. Aquela meninada lá toda tem pentelho e eu só tenho umas penugens, e o mês passado meus mamilos começaram a latejar e ficar inchados, só que cada dia que passa eles crescem mais. Você está entendendo? Estão crescendo, não é inchando. Está tudo esquisito no meu corpo e não estou tomando remédio nenhum. Quando acabar as férias, vou ter que usar sutiã para jogar futebol. Como é que vou explicar à turma? E minha mãe? E meu avô? E...

– Calma “cara”, não chore, uma coisa de cada vez. Deixa eu me acostumar com a ideia que vou te ajudar...

– Acostumar? Ajudar? Calma? Eu tô é ferrado...

– Venha cá, entra aqui embaixo do chuveiro e relaxe, tente se controlar, você ainda não é uma mulher e já está chorando igual a uma...

– Que vou fazer da minha vida, com estas “porras” crescendo em mim?

– Calma aí, termine o banho, relaxe e pare de chorar. Chorando não se resolve nada. Lembra daqueles versos dos tempos de Jardim? “O chorar, não traz proveito e nem aumenta a força ao fraco...”

Claro que eu me lembrava dos versos, mas a imagem de uma aranha e um buraco, não me ajudou muito. Piorou as coisas dentro da minha cabeça. Aquilo era assustador. Eu não queria meu saco se transformando em aranha. E eu já tinha todos os buracos que precisava. Dei uma de Pollyanna, e me consolei com o prejuízo menor.

Terminei o banho e ele me passou a toalha. Ficou me olhando em silêncio, enquanto eu me secava. Eu sabia que a cabeça dele estava tão atormentada quanto a minha. Fiquei triste por envolvê-lo, mas eu precisava de um ombro amigo. Gostaria muito que fosse a Cris que estivesse no lugar dele, mas estava difícil encontrá-la. Com ele tinha uma vantagem, eu não ia passar o resto da noite sozinho. Vesti uma camiseta e uma cueca e me meti na cama. Ele ficou imóvel sem saber o que fazer.

– Qual é? Sempre dormimos juntos, não é porque estou criando peitos que as coisas vão mudar, ou é?

– Tudo bem. Não é isso.

– Então pergunte ou diga o que é.

– Qual lado está mais..., você sabe.

– Meu amigo e não tem coragem de perguntar o que quer saber!

– Não é medo, é que fico preocupado em não magoar você.

– Então pergunte com todas as palavras...

– Qual lado está mais forte agora?

– Neste momento eu gostaria que a Cris estivesse aqui para me dar um abraço. Os meus lados estão calmos, só meu coração que está agitado.

– Mas e se...

– Se a gente entrar em um site de mulher pelada, vou ficar pronto para o “cerol” mais rápido que você.

– E se for num de homem...

– Não sei. Ainda não me senti atraído. Você está com medo de dormir comigo? Tem um quarto bem aí do lado.

– Claro que não!

Entrou embaixo do lençol e ficou me observando. Tirei a camiseta.

– Porque você fez isso?

– Bem, nós sempre estamos procurando achar uma brecha para ver os seios das meninas, não vou esconder minhas laranjinhas do meu amigo.

– Eu não estava querendo ser indiscreto, só estava imaginando como você vai ficar quando sua mãe te maquilar.

– Pensei nisto também, hoje na hora do jantar. Fiquei imaginando meu copo de água com marcas de batom, igual ao dela.

– E como você se sentiu?

– Tive uma ereção na hora que passou pela minha cabeça a Cris misturando o batom dela ao meu.

– Você se maquilou e depois beijou uma menina?

– Foi. Olha este lance de ter seios, usar maquilagem e saia, não entra na minha cabeça, foi tudo muito de repente, ainda estou condicionado aos carinhos da Cris.

– Tem mais de um ano que vocês não se encontram!

– Eu sei, mas você acha que quando eu passo “cerol” na mão é pensando em quem?

– E se eu tocar em você, o que vai acontecer?

