Um Toque Feminino

6 Capítulo 6 As Duas.


Notas iniciais
Lendas, mitos e magias. A busca de duas meninas.

Capítulo Seis

As Duas

Existe uma lenda, entre os povos das montanhas tropicais da América do Sul, contando que um dia os deuses da evolução mandariam para a terra seus representantes para conduzir o homem ao terceiro degrau. Só que o tal terceiro degrau não ficou bem definido e é motivo de muita controvérsia, assim como é controversa a origem do homem. Alguns acreditam que o terceiro degrau é simplesmente o terceiro milênio. Outros dizem que é, por se tratar dos deuses da evolução, a etapa de “sensitivação” do ser humano. Consideram que o salto que o homem deu ao sair de entre os irracionais foi seu primeiro degrau, o segundo teria sido a espiritualização alcançada com a conscientização de que o homem não era um animal qualquer e que, portanto a sua ligação com os deuses não era um vínculo de escravatura e subserviência, pois era ele, o humano, um ser dotado de partícula divina, o chamado espírito. E que, portanto, o terceiro degrau seria a junção do corpo e do espírito sob o domínio da mente, o que daria ao humano, dimensões de ilimitadas possibilidades, tais como viagens ao macrocosmo, ao microcosmo, no tempo e em qualquer dimensão. Teria o poder de se mover entre a mais densa matéria e na mais sublime vibração dimensional. Transitaria entre o tudo e o nada. Enfim, um deus.

Os que não acreditam na simples passagem do tempo e nem na “deusificação” do homem, pois os deuses não admitiriam tal concorrência, olham para trás em busca do padrão a ser esperado, o sobrevivente hominídeo, o predador sapiens e o destrutivo sapiens espiritualizado.

Outros, preguiçosos de voltar ao tempo, olham em volta e vêem o poder de destruição implantado no planeta, bomba H, bomba A, bomba C, bomba política, chuva ácida, falhas na camada de ozônio e todo o lixo fossilizado nas entranhas da terra e que o homem está trazendo à superfície, reduzindo, a cada dia, a área destinada à produção de alimentos e poluindo os mananciais de água. Mas as bocas a serem alimentadas crescem à proporção que se reduz a área de produção e à medida que evoluem os conhecimentos sobre o DNA, alongando o tempo do semideus por aqui. Homem de laboratório, comida de laboratório, genética de laboratório. Transgênicos e transgêneros.

Mas o que anda fazendo o homem que não tem acesso aos laboratórios? Aqueles que simplesmente são agentes passivos de tal mundo? Está construindo algo bom? O que se vê além da fome? As flores que foram feitas para alimentar o espírito, cada vez mais são consumidas para alimentar o corpo. O amor, o carinho e o companheirismo, vêm sendo substituídos pelo padrão laboratorial, a supremacia, a violência e o individualismo. A simples união de duas pessoas reproduz o padrão. O calor que cresce no planeta, torrando o verde dos trópicos e derretendo o gelo dos pólos, é o mesmo que diminui nos lares. Não vale mais o “nós”, mas sim o “eu”. Mesmo quem conseguiu por a sala e a cozinha no mesmo patamar, não consegue a paz esperada, pois ainda falta a paz no quarto, a unidade do duo. Desvencilham-se das pernas do parceiro e imediatamente mergulham no estado do “eu”, estando satisfeitos ou não. Buscam apenas a si mesmos, o “eu” é o centro de tudo, o parceiro é algo periférico e secundário. A camisinha passou a ser o símbolo maior. Preserva-nos das doenças e de nos misturarmos com o parceiro. Para que trocar enzimas, se sou auto-suficiente? Eu me basto. Eu me amo. Eu...

Estes que veem no hoje o retrato do amanhã, advogam a tese de que não é preciso voltar tanto no tempo. Não é preciso recorrer aos argumentos de um navio na linha do horizonte para provar que a terra é redonda. Basta olhar as fotos da terra, tiradas a partir dos satélites. E que a destruição prenunciada da nossa civilização, nos transformará novamente em sobreviventes, não necessariamente em hominídeos. Mas num novo ser, mutatis mutandis, mas ainda assim, sapiens.

Quando se aproximava o fim do segundo milênio e o cotidiano nunca se esquecia do limiar do terceiro, duas crianças, recém-saídas da impuberdade, por traquinagens próprias da idade, acabaram por desviar um grupo de pessoas de um encontro sinistro com uma montanha que chorava as suas dores. Baixada a poeira e estando todos a salvo, as duas imprudentes e impulsivas jovens retornaram ao local da contratura que causara o desabar das entranhas do monte. Saltavam de escombro em escombro até que tropeçaram em uma placa de pedra que, certamente não fora arrancada ou expelida pela dor da montanha. Havia nela o labor da arte, da paciência e do conhecimento místico, que aludiam claramente aos fatos relatados na lenda. Dois seres paramentados de deuses, saiam das luzes, contidas nas extremidades da placa e chafurdavam na escuridão, ao centro, em um segundo degrau, onde deveriam se fundir e dar forma a uma massa que ocupava um terceiro degrau. Esta massa não tinha formas definidas, era como se estivesse ainda sendo elaborada, ou em mutação. Estes deuses não estavam sozinhos. Cada qual tinha seu pajem, que os seguiam das luzes até às sombras. E estes pajens por sua vez tinham também seus assistentes, os quais procuravam influenciar suas condutas, para que, por sua vez os pajens influenciassem a conduta dos deuses para que o resultado final, o espectro do terceiro degrau, fosse o melhor possível, de conformidade com o juízo de cada influenciador.