– Não sei cara! Não sei! Isso é o que me dá medo. Se fosse a Cris eu saberia.

– Que você acha da ideia de medir você. A gente anota tudo e vai acompanhando.

– Pode ser, mas isso não vai resolver nada.

– Mas vamos ter um histórico. Amanhã vou comprar uma fita métrica.

– Eu preciso é criar coragem para contar à minha mãe. Ela vai querer me levar ao médico, depois que passar a crise. Será que ele vai me medir também? Coitada dela!

– Coitada por quê? As pessoas têm que aceitar.

– Eu ainda não aceitei e meu melhor amigo está tendo dificuldades.

– Estou começando a gostar deste seu lado novo.

– É mesmo? Então me dê um abraço.

– Sem problemas, mas deixa esta “suvela” quieta ai, ok?

– Ok. Sei que você não é a Cris.

Deu-me o abraço, mas mesmo estando deitados e seminus eu não senti aquele abraço. Já havia ganhado outros muito mais carinhosos, excluídos os da minha mãe e do meu avô, no futebol, nas corridas e até mesmo por um reencontro qualquer. Continuei buscando os abraços do passado, enquanto ele ficava olhando o teto absortamente, até mesmo a diretora “amiga” do meu avô, havia me dado um abraço mais fraternal que aquele. Acabei por chegar ao Fritz, parecia tão distante, mas havia apenas três anos e meio nos separando. Rememorei nossos corpos suados, devido ao futebol, ou molhados na piscina e nossos abraços nas brincadeiras. Os olhos brilhantes no dia do muro. Ah! O muro! Olhei meu amigo deitado ao meu lado e vi o muro. Não o muro de Berlim que se desmanchava em seus quilômetros de extensão de pedra, mas o muro que se construía entre nós, formado de cada gesto inocente. Uma pergunta não formulada para não ofender, mas a curiosidade estampada na face. Um chuveiro partilhado por tanto tempo e agora solitário. As mulheres nuas na internet e nossa disputa para ver quem tinha uma ereção mais rápida ou mais lenta, e agora, enquanto o sono não vinha, as maravilhas do teto e aquele silêncio. Merda! Ele tinha a bike dele, porque será que tinha que pegar a minha, não consigo sair do lugar com isto, pedalo, pedalo e nada, todo mundo me ultrapassa, vou chegar atrasado. Droga! Quem foi que se deu ao trabalho de passar graxa na minha raia, olha só, até o Fritz do jardim II está me ultrapassando, vou pegar minha bike e fazer um gol de peito, peito não, agora eu tenho categoria, de seios! Porra! Me solte, assim como vou ler o que está no quadro, quer dizer nos sapatos, porque será que põem uns números tão pequenos e uns saltos tão longos e finos, isto vai quebrar. Merda, pneu furado de novo, vou ter que carregar até o posto. Pô meu, não tem padioleiro que te aguenta, cadê o regime, detesto salada, nabo, cenoura, pepino, mandioca. Mijar!? Que isso minha filha? Meninas fazem xixi, e sentadas. Mas tem que carregar depois? Não posso me livrar deste peso? Não! Aguenta, aguenta, aguenta, aguenta...

Acordei suado, meu amigo havia saltado o muro e colocado o braço em cima de mim, a mão apoiada sobre meu mamilo direito. Dormia colado em mim como se fosse a Cris e sua aula sobre “cerol”. Não havia ereção, em nenhum de nós. Fiquei quieto, repassando o pesadelo e imaginando a reação dele quando acordasse. Iria fechar aquela mão sobre minha laranjinha? Iria ter uma ereção? Voltaria ao seu lado da cama? O que diria? Outro muro? E minha mãe, droga? E minha mãe? Cacilda! E a outra?! Tinha me esquecido da outra! Mas agora também não tinha importância alguma, não íamos mais ter que convencê-la a ficar, quem ia querer recuperar um filho que usava saia. Merda! Tô fudido, ou seria fudida? Não é fudido mesmo, se fosse fudida, meu avô me botava no colo e me dava um beijo na boca, mas com o tamanho do pau que eu tinha ele ia me botar para correr. Para onde eu ia correr? Será que a mãe do Túlio ia me aceitar por lá. Não! Claro que não! Eu já tinha desencaminhado a filha dela e agora que eu estava mudando de lado, ia desencaminhar o filho e continuar sendo uma ameaça à Cris. O Túlio se mexeu lentamente e depois deu um pulo voltando a admirar o teto.