Quanto mais se aproximam das brumas do centro da pedra, menor fica a diferença entre os dois semideuses e os dois pajens. Observa-se uma igualdade progressiva entre os pares. Quando os quatro se põem sobre o segundo degrau, já não se distingue as castas, são quatro seres quase humanos, e os que foram pajens, misturam-se aos outros e erguem as mãos para o terceiro degrau, buscando colaborar de forma igualitária com os que foram semideuses, no manuseio da massa disforme.

As meninas admiravam seu tesouro, não só porque era belo, mas também porque aquela massa não acabada exercia sobre elas um fascínio enorme. As possibilidades do indefinido as atraiam. Os mistérios do destino, o desconhecido do futuro, aguçavam a curiosidade das duas e as impulsionavam a buscar o conhecimento que pudesse trazer a elas uma imagem possível do que se tornaria aquela massa.

Buscaram os museus, os doutos e os místicos que conheciam a lenda dos três degraus. Aprenderam tudo que tinha para ser aprendido. Porém, sob o argumento de que um tesouro da humanidade não poderia ficar sob a guarda de duas meninas, viram-se separadas do objeto de sua paixão.

Apartadas da matéria, voltaram-se para o imaterial que era o que lhes sobrava. Lendas, teorias e o invisível das energias oriundas da natureza e que nenhum homem ou museu pode dizer que lhes pertence.

Voltaram ao ponto de partida, mas os olhos de procurar pedras estavam em segundo plano, agora elas queriam ver o que não viram da outra vez, o invisível. Ouvir, o que não ouviram, o sussurro da montanha, e não seu grito de dor. E sentir, as energias, resultante de tudo isso. Pois todos os conhecimentos adquiridos até então, indicavam que o alfa não vivia sem o ômega, a mensagem da sua pedra expropriada era clara, o ômega do segundo degrau modelaria o alfa do terceiro. Mas onde e como? Onde estaria o cadinho daquela fusão? Onde estaria o templo onde o ômega poderia induzir o alfa a se modelar? Os homens só conseguiam ver o elo quando ele já havia virado história. Mas, e se elas conseguissem descobrir o elo anunciado naquela pedra? Teria o homem a capacidade de aceitar a transformação, como acesso a um estágio evolutivo? Ou lutaria para manter o status quo, de sapiens destrutivo? Mas até quando o mundo o suportará?

E do ponto de partida, elaboraram seu projeto e traçaram seu roteiro. Veio do pó e ao pó voltará. Mas para elas as pedras guardam a mesma essência do pó, então as pedras eram seu rumo, seu azimute. Se o pó era o alfa e o ômega, a pedra também poderia ser. Partiram das pedras dos Incas e buscaram as energias dos Maias, dos Astecas, das Rochosas Americanas, dos montes gelados da Europa, dos Urais e do Tibet, da China, do Monte Ararat, do Kilimanjaro e do Aconcágua. Visitaram o Titicaca, o Mar Morto, as pirâmides do Egito, as muralhas da China, os muros de Berlim e das Lamentações. Consultaram hariolomantes do mundo todo. E voltaram para casa, certas de que em cada ponto havia um altar com seu cadinho em ebulição, mas que nenhum deles tinha respostas para elas. Concluíram que o ômega que projetaria seus olhos ao futuro, não estava escondido em grandes obras.

Revisaram anotações, fotos, desenhos e proposituras dos hariolomantes. Propostas desconexas, esdrúxulas tipo: “Circule o mundo, mas olhe no seu interior. Olhe para o céu, mas não se esqueça do solo onde pisas. Na terra dos santos e dos corações. Um altar é um monumento que pode ser feito pelas mãos do homem ou pela dos deuses. Cuidado para não tropeçar no que você procura, você ou ele pode cair no abismo. O longe não se mede só pela distancia física. O futuro é apenas o reflexo do passado. Quem viverá na terra dos santos?”

Cansei. Cansamos. Quero férias. Vou ver meu pai.

– Onde ele se meteu desta vez?

– Voltou para casa. Está em Brasília.

– Ah, legal! Vou com você. Quero conhecer a Cidade Eclética, a Cidade da Paz e o Vale...

– Ah, não! Quero ficar longe de tudo que é pedra e místico por uns tempos.

– Beleza! Mas, de qualquer forma vou com você.

Depois de alguns dias de Eixos, Asas, Monumentos, Embaixadas, Esplanadas, espelhos dágua, clubes, lagos, barragem, Ermida Dom Bosco...

– Vamos subir na Torre de tv?

– Vamos.

Vista do Lago, da Esplanada, da Catedral, do Congresso, Asa Sul, Asa Norte, Palácio do Buriti, monumento ao JK...

– Ei, Karine! Este seu herói não vem de uma cidade de pedras?

– Vem. A cidade dele é famosa por produzir pedras indomáveis de qualidade sem igual. As indomáveis de Diamantina têm fama mundial.

– Diamantes, Karine?

– É sim, Maria!

– O quê ele faz dentro de um ômega?

– Ômega!? Línguas críticas dizem que aquilo é a foice do comunismo, mas ele nunca foi comunista. E para ômega, falta alguma coisa.

– Obras humanas, querida! Não é de se estranhar se faltar um detalhe ou outro. Detalhes. Venha.

– Você vai voltar lá, Maria?

– Não! Não tem nada lá que nos interesse. Somos nós, Karine! Eu e você! Ou melhor, meu país e o seu, sinto que nossa jornada começou lá, mas vai terminar aqui. Olha para lá, um homem projetado de um ômega, imagina aquele monumento na horizontal, e o homem de pé ao centro, o que lhe pareceria?

– Um homem fazendo um discurso em um palanque em forma de...

– Um altar representando o fim e projetando um homem...

– Vamos começar por onde, Maria?

– Você começa juntando os mapas que possam indicar todas as localidades que sobrevivam da pedra...