– Desculpe cara, eu não tive a intenção de...

O lençol dele subia lentamente, a “barraca” estava se armando. Viu que eu estava observando.

– Desculpe por isso também eu,... eu...

– Esqueça. Eu também amanheço de “barraca” armada...

Olhou para mim e não havia nada armado.

– Pelo menos amanhecia, antes de começar a crescer para frente, mas não estou “broxa” não, é que minha cabeça está a mil. De boa!

– Tem certeza?

– Tenho, e mesmo que você se arme para meu lado, não vai dar em nada, minha cabeça está em outra. Vou levantar e falar com minha mãe. Você toma café com meu avô e se ele perguntar alguma coisa, diga que é problema no colégio. Não quero que ele fique sabendo por enquanto.

– Porque não tomamos café juntos e depois você vai com ela pro jardim e...?

– Não. Vou me meter nos lençóis dela. É lá que vamos conversar. Não vou fazer a pessoa que mais amo no mundo chorar em público.

– Em público?

– Já estou com vergonha de ter deixado você ver minhas lágrimas. Não vou acrescer a isto, os olhos do meu avô ou de qualquer empregado xereta a mais. “Bora”, de pé, olha aí, sua barraca já era.

Levantei e fui ao banheiro. Ele só foi depois que saí.

– Fui..., cuida do velho para mim.

Bati no quarto da dona Karine.

– Posso entrar, mamãe?

– Entre, filhote! O que houve? Esqueceu-se que hoje é meu dia da preguiça!

– Não, só queria curtir a preguiça com a senhora.

– Venha abraçar sua mãe e deixe de mentiras, te conheço. Só estas roupas horrorosas é que são novidade. – referia-se às camisas largas que eu usava para disfarçar os volumes.

Entrei em baixo dos lençóis dela e busquei o abraço que me faltou na noite anterior. Queria tanto que não se fizesse um muro por ali! Não resisti e meus olhos se desmancharam novamente. Esperou pacientemente que eu me controlasse, manteve o abraço apertado e beijava meus cabelos. Quando meus soluços cessaram, ela disse calmamente.

– Seja o que for, é totalmente da minha responsabilidade. Vamos solucionar juntos.

– Não tem solução, mamãe!

– Você matou alguém?

– Que ideia, mãe!?

– Então vamos à solução. Começamos por onde? As notas no colégio? A mãe do Túlio está pegando no seu pé? Ou a sua mãe número um te ligou?

– Você é a número...

– Dois, meu filho, eu sou a número dois. Não se esqueça nunca disto, ela é a número um, e o dia que ela ligar será motivo de alegria e não de tristeza.

– Você gostava muito dela?

– Eu a amava, e ela me amava mais ainda, tanto é que confiou o maior tesouro da vida dela, a mim.

– Se ela voltar você vai me dar para ela?

– Esta não é a pergunta certa. Caso você se atreva a fazer a pergunta certa eu lhe responderia, sim, ela te ama tanto quanto eu o amo.

– E se acontecesse umas coisas graves, muito graves? A senhora ia deixar o vovô me mandar embora?

– Onde foi parar sua confiança em seu avô? Mesmo que você tivesse matado alguém ele não iria te abandonar. O dinheiro dele dá para contratar o melhor advogado deste país.

– Não é isso.

– Drogas? Você se envolveu com drogas?

– Não, mãe! Se liga! Eu nunca fumei e nem remédio para gripe eu tomo!

– E qual é o mistério?