– Ih, Maria! Conheço uma centena.

– Ótimo! Deve estar dentre as que você conhece. Eu vou retornar à Universidade e renovar nossa licença.

– Antes disso eu gostaria de voltar à Ermida Dom Bosco.

– Estou mais propensa a acreditar na cidade do Homem da Foice que no Santo da Ermida.

– E qual é a razão, Maria? É melhor um político que um profeta?

– Estamos em busca de um ômega para encontrar um novo alfa. Não acredito que um recomeço passe pela oração ou contemplação, isto pertence ao passado. O político, no caso, representa melhor o que buscamos...

– Santo Deus, Maria! Você acredita que o futuro vai nos brindar com...

– Não pense bobagens! A política em si é uma grande arte. Mas eu quero crer que o próximo alfa nos trará um homem mais executivo e menos belicoso, mais ação e menos enganação. Mais amor e menos truculência. Este seu homem da foice era assim não era?

– Com certeza! Criticado ou elogiado, ele fez uma cidade em um mandato, e depois dele o país viveu o chamado “milagre brasileiro”, mas está aí, cheio de obras inconclusas e a economia continua claudicando até hoje. O progresso e a cidadania vivem à sombra da baioneta. Não era o que ele queria.

– Talvez ele tenha sido um dos sinais...

– Vamos excluir o profeta, Maria?

– Claro que não, Karine! Podemos limitar nossa busca aos paralelos citados. Isto exclui a cidade natal do homem do ômega?

– Não, mas não quer dizer nada. Achamos o marco inicial bem ao norte do paralelo quinze.

– Você tem razão, Karine. Podemos dar preferência aos pontos limitados pelos paralelos 15 e 20, depois vamos expandindo nossas ações.

– Ok, Maria! Mas tem dois pontos onde eu gostaria e retornar em horas mais tranquilas. A Ermida e o Templo da Boa Vontade.

– Esta Cidade exala misticismo, por que o Templo da LBV, Karine?

– É mais eclético, mais universal e foi um dos últimos a ser construído.

– Entendo. Algo que precisava de segurança para se instalar. Vamos fazer minha reserva em um voo qualquer e ver se dá tempo de visitar o mais antigo e o mais recente templo desta cidade, seu Alfa e seu Ômega, antes que eu me vá.

– Porque tanta pressa de voltar, Maria? Ainda temos uns dias de folga.

– Alguma coisa me diz que é chegada a hora. De repente parece que o tempo à minha volta ficou mais acelerado. Tenho que ir e voltar o mais rápido que puder.

– Adeus folga.

– Tem coisa pior que o fim da folga.

– Tem mesmo?!

– Tem, Karine. Três anos de colégio, quatro de faculdade, milhares de quilômetros rodados, muito frio, muito calor, muitos tênis gastos, mas a nossa simbiose nunca foi interrompida.

– Vou com você.

– Eu adoraria, porém, as energias que me mostraram aquilo – apontou o monumento do JK– como sendo um ômega, é a mesma que me diz que devo ir sozinha.

– Vou encher-me de saudades.

– Em cinco dias estarei de volta.

Passaram-se os cinco dias e nada da amiga retornar. Pior, nem notícias. Mais cinco dias de pura agonia e a Karine, já havia convencido o pai a ir ao Peru, quando uns dos milhares de recados que deixaram na Universidade e na Embaixada foi respondido com um telefonema.

– Saia deste quarto, menina! Está pior que eu? Agora tem dois entrevados na casa?

– Deixe-me em paz, pai.

– Em paz? Que coisa é esta, minha filha? Uma menina de vinte anos enfurnada dentro de casa o dia todo? A minha cadeira de rodas tem passeado por aí mais que você. Vamos sair desta cama, vamos?

– Ah, pai!

– Vê se pelo menos atende ao telefone, pode ser ela.

– Alô.

– Oi, lindinha! Voltei.

– Maria!? Ah, Maria! Ah, Maria! O que..., onde..., ah Ma...

– Vamos lá! Anime-se, não precisa chorar, estou de volta.

– Onde você está? Por que...?

– Calma! Estou na fila da alfândega, te conto tudo...

– Estou indo...

Desligou o telefone, pegou a chave do carro e nem disse tchau ao pai. Voou para o aeroporto e atirou-se nos braços da amiga assim que a viu.

– Ah, Maria! Nunca mais faça isso comigo, nunca mais me abandone, nunca...

– Calma. Voltei, não precisa chorar mais. Vamos andando. Conto tudo no caminho. Lembra-se do Munhoz? – disse, enquanto desfazia o abraço e apontava um rapaz moreno, alto e forte que admirava o abraço das duas.

– Claro! Oi Munhoz. Como foi a festa de encerramento do...

– Não foi, Karine. Tive problemas. Posso ganhar um abraço deste?

– Claro! Você também é meu amigo. Quer ir lá para casa? Meu pai vai ficar feliz em revê-lo.

– Agradeço o convite, mas já fiz uma reserva no St. Paul e vocês duas têm muito que conversar.

– Temos mesmo. Venha. Te deixo no seu hotel.

– É a caminho do ômega?

Olhou para a amiga, surpresa.

– Faz parte da nossa conversa. – respondeu a Maria.

Apressou-se em levá-los pro carro e se livrar do acompanhante, mas antes teve que dar uma volta pelo monumento, mesmo sem parar o carro, achava que tinha perdido muito tempo.

– Viu? Não disse que parecia mais uma foice que qualquer outra coisa?

– É. Você tem razão, mas eu preciso que esta foice seja mesmo um ômega, se não estou “ferrado”. Vejo vocês duas à noite?

– Amanhã cedo eu te ligo – respondeu a Maria.

– Ok. Até lá.

– Tchau.

– Agora me conta, tenho tantas perguntas na cabeça que nem sei por onde começar. Porque você quis me matar?

– Prefiro morrer! Vou te contar do início, tenha calma.

– Ok. – disse, respirando fundo.

– Cheguei lá tão empolgada que fui direto do aeroporto para a Universidade. Nosso coordenador, o Vasquez, encampou nossos planos e me levou ao Reitor. Fui ouvida na maior atenção. No final ele disse para que eu retornasse dois dias depois. Precisava falar com o conselho, por causa das verbas que estavam sendo limitadas. Fiquei surpresa, pois desde que ele confiscou nosso achado, nunca nos negou nada, nunca mandou que voltássemos amanhã. Achei que tinha sido enfraquecida com a sua ausência. Fui para casa e encontrei meu pai dentro de uma urna.

– Ô Maria! Lamento muito, ele era uma gracinha de pessoa, meu pai vai ficar muito triste.

– Eu sei. Fiquei muito deprimida, mas não foi só por isso que não liguei. Queria ligar só quando tivesse uma notícia boa para lhe dar. Voltei ao Reitor e ouvi um monte de “mas, poréns e no entantos”. Fiquei alucinada. Ele me pôs para fora da sala e disse para eu voltar quando estivesse calma. Fiquei mais “puta” ainda, quando ele começou a traçar um paralelo entre o perfil de uma pesquisadora e o meu destempero. Saí batendo a porta e trombei com o Munhoz que caminhava na ante-sala, aguardando para ser recebido. Tinha ouvido meus berros e quando viu meu estado, achou melhor me consolar que enfrentar a fúria que provoquei no Reitor. Pediu à secretária para remarcar e saiu comigo. Foi um amigão. Entre uma cerveja e outra, me dei conta que destilava tanta mágoa, que nem tinha perguntado o que ele fazia lá.

– Estou em uma situação semelhante à sua. – disse-me ele.

Fiquei aguardando que ele se explicasse.

– Eu também estou sem tese. Estão te cortando para você não terminar a sua, é melhor que o meu caso, jogaram a minha no lixo.

– Como assim, melhor?

– Você só depende de dinheiro eu dependo de ideias.

– Qual era sua teoria? Deve ter algo que se aproveite nela!

– Eu achei que era boa. Meu pai também achou, mas o resultado final... lixo! “Plagio inconsistente de antigas teses sem qualquer parâmetro de avaliação ou indícios de ocorrências que corroborem as afirmativas”, eis o veredicto.

– E qual era a tese?

– Partindo das correntes energéticas que ligam as pirâmides mexicanas às egípcias, levantei a tese de que a corrente de turistas que circulam entre as duas pode ser reproduzida em outras partes do mundo. Se quem visita as do Egito visita as do México, acredito que do ponto de vista turístico é perfeitamente viável estabelecermos um vínculo entre Cuzco e Matchu Pitchu com outros sítios históricos da América Portuguesa, e reproduzir o fluxo de turistas.

– Bem, mas você está vendo as coisas só do ponto de vista comercial.

– Turismo é cultura, mas é negócio também. Meu pai vive disso, se eu tivesse conseguido aprovar minha tese...

– Mostre a eles os fundamentos.

– Não tenho a capacidade de fazer as coisas acontecerem como você e sua amiga Karine, vocês provocam desmoronamento, tempestade de areia...

– Calma aí! Nós não provocamos fenômenos da natureza. Nossas antenas é que nos alertam. Estivemos em muitos lugares que não aconteceu nada!

– Que seja, mas eu não tenho antenas, tenho olhos para ver as possibilidades comerciais, a integração dos povos, o instinto de fazer acontecer, não o de adivinhar.

– Nós também não! Ou você acha que corremos o mundo todo procurando uma coisa que podemos adivinhar onde esteja. Nós olhamos o mundo em busca de indícios visíveis ou invisíveis que nos levem ao nosso destino. Os indícios que vimos agora são mais forte que quaisquer outros que encontramos desde a pedra do desmoronamento. E justo agora me podam!

– Ah, pare de chorar! Eles não invalidaram sua tese, é só você arranjar um patrocínio.

– Fácil, não é? Pois eu já tinha um e quem o conseguiu não está em condições de fazê-lo novamente!

– Não sei o que sua premonição lhe diz, os meus olhos vêem que você tem que respirar fundo e voltar a encarar o Reitor com calma ou ir à luta.

Amanheci na porta do Reitor. Pouco depois chegou o Munhoz. Desta vez ele ia entrar, tinha agendado, eu ia ficar aguardando uma brecha na agenda. Quando a secretária autorizou a entrada, ele me puxou para dentro da sala.

– Bom dia, senhor Munhoz! Para quem queria uma audiência, para demonstrar sua total civilidade, o senhor se fez acompanhar de forma esplêndida!

– Bom dia, senhor Reitor. Eu e a senhorita Benitez, temos a consciência de que nossas cordas vocais soaram de forma inapropriada, e como não é de nosso costume usá-las em tal nível, reconhecemos que até mesmo nossos ouvidos ficaram irritados. Por favor, aceite nossas desculpas.

– Estou sentindo um cheiro de nova parceria?

– Não senhor. Estamos apenas a nos escorar, porém nossos pedidos continuam sendo individuais.

– Ou seja, tenho que dizer um não de cada vez.

– Esperamos por duas respostas positivas.