– A senhora está ligada em que eu não fumo e não tomo remédio algum?

– Ligadíssima, conectada, plugada...

– O problema é um pouco de semântica, entre mutar e transformar. Eu e o Túlio tivemos uma divergência de entendimento. Eu posso dizer que mutar independe da ação e da vontade do ser mutante e que transformar está implícito a vontade de alguém?

– Exemplo?

– Uma lagarta se transforma em borboleta porque é da natureza dela. Todas as borboletas vêm de lagartas. Certo?

– Certo. Fez-se a vontade da natureza.

– Se algo ocorrer durante o processo e da lagarta nascer um beija-flor, isto seria uma mutação?

– Creio que sim. Fugiu da natureza da lagarta.

– Mas se fosse resultado da pesquisa de alguém?

– O domínio do processo representa um avanço tecnológico...

– O medo dos ecologistas, quanto aos transgênicos, não é oriundo do medo de que os cientistas acabem criando mutações?

– Você continua certo.

– Podemos dizer que clonar seria transformar uma célula de vaca, em vaca, mas que qualquer outro resultado diferente seria uma mutação?

– Dentro da sua ótica, vou concordar, porém, houve uma ação externa, mesmo que não intencional para se chegar à tal mutação. Mas creio que já te entendi, tem mudanças que fazem parte da natureza, umas são buscadas e outras que aparecem sem que ninguém as queira. É isto?

– É.

– Nós não jogamos uma pedra para cima, mas caiu um meteorito na nossa cabeça. Qual é o problema?

– Seu filho está mutando para filha, ou qualquer outra coisa.

– Verdade?

– Sim. E eu estou ficando maluco.

– E há motivos para isso? – perguntou tão naturalmente que parecia descaso.

– Claro que tem! Vou ter que usar...

– Qualquer coisa que você venha a usar, metade do mundo já usa.

– A senhora já pensou que vou ter que usar sutiã e cueca?

– Bem, as cuecas você já tem, a parte de cima eu posso te emprestar as minhas ou compramos novas...

– A senhora não está me levando a sério!

– Eu continuo ligada, plug...

– Mamãe!

– De sério mesmo, é só o fato de você estar ficando maluco, vamos descobrir a causa e ver se tem cura.

– A causa é estes seios, que estão nascendo em mim...

– Eu tenho dois e...

– Mas não tem saco...

– O que eu faria se me nascesse um saco? Vejamos. Ia me certificar de que realmente era um saco. Em seguida ia perguntar se minha cabeça aceita ou não um saco. Depois, e só depois que esta questão estivesse resolvida é que eu ia optar por continuar usando calcinha ou não.

– Você acha que é um rebate falso?

– Vamos examinar?

– A senhora!?

– Primeiro eu, depois um médico. Não faça esta cara e nem fique acanhado, vou ser sua mãe e seu médico.

Sentou-se na cama e ajudou-me a tirar a roupa. Deitei novamente e ela começou a correr as mãos pelo meu corpo. Cabeça, pescoço, ombros, braços e mãos. Recomeçou. Cabeça, pescoço, tronco, abdômen, pernas e pé. Depois voltou diretamente aos mamilos e os massageou de forma circular com os dedos, como se procurasse algo dentro da pele e não como fizera no resto do corpo, que mal tocara. Mandou que eu virasse e repetiu o processo de correr as mãos sem tocar em minhas costas. Voltei a ficar de frente. Juntou as mãos em concha, pôs sobre meus genitais, sem tocá-los e foi subindo até chegar aos mamilos novamente. Separou as mãos e as deixou uma sobre cada um deles, sem os tocar.

– Agora feche os olhos e viaje para qualquer lugar, não quero sentir você dentro deste quarto. Só volte quando eu te chamar e responda as minhas perguntas.