– Pois sentem-se e escutem as razões que fundamentam as negativas. A meu ver, e do conselho também, o senhor quer criar um fato histórico, que venha a provocar um fluxo de pessoas entre nosso País e ao que o senhor chama de América Portuguesa, no entanto, o Brasil é carente de pontos históricos relevantes, ou nunca os teve ou os portugueses eram mais destrutivos que os espanhóis. Os pontos elencados pelo senhor, Salvador, Recife, Rio de Janeiro e Aparecida, representam a cultura afro-européia sintetizada e influenciada pelos povos nativos, que por sua vez também foi absorvida passando a fazer parte da mesma panaceia cultural, cujas energias se espalham em todas as direções. O que Cuzco ou Matchu Pitchu recebem de lá, não tem maior intensidade que o recebido pelo resto do mundo. Não faria a menor diferença se acaso se o senhor as vinculasse com Lima, Santiago, Quito ou Buenos-Aires. Quanto a Brasília, que o senhor aponta como sendo um marco especial, nada nos faz crer, e o senhor não mudou nossa opinião, que não passa de um cadinho, novo e reluzente, que junta amostras da cultura interna do país, processa-as e as devolve às origens. Estou propenso a crer que se adequa melhor aos propósitos da senhorita Benítez que aos seus.

– E quanto a São Tomé das Letras e às grutas de ...

– São Tomé anuncia um mistério que merece ser investigado, mas o senhor não se deu ao trabalho de ir até lá. Quanto às inúmeras grutas brasileiras, são grutas como quaisquer outras do mundo, pelo menos ao que se sabe. Lindas, cheias de atrativos e curiosidades, mas vazias de conteúdo histórico.

– E os sítios arqueológicos do sertão...

– Promissores, mas ao que parece, existem poucos sinais de passagem humana por lá. Sinal invisível, é mais a área da senhorita Benitez, por isto me animei um pouco com a hipótese de uma associação entre vocês dois. Quanto à senhorita, os nossos cofres estão mais vazios hoje do que estavam ontem. Cada dólar a mais no barril de petróleo, é um abalo na economia Americana, um chute para o alto na inflação brasileira e um aspirador em todos os cofres do Peru. Isto significa verbas mínimas e patrocinadores invisíveis. O seu trabalho tem ocorrências, que se repetidas no Brasil, pode sustentar a tese do senhor Munhoz, mas no estágio em que se encontra não atinge seus objetivos. Lamento não dispor de recursos para que a senhorita possa terminá-lo.

Deu a entrevista por encerrada e eu fui à luta. Bati em centenas de portas, todos muito simpáticos, muitas cantadas, mas nada de prático. Tornei a encontrar-me com o Munhoz. Reclamei das cantadas e ele passou a me acompanhar. Batemos perna juntos dois dias, levou-me às empresas de amigos do pai dele e nada. Eu já tinha passado do ponto de desânimo quando perguntei se o pai dele não poderia ser a solução. Ele riu e disse que o velho estava tão simpático com ele que não se viam desde o dia que gritou com o Reitor. Propus-me a falar com ele assim mesmo. Foi a sala que mais nos fez esperar. Foi triste. Não me importo de ficar em fila e esperar, mas esperar sem ter fila é cruel. Autorizou a minha entrada e o Munhoz ficou de fora. Nem deixou que eu sentasse e disparou.

– Não estou interessado em caçar fantasmas, só me interessa o aspecto prático das coisas, portanto se a senhorita tiver uma proposta que viabilize o diploma do meu filho, é só falar quanto vai me custar.

– A bolsa que eu recebia era de cem dólares mais custos de viagens...

– De acordo. Agora me traga uma declaração do seu Reitor de que meu filho está incluído no seu projeto, um diploma sem defesa de tese ele já tem.

– Eu agradeço sua bondade, mas não sei se o Reitor...

– Então não agradeça, ou a declaração ou nada, pode ir.

Olha, minha amiga, quem pede tem que engolir o que recebe, mas aquele caroço foi espinhento. Fiquei azul, mas consegui sair de lá sem explodir. Mas o pior estava por vir. Amanhecemos na sala do Reitor.

– Eu jamais aprovaria uma tese coletiva, cada aluno tem que defender a sua. A exceção aberta à senhorita e à sua amiga brasileira foi feita após inúmeras reuniões do conselho e só foi aprovada porque alguns conselheiros acharam que viam em vocês duas, uma polaridade de energias complementares necessárias à pesquisa. Mas para que a senhorita não diga que estou obstruindo seu futuro, vou lhe fazer mais uma concessão. Escolha ele ou ela.

Engoli mais um ouriço. Juntei meus trocos e vim matar a saudade.

– Você fez bem em escolher ele, só acho que não precisava...

– Não fiz escolha alguma, Karine. Não tem o que escolher. Somos nós duas ou não se chega a lugar algum. Só não mandei o Reitor para a “casa do cacete”, porque não posso me desligar da universidade. Meu visto estudantil é importante.

– Mas e o Munhoz?

– Veio na esperança de que eu resolva o conflito entre ele e o pai, e porque gosta de me ver na cama dele.

– Ah! Então por isso que você me esqueceu!

– Nada de ciúmes, você sabe quem é minha alma gêmea.

– Estou brincando, Maria. Mas foi terrível ficar sem você e sem notícias.

– Desculpe-me por isso, mas só tinha coisas ruins para te dizer, e precisava economizar cada centavo.

– Meu pai não ia se importar com um telefonema a cobrar e também não acho que vá se importar em nos ajudar em nossa busca.

– Ele tem sido meu anjo da guarda, não posso abusar.

– Tem tantos anos que ele te abraça. Só não te chama de filha porque conhece seu pai.

– Conhecia.

– Desculpe. A ideia de não vê-lo mais é tão triste que vai levar um tempo para se fixar na minha cabeça.

Mal abriram a porta de casa e o pai da Karine exclamou.