A Cris vinha fácil aos meus pensamentos. Fixei-me nela e me deixei levar para tudo de bom que havia em nossos encontros. Revivi os passeios, as carícias e os gozos. Quando a mãe dela interferiu na nossa vida, lembrei-me da minha e voltei ao quarto. Minha mãe mantinha as mãos em concha sobre meus mamilos. O que eu chamava de laranja, agora parecia mais um papaya, ambos se alongavam, sugados pela força das mãos em concha que guardavam uns cinco centímetros deles. O peso do meu corpo impedia o contato. O rosto dela era uma expressão de pura ausência, não havia nada ali, parecia morta.

– Mamãe? – arrisquei bem baixinho.

As mãos dela desabaram sobre meus mamilos, senti meu corpo afundar no colchão e o corpo dela cair sobre o meu. Reergueu-se.

– Você voltou antes da hora filhinha. Mamãe precisava de mais um minuto.

– Não pude controlar, fui jogado de volta. – respondi, sem deixar de registrar o “filhinha”.

– Eu sei, eu sei.

– A senhora não fez as perguntas...

– Fiz todas e você as respondeu.

– Todas?

– Sim, todas.

– E para que era o minuto que faltou?

– Para uma resposta que não era você quem tinha que dar.

– E quem era?

– Agora só o tempo dirá!

– E qual era a pergunta?

– Se você é homem, – passou a mão pelo meu púbis e a mostrou toda lambuzada, – e mulher, – passou a mão lambuzada no meu mamilo e eu senti as energias correndo por meu corpo todo, – como a vida entrará ou sairá de você?

– Você quer dizer que...

– Você ainda vai sofrer mudanças, mutações, como você prefere. No final seu corpo feminino estará quase completo, mas faltou uma resposta. Não é coisa para preocupações no momento.

– E com que temos que nos preocupar agora?

– Com sua cabeça. É preciso que ela aprenda a administrar a situação, reconhecer as necessidades dos dois gêneros. – voltou a mostrar os resíduos da ejaculação e atiçar as energias que pulavam dos meus mamilos.

– A senhora sabe o que sinto quando toca nos meus mamilos?

– Sei. É o que acontece com as mulheres. Não vá se “encucar” porque eu fiz isso, se você entendeu, eu não preciso mais demonstrar.

– Tudo bem. Não estou “bolado”.

– Agora pare de chamá-los de mamilos. É ofensivo. São seios. Entendeu?

– Seios? Eu sou homem, como a senhora quer...

– Acabei de te falar, dois gêneros, a sua cabeça precisa aprender. Vamos trabalhar isso. Se você quiser desfilar por aí vestido de homem e com os seios à mostra, tudo bem, é só suportar a gozação. Se você quiser escondê-los, vai ser um pouco difícil, mas damos um jeito. Se você se vestir de mulher, pode exibi-los com orgulho, mas temos que esconder esta beleza aqui.

– Por falar nesta beleza aí, como a senhora conseguiu fazê-lo...

– Eu não consegui nada e também não foi ele. Foi você quem ejaculou.

– Mas nunca tinha acontecido!

– Já era hora de começar. Reviver os momentos com a Cris, fez as coisas se completarem. Seu corpo está se preparando para a vida. Precisamos fazer sua cabeça acompanhar.

– Não vou empoleirar em um salto alto.

– Você não precisa seguir o padrão de ninguém, só não pode ficar rejeitando seu lado feminino. Está cheio de mulheres por aí que usam tênis e calça jeans.

– As meninas vão fugir de mim.

– Esta é a segunda parte do problema, as fugas, as rejeições... Como foi que o Túlio reagiu?

– Fez-me lembrar do muro de Berlim. Como a senhora descobriu sobre a Cris?

– Eu estava naquela viagem com você.

– Tudo que eu vi...?

– E tudo que você sentiu. É importante que você não exclua as pessoas do seu convívio, mesmo que lhe pareçam arredias.

– Mas ele...

– Você tem cabeça para entender a sua metamorfose, ele vai demorar um pouco mais, mas também vai entender. Cuide para que ele não se afaste.

– Vou cuidar, mas agora me explique como foi que a senhora fez aquilo, como é possível entrar nas minhas lembranças, viver minhas emoções...?

– Não sei como te explicar estas coisas, sei que já as fiz, antes de você nascer. A Número Um e eu, nos entendíamos assim. Depois acabou.

– Como acabou? A senhora nunca fala sobre ela. Porque acabou? Porque ela foi embora? Ela podia viver seus sonhos? Ela...

– Ei filhote, calma! Falarei sobre ela. Temos tempo para tudo. Eu não sei por que acabou, mas tanto eu quanto ela sentimos que havia acabado, mesmo antes de tentarmos nos ligar. Nós rodamos este mundo todo, à procura do nada, mas sempre tinha algo nos empurrando para um novo local, uma nova busca. Um dia nos cansamos e resolvemos nos dedicar tão somente a viver, curtir a vida, chegava de quimeras. Arrumamos uns namorados e caímos na vida, mas a gente amava mesmo era uma à outra, e assim a cada noite um namorado novo. Em uma noite turbulenta, as coisas tinham saído do nosso controle. Vi, apavorada, que alguém ia ser morto por causa dos nossos caprichos. Despejei todas as minhas energias em cima desta pessoa, que a fiz mover-se os centímetros necessários a salvar a vida. Eu sabia e sua mãe também, que eu o havia movido do lugar, ele creditou isso ao acaso e ao instinto de sobrevivência, e nós deixamos para lá. Fiquei ligada nele. Viajamos juntos, eu, sua mãe, ele e o amigo. Eram tão ligados um no outro como éramos nós duas, tinham até o mesmo nome. Na noite seguinte, eu estava com ele e acordei angustiada, como se alguém estivesse me pedindo socorro. Corri ao quarto da sua mãe, eu sabia que ela estava bem, mas fui conferir. Ela estava sozinha e dormia tranquilamente. Saí à procura do outro rapaz, que deveria estar dormindo com ela. Encontrei-o no saguão do hotel e o levei para meu quarto. Sua mãe levou meu amigo para o quarto dela. Assim, fui dormir com um e amanheci com o outro. Viajamos para outra cidade, outro hotel e de repente sua mãe me fez uma pergunta que me deixou arrepiada. “Eu estou incluída?”. Nós éramos “unas”, uma vivia o que a outra vivia. Rememorei o dia e percebi o que ela tinha percebido muito antes de mim. Nossas antenas estavam desconectadas. Abracei-me a ela, angustiada, e a beijei com todo o amor que havia em mim. Tudo o que consegui, foi a certeza de que não havia mais nada a fazer. As nossas energias estavam se modificando, já não vibravam no mesmo ritmo. Eu já não a sentia, como senti você aqui hoje. Fiquei com eles até ver que nada fazia sentido por ali, nosso fio de comunicação foi cortado, o amigo que eu salvara estava ligado a ela, o outro parecia viver uma angústia maior que a minha. Nossas noites juntos eram um pesadelo só. Ele sonambulava, a noite toda. Eu tinha que fazer com que voltasse à cama toda hora. Sonhava com sua mãe, mas se recusava a dormir com ela. Inventei que minha mãe, que já estava morta, tinha me chamado para cuidar do meu pai, e voltei para casa.

– Mas a minha outra mãe não sabia que você era órfã?

– Sabia. Foi minha deixa para que ela não discutisse minha decisão. Três dias depois ela estava de volta. Completamente transtornada. O tal amigo que sonhava com ela tinha sumido e o outro que eu amava tinha sido assassinado. Levou um tiro na coxa e um no coração, mal teve tempo de impedir que a corredeira, onde estavam nadando o levasse. Puxou-o até a areia enquanto o atirador a ameaçava. Juntou suas roupas e não olhou para trás até deixar de ouvir os berros do atirador que segurava a arma que ela tinha na bolsa. Ficou enclausurada aqui uns dias, com medo de tudo, medo de sair na rua, medo de ser assaltada, medo de ser assassinada e principalmente medo de perder você. Depois encontrou o amigo sumido e casou-se com ele. Como iam levar uma vida de nômade, pior que a que seu avô levara, ela preferiu deixar você comigo.