– Ora, Ora! Então é assim! Os velhos podem morrer de angustia, ficar de cabelos brancos ou calvos, que ninguém se importa!

– Desculpe, papai, mas acabamos esticando a conversa lá na garagem. Dê um abraço bem carinhoso na Maria que ela está precisando.

– Eu também estou. Desde que ela se foi que eu não ganho nem bom dia.

– É sério, pai.

– Venha cá menina, dê-me um abraço e conte o que houve.

– Umas bobagens aí, só que agora só tenho o senhor como pai.

– O velho Benitez criou juízo e mandou você definitivamente para mim?

– Foi. Mas tive que enterrá-lo antes.

– Ah, minha filha! Não faça isso comigo! Ando tão carente de amigos.

– Eu também, eu também.

– Papai, ela vai morar aqui conosco até vencer o visto dela. Depois se o senhor puder fazer alguma coisa.

– Posso adotá-la.

– Ela não é mais criança, precisa de uma solução adulta.

– Ah, fácil! Você aceita casar com um viúvo? A metade de baixo não vale nada, mas a de cima ainda dá para aproveitar alguma coisa. E como aqui é tudo na base da meia, igual a estudante, acho que posso te dizer que tenho um pouco menos que trinta anos...

– Pai! É sério!

– Sério? Sério foram estes dez dias, que minha filha quase morreu de tristeza! A senhorita dona Maria, está proibida de sair desta casa outra vez!

– Assim está melhor. Precisamos sentar e conversar sobre nossos planos para o futuro.

– Eu me recuso, definitivamente, a ficar sentado!

– Pai!

– Leve a Maria para o chuveiro e providencie um lanche, ela está cansada da viagem, depois nós conversaremos e não deixe seu sorriso sumir novamente.

Debruçaram sobre os mapas e envolveram o pai da Karine no planejamento, abriram espaço para que o Munhoz acompanhasse as pesquisas e incluíram sítios a serem visitados, a pedido dele, mesmo estando fora dos paralelos selecionados. Usou o argumento do Reitor de que fenômenos que não cumpriam os propósitos delas, poderiam tirar do lixo, a tese dele. Aplacou a ira do pai e custeava as viagens dos três. Passou a ser o escriba da expedição. Tudo era descrito de acordo com o que elas relatavam e de acordo com o que ele testemunhava. A riqueza de detalhes que era acrescido ao trabalho devido ao testemunho do escriba, passou a valorizar a obra a tal ponto que o Reitor resolveu acompanhá-los a uma visita planejada, a pedido do Munhoz, ao Parque Nacional da Chapada Diamantina no interior da Bahia, fora dos paralelos que interessavam às duas. Rodaram pela região visitando pedreiras, minas e cachoeiras. Ao entardecer do segundo dia estavam ao pé da Cachoeira da Fumaça. As duas caminhavam nas proximidades da queda d´agua, enquanto os dois observavam. A Karine postou-se de costas para a água e elevou os braços ao céu, como se fossem duas antenas verticais e paralelas, depois a Maria postou-se às suas costas, de frente para a cachoeira e repetiu o gesto. Lentamente foram abaixando os braços até formarem uma cruz, que só não era perfeita porque a Karine era uns dez centímetros mais baixa que a Maria. No entanto, os dois observadores puderam notar que os braços se nivelavam, a energia que as duas sintetizavam era forte o suficiente para produzir a levitação da Karine. Enquanto erguiam os braços novamente, a Karine, lenta e suavemente voltava ao solo. Depois ficaram de frente e de suas mãos ainda erguidas, saltavam fagulhas de uma para a outra. Só quando o fenômeno se extinguiu é que voltaram a abaixar os braços.

– Jesus Cristo, Munhoz! O que é que estas meninas fazem?

– Não sei, entende agora o que eu quero dizer quando descrevo o campo magnético que elas criam? Já vi isso muitas vezes. Não é em todo lugar que vamos que isso se reproduz. Mas elas sabem onde fazer.

– Mas nos trabalhos delas nunca houve qualquer menção a levitação ou fagulhas!

– Eu gostaria de ter presenciado o que elas fizeram no Monte Ararat.

– Pelo que consta nos relatórios eu elegeria as Rochas Silúricas do País de Gales, como ápice da minha curiosidade. Você tem fotografado estas cerimônias?

– A única vez que fotografei, elas não gostaram, e o senhor disse que era montagem. Não sei se o senhor percebeu, mas não há qualquer contração dos tendões e dos músculos, e teve gente dizendo que era o ângulo da foto, montagem, pontas de pé e outras bobagens.

– Mas você está maluco?! Como pode deixar de registrar?

– Está tudo registrado aqui na minha cabeça. Tem outras coisas que só quem convive com elas pode perceber.

– Por exemplo?

– Os cabelos. Cada dia, mais curtos e mais claros em uma e mais longos e negros na outra. Na semana que passamos na região de Diamantina, elas faziam seções todos os dias, os cabelos da Ka encurtaram a olhos vistos. Quando elas passam uma semana sem fazer, eles se recuperam.

– É provável que as fagulhas que ocorrem entre as mãos delas, seja a transmissão de energia de uma para a outra.

– Pode ser que sim, mas eu não acredito nisto.

– E porque não?

– Transmissão seria tirar de uma para a outra, alguém teria que esvaziar. Parece mais uma troca, mas de quê e como eu não sei. Observou que elas não se tocaram?

– Incrível! Tem coisas que não dá para descrever.

– Como o senhor pode ver, o que ocorre com estas meninas é maior que qualquer tese. E tem coisas que eu não posso falar.

– Se seu pai presenciar isso...

– Nem me fale!

Caminharam na direção da água onde elas tinham entrado.

– Senhorita Benitez, pode me explicar o que aconteceu?

– Muita energia, mas nada que sirva aos nossos propósitos.

– Você é da mesma opinião, senhorita Gonçalves.

– Sim. Energias acumuladas a milhares de anos, mas que não apontam o rumo do futuro.

– E o que foi que vocês fizeram ali?

– Só deixamos que nossos corpos as sentissem. É só ficar imóvel e deixar que ela passe.

– Alguma vertigem, ou qualquer mal-estar?

– De forma alguma! A paz é infinita.

– Sente a mesma coisa, senhorita Benitez?

– Sempre sentimos o mesmo.

– Eu gostaria de repetir este fenômeno em condições de laboratório.

– Lamento, mas não vamos fazer isto. Esta foi nossa última viagem, a busca está encerrada.

– Mas como? Vocês estão na reta final! Vocês devem estar cansadas, não é, senhorita Gonçalves?

– Não há cansaço, apenas a certeza de que nos falta um elo essencial entre o ômega de Brasília e nosso destino. Vamos reorganizar nossas vidas e quando nos ocorrer qual é o elo, nós voltamos a campo.

– Estarei errado se afirmar que estas energias que vocês manipularam hoje, não apontam o futuro, mas redirecionou o pensamento de vocês?

– Não. O senhor não estará errado. Elas dizem que precisamos viver a vida.

– Senhorita Gonçalves?

– Elas nos fizeram ver que nossa vida é estéril, a nossa busca é estéril o nosso futuro é estéril. Só vamos atingir nosso objetivo quando encontrarmos o elo que liga nossas vidas àquele bloco de pedra.

– Muito bem! Vocês ainda têm um mês de visto, espero que até lá tenham alcançado seus objetivos.

Voltaram para Brasília e não tocaram mais no assunto. O relatório da última viagem ficou por conta do Munhoz. Só ele trabalhava. As meninas estavam na noite, só se divertiam crendo que estavam vivendo. Faltavam duas semanas para esgotar o prazo do visto e enquanto ele organizava os arquivos para o retorno, deparou com a pasta da profecia de Dom Bosco, que continha outras, além de muitas propostas dos hariolomantes. “Entre os paralelos”, aquilo era uma imensa faixa de terra, e eles tinham andado pelos pontos principais. “Na terra dos santos”, tinha santos nesta terra que o Vaticano nem imaginava. “e dos corações”. “dos santos e dos corações” isto era bem limitante. Voltou a desenrolar os mapas, santos por toda parte. Lista das cidades. Coração..., coração..., não tem coração. Sagrado coração. Não tem sagrado coração. Mas eu sei que nesta terra tem coração. Onde? Onde? Onde? Minha santa, onde fica o coração deste povo. Ah, no futebol! Isso. Futebol, Pelé, Três Corações. Isso, terra dos corações. Voltando ao mapa. Três Corações, São Bento Abade, São Tomé das Letras. Só pode ser isto, os mistérios das Letras de São Tomé. Munhoz!? Você matou a charada, agora só faltam as meninas e é claro, convencê-las. Meia noite, uma, duas, três horas e nada. Dormiu em cima dos corações e dos santos. Acordou com elas fazendo o café.

– Santa madre! Que horas vocês chegaram?

– O que você está fazendo aqui?

– Encerrando os relatórios e organizando a papelada. Enquanto esperava...

– Já disse que não quero ninguém grudado no meu pé. – rosnou a Maria.

– Porque meu pai não pôs você para andar?

– Porque ele se preocupa com você, assim como eu me preocupo com a Maria. E você está cansada de saber que...

– Estamos cansadas de você no nosso pé, vigiando, como se fôssemos duas garotinhas.

– Eu não estou vigiando ninguém, estava pesquisando umas coisas e acabei dormindo sobre os...

– Pode dormir de novo que nós vamos chegar só daqui a meia hora.

– Sem chance. Sabem do amor que sinto por vocês, e, mesmo sendo excluído da vida das duas, preciso mostrar algo que descobri, enquanto praticava meu desterro.

– Pode ser depois que a gente dormir?

– Enquanto vocês fazem o café, eu mostro, depois vocês podem dormir, se conseguirem. Achei umas das suas consultas, no meio das profecias. “Terra dos santos e dos corações”.

– Nem Roma, nem o Vaticano, nem Jerusalém e muito menos a terra do Ricardo Coração de Leão nos ajudou – respondeu a Maria, visivelmente mal humorada.

– Maria, o meu coração só tem amor por você, porque tanta agressividade?

– Amor?! Você chama de amor nos usar para atingir os seus propósitos? Qual é o acordo entre o Reitor e você? Porque aquelas ameaças veladas? Porque você se fez porta voz dele e...

– Ele não fez ameaças. Vocês captaram alguma coisa no ar, mas estão na direção errada. O Reitor não é ameaça para ninguém, e eu te amo tanto quanto é possível amar alguém.

– Ele não fez ameaça? Ele é uma ameaça ambulante e que nos importa a direção, se o mal está no ar e sabemos que você faz parte dele? Vamos, diga que você não está envolvido. Responda! – berrou a Maria.

– Eu respondo. Mas gostaria que isto voltasse a ser uma conversa, não precisamos acordar a vizinhança.

As duas ficaram caladas e ele prosseguiu.

– Primeiro eu gostaria de reiterar meu pedido de casamento, não tenho a menor intenção de separar vocês duas, ou prejudicá-las e onde eu...

– Pula esta parte e vamos à segunda.

– A segunda é mais um pedido, eu gostaria que vocês visitassem mais um lugar.

– Sem chance. Não vamos mais tatear no escuro só para você provar sua tese.