– E o meu pai, quem é?

– Este é o mistério. Eu suspeito que seja o sujeito que eu amava, ela acredita que não. Naqueles tempos a camisinha não era coisa da moda.

– Porque a senhora acha que é ele?

– Nós duas criamos muitas teorias para explicar o fim da nossa ligação, ela nunca aceitou uma que até hoje não sai da minha cabeça. Quando você se instalou no útero dela, ligou-se de forma tão poderosa que nos isolou uma da outra.

– E porque ela tinha que me abandonar?

– Não diga isso. Eu vi as lágrimas nos olhos dela e senti a dor que havia em sua alma quando teve que partir. Ela fez o que precisava ser feito, e foi tranquila, porque sabia que estava deixando você com uma pessoa que vai te amar para sempre.

– Mamãe, esta paixão da sua vida tinha nome?

– Goiano, foi o que ele me disse, o amigo era o Piauí. Era a cultura dos apelidos.

– Mas o Piauí não podia se casar só com o apelido, podia?

– Não, não podia. No cartório consta Carlos Alberto de Paiva. Agora venha, vamos tomar um banho antes que isto aí seque.

– Com a senhora!?

– E porque não? Mais cedo ou mais tarde você vai ter que encarar um banheiro feminino.

Estendeu os braços para que eu a ajudasse a levar-se e foi apoiada em mim até o chuveiro. Eu vivia embaixo dos lençóis da minha mãe, mas há muito tempo eu não tomava banho com ela. Ficamos na água por mais de meia hora. Todo o tempo ela se preocupava em pôr na minha cabeça as maravilhas que era ser mulher e também as dificuldades, os preconceitos e os entraves que pessoas menos esclarecidas iam me criar. Eu estava tão feliz vendo que não se erguia o muro entre nós que nem dava muita importância ao que os outros poderiam pensar ou dizer. Só que eu tive uma amostra deste tipo de reação, muito antes do que esperava. Demoramos tanto tempo naquele quarto que o meu amigo Túlio não resistiu e acabou contando ao meu avô, e ao modo dele, o que estava acontecendo comigo. Quando saí do quarto da minha mãe, ele já estava armado, esperando por nós. Esqueceu todos os anos de diplomacia que praticou a vida toda. Esqueceu o amor que eu sentia por ele. Esqueceu o amor que minha mãe tinha por ele. Esqueceu que era humano, e que nós também éramos humanos. Esqueceu até mesmo que a escada da dignidade dele tinha inúmeros degraus. Desceu todos de uma vez, porque achou que só assim poderia se fazer ouvir por alguém que ele julgava estar no fundo do poço das iniquidades. Minha mãe tapou meus ouvidos com as mãos e me levou para o carro. Antes que o Túlio fechasse a porta atrás de nós, ela conseguiu achar uma brecha entre os berros dele, para dizer.

– Papai, nós te amamos, quando houver vaga no seu coração, avise-nos.

O Túlio fechou a porta e entrou no carro tão constrangido que não olhava nem para mim e nem para minha mãe. Ela rodou duas quadras e parou o carro. Mudou-se para o banco de trás, nos abraçou e pediu para que esquecêssemos aquele dia. Sentiu os conflitos que rolavam na cabeça do meu amigo e fez tudo que podia para deixá-lo à vontade. Explicou a ele o que estava acontecendo comigo e com meu avô. E que ele, Túlio, só antecipou a reação do velho em alguns minutos, não havia, portanto, motivos para que ele se sentisse constrangido, o errado era o pai dela e que nossa amizade deveria ser colocada acima de tudo. Perdi o pai-avô e o amigo, mas ganhei a noção exata da grandiosidade da mãe que Deus pôs no mundo para orientar meus passos.

Notas finais
No próximo capítulo a Carmem se apropria da vida do Carlos.