– Não se trata da tese. Ouçam, e se o ponto em questão estiver mais próximo do meu objetivo que do de vocês eu desisto. Assim como desisto também do meu pedido de casamento, se quando eu contar a origem da ameaça, você ainda continuar me olhando desta forma.

– Vamos te ouvir, mas desde já te aviso, não existe a possibilidade de uma união matrimonial entre nós dois. Sei que você gosta da Karine, tanto quanto gosta de mim, mas no futuro dela também não há espaço para você.

– Você está com ciúmes?

– Alguma vez eu impedi que vocês dormissem juntos? Voltemos ao assunto principal: a ameaça e de onde vem!

– Isto vem depois. Quero que ouçam minha teoria, primeiro. “A terra dos santos e dos corações”.

– Não existe terra neste mundo que não tenha um santo. Mesmo que se chame Buda ou qualquer outro nome, ele estará abençoando um pedaço de terra. Nunca ouvimos falar da terra dos corações.

– Pois eu achei um pontinho no mapa deste País, único, que certamente representa um pedaço de terra e que se intitula Três Corações. Vocês esqueceram a terra do Pelé, e advinha qual é o santo que mora lá pertinho? São Tomé, o do ver para crer, só que este acrescentou o mistério das letras. São Tomé das Letras é do meu interesse, e Três Corações é a terra prometida a vocês.

– Uma dicotomia que parece servir bem aos seus propósitos.

– Analisem os de vocês, suas condutas e o que vai em seus corações...

– O que uma pessoa insensível como você pode saber sobre nossos corações?

– Posso não sentir, mas sei analisar. O desamor em vocês é algo recente, começou com a visita do Reitor, e está concentrado, ou melhor, limitado à minha pessoa. No mais, vocês amam até o vira-lata da esquina. Coração, coração puro, coração pleno. Não vejo como o único ponto, neste imenso País, que se denomina coração, triplo ainda por cima, possa não estar relacionado a vocês.

– E porque não a você?

– Não descarto a possibilidade, mas a geografia lá está mais para um ômega que para uma linha reta até Matchu Pitchu. Tem mais dois santos que moram por lá. Se unirmos Três corações a São Tomé, com uma linha curva que passe por São Bento Abade, teremos a figura do seu ômega. As três cidades formam um triângulo quase perfeito. Se esticarmos a curva até o santo mais próximo, São Lourenço, continuaremos tendo seu símbolo, mesmo que um pouco irregular. Querem ver o mapa?

– Ainda que o mapa confirme sua teoria, não sinto que tenha encontrado o elo, ainda falta algo. Sente o mesmo, Karine?

– Nenhum atrativo.

– Mas vocês iriam lá, por mim?

– Agora precisamos é de cama.

– Vamos à ameaça? Cansei de São Tomé das Letras. – completou a outra.

– Bom, a ameaça é o meu pai e o grupo dele, estão chantageando o Reitor.

– E onde você entra nisto?

– Andei fazendo umas bobagens e alguém do grupo descobriu e anda me obrigando a ser um bom filho, mas não duvido nada que seja mais uma armação do meu pai.

– A minha bolsa...

– Cortada por ordem do meu pai. Queriam redirecionar o trabalho de vocês.

A minha tese, na verdade é uma tese do meu pai. Não estão querendo o elo, querem é a corrente toda, a corrente de turistas que poderá se formar a partir do misticismo que ligam nossos povos.

– E mesmo assim, você quer nos levar a São Tomé? – perguntou Karine.

– Sim. Por vocês e por mim, e, quem sabe por todos nós.

– Pois me diga para que lado fica esta cidade que caminharei em outra direção. – tornou Maria.

– Calma, gente! Analisem as possibilidades. A cidade tem um mistério. Vocês podem desvendá-lo. Existe um boato de que ela está ligada a Matchu Pitchu. Vocês podem encontrar a verdade. Um dos seus hariolomantes, indica a região como sendo seu destino. Vão perder o quê, indo lá?

– E você? Perde alguma coisa ou...

– Vou perder a chance de saber a verdade, se vocês não forem. Meu pai não perde nada, pois de qualquer forma, vai utilizar os relatórios dos fenômenos que vocês provocaram em outros lugares, para criar o link que quiser no intento de provar a ligação entre os dois povos.

– Pois que invente as mentiras que quiser, estamos fora.

– Não acredito que vocês estejam abandonando o barco desta forma. Esta será uma viagem só nossa, sem relatórios, sem interferências. A busca da verdade pela verdade. Só para nós três.

– Não vamos fazer qualquer outra visita, por mais promissor que seja o lugar, até que nos ocorra um sinal inequívoco de que estamos indo ao lugar certo, e que se dane os mistérios das suas letras e as safadezas do seu pai.

– Karine, me ajude, ponha um pouco de juízo na cabeça dela.

– É. Também acho que ela está meio “zuada”. Como foi que ela pode se esquecer de lhe dizer onde fica a porta de saída e que também é melhor você ir se foder em outro lugar, e levar suas safadezas junto? Xô, chispa, se manda, vá procurar sua turma.

À noite quando saíram, lá estava ele, como se a conversa ocorrida pela manhã pertencesse a um passado distante.

– Oi, meninas! Aonde vamos?

E no dia seguinte a mesma coisa, virou sombra. Deram-se por vencidas e foram conhecer São Tomé das Letras. Na bagagem apenas a intenção do turismo. De lá rumaram para Pirenópolis, outra cidade de pedras.

As turbulências causadas pelos ciúmes do Munhoz as levaram a uma mesa ocupada por dois rapazes, e ali, diante dela, Maria viu o elo que buscavam. Nem pedra, nem água, nem monumentos, apenas um homem.

Notas finais
Após a jornada dos quatro, o próximo capítulo trata do quinto elemento, Nair.